Callie

Olho pela janela da sala de aula enquanto tento não dormir. O professor de física passou os últimos 20 minutos explicando o exercício mais fácil do nosso livro. Em vez de ele nos ensinar a resolver os que são difíceis de verdade, ele escolhe o mais básico pra usar a aula inteira explicando. Não faz sentido.

Começo a rabiscar em meu caderno. Não é como se eu desenhasse bem nem nada, mas eu já fui tirada de sala varias vezes por dormir em explicações, portanto estou tentando ficar acordada e pelo menos fingindo que estou prestando atenção. Logo, meus traços aleatórios começam a formar uma imagem bem aleatória. Se eu virar o papel e espremer um pouco meus olhos, até parece um passarinho. Decido que É um passarinho que eu estava desenhando desde o começo. Um passarinho muito feio por sinal.

Viro a pagina do meu caderno e começo a preparar o papel para poder escrever musica. Traço cinco linhas horizontais e delicadamente desenho minha melhor clave de sol. Impecável. Claro, com todos os anos que eu tenho de pratica, errar algo tão básico como uma clave de sol seria impossível.

Moro em uma casa musical. Meus pais são donos de uma loja de instrumentos no centro de Londres, que fica bem embaixo do nosso flat. Eu cresci com musica ao meu redor. Meu primeiro presente de aniversario foi um pianinho de brinquedo, que eu não largava nunca e tenho guardado até hoje em meu baú.

Escrevo a primeira nota da minha nova musica: Mi, ou A, se preferir. Entro em meu próprio mundo, estou em meu estúdio de musica, com um piano branco a minha frente. As notas parecem fluir dos meus dedos, tudo se encaixa, pressiono as teclas do meu piano imaginário com rapidez e suavidade, apenas para me lembrar que estou na aula escrevendo notas musicais em uma folha de caderno. O professor me encara, pigarreando duas vezes. A sala inteira se vira para mim, alguns riem, outros parecem preocupados.

-Callie Johnson, poderia nos dizer qual a resposta do exercício?- pergunta o professor, com olhar de desdém.

Reviro os olhos e encaro o quadro, procurando o problema super fácil que o professor passou a aula inteira resolvendo, mas meu queixo cai. Ele havia começado um novo exercício, um que eu não sabia nem começar a resolver.

-Srta Johnson, estamos todos aguardando uma resposta, já que a senhorita é tão dotada que não precisa se quer prestar atenção em minha aula.- disse o professor, olhando em seu relógio de pulso.

-Eu não sei, professor. Achei que estava resolvendo o exercício mais fácil, por isso me desliguei um pouco.- digo, e como se o destino estivesse ao meu lado, o sinal do colégio bateu exatamente quando acabei de falar.

Peguei minha mala e tentei acompanhar a multidão de alunos que saia da sala, talvez conseguisse passar despercebida.

-Callie! Venha aqui.- chama o professor. Eu solto um suspiro de frustração e me viro para encara-lo.

-Oi.- digo, timidamente, enquanto ele coloca seus óculos de leitura e tira umas provas de sua pasta.

-Olá, Callie, sente-se.

Puxo uma cadeira e me sento em sua frente.

-Uh... Professor, eu não posso demorar, muito, meus pais não vão gostar se eu chegar em casa tarde. Não quero deixa-los preocupados.

-Tenho certeza que eles vão entender. Bem, eu estou com a sua prova aqui e sinto que terei que lhe dar más noticias.

-Como assim?!

-Callie, o seu desempenho escolar tem caído muito. Você foi muito mal nas duas provas do trimestre.

-Sério?!

-Infelizmente sim... Se você não tirar 10 na prova de recuperação trimestral, vai reprovar a minha matéria.

-10?! Eu não vou conseguir tirar 10 em física!

-Calma... Até eu, que tenho mestrado nessa matéria concordo que gabaritar uma prova é algo difícil. Difícil, mas possível... – ele suspirou e tirou os óculos, colocando os em cima da mesa, — Callie, eu vejo a minha frente uma menina muito inteligente, muito determinada, que só não se aplica em seus estudos. Eu tenho certeza que você consegue. É só se dedicar.

Respiro fundo, nunca é bom você saber que corre altos riscos de não passar de ano.

-Era só isso? – pergunto, tentando esconder minha tristeza.

-Sim, Callie. – ele sorri, — Lembre-se, é só se aplicar!

Levanto e sorrio de volta. É, talvez os professores de física não sejam todos monstros afinal.

Saio da sala e fecho a porta, o corredor está vazio exceto por uma tia da limpeza, que varre o chão enquanto canta baixinho alguma musica em espanhol.

Aceno com a cabeça para a moça, mas ela parece não ter me visto, quando estou quase no fim do corredor, sinto algo gelado roçar em meu ombro e molhar minha camiseta.

Olho para o teto, procurando uma goteira, mas não vejo nada, e não chove em Londres ha dias, algo muito raro.

Então me viro, esperando que isso seja algum tipo de brincadeira idiota dos alunos mais novos, mas a única coisa que percebo, é que a tia da limpeza sumiu, deixando sua vassoura no chão. O que mais me assusta é que ainda consigo ouvir a voz da mulher cantando em espanhol, como se ecoasse pelo corredor.

Tento ignorar o ocorrido, me viro de volta e dou um grito que pôde ser ouvido até na Austrália.

Em minha frente está a moça da limpeza, só que com a boca aberta, revelando duas fileiras de dentes afiadíssimos e uma língua comprida como a de uma cobra, gotas de saliva pingam dos cantos de sua boca. Seus olhos estão completamente amarelos, com apenas um pontinho preto no meio. As veias em seu rosto estão pulsantes e vermelhas.

Estou assustada de mais para me mover, sinto a saliva pegajosa da coisa pingar em meus sapatos. Começo a dar passos lentos para trás, pretendendo correr ate a sala do professor de física, mas acabo tropeçando em meus próprios pés, grito novamente, desesperada. Lagrimas escorrem pelas minhas bochechas.

-Ninguem pode te ouvir..- diz a tia da limpeza, com uma voz grossa e ameaçadora. –Ninguem nem liga pra você.

Rastejo para o mais longe possível do monstro, então desisto e cubro o rosto com meus braços. Penso que a ultima coisa que vou ver é a face horrível de uma criatura que eu nem sei porque me persegue.

Então, quando sei que estou prestes a sentir os dentes da coisa cravarem na minha pele, escuto o som de vidro sendo quebrado. Uma voz ecoa em minha cabeça, quase gritando:

-CORRA!

Abro os olhos e vejo que a coisa está distraída, olhando fixamente para um homem vestido de preto.

-CORRA!- escuto novamente.

Levanto o mais rápido que posso e corro para a entrada do colégio, onde uma mulher loira e alta me abraça com força. Não sei quem é, mas começo a chorar novamente.

-Shhh, calma, o perigo já passou. Nós viemos aqui para te salvar.- ela sussura em meu ouvido, uma voz tão tranqüilizante que não tenho como sentir medo.

-Nós quem?- pergunto, soluçando.

Notas finais
Iai beleza?