Fear
5 Onde foi que eu errei?
Notas iniciais

Bucky
O que estava fazendo ali? Eu também não sabia.
Não, na verdade, sabia exatamente o que estava fazendo naquele lugar.
"—Quero que mate aquela garota. —Lukin me disse, mexendo em sua prancheta. —Sabe que foi um erro e acho que ela tem informações demais. Se eu soubesse como aquela maldita fugiu daqui... —Começou a sussurrar coisas que não entendi direito e depois pegou o celular, colocando-o perto da orelha. —Merda! —Exclamou jogando um jarro decorativo no chão. —SEU INÚTIL! —Ele veio para cima de mim, e dessa vez, eu não desviei. Senti que naquele momento minha mente estava completamente vazia. Eu conseguia escutá-lo, mas não agia, não me mexia. Só ficava ali parado, ouvido-o falar com alguém ao telefone, ou discutir coisas corporativas sozinho, quase como uma sombra.
Não foi uma surra forte. Na verdade, descobri que Dr. Lukin era mais inteligência do que força. Foi quase como um tapa, e deixou apenas uma mancha vermelha.
Não revidei, fiquei apenas parado como um cão de guarda.
—Na base dos Vingadores! —Gritou novamente, puxando os cabelos grisalhos. —Tem que tirá-la de lá! Agora! Vou procurar saber como ela escapou daqui, mas isso é o que menos importa no momento. Quero aquela garota fora daquele lugar, e quero que a mate. —Ele mexeu nas pontas dos dedos nervosamente. —Se ela contou à alguém... Ela ouviu meu nome, sabe quem sou! Pode dar a localização do lugar e então minha missão já era! Está olhando o que? Suma da minha frente!"
Mas, quando olhei para ela, parada no canto do quarto, segurando o abajur na mão, olhando para cima como se realmente pudesse me ver, me fez lembrar de tudo novamente. A primeira vez que isso aconteceu foi cerca de seis semanas atrás. Talvez. Se o calendário na parede da base, ou como o homem baixinho gosta de chamar, o laboratório do Dr. Lukin, estiver certo.
Pela minha contagem, estive congelado pelo menos três semanas após do incidente envolvendo ela. Depois disso, tudo que fiz foi caçar um empresário iraniano, Zafar Khalid. O cara que eu estava rastreando quando a sequestrei acidentalmente. Eu diria que foi um erro, um erro estúpido, porque ninguém consegue confundir um homem e uma moça na névoa, mesmo que seja densa. Tudo bem, alguém provavelmente confundiria, mas não eu. Ou o Soldado Invernal. Como um especialista em técnicas de espionagem, eu não cometeria um erro desse. Talvez tenha sido o destino. Não que eu acreditasse nesse tipo de coisa.
Mas talvez algo no universo estivesse planejando esse encontro. Assim eu recuperaria minha memória. Foi libertador para mim poder ter minha memória de volta. Minhas lembranças, toda a vida que vivi, as coisas que passei. E ela me proporcionou isso.
Dr. Lukin quem tirou novamente. Como sempre faria. Se ele insistisse com isso, essa coisa de me controlar e mandar matá-la, as recordações continuariam voltando. Era uma certeza que eu tinha. E toda vez que eu pensava nisso, tinha que respirar bem fundo e afastar essa concepção para outro lado.
Foi estranho. Em um momento eu tinha esse pensamento fixo na minha cabeça: mate a garota, mas então, quando ela se levantou assustada, e pude ouvir sua voz, bem baixinha, como se não quisesse ser ouvida, e todas aquelas lembranças vieram à tona como uma avalanche de sentimentos, fui capaz de me perguntar o que diabos estava fazendo ali, no telhado do enorme prédio que era aquele lugar.
Fiquei imóvel, não mexi nem um músculo enquanto encarava sua face corada. Seu peito subia e descia. Estava nervosa e tentava não transparecer.
Ela não disse nada, apenas aguardou, com a cara fechada, tentando intimidar o vento. Sorri com a posição em que ela segurava o abajur. Toda errada, se acertasse aquilo em alguém, quem acabaria machucada era ela, com cortes nas mãos, e se usasse com muita força, poderia cortas um pouco o braço também, e se me atingisse e um pedaço ricocheteasse...
Decidi que era hora de partir. Ou talvez eu pudesse ficar ali até ela achar que não tinha mais perigo e fosse dormir...
Oakley
Nada. Nem mais um único som que não fosse o vento batendo contra as portas francesas que davam acesso à varanda. Que, por sinal, eu havia deixado abertas.
Me xinguei mentalmente. Mas o que poderia fazer, estava quente, eu estava de banho tomado, e como o quarto era novo, já que Tony mandou fazer para mim, ainda não tinha climatização.
—Merda...
Então, eu basicamente fiquei parada ali por longos minutos que pareceram horas. Acho que o luxo de Tony Stark estava me tornando uma pessoa preguiçosa.
