Fame

3 #03 Sobrevivendo ao campo de batalha


Kurt Hummel tentou evitar contato visual com Blaine Anderson por, mais ou menos, vinte minutos. Foi o tempo recorde que conseguiu. O avião já havia decolado do aeroporto e o castanho sentiu uma enorme vontade de apertar a mão de Blaine. Kurt tinha essa mania ao decolar. Sempre viajava com Quinn, a assistente apertava sua mão com intuito de tranquilizá-lo.

Não era como se o castanho tivesse medo de voar, mas ele gostaria de saber que se, algo acontecesse com a aeronave, estaria sentado ao lado de alguém que o confortaria. Coisa que não havia acontecido naquele voo. Assim que o avião decolava, Kurt resolveu então apertar suas próprias mãos, mas não era a mesma coisa. Blaine observou tudo de canto de olho, sem falar uma sequer palavra.

– Senhores passageiros, aqui é o piloto Dean Coticov. Estamos sobrevoando o oceano nesse momento e o voo dura aproximadamente vinte e cinco minutos. A partir de agora é seguro soltar os cintos de segurança e andar pelo avião. A American Air Lines agradece a sua escolha.

Kurt respirou aliviado. Olhando para Blaine de canto de olho, percebeu que o moreno estava entretido no filme que passava em sua pequena televisão. Kurt suspirou e retirou seu cinto. – Com licença.

Falou quase passando por cima de Blaine e foi até a parte da frente da primeira classe. Mesmo estando na parte mais luxuosa do avião, as poltronas estavam apertadas demais. Maldita ambição das empresas aéreas por conseguir mais dinheiro. Kurt caminhou pelos corredores até achar Quinn.

A pessoa que ocupava o outro assento da amiga havia ido ao banheiro, então Kurt desabou sobre a poltrona da loira, que se assustou com o ataque repentino do amigo. – Céus! – Colocou a mão no coração. – O que você quer?

– Um aeroporto lotado, uma primeira classe aonde mal conseguimos andar de tantos passageiros, e ainda me colocam sentado com a pessoa mais provável de todas. O que será que deus está querendo me dizer?

– Bom, se você acreditasse nele, talvez ele esteja dando uma de cupido.

– Vá se ferrar, Fabray! – Kurt encostou a cabeça na poltrona.

– Não reclame por ter um jovem adulto maravilhoso e gostoso sentado ao seu lado. Meu acompanhante de viagem passou a decolagem inteira soltando gases, e quando finalmente saiu para ir ao banheiro, acho que foi tarde demais. – Quinn fez uma cara de nojo, fazendo Kurt rir um pouco alto, chamando a atenção dos demais passageiros. – Fico imaginando o que sairia nos sites de fofoca quando soubessem que Kurt Hummel e Blaine Anderson sentaram juntos em um voo de nove horas e sequer conversaram. — Imaginou a loira.

Kurt deu de ombros. Do outro lado do avião, Rachel ocupava o assento que o Hummel havia deixado vago. A amiga havia percebido o castanho se levantando e ido sentar em outro lugar e aproveitou a deixa para pegar algumas informações de Blaine. – Como assim “não conversamos nada”? – Rachel perguntou perplexa. – Vocês passaram os últimos vinte minutos fazendo o quê?

– Kurt jogou alguns jogos em seu celular e eu aluguei um filme com a aeromoça. – Suspirou. – Acha que seria estúpido demais eu, Blaine Anderson, pedir um autógrafo pra ele? — Perguntou com medo.

– Não faça isso! – Rachel gritou, fazendo todos os passageiros a olharem. – Eu baixo da internet o autógrafo dele pra você, ou pago alguém pra pedir, mas, por favor, não o deixe saber que você o adora.

– E por que não?

