Für Arthur
4 Parte IV - Eles me disseram.
Notas iniciais
Já era setembro, dia quinze para ser preciso. Parecia que minha vida tinha dado uma guinada para melhor desde do dia em que havia dormido na casa de Miguel. Eis o que mudou desde nosso último contato:
Um de Julho – Terminei com Manuella, whee! Para minha surpresa o rompimento havia sido tranquilo e amigável. Era um domingo de sol e estávamos na piscina de minha casa, Manu estava tomando sol e eu estava sentado debaixo do guarda-sol fazendo nada em específico, vi Margot brincar com seus brinquedos e depois pular alegremente na água e pensei “Meu cachorro é mais feliz do que eu”. Chamei a ruiva para conversar e decidimos que o melhor à fazer era terminar, nunca imaginei que Manuella seria tão madura em relação à isso. O resto do dia passou com nós relembrando os melhores momentos de nosso relacionamento, e tivemos mais do que eu esperava.
Dezenove de Julho – Enzo vai em minha casa durante a tarde e diz que precisava conversar seriamente comigo, fiquei um pouco surpreso e questionava o motivo da conversa. Sentamos no sofá, Enzo colocou uma mão em meu ombro e começou: “Você não era um bom namorado, e você sabe disso. Às vezes – quer dizer, sempre, você machucava Manu com esse seu jeito arrogante de ser. Você não se importava com ela, sabe? Éramos da mesma sala e vivíamos juntos, e então um dia nos pegamos. Eu sei, é contra o bro code, mas… Eu gosto dela e ela gosta de mim, eu me importo com aquela menina, cara. Eu só queria avisar que nós vamos tentar algo, não quero que você fique bravo ou nada do tipo. Só queria que você soubesse do nosso relacionamento através de mim, pela nossa amizade”. Assim que tudo acabou eu ri, Enzo ficou confuso com minha reação. Puxei o garoto para perto e o abracei dando os parabéns. Eu tinha plena consciência que havia falhado para com Manuella, e remoía isso constantemente, fui um namorado horrível, não falharia como amigo. Eu estava feliz pelos dois, de verdade. Enzo saiu da minha casa relaxado, talvez esperasse que minha reação fosse igual daqueles garotos de filmes Hollywoodianos que ficariam irados com isso, não foi.
Vale lembrar que no primeiro dia de aula após o dia em que fiquei na casa de Miguel nosso contato havia mudado. No começo começamos com um “oi” “tudo bem? “tchau”, e antes da semana acabar (era a última antes das férias) começamos realmente a conversar. Uma amizade nasceu, uma muito boa. As férias do meio do ano chegaram e não perdemos o contato, eu ia na casa do garoto, íamos ao cinema, saíamos para comer fast-food, passeávamos com Margot em um parque próximo da minha casa, jogávamos vôlei no mesmo parque. Viramos inseparáveis, amigos e confidentes.
