Fame
10 #10 Não é educado falar mal
Notas iniciais
— No que você estava pensando quando fez isso? Pelo amor de Madonna! — Kurt gritava com a agente, que se encolhia no canto da sala. A loira encarava o chão, havia se preparado o caminho inteiro para receber essa bronca. — Eu realmente quero saber se você só pensou em si mesma na hora que assumiu esse contrato. Você, de todas as pessoas que me conhece, sabe meus sentimentos em relação à Blaine!
— Eu sinto muito. — Disse um pouco rouca.
— É bom sentir! — O castanho ainda gritava, chamando atenção dos moradores do prédio. — Isso está colocando nossa amizade de anos em risco. Se você não fosse minha melhor amiga, provavelmente perderia meu contrato agora. Você deu um tiro no escuro, Fabray. — A loira assentia, com os olhos cheios de lágrimas. Nunca Kurt havia a tratado assim.
— Kurt, eu... Procurava palavras pra explicar. Porem ele estava certo, não havia explicações. Quinn apenas havia pensando em si mesma aceitando a parceria dos dois modelos.
— Acho melhor você ir. — Caminhou até a porta do apartamento e a abriu. — Não quero ver você por um bom tempo, Quinn. Você acabou confundindo nossa amizade com nossa relação de empresário e agente. Precisamos de um tempo. Você precisa de um tempo.
A loira deixou escapar uma lágrima, mas foi isso. Limpou a garganta e se dirigiu à porta mantendo seu melhor ar de responsável. Antes de ir ao corredor, encarou Kurt e lhe disse enquanto olhava nos olhos.
— Sexta às nove um carro estará te esperando. — Pigarreou. — É o photoshot pra Vogue e logo depois pra Rolling Stones. — Kurt assentiu. — Até breve, te am... Tchau.
E a porta foi fechada com um tanto de força. Do outro lado da cidade, Blaine apertava a mão de Jeff por ter tomado uma decisão desse tamanho com tanta firmeza. A parceria com o Hummel seria uma ótima jogada de marketing.
[...]
— Você está atrasado. — Blaine resmungou ao ver Kurt entrar no carro.
Era sexta-feira, nove e meia da manhã. Incrivelmente ensolarado para um dia de outono em Nova Iorque. Assim que o Hummel entrou no carro o motorista já entrava na segunda pista para seguir para o local de fotografias. Kurt suspirou e jogou sua cabeça contra o banco.
— Não me enche, Anderson. — Kurt se ajeitou no banco, tentando ignorar as lembranças do pesadelo que acabou o fazendo atrasar. Sonhou que seu pai havia sofrido outro ataque cardíaco, e que o castanho já estava em Paris no meio do desfile quando recebera a notícia. Kurt acordou minutos depois do despertador realmente tocar, o que acabou atrasando sua rotina.
Chegaram no estúdio logo em seguida. O motorista fez questão de abrir a porta para os dois modelos. Entraram no elevador e seguiram até o andar em silêncio, Blaine sequer tentou puxar uma conversa. A música do elevador já estava tornando aquele momento constrangedor o suficiente.
Avistaram Quinn e Jeff no estúdio conversando com alguns empresários,
provavelmente da revista. Seguiram o figurinista e logo apareceram na sala com seus visuais prontos.
— Prazer Sr. Hummel e Sr. Anderson. — O velho homem estendeu-lhes a mão. — Sou David O'Connel, vice presidente da Vogue. — Compartilharam um sorriso. — É uma enorme honra finalmente conseguir um ensaio com os dois maiores modelos de todos os tempos para uma das maiores revistas de todos os tempos também. — Balbuciou um sorriso pequeno.
— O prazer é todo nosso. — Kurt sorriu e fez Blaine se perguntar se ele realmente conseguia ser simpático com alguém ou se realmente estava se esforçando muito.
— Deixo vocês em mãos do nosso fotógrafo Daniel McAdams. Agradeço em nome da Vogue e de nossos leitores. — Se despediram e logo o homem saía do estúdio.
Quinn evitava conversar com Kurt, o que machucava e fez o castanho começar a questionar se fora muito radical com a melhor amiga. Jeff deu alguns conselhos sobre a revista para Blaine e logo os dois modelos estavam diante do foco da câmera e da iluminação da sala. O fotógrafo realmente era muito bom, mas na opinião de Quinn e Blaine, nada comparado à Rach.
O ensaio estava indo bem até Daniel forçar um pouco mais os modelos.
— Blaine, encoste sua testa com a do Hummel. — Os modelos estranharam, mas aceitaram as poses. O ensaio começou a ficar com aquele clima de tensão nas fotos, exatamente o que o fotógrafo queria. Um sorriso enorme estampava o rosto do profissional. Até então tudo corria bem, até o fotógrafo resolver ousar ainda mais. – Perfeito. Agora sigam Andrew, ele irá os ajudar para a parte das fotos sem camisa e tudo mais.
