Eyes That I Love Both (REMAKE)
4 It Never Ends
Notas iniciais
Nico abriu lentamente os olhos e se espreguiçou ainda deitado, acordando toda a musculatura de seu corpo. Sentou-se na cama, ainda desnorteado. Sua visão estava embaçada e Nico esfregou os olhos para fazer voltá-los ao normal. O gosto da bílis era forte no interior de sua boca e garganta. Levantou-se da cama, e esticou os braços, fazendo-os estralarem.
Nico olhou para os pés e percebeu que estava com apenas uma meia fina e preta envolvendo-os; não se lembrava de tê-lo tirado quando se deitou, mas não deu muita importância à isso. Olhou na direção da janela, coberta por uma cortina de um tecido fino e preto, e caminhou na direção dela, afastando o tecido com as mãos em seguida. A luz penetrou através do vidro da janela em finos e fracos feixes de luz amarelada, e na linha do horizonte a esfera brilhante que era o sol, agora com um leve tom alaranjado e rosado, desaparecia gradativamente. Era final de tarde.
Nico não sabia por quanto tempo havia dormido, mas podia especular que foi mais de dois dias.
Lembrou-se da conversa com Afrodite e sentiu novamente um peso em suas costas.
Andou a passos lentos e arrastados em direção ao banheiro no fundo do chalé. Girou a torneira e deixou a constante e fria torrente de água gelada sair pelo cano por alguns instantes antes de colocar a mão em concha no líquido; e, quando as pontas de seus dedos tocaram o fluxo constante de água, seu corpo todo estremeceu e os pelos de sua nuca se arrepiaram, e Nico afastou a mão da água. Percebendo, algum tempo depois, que a água não lhe oferecia nenhum perigo, encharcou-as e lavou o rosto, sentindo o liquido gelado despertando-o por completo. Ele olhou seu reflexo no espelho: pele pálida, cabelo que mais parecia um ninho de rato, e rasas e quase imperceptíveis olheiras; a mesma aparência de sempre. Tateou a parede ao lado do espelho e apanhou a toalha de rosto, com a qual os secou suavemente; em seguida escovou os dentes. Saiu do banheiro e apanhou seu casaco no chão ao lado de sua cama e o vestiu; pendurou a espada ao lado da cintura e caminhou até a porta do chalé, abrindo-a em seguida.
O movimento no acampamento, mesmo não sendo férias de verão, ainda era constante, e havia uma boa quantidade de semideuses de diferentes chalés em todo lado que se olhasse.
O som que indicava aos semideuses que se preparassem para o jantar foi ouvido, e Nico percebeu, assombrado, que sua barriga gritava por comida, roncando alto o suficiente que poderia ser ouvido do outro lado do acampamento. Caminhou lentamente até a fogueira, seguindo o calmo fluxo de semideuses – exceto pelos filhos de Ares, que corriam e gritavam – e sentou-se na mesa que fora separada somente aos filhos de Hades; como Nico era – agora — o único filho do deus, ele se sentava sozinho na mesa.
A fogueira do acampamento ardia alta e viva no centro, brilhando e aquecendo o ambiente ao redor; em frente à ela um figura pequena brincava com as brasas incandescente com um belo sorriso no rosto, vestindo um longo vestido branco e fino, tinha a aparência de uma criança, porem não era, como todos sabiam.
Havia um copo e uma tigela rasa postos em frente à Nico em cima da mesa; ambos eram mágicos e apareceria ali o que ele desejasse comer, qualquer coisa. Seu estômago roncou novamente, dessa vez com mais intensidade e ferocidade; então, fez o que não fazia há muito tempo: quis comer um banquete sozinho, para saciar a fera insaciável que estava a roncar dentro dele.
Dentre poucos minutos depois, Nico comia os últimos restos de sua pizza misturados ao que sobrou da lasanha; seu copo estava cheio de refrigerante gelado que nunca acabava e Nico virou o copo, sorvendo todo o liquido, quando um toque repentino o assustou, e o garoto se engasgou com o liquido na garganta; tossindo e tossindo enquanto seus olhos eram invadidos por lágrimas involuntárias, batia no peito com força e o liquido entalado saía por sua boca, espalhando-se em uma grande poça escura na mesa. Todos os campistas ao redor riam, uns contidos outros em altas e sonoras gargalhadas. Olhou por sobre o ombro e viu Percy, estático e com um sorriso congelado nos lábios levemente avermelhados.
– Desculpe – disse ele com um risinho. – não queria te assustar.
Nico limpou os olhos marejados d’água com as costas da mão direita, e fez o mesmo com os lábios encharcados de refrigerante.
