Eyes That I Love Both (REMAKE)
3 Uma aparição inesperada em plena madrugada
Notas iniciais
Nico caminhava lentamente, não sabendo ao certo aonde ir. O ar estava frio e levemente umidificado. Sua respiração criava pequenas nuvens em frente aos seus lábios que desapareciam logo em seguida. Sua espada de ferro estígio estava pendurada ao lado da cintura, caso algum monstro aparecesse repentinamente. Nico estava agora andando em uma estreita calçada de cimento que cortava um imenso e verdejante parque, apertando fortemente o casaco contra o corpo, tentando fugir do frio. O parque era escuro e repleto de sombras para onde quer que se olhasse, porém isso não o assustava; pelo contrário, Nico se sentia como se estivesse em casa, mesmo não tendo uma casa. Estava habituado a ver coisas muito piores quando estava no mundo inferior, e nada podia realmente assustá-lo.
A lembrança do pesadelo que tivera enquanto dormia ainda fazia sua cabeça latejar, enquanto procurava algum significado para ele; mas quando mais ele labutava para procurar, mais confuso ele ficava, pois não havia explicação.
– Mas há uma explicação... – disse uma voz, pegando Nico de surpresa. Ele tirou a espada da cintura e a ergueu, preparado para alguma investida. O ferro negro brilhava quando a luz da distante lua o acertava; Nico procurava o lugar de onde e voz foi ouvida. Á frente dele, cerca de alguns poucos metros, havia um singelo e simples banco de madeira, que comportavam três pessoas sentadas lado a lado; mas havia apenas uma pessoa sentada naquele banco. Uma mulher. Nico se aproximou, ainda com a espada em punho, analisando a mulher: ela vestia um longo vestido de veludo vermelho sem alça, que destacava seus seios, e despencava até os tornozelos, onde os pés estavam postos em um salto alto também de cor vermelhar; seus cabelos loiros e longos batiam nas costas e pareciam brilhar como fios de ouro; e uma longa franja dourada caía por sobre o rosto; sua pele era clara e lisa, seus olhos eram de uma cor vivida e bela, seus lábios estavam acentuados com um batom vermelho extravagante que a deixava simplesmente fantástica. Ela é linda, pensou Nico, automaticamente, hipnotizado pela visão da mulher à sua frente. Ela era a própria representação da beleza. Própria representação da beleza? Um pensamento cruzou a mente de Nico como um projétil, e ele percebeu que ela usava apenas o vestido, embora a temperatura não estivesse boa para se usar apenas isso. Então sua ficha finalmente caiu. Ela abaixou lentamente a espada para o chão, tocando sua ponta negra na superfície porosa do chão.
– Afrodite – disse Nico, com uma leve bola de neve recheada de insultos se acumulando em sua garganta.
– Nico, meu querido – ela também disse, olhando com seus olhos brilhantes na direção de Nico. Ele apertou com força o cabo de sua espada, e na área do chão cimentado que a ponta da lâmina tocava começou a se formar pequenas rachaduras.
– O que você quer de mim? –perguntou Nico, indo direto ao assunto. Seja lá o que Afrodite quisesse falar com ele, não poderia ser nada bom. Ela sorriu com seus lábios vermelhos como fios de sangue, e indiciou o assento ao seu lado com os braços, dizendo:
– Quero te ajudar.
Nico sentiu uma raiva enorme, mas a suprimiu. Direcionando um olhar repleto de raiva e indignação à Afrodite, rebateu:
– É um pouco tarde para isso.
A deusa balançou negativamente a cabeça, com movimentos lentos e uma expressão de decepção estampada no belo rosto.
– Nunca é tarde para o amor.
Nico apertou ainda mais forte o cabo da espada. Seus dedos estavam quase brancos por causa da pressão, de forma que o sangue se recusava a circular. A raiva que estava entalada e subindo cada vez mais em sua garganta quase o sufocava, mas ele a reprimiu, deixando que apenas uma centelha se libertasse por seus lábios.
– Que amor? – perguntou Nico, mas antes que a deusa pudesse responder ele continuou: — É isso que você chama de amar?
– Não existe apenas um tipo de amor, Nico. – respondeu ela gentilmente. Sua voz era doce e melodiosa. – Cada um ama de uma forma diferente. Por exemplo, – disse ela, levantando-se e ficando de frente para Nico. Seu perfume cheirava a flores silvestres. – você ama ele, mais reprime isso; o que faz você se afastar dele, mas mesmo assim você simplesmente não consegue ficar longe dele. Que contraditório, não?
Nico colocou a espada lentamente na cintura novamente, sentou-se no banco de madeira, sentido as forças o abandonarem aos poucos. Apoiou os cotovelos nos joelhos e inclinou o corpo pra frente, envolvendo a cabeça nas mãos. Sua mente era um turbilhão de pensamentos. Por mais que Nico odiasse Afrodite, ela tinha razão.
– Mas, isso não faz sentido... – respondeu ele, com voz rouca e baixa. – Isso é tudo tão confuso...
Nico sentiu uma mão delicada e macia como veludo tocar seu rosto, inclinando-o para cima até Nico se ver refletido nos olhos da deusa.