— O quê?! - Repetiram os dois no pulo.
Jeff e Quinn tentaram esconder um sorriso. Era praticamente normal um ensaio fotográfico mostrando pele, mas quando juntaram a ideia com Blaine e Kurt, tudo parecia estranho e distorcido.
Daniel deu de ombros enquanto via os modelos serem arrastados até outra sala. Aproveitou o tempo para trocar a lente da máquina, ajustar a iluminação e o ISO. As fotos estavam ficando de tirar o fôlego. Elas seriam parte da edição especial da revista, a edição número 500. As fotos e a revista seriam lançadas em uma enorme festa para toda sociedade de Nova Iorque. Fora muita sorte conseguirem um acordo com Blaine e Kurt juntos para essa
celebração.
Logo os dois homens voltavam à sala, um tanto quando desconfortáveis. Ambos vestiam Calvin Klein jeans da última coleção com tons diferentes, cintos Mr. Porter e seus peitos desnudos. Blaine tentava desviar o olhar, mas sempre se acabava pegando olhando para Kurt.
— Eles ainda vão ficar juntos, anote o que estou te dizendo. — Jeff sussurrou para Quinn, percebendo a tensão sexual explodir na sala. A loira soltou um sorriso e assentiu.
Depois das primeiras fotos o constrangimento dos modelos havia ido embora. Ambos se tocavam como se estivessem vestidos. Daniel exigia toque, calor e caras. No rádio ligado em pouco volume na sala tocava uma balada famosa. Ready or Not de Bridgit Mendler invadia a sala. Meio que ajudava nas poses dos homens no local.
— Um minuto, preciso trocar o foco.
Daniel sorriu sem graça e foi até sua mesa.
— Ready or not here I come...— Kurt cantarolava enquanto brincava com os dedos. Blaine e ele ainda estavam muito próximos.
— ...Where you at, the night is young.— Completou Blaine impressionado com a linda voz do Hummel. Ambos compartilharam um sorriso que não durou muito. Logo desviavam seus olhares.
O resto do ensaio foi tranquilo, tirando o fato de dois inimigos ficarem se agarrando profissionalmente a manhã inteira. Daniel se despediu satisfeito com o resultado, avisando que a festa de lançamento da edição dourada da Vogue seria em dois dias. Os homens sorriram e se vestiram, seguindo até outro ponto de Nova Iorque, dessa vez para o ensaio especial da Rolling Stones. Blaine imaginava a internet estourando quando saíssem as notícias que os dois estavam fazendo ensaios juntos.
Seguiram no mesmo carro (e no mesmo silêncio) para o Bronx. Jeff e Quinn seguiam em seus carros logo atrás dos modelos. Longos minutos se levaram de Manhattan até o destino. O rádio era o único feitor de barulho no veículo.
You should be wilder, you're not funn at all
Yeah, thanks for the input
Thanks for the call
— With dull knives and white hands, the blood of a stone... — Blaine inconsciente começou a cantar com o rádio, conforme via o movimento passar pela janela. Kurt achou particularmente a voz mais bonita que já havia ouvido.
— Cold to the touch, right... Right down the bone. — Kurt cantarolou um pouco mais alto que o outro modelo. O próprio motorista se assustou do jeito que as vozes dos dois modelos no banco de trás se encaixavam bem.
Blaine olhou para Kurt sorrindo e continuou a cantar.
— But you give me the electric twist and it kicks like a pony...
— And true, you might get away with it. It's a risk, it's a risk yeah...— Kurt tinha um sorriso divertido no rosto. Há quanto tempo não cantava mesmo? Quinn e ele costumavam fazer um dueto ou outro no natal, mas nada além disso. Já Blaine conseguia ser uma concorrência ao seu nível tanto na modelagem quanto na cantoria.
Quinn dirigia não muito atrás de Kurt e Blaine. Estava de saco cheio de ouvir as direções que o GPS a mandava, então resolveu ligar o rádio para se distrair. A música favorita da loira tomou conta do carro e ela fez questão de cantar também.
— Picked from a hot grove, packaged for sale. It drips down the sleeve, gets under your nails. — Cantarolava alto, como se estivesse no grupo de coral.
Jeff estava contagiado pela música que tocava baixo no som de seu carro. Alguma coisa o fazia querer cantá-la mais alto. Aumentou o volume e soltou sua voz (não que fosse a mais linda da cidade, mas ainda assim gostava dela. Cantar lembrava seu tempo de coral na escola preparatória em qual estudou).