Quando a sensação de estar sendo perseguida passou, coloquei o abajur no lugar e desliguei tudo, voltei a me deitar na cama, e fiquei em dúvida se fechava ou não o teto que me dava a vista mais bonita da cidade. Do mundo. Não do universo, porque uma vista do universo seria maravilhosa, como todos os planetas, estrelas e galáxias que eu pudesse ver, aquilo sim me deixaria cheia de alegria, me faria transbordar, mas isso não vinha ao caso.
Mexi no controle mais algumas vezes. Fechar ou não fechar...
—Jesus! —Soltei um grito quando vi o vulto saltar para dentro do quarto. Liguei o abajur novamente e me assustei outra vez quando percebi quem estava ali à minha frente. —Você... O que...?
—Me conhece? —O Soldado perguntou.
Agora eu não deveria mais reconhecê-lo apenas como soldado. Depois de passar um bom tempo com os Vingadores, você aprende coisas, como o nome dele, por exemplo.
—Você... É James Buchanan Barnes, não é?
Ele desviou o olhar para a varanda, e depois, permaneceu com a cabeça abaixada.
—Hmmm... —Cocei a nuca tentando lembrar o nome pelo qual Steve o chamava. —É... Bucky. Acertei?
Quando mencionei o apelido, ele me encarou de uma vez.
—Como... Como sabe? —Sua voz soou fraca, e ao mesmo tempo, forte. Ele era assim. Sua aparência era intimidadora, mas seus olhos o denunciavam. Sempre os malditos olhos, que insistiam em permanecer em minha mente. E naquele momento, ao sustentar o olhar, tive uma vaga noção de que talvez nunca fossem embora. Aquele olhar ficaria marcado em mim.
—Não deveria estar aqui. —Falei num impulso. Tivemos todo o momento, troca de olhares, mas eu precisava alertá-lo. —Estão à sua procura.
Ele apenas virou a cabeça para o lado, parecendo um cachorrinho perdido.
—Vá embora. —Disse a ele, um pouco mais alto. —Eles não te querem aqui.
—Como sabe quem eu sou?
—Já estou aqui faz um tempo, mas isso realmente não é da sua conta, já que da última vez estava tentando me matar. —Não sei o que houve com o plano "vou trair o pessoal dessa base e ajudar o soldado", mas as palavras simplesmente saíram voando da minha boca. —Já está tarde, Steve volta meia-noite, e o quarto dele é do outro lado do corredor.
—Steve? Ele... Ele está aqui? —Ele ergueu a cabeça e começou a andar em minha direção, estendendo a mão para a maçaneta da porta.
—Não! —Gritei em forma de sussurro, segurando o braço esquerdo com força. —Está maluco? Se ele souber que está aqui... Se qualquer um deles souber, você já era.
—Steve é meu amigo.
—Eu sei que é, mas você é um assassino mundial e... —Esqueci o resto da frase quando ele voltou a me dirigir seu olhar. Não havia confusão, não havia raiva, não havia incerteza. Só uma onda de dor e tristeza.
—Sou mesmo tão ruim assim? —Ele murmurou, mais para si mesmo do que para mim. —Fiz mesmo tudo aquilo? Por que... Por que fiz... Porra! Eu... Eu matei pessoas, eu... O que foi que eu fiz? O que...
Ele começou a se afastar da porta, em passos lentos. Parou ao lado do armário e se apoiou. Pôs a mão direita na testa e apertou as têmporas.
—Como pude... Como me tornei isso? —Me olhou com as sobrancelhas franzidas e os olhos perdidos novamente. Cheios de culpa, remorso e arrependimento.
Ele não sabia das vidas que havia tirado. Lembrei-me de uma conversa que tive com Steve.
"—Ele não me reconheceu de primeira. —Falou, sorrindo para mim. Estávamos na varanda principal. O vento noturno soprando contra meu rosto, as estrelas brilhando acima de nossas cabeças. —Mas quando me tirou da água, tive certeza de que sabia quem eu era.
—O que acha que ele pensou? —Perguntei. —Quando não te reconheceu.
—Eu tenho uma teoria sobre isso. —Levou a mão até meu rosto e retirou delicadamente os fios que estavam cobrindo meu rosto. —Não é à toa que também está com problemas de vista e Tony te chama de velha. Só vive com esses cabelos na frente dos olhos. Como consegue enxergar assim, senhora?
—Tá certo, vovô. Ele só me chama de velha porque ando com o senhor. Não vai me contar a teoria?
—Ah, é verdade.
—Estou dizendo, esses velhos de hoje em dia andam muito esquecidos. —Imitei a voz de Tony, lhe arrancando uma risada.
—Acho que ele passou por tortura psicológica.
—Você quer dizer...
—Lavagem cerebral? Sim, isso e umas boas surras também. Acho que ele deve ter sido objeto de experimentos. O Bucky que lutou comigo não era o mesmo Bucky que conheci. Talvez...
—Ele tenha se esquecido de tudo e virado apenas o Soldado Invernal?
—É. Já percebeu que ficamos completando frases? —Abri um sorriso pra ele. É verdade.
—Acho que você está completamente certo.
—Sobre o que?
—As duas coisas. Mas...