Contei ao garoto de como eu morria de medo de aranhas e caranguejos, mostrei uma imagem do caranguejo dos cocais – a criatura mais assustadora dessa terra! Miguel me falou sobre seu medo de abelhas quando uma apareceu perto de nós no parque, “Eu falo que sou alérgico. Aí posso me desesperar quando aparece uma, é super justificável!”, fato curioso: ele nunca havia sido picado por uma, era um medo irracional. “Teve uma vez que estava passeando com Margot aqui perto, eu tinha uns nove anos e havia acabado de ganhar meu primeiro cachorrinho, precisava mostrar ao mundo como ele era adorável. Continuando, um cachorro gigante apareceu quando estávamos voltando para casa e avançou em nossa direção. Puxei Margot para cima com a coleira e a peguei no colo, saí correndo e gritando com o demônio correndo atrás de mim. Quando cheguei em casa, vi que havia sido mordido na bunda e nem havia sentido nada. Adrenalina e seus efeitos… E tive que ir no médico tratar da mordida, pior consulta de todos os tempos”, contei. “Você acha que isso é uma consulta ruim? Quando eu fiz quinze anos meu pai me levou para um daqueles check-up anuais, ele me deixou no hospital e tinha ido pegar minha irmã na casa de uma amiga dela enquanto isso — não que seja importante, tá, foco! Eu entrei na sala e meu médico era super gostoso, era a fantasia perfeita de um garoto em conflito com a sexualida. Ele me pediu para tirar a roupa, era rotina e eu sabia disso, ok. Quando ele colocou a mão dele no meu pescoço para.checar os batimentos eu fiquei excitado, não sabia onde enfiar a cara. Ele viu e riu, e sabe o que ele fez depois? Ele começou a me masturbar, Arthur! Eu estava vivendo um sonho porno acordado, quando eu terminei – e terminei rápido, ele simplesmente riu e disse ‘Parece que está tudo bem nessa região’ e continuou o resto do exame. Tá, na verdade isso é uma consulta dos sonhos.” eu fiquei rindo da situação, “Miguel, você foi molestado! Isso meio que justifica o fato de você ser tão problemático” “Não fui molest – Meu deus! Eu fui molestado. Arthur Henrique, você acabou de destruir a melhor parte da minha puberdade, obrigado, vacilão.”.
As conversas desse tipo eram comuns, principalmente na hora de dormir. Aliás, eu comecei a dormir na casa de Miguel quase toda sexta-feira a partir do meio de Agosto. Era uma amizade no preto e branco, éramos apenas ótimos amigos. Graças ao período que passei na casa dos Duarte aprendi a cozinhar o básico com Jonas, Júlia me ensinou o básico sobre futebol e até me levou em um jogo do seu namorado Léo (nada profissional), ensinei Miguel a ouvir música e ele me ensinou a assistir filmes, para minha surpresa haviam filmes antigos bons, e eram muitos. Júlia falava que éramos o casal mais adorável que ela já tinha visto, não éramos um casal. O que aconteceu no sofá nunca mais ocorreu, só havíamos nos beijado mais uma vez depois daquela.
Eu estava chegando na casa de Miguel quando começou a cair uma tempestade, cheguei completamente molhado e tive que ficar seminu no batente da porta para não molhar a casa, Miguel havia acabado de limpar e me mataria se eu estragasse todo o trabalho dele com a lama que havia no meu sapato. Eu estava só de cueca e mexia meus braços tentando me aquecer, Miguel entregou uma toalha e passou a mão em meus cabelos.
— Parece que seu cabelo perfeito foi arruinado — Eu realmente me importava com meu cabelo.
— É, não se pode ter tudo na vida.
— Não. Mas você pode ter isso. — O garoto me puxou para um beijo, demorou alguns segundos para eu me soltar.
— Miguel… Você sabe que eu tenho o Lucas, nós somos amigos, lembra? — Eu ainda ficava com Lucas era um projeto de relacionamento, só que escondido.
Deixei o garoto e entrei no banheiro, quando voltei do banho ele fingiu que aquilo nem tinha acontecido, estava tudo bem entre nós.
7 de setembro – Era feriado e uma quinta-feira, o final de semana ia emendar fazendo com que muitas famílias saíssem para viajar. Miguel ia viajar, era aniversário de sua irmã e eles iam para a casa de sua avó que era na praia, eu fui convidado e aceitei. Íamos viajar de noite, quando deu umas quatorze horas saí para encontrar Lucas, ele ia me encontrar no shopping para a gente almoçar e eu ia comprar algo para Júlia.
— Lucas, hm, eu tô indo viajar com Miguel. Eu sei que havíamos combinado de passar esse final de semana juntos, já que seus pais e Manu também não estariam em casa… Foi de última hora, foi mal. — O garoto terminou de comer seu lanche antes de olhar na minha cara.