– Porque... – Rachel parou de falar quando Kurt voltou ao seu lugar. – M­-me desculpe. Já vou sair. – Com um beijo na bochecha de Blaine e um breve “até daqui a oito horas” voltou ao seu lugar aos fundos da aeronave. Kurt deu um sorriso rápido para Blaine enquanto passava por cima do mais novo, com dificuldade.

Por que diabos o cara gordo da frente havia resolvido deitar sua poltrona logo agora? Kurt estava quase esfregando seus órgãos em Blaine, que corava com um sorriso lindo no rosto.

– A­cho melhor invertermos. — Blaine sorriu e saltou para a poltrona do lado, ficando na janela dessa vez. O tempo passou e estranhos cinco minutos havia tornado aquela situação muito constrangedora. Como iriam passar oito horas lado a lado se sequer conseguem suportar meia hora sem tornar o ambiente algo repudiável? Kurt estava encarando o filme que antes Blaine assistia, até que o outro modelo finalmente puxava assunto.

– É estranho olhar as coisas daqui de cima, não é? Aquele barco, por exemplo... — Blaine cutucou Kurt e apontou um pontinho azul no mar. – Parece que é do tamanho de um grãozinho de arroz, mas aposto que deve ser um daqueles iates super enormes.

Kurt encarou Blaine com o olhar mais julgador do mundo como se dissesse que não estava interessado em toda aquela conversa sobre barcos ou altitude. Blaine apenas assentiu com a cabeça lentamente e colocou os fones de ouvidos. Alguns minutos se passaram, porém o modelo havia ficado remoendo o acontecido. Com calma, tirou os fones e encarou Kurt, que ainda olhava o filme. – Ei.

– O quê? – Foi a primeira coisa que o moreno havia ouvido de Kurt desde o embarque.

– Por que você não quer conversar? — Perguntou simples.

– Por que você quer conversar? — Kurt perguntou.

– Eu acho que esse voo seria excelente pra nos conhecermos. — Kurt lançou um olhar para Blaine como se já o conhecesse, então o garoto interviu. — Você conhece Blaine Anderson, o famoso modelo internacional. – Blaine levou a mão até a altura do peito, esperando que Kurt a apertasse em um cumprimento. – Mas você não conhece Blaine, um cara comum e que adora fazer novos amigos.

Kurt encarou a mão de Blaine, encarou Blaine e falou orgulhoso. – Prazer. – Sem ao menos aceitar o apertão de mão. Logo voltava a encarar o filme. Nem sabia a história ou acompanhava, apenas usava de desculpas para não ter que conversar com seu concorrente.

– Cara, o que eu te fiz? – Blaine estava ficando impaciente e alterou o tom de voz, mas ainda assim mantendo a calma e a compostura.

– Nada.

Respondeu um Kurt irônico, pensando em tudo que Blaine havia feito para prejudicá-lo. Tirando as capas de revistas que Kurt poderia posar, ou então, o fato de ter que concorrer com alguém depois de anos, já que Blaine finalmente era um modelo ao nível do Hummel, porém não assumiria nunca. Blaine se levantou e tinha a intenção de caminhar até o banheiro, mas a aeromoça o pediu para sentar, pois o almoço já seria servido em alguns instantes. Bufando voltou ao seu lugar, colocando seus fones e ignorando o fato de que Kurt Hummel era um mesquinho de merda.

A intenção de Kurt nunca fora fazer Blaine odiá-lo, mas conhecia as pessoas do mundo da moda. Já havia cometido esse erro uma vez e não cometeria novamente. “Sam Evans...” Suspirou Kurt.

– Falou comigo? – Blaine tirou os fones com um pingo de esperança.

– Não.

– Ok.

E voltaram ao seu mundo monótono de ouvir músicas enquanto encarava as nuvens ao lado de fora da janela e assistir ao filme sem realmente vê-lo. O Anderson entrara no avião com uma concepção de Kurt e, certamente, sairia com outra bem diferente. Teve que segurar seus punhos para eles não voarem direto em direção ao rosto de Kurt sendo mesquinho. Estava furioso.

