Fear
1 Conheça Oakley Bann
Notas iniciais

Oakley
Escombros, corpos, fumaça.
É tudo que vejo. Onde meus olhos alcançam, vejo morte e destruição. Outro bombardeio ontem pela noite e eu não estava aqui. Saí para caçar algo, qualquer coisa. Eu precisava muito comer.
Os bombardeios começaram mês passado. Ninguém faz ideia de onde vêm ou do porquê. Somos castigados por algo que nem sabemos que fizemos.
Meu nome é Oakley Bann, sou filha de Albert Bann e Amelia Higgins e irmã mais velha de dois lindos garotinhos. Meu pai era a melhor pessoa do mundo. Me ensinou tudo o que sei. Me ensinou a ser forte, esperta e perspicaz. Ele era meu tudo, meu porto seguro.
Ele morreu quando eu tinha onze anos, vítima de um ataque cardíaco. Desde sempre eu tive que ser forte e depois de sua morte, eu tive que me superar. Minha mãe se casou de novo eventualmente. Ela era fraca e para compensar isso, se casou com alguém que ela julgava ser protetor o suficiente para proteger a mim e a meus irmãos, os gêmeos Dylan e Tyler. Mas ela escolheu alguém cruel. Perverso.
Paul Grant. Meu pior pesadelo. Chegava em casa tarde, fedendo a bebida e cigarro misturado com perfume barato. Não precisa ser muito inteligente para imaginar o que ele fazia enquanto estava fora.
E como eu havia dito, minha mãe era fraca. Entrou em depressão e às vezes implorava para aquele maldito que não saísse. Se ajoelhava no chão, se humilhava para ele, e o mínimo que Paul fazia era jogá-la contra a parede e sair batendo a porta.
Fraca. Quando ele chegava, se deitava com ela. Várias noites escutei minha mãe gritando, não de prazer, e sim de dor. E se na hora em que ele saía ela implorava para ficar, à noite, dentro do quarto ela gritava para que parasse.
Eu tinha que proteger meus irmãos. Várias vezes apanhei no lugar deles. Eu tinha onze anos quando essa rotina se estabeleceu, e meus irmãos, tinham apenas três. Amelia perdia muito tempo ligando para o marido que acabava deixando Dylan e Tyler de lado, então eu meio que fazia o papel de irmã mais velha e mãe.
Eu amava meus irmãos e faria de tudo para protegê-los. Mas, é como eu disse, os bombardeios começaram mês passado. Minha mãe eu sei que está morta. Reconheci de longe a pulseira de prata que meu pai dera para ela. Estava presa em seu pulso, ou melhor, no pulso de um cadáver que cheirava a carne queimada.
Não sei onde Paul e nem meus irmãos estão. Eles poderiam ser qualquer um dos corpos incendiados à minha frente, mas no fundo, torço que meus irmãos tenham escapado. Paul que queime no inferno como ele merece.
Comecei minha caminhada torturante por entre os corpos. A fumaça me faz querer tossir, mas me forço para ficar quieta. Não posso fazer muito barulho. Tenho medo de tudo. Tenho medo de que se eu faça alguma coisa errada o pesadelo comece novamente.
Passei a noite fora tentando encontrar qualquer ave que fosse. Não temos direito a armamentos. Não temos como nos proteger. Na casa onde eu morava, ou pelo menos o que restou dela, tem uma espingarda. Não uso porque não quero fazer barulho. Uso apenas um pequeno canivete vermelho que meu pai me deu, com meu nome gravado nele, e um estilingue que pertencia à Dylan.
—Vá limpar esse rosto, srta. Bann. —Leila me diz quando chego afasto a cortina do abrigo subterrâneo improvisado, pedindo passagem. —Conseguiu pegar alguma?
Apenas faço que não com a cabeça. Ela me olha feio e depois fecha a cara.
—Estou fazendo o jantar todo dia. Faça o favor de pelo menos conseguir alguma coisa comestível, ou sem mais jantar para você. —Ela me repreende.
Leila é quem cuida do jantar. Ela recebe ajuda da equipe designada a cuidar da cozinha. Eu estou na equipe dos caçadores. Tenho que encontrar suprimentos.
Cada um com ou acima de dezesseis anos foi escolhido para uma atividade específica com base em suas habilidades. Eu estou com vinte.
Claramente fui marcada como uma caçadora graças ao meu pai. Por um lado é bom, eu fico fora o tempo que precisar e às vezes, como ontem, evito bombardeios. O lado ruim é que fico fora do abrigo, me expondo à outros perigos.
—Vou sair de novo para procurar em outro lugar, está bem? —Pergunto levantando as sobrancelhas. A cara séria de Leila me faz querer rir.
Ela suspira pesadamente.
—Está bem, está bem. Mas tome cuidado. Quero evitar mortes desnecessárias.
Ela age como se fosse a líder do grupo, ou algo do tipo. Mas de certa forma, ela é. Nos alimenta, faz a checagem das pessoas, ordena o que tiver que ordenar. Pode ser um pouco ranzinza, mas é uma boa pessoa.
—Posso pegar pelo menos uma maçã? Estou morrendo de fome.
—Maçã eu estou guardando para as pessoas que realmente caçam algo. Pode pegar um morango e só.
Faço careta para ela, que retribui. Pego um morango e saio do abrigo com meu estilingue na mão e o canivete no bolso da calça.
Olhar essa cena todo dia me faz querer vomitar. Mas, atravesso novamente o mar de cadáveres e chego até a floresta. Poderia ter alguma coisa com vida por aqui, sei lá, uma plantinha comestível, algum salgadinho que não foi queimado, uma lata de feijões quem sabe.
Nada, não tem nada.
A densa neblina matinal faz meus olhos se confundirem. É impressão minha ou acabei de ver um homem no meio da clareira?
Não, deve ser apenas a fome me confundindo. Apresso o passo. Talvez eu consiga chegar na cidade vizinha se correr um pouco.
O caminho se abre a minha frente. Corro mais do que imaginei ser capaz. O medo toma conta de mim e sinto como se eu estivesse sendo perseguida, mas quem em sã consciência iria vir para Oakville, uma cidade fantasma?
—Só pode ser isso. Fantasma. Devo estar sendo perseguida por um fantasma. Pai, se o senhor estiver por aí, por favor me proteja, e se for o Paul me perseguindo, por favor dê uma boa surra na cara de safado dele.
Não quero nem pensar em estar sendo perseguida por um espírito mal resolvido. Correr é minha melhor opção.
Quando finalmente alcanço a barreira para entrar em Burlington, sinto meu braço ser puxado e na velocidade em que estou, acabo tropeçando e caindo.
—É um fantasma, apenas isso.
Só preciso arranjar um jeito de escalar o muro e estarei em Burlington. Preciso pensar em como roubar comida também, já que todo o dinheiro que eu tinha acabou sendo torrado, literalmente.
Sinto minha cabeça latejar, quando me dou conta, estou no chão. Um par de pés surge em meu campo de visão e em um movimento involuntário, levo a mão na nuca. Sinto o sangue pegajoso e quente.
A pessoa me enfia dentro de um enorme saco e tudo fica escuro. Noto uma dor mais aguda na cabeça e percebo o movimento muito bem sem vê-lo. Já passei por isso várias vezes. Paul fazia isso sempre. Estou levando múltiplos socos e a última coisa que me lembro é de soltar um gemido de dor quase inaudível antes de apagar.
Fale com o autor