— A loss of the senses. A chip off a tooth. The smells of the city they ride in your suit. — Tentou manter seu tom de voz baixo, mas logo abria a boca e cantava com toda a emoção.
E em uma sincronia maravilhosa, era como se todas as vozes dos três carros se juntassem e fizessem uma melodia que ecoaria por toda a cidade.
He says don't think don't talk
Don't think, don't think don't talk
Don't think, don't think don't talk
But I don't think I want to
— 'Cause you give me the electric twist and it kicks, it kicks like a pony...— Kurt e Blaine esqueceram por alguns momentos o motivo de se odiarem e cantavam sorrindo, animados com o rádio. Chegavam até a batucar no estofado.
— And true, you might run away with it, it's a risk it's a risk, yeah. — Mesmo que nenhum cantor estivesse escutando o outro, era como se Quinn e Jeff soubessem que suas vozes juntas soavam em uma bela sintonia.
O rádio continuou tocando, mas nenhum dos três se sentia mais na liberdade de cantar, pois os carros estacionavam em frente ao estúdio em que rolaria o próximo photoshot.
E de repente o silêncio se tornou constrangedor novamente.
Subiram o elevador encarando o chão. A mesma coisa que antes acontecia. Seguiram até o camarim para o figurino, Quinn e Jeff conversavam com o representante da revista que estava ali com o fotógrafo. Para o alívio de Jeff, Blaine e Quinn (e até mesmo Kurt), Rach era a contratada dessa vez.
— Oi, meu amor. — Quinn esperou o empresário da revista sair para abraçar a judia e lhe depositar um beijo em sua testa. Jeff sorriu com a interação das duas.
— Fico feliz que os dois não tenham se matado durante o primeiro ensaio. — Suspirou sorrindo, um pouco atrapalhada com as duas câmeras em seu pescoço.
— Na verdade, eu e Jefferson estávamos conversando durante o ensaio sobre isso. Eles têm muita tensão sexual, Babs. Você não tem noção! Durante uma parte do ensaio eles tiveram que tirar as camisas, e meu deus, por um instante achei que sairiam aos tapas e beijos dali.
Rachel soltou uma gargalhada gostosa. Iria falar alguma coisa, mas logo Kurt e Blaine apareceram vestidos à rigor. Blaine antes de se posicionar correu e deu um abraço em Rach. Kurt acenou de longe.
— Vocês devem estar sem paciência nenhuma depois de tantas fotos, certo? - Brincou a Streisand e eles assentiram divertidos. - Bom, agradeçam que desse ensaio só precisamos de uma foto para a capa e... — Blaine a interrompeu.
— Capa?
— É. Algumas mudanças. A revista resolveu deixar a matéria em fotos antigas de ensaios separados que vocês já fizeram e eles nunca usaram. Mas na capa será uma nova e dos dois. - Sorriu. - Podemos começar?
— Como quiser. - Kurt assentiu, e antes de fazer uma pose advertiu. - E Quinn, pare de secar a fotógrafa. Você está babando.
— Muito engraçado, Hummel. - Piscou para o amigo e cruzou seus braços na altura do peito. Kurt respondeu com um sorriso sincero e então foi até Blaine para as fotografias.
Flashes. Ajustes de lente. Mais flashes. Ventilador, ajuste de iso. Uma piada de Jeff que fez o ensaio demorar mais que o demorado porque Kurt não conseguia parar de rir e teve que se sentar um pouco.
O clima estava mais leve que o normal. Rachel guardou seu equipamento de fotografia era perto das duas da tarde. Kurt e Blaine voltavam do camarim
gargalhando um pouco baixo sobre a piada do loiro ainda.
— Não sei vocês, mas eu estou morta de fome. Que tal almoçarmos? — Rachel sugeriu enquanto colocava sua bolsa de equipamentos no ombro. Quinn a ajudou com o tripé.
— Acho ótimo. Não sei se vocês perceberam mas meu estômago estava roncando o ensaio inteiro. - Kurt escondeu o rosto nas mãos.
— Então era isso? Achei que o apartamento do lado estava em reforma. — Blaine levou um soco fraco de Kurt enquanto gargalhava alto. – Tem esse restaurante de um velho amigo, ele fica aqui do lado. - Jeff se lembrou. - É
só atravessar a ponte e já estamos lá. Podemos ir em dois carros e dispensar o motorista.
— Tudo bem. - Kurt pegou o celular. - Vou ligar para Linus e liberá-lo. — E saiu de cena. Esperaram o castanho voltar e seguiram até o restaurante em dois carros. Quinn, Rachel e Kurt iam em um enquanto Jeff e Blaine em outro. O rádio estava ligado mas ninguém se atreveu a cantar desta vez. Mais alguns minutos de viagem e os carros eram estacionados em frente ao restaurante de vidro.