– O amor não é feito para ser entendido, Nico. Não lute contra ele, mas deixe-o fluir naturalmente.
Nico se sentiu ainda mais confuso.
– Como assim naturalmente? – perguntou ele, sentindo os olhos embaçarem e o rosto ficar quente. Desviou o olhar para os próprios pés. – O que tem de natural um garoto gostar de outro?
A deusa sorriu.
– O amor não se restringe somente a sexos opostos, criança. Amor é amor, independente de por quem o sente e por que o sente. – A deusa se sentou ao lado do moreno cabisbaixo, e disse, fitando a lua distante. – Quando duas pessoas se amam nada...
– ELE NÃO ME AMA! – Gritou Nico, abruptamente. A deusa se assustou de início, mas logo entendeu a situação do garoto.
– Como pode ter tanta certeza disso? Você consegue ler o que se passa na mente dele? Você pode sentir o coração dele?
Nico se levantou. Estava farto de pessoas brincando com seus sentimentos. Ele já estava destinado a sofrer, isso era claro; agora a deusa aparecia do nada e alimentava sentimentos que ele tanto tentava suprimir e esquecer?
– Já chega – disse ele, lhe direcionando um olhar mortífero e raso de lágrimas. – Eu não sou um objeto para você brincar comigo. Eu não faço parte do seu tabuleiro para você mexer comigo do jeito que bem entender.
A deusa suspirou profundamente e seu deu por vencida. Ou não. A semente foi plantada, e agora é só aguardar e observar. Ela se levantou, olhou no fundo dos olhos escuros do garoto e disse:
– Eu fiz a minha parte Nico Di Angelo. Quanto mais você guardar isso só para si, mais isso vai te esmagar por dentro. E quanto mais você tentar se afastar e tirar ele da mente, mais vai amá-lo. – A deusa lhe virou as costas, e estava prestes e desaparecer numa explosão brilhante, quando olhou por cima dos ombros e disse a Nico.
– Você pode pensar que Annabeth Chase é um empecilho, mas fique tranqüilo; como vocês jovens dizem hoje em dia: ela é carta fora do baralho para Percy. – Ela sorriu. – Até mais Nico.
Nico desviou o olhar quando a deusa explodiu numa luz ofuscante, não deixando nenhum mínimo vestígio de sua presença quando Nico voltou a olhar pra frente; a não ser tudo que ela disse. O garoto permaneceu imóvel durante alguns segundos, pensando em tudo que lhe foi dito. Praticamente tudo que a deusa havia dito não passava da mais pura e simples verdade. Porém Nico se recusava com todas as forças a aceitar essa verdade; porém agora, uma pequena luz podia ser vista no fim do túnel. A última frase da deusa antes de sumir foi a mais impactante. Eles não estão mais juntos? Isso explicaria várias coisas, como Percy assistir a maratonas de filmes românticos e depressivos quando isso não era muito de seu estilo.
Nico sentiu uma súbita vontade de voltar correndo para a casa de Percy, só para ficar do lado dele; para ficar olhando por tempo indeterminado aqueles olhos que ele tanto amava; mas sentia uma enorme vergonha. Afinal, ele fora embora por esse mesmo motivo, e agora queria voltar? Se recomponha Nico! Pensou ele a si mesmo, voltando a andar lentamente rumo ao nada que era o caminho escuro à sua frente. Uma fina linha alaranjada podia ser vista no distante horizonte; estava prestes a amanhecer e Nico sentia-se imensamente cansado, como se não dormisse há semanas sem intervalo.
Ele caminhou até as sombras em meios as árvores, e deixou-se ser sugado por elas, usando o que recuperara de suas energias para ir a algum lugar onde poderia descansar. Fechou os olhos na escuridão completa das sombras, ainda pensando em tudo que a deusa lhe dissera. Quando voltou a abri-los, estava em seu chalé no acampamento meio-sangue. Tirou a espada da cintura e a pendurou na parede, e fez o mesmo com o casaco, jogando-o em cima da cama ao lado do beliche que iria se deitar; depois caiu em cima da cama, enterrando o rosto nos macios travesseiros e fechando os olhos de imediato. Dormiu de sapato e tudo.
Do outro lado da cidade, Percy Jackson dormia profundamente em sua cama macia e quente. Ao seu lado, em pé diante da cama, uma figura vestida em um vestido longo o fitava com olhos repletos de brilhos e lábios contorcidos levemente em um sorriso delicado de dentes brancos e perfeitamente alinhados. A figura se inclinou, até seus lábios vermelhos ficaram a poucos centímetros do ouvido direito do filho do mar. O rosto do garoto era sereno e uma linha úmida escorria do canto de seus lábios. A figura sussurrou algumas poucas palavras em um tom de voz sedutor: Sonhe com Nico.
Quase que imediatamente, o sonho de Percy de estar nadando no mais azul dos oceanos cercado de seres aquáticos até onde a vista alcançava, foi substituído pelo rosto do filho de Hades, e algumas poucas cenas picantes e beijos apaixonados passaram em sua mente enquanto dormia. Vamos despertar seus sentimentos adormecidos. A deusa sorriu enquanto se transformava em névoa brilhante e desaparecia.
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