– Bom dia, passageiros. Aqui é Lana, a comissária geral. O almoço será servido pelas aeromoças. Puxem suas mesas e posicionem o guardanapo ao colo. Obrigada.

Kurt puxou sua mesa, porém Blaine nem percebeu. Com os fones de ouvido não havia escutado ao aviso da aeromoça e o modelo castanho mesmo tentando evitar Blaine achou melhor avisar o modelo.

– Ei. – Falou, mas Blaine não tirou os olhos da janela do avião. – Ei! – Estalou os dedos na frente dos olhos cor­ de ­mel do moreno, que se assustou rapidamente e encarou Kurt sem a mínima paciência.

– O que foi agora?! – Perguntou grosso, em um tom um pouco alto.

– É hora do jantar, Borat.

– Há­-há. — Forço uma risada. — Tem certeza que você é modelo, e não comediante? — Disse cansado de aturar o mau humor do homem ao seu lado.

Continuaram se encarando por alguns segundos e Blaine puxou sua mesa, dando espaço para a comida que logo em seguida a aeromoça dava as opções. Em um prato havia um bife esturricado (porque poderia se dizer que foi cozido na turbina do avião), com arroz e algumas batatas assadas e no outro um sanduíche (porque chamar aquilo de cheeseburger era ofender o cheeseburger). Os passageiros questionaram se aquela era mesmo a primeira classe.

– Eu fico com o sanduíche. – Blaine disse.

– Eu aceito o filé. — Kurt completou.

A aeromoça serviu os dois rapazes. A bebida veio logo depois e, coincidentemente, conseguiram concordar em algo. Ambos aceitaram o vinho e agora almoçavam em silencio. Infelizmente, para o desconforto de todos os passageiros, o avião sofreu uma pequena turbulência e o cotovelo de Blaine esbarrou em seu copo, derrubando o líquido escuro em Kurt.

– PORRA! – Gritou Kurt, se levantando imediatamente.

– M-me desculpa. A culpa não foi minha... – Blaine tentou se desculpar.

– Você sabe quanto custou essa roupa? – Kurt tentava limpar o vinho com o guardanapo de pano antes que manchasse, porém sabia que era um ato desnecessário pois manchas de vinho eram permanentes. – Claro que não, ­ Bufou. – Você sequer deve saber quem foi Guccio.

– Pelo amor de deus, Kurt! – Blaine se levantou, ignorando seu prato vazio caindo no chão. – Foi só uma mancha de vinho! Tem uma lavanderia perto da Saint Avenue que tira!­ -­ Kurt o interrompeu.

– Você é inacreditável, Blaine Anderson! – Kurt estava furioso.

– Este é Kurt? – Quinn estava comendo quando escutou os berros da parte de trás do avião. Levantou a cabeça e enxergou Blaine e Kurt discutindo, um com o dedo apontado na cara do outro como quem discutia com uma criança. Corou levemente e deslizou na cadeira, torcendo para que ninguém ali soubesse que ela acompanhava um dos modelos. Do lado de trás do avião, Rachel ria de tudo e comia seu sanduíche com vontade, como se assistisse de camarote à briga. Blaine Anderson havia despertado seu lado cobra, finalmente.

– Senhores, se acalme. – Candice, uma das aeromoças, apareceu.

– Eu não vou passar o resto da minha viagem sentado ao lado dele! – Kurt apontou para Blaine, que tinha os braços cruzados e um sorriso cínico nos lábios.

– Eu que não quero passar as próximas oito horas sentado ao lado de alguém que tem gelo no coração e não consegue ao menos sorrir ou agradecer por algo. – Blaine cuspia as palavras. – E olha que eu tentei!

– Senhores, se acalmem. – Candice realmente não sabia o que fazer. Não havia recebido treinamento sobre como agir caso os passageiros discutissem nesse nível no meio do voo.