Escolheram uma mesa afastada.
— Vou na cozinha falar com Ethan, quem sabe encontro Evan por lá também. Quer vir comigo, Blaine? - Jeff disse antes de se sentar.
— Você está brincando? É claro. Ethan e Evan? Faz anos que não vejo os caras! — Blaine se levantou rapidamente caminhando até a cozinha com o agente.
Quinn, Rachel e Kurt escolheram seus lugares. O garçom veio lhes perguntar o pedido, mas resolveram esperar pelos rapazes. Kurt revirou os olhos ao ver a conversa íntima animada acontecendo entre as duas meninas ao seu lado, e Rachel percebeu.
— Você só faz essa cara porque não tem ninguém. — Disse.
Kurt mostrou a língua para a namorada da amiga em um ato infantil. Quinn gargalhou e também resolveu entrar na conversa.
— Você deveria pensar em namorar de novo, Kurt. E qual é, a tensão sexual hoje durante as fotos para Vogue? Você e Blaine soltam faíscas quando estão perto um do outro.
— Menos, Quinn. — Revirou os olhos.
— Eu concordo com ela. — Rach sorriu.
— Primeiro, você nem estava lá. — Apontou para a Streisand. – E segundo, até poderia acontecer se eu ao menos o achasse atraente, mas não acho.
— Mentira. — A loira encarou o amigo nos olhos. — Você mesmo já me contou que o acha muito bonito, e hoje mal conseguiu tirar os olhos dele sem camisa... — E agora um ruborcomeça a se formar nas bochechas de Kurt.
— Talvez, mas não se esqueçam do fato que eu não o suporto. Não namoraria Blaine nem se fôssemos as últimas pessoas do mundo, e de um jeito muito estranho, precisássemos repovoar a terra. — Rachel franziu o cenho, tentando imaginar como dois homens repovoariam a terra.
— Você o odeia porque ele é lindo e é seu concorrente. Ele é uma ótima pessoa. - Quinn assentiu. Seus olhos se voltaram ao fundo do restaurante onde voltavam Blaine e Jeff conversando. Kurt estava de costas à eles.
— Eu o odeio porque ele consegue ser um desgraçado mesquinho. Ele não tem um pingo de humildade, além de falta de noção em achar que pode me alcançar nas paradas assim. Ele precisa estudar muito pra chegar até aqui. — Quinn tentava mandar olhares para Kurt parar de falar, mas o mesmo não pegava o recado. — Ele pode sim ser bonito e ter um corpo de um deus grego, mas todos sabemos que metade das fotos que são lançadas conseguem ser photoshop puro. E aquela amizade com Sam só fortaleceu minha ideia de que ele é um cara que faz de tudo pra chegar ao topo, e isso é a coisa mais repudiante em alguém. Blaine Anderson é... é...
Quinn rezou para todos os deuses para Kurt não continuar aquela frase, uma vez que Blaine estava parado atrás do castanho com os braços cruzados.
— Blaine Anderson é...? - Blaine encarou Kurt com os olhos cerrados. O castanho se virou e encontrou os olhos vagos do modelo. Kurt poderia naquele
momento se fingir de avestruz e cavar um buraco no chão para enfiar sua cabeça. Abriu a boca para dar alguma desculpa, mas nada saía. Há quanto tempo o modelo estava ali? E ele havia ouvido tudo? Até a parte em que falara que seu corpo podia ser comparado à de um deus grego?
— Vamos embora, Jeff. - Blaine apenas deu a volta na mesa para pegar seu celular e sua carteira que havia deixado ali antes de seguir até a cozinha. — Até mais, meninas.
E caminhou com passos firmes até a saída do restaurante, sem encarar Kurt novamente. Jeff deu de ombros, se despediu de todos educadamente e foi atrás do modelo. Kurt jogou seu rosto em suas mãos, suspirando forte.
— Por que você não me falou que ele estava ali?!
— Eu tentei, mas você não pegava os sinais que te mandava. — Quinn suspirou. — Você precisam se controlar. Ele te olhou agora como se fosse te matar, ou sabotar os freios do seu carro. Você não pode sair falando essas coisas das pessoas por suas costas. Isso é questão de caráter.
— Bom, isso não teria tanto problema se não tivesse dezenas de projetos que tenho que fazer com ele, certo Fabray? - Kurt ainda tinha o rosto no meio das mãos e a loira sentiu suas bochechas queimarem.
— Se ajudar, Blaine não conseguiria diferenciar em um carro o fio do freio e o fio do câmbio...
— Ajudou muito, Streisand. — Kurt disse irônico.
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