Fame
4 #04 Triângulo das Bermudas
Blaine abriu os olhos lentamente e sentiu um braço sobre sua nuca. Havia adormecido abraçado com Rachel. Eram poucos os momentos de afeto entre os dois amigos, já que a Barbra estava quase sempre tirando sarro de alguma coisa que irritava o modelo. Rachel dormia profundamente e até se
atrevia a roncar.
O voo ainda tinha cinco horas de duração, e a maioria dos passageiros da primeira classe dormia. O Anderson percebendo a calmaria do local e resolveu esticar as pernas, andar um pouco pelo avião já que estava ali há algumas horas. Saiu de sua poltrona tentando não acordar Rachel e caminhou pelo enorme corredor do avião, observando as pessoas à sua volta. Algumas pessoas dormiam em seu sono profundo, outras assistiam a um filme ou jogavam jogos em seus celulares.
Blaine tinha a mente ingênua e desconexa e ainda não acreditava que o avião continuava firme e forte voando mesmo com tempestades e trovões. Foi pensar em chuva e trovões que Blaine ouviu o primeiro estouro no céu. Todas as janelas se iluminaram e o modelo foi capaz de ver o raio passar a poucos metros de distância do avião.
Chegou até a cabine das aeromoças e entrou a velha senhora de antes
cochilando em sua poltrona, calma como se nenhuma briga tivesse acontecido durante o voo. Sorriu e resolveu voltar para seu assento. Deu meia-volta e encarou as poltronas onde dormiam Kurt e Quinn. Blaine não entendia realmente o que acontecia ali, já que muitos sites diziam que ambos modelo e empresárias estavam em um relacionamento. E ao mesmo tempo, tantos rumores sobre Kurt ser gay, tantos sites de fofoca entrevistando caras que juravam terem passado uma noite de amor ao lado do mais famoso modelo do mundo e boatos de que ele e Sam Evans haviam passado muito tempo juntos para serem simples amigos, e ali estava Kurt, dormindo agarrado com uma loira que faria qualquer um mudar sua sexualidade, até mesmo Rachel.
Se sentia bem observando Kurt dormir, até que o maldito avião passou por uma maldita turbulência provocando um maldito chacoalhão, que quase fez o modelo cair no chão.
– Mas que... — Falou novamente, se segurando em uma das poltronas para não cair. Todos os passageiros pareciam ter acordado de seus sonos e agora tinham os olhos arregalados de medo. O barulho dos raios perto do avião era quase ensurdecedor, e os relâmpagos apenas deixavam o clima mais sombrio.
– BLAINE! — O modelo ouviu a amiga gritar do fundo do avião, e mesmo com o olhar de todos sobre si, nem se importou e correu para abraçar Rachel, que tinha uma feição assustada por ter acordado e não encontrado o amigo ao seu lado. Sentou-se do lado da morena e ali ficou até o avião parar de balançar.
– Senhores passageiros, aqui é o piloto Dean quem vos fala. Estamos passando por uma região de ilhas com clima variado, formando assim várias nuvens e mudanças de vento não previstos. Pedimos para que não se apavorem, pois tudo está sob o controle de nossa equipe.
– Ótimo! — Kurt bufou.
– Como todos sabem... – O piloto tinha um tom divertido. — Nesse momento sobrevoamos o famoso Triângulo das Bermudas. Muitos conhecem esse local como misterioso, ou aterrorizante, mas é apenas uma lenda. Estamos mantendo contato com algum aeroporto próximo e talvez tenhamos que fazer um pouso de emergência para checar se algum dos raios danificou o avião. Pedimos que fiquem todos calmos e sentados. Coloquem os cintos e para qualquer dúvida, as aeromoças estarão em prontidão para ajudá-los. Tenham um bom voo.
– Vou ter um ótimo voo sabendo que podemos estar voando com um avião danificado! — Gritou Rachel estridente, fazendo alguns passageiros gargalharem com o berro da baixinha.
– Concordo com a Streisand. — Quinn argumentou.
– Fiquem todos calmos! — A aeromoça tratava tudo com a mais calma possível, mas não conseguia tranquilizar a judia. — O piloto Dean faz essa rota há anos e nunca teve um problema. Se acalmem que estamos recebendo coordenadas da torre de controle mais próxima.
– Sempre há uma primeira vez. — Kurt jogou a cabeça contra o encosto.
– Eu preciso ir ao banheiro. — Um homem se levantou.
– Senhor, pedimos que fique sentado mediante a tempestade.
– Senhora, eu preciso ir ao banheiro justamente por causa dessa tempestade. Acordei com o avião tremendo e um raio passando a alguns metros de mim... Me desculpe, mas se eu não me borrei antes, talvez vá me borrar agora! — Disse sincero o senhor de idade.