– Quem vai se acalmar é o Senhor Anderson, que não me deixa viajar em paz desde que colocou os pés nesse avião! — Kurt continuaria, porém foi interrompido.

– Agora chega! – Quinn gritou lá da frente, se levantando.

– O que está acontecendo aqui? – Disse uma velha senhora. Seu crachá tinha o nome Lana Writg e provavelmente seria a mesma Lana que havia falado no auto falante, a tal comissária geral. Pelo rosto de Candice, as notícias seguintes não seriam boas.

– Os dois estavam brigando e... – A aeromoça ainda estava perdida. – Me ajude, coordenadora. Eles querem mudar de lugar.

– Como citado antes, é estritamente proibido trocar de lugares. Regras da empresa. – Explicou a chefe das aeromoças suplicando pela compreensão dos passageiros.

– Então vou passarei o resto do voo em pé, mas não há condições de eu compartilhar um voo agradável ao lado de Blaine Anderson, me desculpem senhoritas. – Kurt cruzou seus braços em forma de birra e Blaine fez o mesmo. A aeromoça chefe revirou os olhos com tamanha infantilidade.

– Verei o que posso fazer pelos senhores.

Alguns minutos se passaram e Lana conseguiu conversar com os passageiros que se sentavam ao lado de Rachel e Quinn a trocarem de lugares com Blaine e Kurt, e depois de muita insistência da companhia aérea concordaram. Rachel agora sentava com Blaine e Quinn com Kurt.

– Onde você estava com a cabeça, Kurt?? – Quinn perguntou repreendendo o patrão. Antes que Kurt pudesse responder, continuou. – Você tem noção do que sairia na mídia caso algum desses neandertais que estão no voo resolvesse abrir a boca ao sair do avião? Imagina se algum passageiro gravou essa cena que você fez?

– Mas... – Quinn parecia a mãe de Kurt naquele momento, e deveria.

– Nada de mas, Kurt! Você não é mais a criança que eu conheci no ensino médio, você é um adulto agora, e espero que aja como tal. – Kurt revirou os olhos. – Você me entendeu?

– Sim. – Falou quase sussurrando.

– Perguntei se me entendeu.

– Entendi, Quinn. Entendi. — Disse se rendendo.

– Ótimo! Agora, por favor, me deixe recuperar as horas de sono que perdi acordando cedo vindo para esse inferno de voo. – E antes que Kurt pudesse falar alguma coisa, Quinn já havia colocado sua máscara de repouso e havia virado de costas para Kurt. O castanho apenas sorriu e voltou a jogar um jogo em seu celular.

Do outro lado do avião, Baline cerrava os dentes de tanta raiva. Alguns passageiros ainda o encaravam, mas o moreno não se preocupava com isso. Miley Cyrus e Justin Bieber viviam fazendo barraco e polemicas e continuavam na mídia (até ficando cada vez mais famosos), talvez isso se aplicasse à ele também.

– Não fale nada! O que eu menos preciso agora é de esporro.

– Eu não iria te dar um esporro, ia te parabenizar... – Rachel gargalhava baixo com a confusão que se formava no rosto do amigo, então tratou de continuar. – Nunca gostei do jeito que Kurt se dirigia à você, e se dependesse de mim esse avião poderia cair e sobrar apenas nós dois como sobreviventes. Andei observando as aeromoças e percebi que ali onde elas ficam tem uma porta de evacuação de emergência. – Falou não tendo noção do quão terrorista isso soava. – Enfim... Não gostei de Kurt, nem da loirinha, então...

– Você achou certo? — Perguntou ainda não acreditando.

– Sim. – Rachel gargalhou. – Quem diria que duraria apenas uma hora para toda ilusão de “Kurt Hummel, meu ídolo e minha inspiração” irem por água abaixo. – Rachel ria alto. Blaine apenas revirou os olhos. Seriam as sete horas mais longas de sua vida.

Notas finais
Who is Sam Evans?