Fear

3 Pensamentos suicidas


Notas iniciais
Gente, a Base dos Vingadores é totalmente nova e não se parece nada com a dos filmes. Talvez lembre um pouco a torre Stark, mas enfim.

Oakley

Acordei com a cabeça doendo como nunca doeu antes. Uma dor latejante e infernal. Como se o diabo o próprio estivesse fazendo festa lá dentro. Passei a mão na testa na tentativa inútil de mandar aquilo pra longe.

—Ai... —É o que consegui falar antes de sentir outra pontada. Tive uma pequena sensação de já ter vivenciado aquela mesma situação. E como se meu cérebro estivesse no automático, a segunda coisa que falei foi: —Mas que diabos?

Aprendi a praguejar desde que minha mãe casou. Não era um hábito que eu apreciava muito, mas não podia fazer nada, havia virado costume.

—Onde diabos estou? Que inferno. Essa é a segunda vez que isso me acontece. Quando terei a oportunidade de passar pelo menos um dia acordada sem interrupções e teletransportes repentinos?

Levantei de onde estava, o que aparentemente era uma cama. Com travesseiros e tudo. Caminhei pelo ambiente. Era bem luxuoso comparado ao anterior, mas não deixava de lado os traços robóticos, por assim dizer.

Tinha uma cama, que eu já havia percebido muito bem. Os lençóis eram vermelhos, um tom escuro e elegantes, os travesseiros pretos, e a colcha era branca. Do lado havia um criado-mudo e em cima, alguns aparelhos eletrônicos. Na parede oposta à cama, havia uma escrivaninha, um computador e uma cadeira com rodinhas. E do lado oposto à porta, que provavelmente era a porta de entrada, havia duas portas de vidro que davam acesso à uma varanda. As paredes eram feitas do que me parecia ser aço, mas possuíam um acabamento em branco que deixava o ambiente mais claro. Achei que se fossem um pouco mais escuras, ficaria assustador. Um pouco, só.

Abri as portas de vidro e andei até o parapeito. Me apoiei um pouco para frente e olhei para baixo. Era definitivamente um prédio bastante alto. Os carros pareciam minúsculos. Se moviam como formigas desenfreadas, de um lado para o outro. As pessoas agitadas, apressadas para algum compromisso, com celulares na mão, perto da orelha, ou apenas para digitação. Todos impacientes para chegar ao seu destino.

Não consegui não pensar em como minha vida era diferente daquilo. Antes mesmo das explosões, Oakville sempre fora um lugar tranquilo. Um lugar onde uma garota sonhadora poderia morar e compartilhar seus sonhos com seus dois irmãos pequenos. Onde eu podia navegar no pequeno barco do meu pai, o Oak Leaves, nome que ele colocou em minha homenagem, e meu nome ele escolheu a partir do nome da cidade, que ele amava com todo o coração desde pequeno, porque foi sempre lá que ele fez suas melhores conquistas, e isso era algo de que ele se orgulhava muito, mas já é outra história. Oakville costumava ser meu lar, e eu gostaria de amar aquela cidade tanto quanto meu pai amava. Gostaria de compartilhar meus triunfos e fracassos naquele lugar. Gostaria de poder chamá-lo de lar novamente. Pois era meu lar, era o lugar onde eu me sentia segura e amada. E eu adoraria partilhar as mesmas lembranças que meu pai, apreciaria muito amar aquele lugar como ele amou, lembrar somente dos momentos de felicidade que eu vivi naquela velha cidade, mas não posso. Não posso apagar da memória todas as lembranças ruins que meu antigo lar me trouxe. Não posso tirar da minha mente o que Paul fez com a nossa família.

Me debrucei um pouco mais sobre o parapeito. Teria sido tão fácil terminar com a minha vida ali. Em questão de segundos. Eu poderia cair de costas, o impacto acabaria sendo forte demais para os meus órgãos. Se eu caísse de cabeça, quebraria o pescoço, ou o crânio, tendo um traumatismo craniano que também levaria à morte. Mas eu não podia. Eu não era fraca. Não me renderia assim tão fácil. Não sei se meus irmãos ainda estão vivos. Se estão vivos, andando pelas ruas, ou presos com aquele monstro que Paul é.