—Como ele se lembrou de mim? —Ele soltou uma risada leve ao perceber o que acabara de falar. —Soltei sem querer. Impulsivos! —Levantou a palma da mão esperando que eu batesse.
—Impulsivos! —Repeti juntando as mãos. —Voltando ao assunto...
—Então, deve ser algum tipo de gatilho. O cérebro é um órgão complexo, portanto, não sei ao certo como funciona. Mas, já faz um tempo que o Soldado Invernal está a solta, e eu acho que eles estão fazendo essa lavagem cerebral nele há mais tempo ainda. Acha que se fizerem muito isso, danifica o cérebro?
—Não sei. Talvez devesse conversar com um neurocirurgião. —Dei de ombros. Ele ficou pensativo, provavelmente considerando a ideia. Steve e Bucky já foram muito amigos um dia, e acho que a amizade não se perdeu com o tempo. Pelo menos não para Steve. —O que te faz pensar que são eles?
—Não sei. Geralmente quando há a cabeça principal do mal, sempre há os subordinados. —Ele disse, em completo tom de divertimento. —Foi ele quem te sequestrou, não foi?
Virei em direção à cidade. Era possível ver tudo através da cerca de pedra. Todas as luzes. Um mar de amarelo e laranja feito de luzinhas. Não queria responder aquela pergunta, então... só balbuciei qualquer coisa."
—Você não se lembra? —Perguntei, colocando a mão sobre seu braço.
—É claro que me lembro. Eu... Eu sou um monstro. Não me lembro de tudo, mas tudo o que lembro já é terrível. É... destruidor, por dentro.
—Olha, me desculpe se toquei em um assunto que, claramente, não deixa você confortável, e... —Olhei para o relógio. Quase meia-noite. —Bucky. —Ele me ignora. —Bucky, olha pra mim. É horrível, eu sei.
—Você não tem como saber. Porra, que dor de cabeça...
—Totalmente certo, mas Bucky. Bucky! —Grito e ele finalmente me olha. —Você realmente tem que ir embora.
—Mas...
Em um ímpeto, acabo fazendo uma promessa à ele.
—Amanhã. Volte aqui amanhã, um pouco mais cedo, e conversaremos sobre isso. Okay?
—Amanhã? Eu... Eu não deveria... O dou...
—Volte amanhã, Bucky. Agora realmente não é o momento para conversa. O Steve já está voltando. Vá.
Ele fita meus olhos uma última vez antes de pular da sacada. Corro até ele.
—Não! —Berro, quando me choco com força sobre o parapeito de pedra.
Nada. Nem um corpo caindo, nem um corpo no chão.
—Como... —Minha voz é apenas um sussurro. Meu coração bate descompassado no peito. Só de pensar nele caindo, batendo com as costas na calçada de concreto. Não. Não deveria nem estar pensando nisso.
A porta se abre de súbito e eu acabo me desequilibrando, mas Steve é mais rápido e me puxa pelos braços, depois me segura em um abraço.
—Você está bem? —Ele pergunta quando consigo me desvencilhar do aperto. —Ouvi um grito.
—Claro, claro, estou bem... Só... Acho que sou sonâmbula.
Me estico sobre o parapeito novamente, apenas para me certificar de que não há nenhum Bucky Barnes morto no chão, mas Steve segura meu pulso.
—Vem, vamos entrar. Talvez devesse fechar essas portas quando for dormir. Gente velha é um perigo mesmo.
—Olha quem fala. Vovô! E pra deixar claro... Eu... —Estico o pescoço outra vez. E se ele caiu?
—O que é que tem lá embaixo de tão interessante, senhora?
—Nada... É que... Eu só deixo elas abertas porque faz muito calor, Steve. Tony quer me matar asfixiada.
—Tenho certeza que é isso mesmo. Quer ir ver um médico? Esse negócio de sonambulismo é perigoso. Imagina se não chego a tempo e você pula da sacada. Cristo, não quero nem pensar nisso. —Ele passa a mão na testa. —Vê se consegue dormir um pouco, okay? E... não esquece de fechar essas portas.
—Tá. —Digo, quando ele sai do quarto e fecha a porta atrás de si.
Antes de adormecer fico me perguntando qual foi o real motivo de Bucky ter vindo até aqui. Foi pra me ver ou...
—Ai meu Deus, ele queria me matar! —murmuro para mim mesma, encolhida na cama.
Mas ele queria me matar em sua forma Bucky Barnes ou Soldado Invernal? Ou será que veio até aqui como Soldado e...
Não. Muito confuso para minha cabeça. Não posso ficar tentando resolver os problemas dele, se não consigo nem resolver os meus próprios. Não posso tentar compreender a instabilidade mental dele, quando tenho tanto com o que me preocupar no momento.
Dylan e Ty significam tudo para mim, e eu deveria pensar mais neles agora. Durante essas seis semanas, Tony não conseguiu nada, nenhuma pista. O que pode significar três coisas: Ou Paul é um canalha que conseguiu fugir com eles e agora se mantem às escuras, ou Paul morreu e eles conseguiram fugir e estão se escondendo em algum lugar, ou...
—Ou estão todos mortos.
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