Alguns gargalharam alto, enquanto a aeromoça fazia força para não dar risada, abrindo o caminho para o passageiro chegar até o banheiro. Ouvia-se
gritos da classe econômica, e as aeromoças tiveram que ir socorrer uma mulher grávida que havia entrado em pânico.
Rachel não havia soltado de Blaine desde aquela hora. A morena morria de medo de aviões, morria de medo dessas coisas metálicas que cortavam os céus todos os dias. Sabia que as chances de um avião cair eram poucas, mas ainda assim haviam chances e isso a assustava o suficiente.
– Eu falei que deveríamos ter ido de navio... — Sussurrou agarrada ao braço do Anderson, que se divertia com a insegurança da amiga.
– Claro. Porque um navio passando pelo triângulo das Bermudas é muito mais seguro do que um avião. — Blaine fez um cafuné na morena, que gargalhou. Mas mesmo assim não havia soltado do braço do amigo.
– Kurt, me solta. Eu quero voltar a dormir. — Quinn colocou sua máscara de sono e se virou para a janela, tentando se distanciar do modelo.
– Quinn Fabray, você é louca?! O avião está prestes a cair no lugar mais misterioso e inabitável do mundo e você quer dormir? — Kurt tentava não soar muito desesperado, mas com tanto medo quanto Rachel naquele momento.
– Pelo menos, dormindo, quando eu morrer a ultima coisa que eu vou ouvir não será você me enchendo. — Resmungou colocando seu travesseiro sobre o rosto. — Kurt revirou os olhos e esticou seus braços, estalando-os.
Há quanto tempo estava sentado na mesma posição? Se levantou e ajeitou as roupas que estavam amassadas. Dior teria um treco se visse sua coleção naquele estado. Kurt se alongou rapidamente e andou pelo avião. O mesmo ainda chacoalhava algumas vezes, e a tempestade parecia longe de acabar. Kurt andou até o banheiro, onde havia uma fila, e esperou. Precisava lavar o rosto, tirar aquelas olheiras e se recompor. Ele era Kurt Hummel e não podia aparecer para as pessoas naquele estado. Sempre que ficava nervoso puxava algumas rugas em seu rosto.
Blaine finalmente havia conseguido deitar Rachel e a acalmá-la. A morena agora parecia descansada e havia roubado a máscara de sono do amigo, para tentar dormir e se tranquilizar. O modelo então sentiu uma cãibra percorrer sua perna e achou melhor esticá-la, antes que virasse algo sério e perdesse a oportunidade de desfilar nos próximos dias.
Se levantou e resolveu ir até o banheiro, lavar o rosto de eliminar qualquer traço de sono que pudesse ter pelas próximas horas. Blaine não dormiria em um avião propenso a cair no mar. Caminhou até o outro lado do avião e reconheceu as calças pretas e justas. Era Dior. Melhor, era Dior sob medida coleção especial. Ignorou o dono das pernas e bunda perfeitas que estava a vestindo e se pôs na fila, exatamente atrás de Kurt.
– Senhores passageiros, já tenho contato da torre mais próxima nesse exato momento e iremos em alguns minutos aterrissar em Bahamas, no Aeroporto Internacional Lynden Pindling e ficaremos lá até a tempestade passar. Sentimos muito sobre o imprevisto. A meteorologia da American Airlines está nos informando que, possivelmente, a tempestade só irá passar daqui a alguns dias, estaremos providenciando hotéis nas proximidades ao aeroporto para todos os passageiros. Obrigado por voar na AA.
– Ótimo. — Blaine suspirou e Kurt assentiu com a cabeça.
– Esse voo está tão conturbado que só me falta descer no aeroporto e ficar sabendo que minhas roupas foram extraviadas. — Kurt suspirou e Blaine gargalhou. Era possível ambos ficarem em um lugar sem discutir?
– Estamos indo para a Irlanda, o que poderíamos esperar? — Gargalharam com a piada interna sobre o mundo da moda em Dublin.
Os homens terminaram o riso em um sorriso fraco, descobrindo que poderiam estar no mesmo ambiente sem estar se fuzilando ou brigando e aquilo fez o voo ficar um pouco mais agradável. Blaine ainda admirava o Hummel, por mais que houvesse descoberto a personalidade horrível de Kurt na viagem.
A verdade era que Blaine era um grande fã. Nunca foi muito ligado à moda, mas desde que entrara nesse mundo resolveu pesquisar e ir atrás de todas as informações que pudera absorver, e lá estava Kurt, em todas elas. O homem simplesmente estampava todas as capas e revistas, todos os outdoors e tudo que estava relacionado à roupa. Blaine viu em Kurt um lugar onde poderia sonhar, sonhar alcançar a carreira do maior modelo da atualidade. E bem... Havia conseguido.