— Você não acha que tá passando muito tempo com esse Miguel, Arthur?
— Não, não acho.
— Você simplesmente vai trocar a porra do nosso final de semana para ir viajar com esse garotinho? — O tom de voz de Lucas começou a se alterar. — Eu quero que você pare de falar com ele, Arthur.
— Eu não acredito que você falou isso. — Comecei a rir, indignado. — Eu não vou parar de falar com ele só porque você quer, Lucas.
— Vai sim! — Ele levantou a voz, pela primeira vez tinha ficado assustado com o ruivo.
Peguei o presente de Júlia e murmurei “tchau, você tá escroto”, deixei meu lanche pela metade e sai da mesa. Lucas se levantou e veio atrás de mim, o garoto pegou no meu braço e me puxou com força para a área dos sanitários.
— Da próxima vez que você sair desse jeito, eu juro que não vou ser tão paciente.
— Me. Solta. — O garoto soltou meu braço e eu o massageei imediatamente, estava doendo e tinha quase certeza que iria ficar roxo. — Lucas, você é o cara com quem eu me encontro para transar algumas vezes na semana, e só isso. Não estamos em nenhum relacionamento, e, mesmo que estivessemos eu continuaria falando com Miguel. Ele é meu amigo, e se não aceita isso você é um babaca.
Um homem saiu do banheiro e viu a cena, imediatamente olhou para o jeito que eu massageava meu braço.
— Tá tudo bem aqui? — Ele perguntou.
— Sim, pode ir seguindo seu caminho. — Lucas respondeu.
— Não estou falando com você. — O homem continuou olhando para mim até eu sinalizar um “sim”.
Deixei Lucas tendo seu drama no banheiro sozinho e fui embora. Horas mais tarde ele me ligou.
“O que você quer?”
“Que você peça desculpas e venha logo para casa, Arthur.”
“Não vai rolar, tô indo viajar, lembra? E você que deveria estar pedindo desculpas.”
“Você é inacreditável, garoto. Depois de tudo aquilo você ainda tem a audácia de fazer isso? Arthur eu quero que você vá se fuder, seu moleque egoísta, metido, mimado do caralho! Que não se importa com ninguém, primeiro minha irmã e agora eu. Só porque você não tem sentimentos não significa que as outras pessoas também não tenham! Se você for nessa viagem nunca mais olhe na minha cara, certo? É só uma questão de tempo até Miguel ver realmente quem você é, você vai voltar correndo para meus braços quando isso acontecer, Arthur. E adivinha? E vou estar pouco me fodendo para você.”
“Lucas... Eu não quero mais nada com você, ok? Só some da minha vida, o ano está quase no fim e ano que vem não estou mais na porra da escola. Só me esquece, pode fazer isso?”
“Art? Arthur! Você não pode fazer isso, desculpe”, consegui ouvir o garoto chorando do outro lado da linha “Art, eu tava nervoso, me desculpa. Eu não queria dizer isso, eu te amo, você sabe disso! Perdão, ok? Vem aqui para a gente conversar, por favor.”
“Tchau, Lucas.”
E assim, crianças, é como se termina um “relacionamento”. Lucas começou a mandar diversas mensagens, no começo eram pedidos de desculpas e no final era ameaças do gênero “Você vai se arrepender, eu te prometo isso”.
Acabei não indo viajar com os Duarte, não havia sido por Lucas, eu só tinha perdido a vontade. A viagem foi ótima só faltou eu, disseram.
Estou tentando enganar quem? É claro que havia sido por causa de Lucas, eu me amarrava no cara e não queria que tudo acabasse no pior dos termos. Tínhamos até metas, sabia? Assim que eu saísse da escola poderíamos ter um relacionamento e fazer coisas de casal, exceto que não íamos. Me permiti chorar um pouco quando fui deitar, vida que segue.