Eu não sucumbiria àquela vontade ridícula. Não deixaria aqueles pensamentos me dominarem.

Me empurrei para trás com força e acabei batendo com força em alguém. Eu teria caído no chão se braços enormes não tivessem me segurado a tempo.

—Desculpe-me. —Eu disse quando finalmente me pus de pé. Encarei quem estava à minha frente. Nada mais nada menos que Capitão América.

Não sei bem o porquê, mas depois dos bombardeios criei uma certa raiva pelos Vingadores. Eles eram Os Vingadores, sempre defendem o mundo, mas não podiam cuidar de algo que estava no país bem ao lado do deles. Canadá e Estados Unidos nem ficavam tão longe assim.

Um mês. Eles tiveram cerca de um mês para nos ajudar. Protegeram meio mundo no meio disso, mas não puderam nos proteger, e isso me deixou magoada. Mais ainda porque não pude proteger meus irmãos.

Dylan sempre me dizia que quando crescesse, seria que nem o Capitão América. E Tyler seria o Hulk, porque ele parecia quietinho por fora mas por dentro era uma explosão de emoções. Era Dylan que dizia isso. Ele seria um super-herói. Tyler não se pronunciava. Ele nunca dizia nada. Apenas gesticulava ou nos mostrava em suas feições. Só dizia qualquer coisa quando era relacionado à Amelia. Mas eu tive quase certeza de que quando Dylan disse que ele seria o Hulk, o caçula abriu um sorriso discreto. Ele era assim mesmo, discreto por fora, e por dentro, ninguém sabia o que ele sentia. Meus irmãos podiam ser homozigotos, mas tinham personalidades totalmente distintas.

—Não tem problema. —Voltei minha atenção ao que estava acontecendo naquele momento. Seus braços ainda seguravam meus cotovelos. —Estava pensando em se jogar?

Neguei com a cabeça. Puxei levemente os meus braços, na tentativa de ele perceber que eu queria me livrar de seu aperto. Fui ligeiramente ignorada.

Ele se inclinou sobre o parapeito como eu havia feito minutos atrás.

—Acho que nunca tentei fazer isso. A sensação é boa não? Bom pra filosofar, eu acho.

Apenas levei meu olhar para outro lugar. Olhei para o céu, estrelado e lindo como deveria ser. As luzes da cidade não intimidavam essas estrelas. Elas simplesmente estavam lá e queriam ser vistas. Não se apagariam só por causa de alguns prédios iluminados, estavam ali e pronto. Demarcando seu território. E era assim que eu me sentia. Eu estava ali e não seria intimidada.

—Onde estou? —Perguntei.

—Na base dos Vingadores, se quiser chamar assim. Nos mudamos há pouco tempo, então não repare muito na bagunça. —Sorriu para si mesmo.

Retribuí apenas por gentileza.

—Como cheguei aqui?

—Venha, me siga, você deve estar com fome.

Fiz como ele pediu e andei um pouco atrás. Não queria me sentir a dona do lugar, eu deveria saber minha posição.

—Que horas são? —Não resisti e tive que perguntar. O Capitão me olhou de soslaio enquanto atravessávamos um corredor com carpete preto e janelas enormes de vidro.

—Cerca de oito horas da noite, —Ele olhou para o relógio em seu pulso e se voltou para mim novamente, não parando de andar. —É, oito e quinze. Eu gosto desses relógios que não são digitais, sabe? São mais tradicionais, eu acho.

—Aprendi a olhar as horas com meu pai. Sei as horas até pela posição do Sol. —Falei despreocupada, olhando para a janela à minha esquerda. Muita iluminação, ambiente bem decorado. —A base dos Vingadores é bem bonita.

—Tony paga por tudo isso, basicamente. Poderia ser algo mais simples, é claro, mas é que ele gosta de ostentar.