Sua intenção nunca fora fazer o outro modelo o odiá-lo por roubar seu lugar, e sim conseguir trabalhar em um ambiente agradável junto com o Hummel, que havia sido sua inspiração para crescer. Mas bem, como confessar isso aos repórteres e ao próprio modelo quando tudo que falava era tratado como besteira? Até poderia tentar elogiar o corte de cabelo de Kurt, ou a roupa, mas não fazia ideia de como faria isso soar o menos infantil possível.
Naquele momento, perdido em seus pensamentos, Blaine nem percebeu o aviso do piloto para se agarrar na coisa mais próxima possível pois teria que redirecionar a energia das turbinas e isso provocaria em uma turbulência grave. Só se deu conta quando viu seu corpo se desequilibrar junto ao de Kurt e ambos os modelos caírem no chão, confusos com o que havia acabado de acontecer.
O Anderson esperou um berro ou um grito de Kurt, sobre como o modelo havia caído em cima e si e abarrotado suas roupas, mas nada saiu. Apenas se levantaram em silêncio e voltaram ao seus lugares conforme a comissária havia pedido. Sem brigas, sem berros, simples assim. Talvez aquilo fosse um sinal de que o outro modelo não fosse tão ruim assim, certo? Ou talvez fosse apenas o subconsciente de Blaine tentando fazer seu ídolo não parecer um monstro.
Assim que chegaram em seus lugares, encontraram suas acompanhantes cochilando. Quinn e Rachel perderam o voo mais maravilhoso de suas vidas. Os raios no lado de fora do avião, por mais que amedrontadores, eram lindos vistos de cima. Iluminando uma imensidão escura cheia de estrelas.
Após longos minutos, o avião já havia pousado e era possível escutar as gotas fortes caindo sobre a lataria pesada do veículo. Os passageiros pareciam ansiosos para saírem daquele lugar.
– Muito bem, como foi lhes dito antes, a American Airlines reservou alguns hotéis para os passageiros, uma vez que o voo foi reagendado para decolar amanhã a tarde conforme a previsão meteorológica da região.– Lana falava pelos alto-falantes. — Na saída do avião iremos os auxiliar para a ida até esses hotéis. Informaremos a mudança do horário dos voos a qualquer momento. Permaneçam em seus quartos, e aproveitem Bahamas.
Lentamente foi formada uma fila pelos passageiros até a saída do avião. Na pista de pouso, uma enorme multidão de gente se aglomerava tentando achar seu quarto e seu acompanhante. Um homem franzino vestindo as roupas da companhia tinha uma prancheta em mãos e tentava auxiliar os passageiros.
– Senhorita Fabray. — Chamava.
– Sim? — A loira apareceu no meio da multidão.
– Senhorita Fabray ficará no hotel Hans Bahamas Palace Hotel. Um taxi levará a senhora até seu hotel e ao informar seu nome na recepção, será encaminhada até seu quarto. As malas irão para lá também, basta assinar aqui nessa linha pontilhada. — A mulher assentiu e assinava o contrato de locação de quarto. — A senhorita poderá escolher um colega de quarto, lembrando que não será permitido casal no cômodo.
– Interessante. — Quinn deu de ombros.
– Senhorita Berry. — Chamou.
Demorou algum tempo até Rachel conseguir passar pelo aglomerado de pessoas naquela entrada. Era pequena e isso não havia a ajudado.
– Boa noite, Srta. Berry. A senhorita ficará no hotel Hans Bahamas Palace Hotel junto com a senhorita Fabray. — O homem entregou uma folha para Rachel assinar, antes que a judia pudesse falar alguma coisa.
Kurt decidiu não se jogar na frente da multidão. O modelo saberia que haveriam quartos para todos, então esperou todos se informarem. Logo o saguão ficava vazio e poderia, finalmente, pegar sua vaga.
– Hummel. — Completou Kurt para o atendente.
– Senhor Hummel, o senhor ficará na cobertura do hotel Hans Bahamas Palace Hotel. Um taxi levará o senhor até lá, e informando seu nome da recepção irão lhe informar o número do quarto. O senhor é um dos clientes vips da American AirLines, então dizemos questão de juntá-lo com outro cliente vip. O senhor ficará com o senhor Devon.
– Senhor Devon? — Perguntou em tom de deboche.
– Sim? — Blaine arqueou a sobrancelha ao ouvir chamarem seu nome.
– Só pode ser brincadeira. — Kurt revirou os olhos.
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