14 de setembro – Faltava um dia para meu aniversário, estava ansioso para finalmente ser reconhecido como maior de idade perante a lei (Entrei atrasado na escola). E, pretendia abrir o jogo com os meus pais — nada demais. Uma quinta-feira nunca havia passado tão lentamente, para minha sorte Lucas não havia dado aula nenhum dia. Doente, eles disseram.
Para surpresa de todo mundo Lucas havia vindo para dar justamente a última aula, minha aula, incrível. Eu estava evitando Miguel durante a semana, sempre inventando uma desculpa para não prolongar nosso tempo junto “Esqueci minha bolsa na sala”, “Vou almoçar com minha mãe hoje”, “Vou levar Margot no veterinário”. O professor de história olhou diretamente para mim quando entrou na sala, evitei fazer contato visual.
— Bom dia — Começou com um sorriso estampado no rosto, maldito rosto bonito que ele tinha, arg! — Desculpa minha ausência durante o resto da semana, eu tive alguns problemas pessoais… Sem mais delongas, guardem o caderno, estojo, e qualquer outra porcaria que não sejam suas canetas. Vamos ter prova hoje. — Um burburinho surgiu na sala.
— Mas você não avisou nada, Professor. — Miguel falou.
— Por isso que é uma prova surpresa, gênio. Ah, é melhor se esforçarem falta pouco para esse bimestre acabar e vou usar isso como o maior peso na hora de atribuir as notas.
A sala estava em silêncio e os alunos estavam focados fazendo a prova, Lucas passou uma prova com três folhas, ótimo. Em um momento fixei meu olhar em Lucas que também olhava de volta.
— Arthur, para fora. Não vou admitir colas em minha sala, sua prova está zerada.
— Eu não estava colando! — Protestei inconformado, não esperava que Lucas fosse tão baixo.
— É, ele não estava, professor. — Miguel continuou em minha defesa.
— Se falar mais uma palavra vai sair também, Sr. Duarte. Henrique, para fora! — Eu fiquei furioso com aquilo, joguei minha mochila em meus ombros, peguei a prova e a joguei brutalmente na mesa do professor.
— Enfia no cu, Lucas. — A sala inteira desviou a atenção da prova e olhou perplexa para mim. — Na verdade, faz isso não, eu sei que você ia gostar. — Um “WOW” ecoou pelo lugar.
Fiz questão de bater a porta ao sair, fui embora alguns minutos antes do sinal bater e estava simplesmente furioso. Não fui em direção da minha casa, ao invés disso saí andando sem rumo, após uns trinta minutos de caminhada acabei entrando em um restaurante. Estava na hora do almoço e muitos trabalhadores comiam no lugar. Eu peguei uma cerveja nas geladeiras e fui ao balcão, um rapaz jovem e mal encarado era o responsável pelo caixa.
— RG.
— Sério? — Tirei meu RG da bolsa e entreguei para o garoto.
— Você tem dezessete anos, não posso deixar que saia com isso.
— Eu faço dezoito em menos de vinte e quatro horas! Você realmente vai fazer isso?
— Volte amanhã então, moleque.
Estava prestes a gritar com o cara quando uma mão segurou meu ombro, olhei para trás e Jonas estava lá. Ele pagou seu almoço e pediu desculpas ao caixa pelo meu comportamento.
— Eu vou te levar para casa, Art. — Ele já destravava seu carro que estava estacionado na frente do estabelecimento.
— Tô bem, tchau.
— Arthur, eu estou te levando para casa. Entra no carro. — Jonas falou autoritário, entrei no veículo emburrado.
— Se quiser conversar sobre o que está acontecendo...
— Não quero. — Fui seco.
— Mas, se mudar de ideia você sabe que pode falar comigo. — Jonas era gentil demais, droga.
A viagem foi silenciosa, Jonas me deixou na porta de casa e depois foi embora. Entrei em casa e fui direto para o quarto, só queria dormir.
Dormi.
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