Apenas acenei com a cabeça. Não estava muito afim de bater um papo com o Capitão América naquele momento. Se fosse o eu de outra época, talvez até sim. A Oakley Bann de antes adoraria ter um momento à sós com o heroico Capitão América. O cara que se arrisca para salvar o mundo. O homem humilde que se sacrifica por qualquer vida inocente que esteja correndo perigo. O homem com o abdômen sarado que faz as mulheres suspirarem. A Oakley de um mês atrás estaria pulando de alegria por dentro só de estar perto desse cara. Mas a Oakley que perdeu a única família que lhe restava, não. Essa minha versão está acabada e com poucas esperanças. As chances de achar meus irmãos com vida são mínimas. E tudo por causa de um ataque que eles podiam ter defendido.

Talvez, em meu coração, eu estivesse rancorosa demais. Talvez eles estivessem ocupados demais. Mas não ligava se parecia ressentida, como irmã mais velha e quase mãe deles, eu tinha o direito de me importar demais com a vida de meus irmãos. Dylan e Tyler eram tudo que eu tinha depois da morte do meu pai e da queda deplorável da minha mãe. Eles eram meu porto seguro.

Chegamos em uma sala de jantar exalando elegância, com as cores branco e preto em quase tudo. As cadeiras acolchoadas com almoçadas pretas. A mesa de jantar em tamanho descomunal. A iluminação em lustres sofisticados. Tudo combinado com um monte de pratos que exalavam um cheiro excepcional.

—Vocês comem isso tudo, todo dia? —A pergunta só saiu da minha boca. Não tive a intenção e fui um pouco descuidada. Não planejava ficar ali por muito tempo, então deveria manter o mínimo de conversação possível. Acho que naquele momento, a fome falou mais alto. Meu estômago fez um barulho que acredito que todos naquele cômodo foram capazes de ouvi-lo.

—Deve estar com fome, pequena. —Tony Stark, o Homem de Ferro, se manifesta primeiro. —E respondendo sua pergunta, já que não foi nada baixa, —Ele sorri de lado e todos acompanham o riso. —Sim, comemos tudo isso todo dia.

—Nem tudo isso. —Um louro platinado que eu julgava ser Pietro Maximoff, o Mercúrio, declarou. —Ele só gosta de esbanjar dinheiro mesmo.

—Silêncio garoto.

—E qual é o nome dessa nova criança? Já que ninguém perguntou e saiu logo acolhendo. —A Viúva Negra, ou Natasha Romanoff, soltou, exalando desprezo em cada palavra proferida. —Já basta a criança loura e a outra criança com poderes mágicos. Agora vamos ter que abrigar uma sem teto também?

Engoli em seco. Não sabia se era bem-vinda ali, ou se estava lá só mesmo porque era obrigação deles cuidar dos desabrigados. Mas se fosse isso, aquela base não estaria cheia de gente sem casa?

Steve Rogers deu um passo à frente e se distanciou de mim significativamente. Suspirei de alívio, senti que podia respirar normalmente de novo.

—Acredito que foi trazida pelo Bucky. —Ele disse, e provavelmente tentou falar isso o mais baixo possível, mas ainda fui capaz de ouvi-lo.

—Quem é Bucky?

Todos os pares de olhos presentes na mesa se voltaram para mim e eles fizeram uma cara do tipo "como você ouviu isso", ou "você não devia ter ouvido isso". Apenas encarei de volta, esperando pacientemente uma resposta, que não veio.

—Isso responde à pergunta que fiz ainda agora? A de como cheguei aqui? Porque está mais do que claro que minha presença é bem indesejada no momento. —Virei minha cabeça para onde a Viúva Negra estava. Ela me lançou um olhar mortal, que eu teria recebido, provavelmente amedrontada, se a minha vontade por saber como eu havia parado ali não fosse maior.

Me lembrava de pouca coisa. Recordava de estar em uma outra base, do barulho de vidro se quebrando no chão, de um doutor baixinho que o nome não me vinha à memória e de um soldado. Um soldado lindo e forte. De braços definidos e cara amarrada. Com um olhar distante e perdido. Como se não pensasse em nada. Como se não tivesse vida própria.

Me lembrava bastante dele. Lembraria em qualquer lugar, em qualquer circunstância. Se um homem como aquele passasse por você, não seria esquecido facilmente. Só de sentir seus olhos cravados nos meus, meu corpo se arrepiou e algo em meu âmago se estremeceu. Se não fosse por aquele olhar desorientado...

E apenas isso surgia em minha mente. Eu me lembrava de todos os detalhes do soldado, da aparência física, principalmente do maxilar marcado e os lábios rígidos, das sobrancelhas franzidas, me lembrava do modo como ele andava, do modo como ele olhava para as coisas como se fosse um cão de caça que acabara de receber um comando. Em minha mente, naquela base, só existia ele e tudo ao redor eram apenas coisas apagadas, como sombras.

—Tenho quase certeza que foi ele. —Steve Rogers prosseguiu, tentando ignorar a minha presença ali. —Olhem isso. —Ele tirou de seu bolso um aparelho quase transparente, apertou um botão e um holograma apareceu. —Peguei de uma das câmeras de segurança. Estão vendo o braço? Sim. Esse aqui, o esquerdo. Agora comparem com essa outra foto tirada dele. Vejam como correspondem.

—Steve, vovô —Tony começou a falar novamente. —Só um cego para não ver que são iguais. Não precisava nem comparar as fotos. A idade está afetando sua visão? Precisa de um óculos?

—Com licença. —Pedi mais uma vez. —É, eu ainda tô aqui. Será que podiam me explicar o que diabos está acontecendo e quem diabos no mundo é Bucky?

—Bucky, bonequinha, mais conhecido como o Soldado Invernal, é o amiguinho do nosso velhinho aqui. Que acabou por ser um escravo de Aleksander Lukin e agora é um assassino, dos bons, se me permite dizer, procurado por todo o mundo. Ele e o idoso já lutaram na Segunda Guerra Mundial, sabia? E enfim, estamos à procura dele faz um tempinho, já, mas não conseguimos encontrar o seu rastro. O cara sabe o que faz.

—Para de chamar o Steve de idoso, Stark. —Natasha pediu, mas só consegui processar as palavras do Homem de Ferro.

O Soldado Invernal, homem que tentou me matar duas vezes, era um assassino procurado pelo mundo inteiro, tinha mais de sessenta anos, assim como o Capitão América, e eu não sabia disso. Fique tão focada nos problemas que a minha cidade estava enfrentando que acabei esquecendo o resto. Ele havia matado milhares de pessoas pelo mundo, e mesmo assim havia poupado a minha vida e me trazido até a base dos Vingadores, pessoas que estavam com ele na mira.

Seja lá quem fosse, Soldado Invernal ou Bucky, ele era uma pessoa muito peculiar.

Decidi que deveria contar minha identidade. Ele havia poupado a minha vida e o mínimo que eu podia fazer era tirar um pouco esse pessoal da cola dele. Talvez eu devesse me enturmar. Fazer amizades na base, e deixar ele escapar um pouco. Ou talvez eu estivesse fazendo uma completa idiotice deixando um assassino fugir. E talvez, só talvez, a emoção de fazer isso por alguém como ele estivesse falando mais alto que a razão. Eu não podia negar a enorme atração que tive quando pus meus olhos nele. Quando experimentei pela primeira vez suas mãos em mim. Eu só poderia estar ficando louca. Minha mente me dizia isso a todo instante. Mas refletir aquilo me permitiu deixar de lado um pouco os pensamentos sobre meus irmãozinhos e meu antigo lar. Pensar em um assassino me fez esquecer um pouco tudo que Paul fez e só então percebi o quanto aquilo me alegrava e deixava uma sensação boa em meu peito. E aquilo era errado, muito errado.

—Meu nome é Oakley Bann.

Notas finais
Ficou pequeno, gostaria de ter escrito mais, mas demorei tanto pra achar um pouquinho de motivação, com tantos poucos comentários, que a criatividade demorou para chegar. Quero fazer um com pelo menos quatro mil palavras, mas preciso de um empurrãozinho. Desculpem a demora, mas só postei pequeno porque faz tempo que não posto nessa história. Enfim, acho que tô enrolando demais. Desculpa, tô nervosa.