– Você me paga Perseu – Disse Nico, voltando os olhos à sua comida. Percy se sentou ao seu lado, mesmo isso sendo contra as regras. Olhares cheios de raiva foram lançados aos dois, como se dissessem: Por que só ELE pode?, mas nada diziam. O garoto o fitava com olhos cor de esmeralda que refletiam o intenso brilho e calor da fogueira. Usava a camiseta do acampamento, uma calça jeans azul clara e um all star clássico. De seu pescoço pendia o colar de contar.
– Eu pensei que você nunca iria acordar – o moreno soltou uma risada, tocou seus ombros e brincando disse: — Achei que até estivesse em coma!
– Por quanto tempo eu dormi? – perguntou Nico, olhando confuso para os olhos verdes do moreno à sua frente. O outro garoto apenas ergueu os ombros, com as mãos estendidas, como se dizendo: Sei lá.
– Eu cheguei aqui há dois dias, e você já estava dormindo. – respondeu Percy. Ele pousou os cotovelos em cima da mesa e começou a fitar os riscos paralelos da mesa de madeira. – Mas já se passaram uma semana e cinco dias, desde aquele em que você foi embora durante a madrugada.
Nico olhou atônito para o garoto ao seu lado, com olhos esbugalhados. Uma semana e cinco dias?! Ele havia quebrado o próprio recorde. Nunca dormira por tanto tempo; mas, de alguma forma, se sentia totalmente descansado e revigorado.
– Desculpe por aquele dia... – conseguiu dizer Nico, com voz tremula e fraca. Percy apenas sorriu para ele, e foi o suficiente para fazer seu coração acelerar. Nico desviou rapidamente o olhar daquela visão que eram os olhos dele, e fitou o prato praticamente vazio à sua frente, sentindo que um quente rubor invadia seu rosto.
– Nico, por que aqui? – perguntou subitamente Percy, com uma curiosidade em seu tom de voz.
– Eu realmente não sei – Respondeu Nico, tomando um pequeno gole de refrigerante gelado, que desceu por sua garganta como dedos frios e refrescantes. – Talvez porque aqui seja o lugar onde tenho mais lembranças boas.
Percy assentiu levemente com a cabeça, os olhos verde-mar fitando o rosto sem expressão aparente de Nico. Parecia que esses olhos sondavam sua alma inquieta, e pensou no que seria dele se o moreno ao seu lado pudesse ler pensamentos; estaria ferrado, respondeu ele mesmo, mentalmente.
– Mas, Percy? – Chamou Nico; o moreno fitava seus olhos escuros. – Por que você está aqui? – Nico, logo após, se embaralhou nas palavras, quando se deu conta do que disse; mas é claro que ele estaria aqui, ele é um semideus, e, ainda mais, ele é Perseu Jackson. Tentou se corrigir, mas sua voz saiu aguda e tensa, repleta de confusão e gaguejante: — Q-quer dizer... N-não é época de férias de verão ainda, então você não deveria, b-bem, estar na escola?
O filho do mar apenas sorriu. Um sorriso de lábios finos e sedutores. Nico engoliu asperamente a saliva que havia em sua garganta, provocando um ruído alto e grave. Se ele soubesse como é sedutor, não sairia sorrindo a esmo por aí.
– Bem, é que a escola está em paralisação por alguns dias – respondeu ele calmamente; logo em seguida desviou os olhos verde-mar do rosto de Nico, e começou a fitar o horizonte escuro; e continuou, só que desta vez com uma voz não mais alta que um sussurro e repleta de melancolia — ou seria confusão? Nico não soube identificar ao certo: — E também porque eu queria ver alguém.
Nico não precisava de uma profecia ou de poderes de clarividência para saber quem era esse alguém; era obvio que era Annabeth. Nico cerrou fortemente a mão em um punho apertado e sufocante em cima da mesa de madeira, que não doía mais que a confusão que era sua mente. Annabeth passava a maior parte do seu tempo no acampamento, então não era de se surpreender que Percy a fosse procurar ali. Nico tentava ao máximo não sentir ódio de Annabeth, mas era difícil, e ele conseguia apenas suprimir.
– Você está mais descansado agora? – perguntou Percy com um tom de voz agora normal. Nico olhou na direção dele e aquiesceu levemente com a cabeça. – Ótimo. Você estava tão cansado que dormiu de sapato e tudo – e soltou um sonoro e doce riso. Nico agora sabia quem havia tirado-lhe os sapatos
– Você fica tão... – Percy hesitou, e desviou o olhar de Nico, e disse, gaguejando e em voz baixa: — fofo quando está dormindo.
Um rubor quente invadiu o rosto pálido de Nico, lhe dando uma leve coloração avermelhada.
– O q-que... – tentou responder Nico, com voz aguda como a da uma garota assustada, mas não teve tempo de continuar; Percy o cortou, dizendo:
– Não é nada – e voltou a olhar nos olhos escuros de Nico. – É que vendo você dormindo, parece que não está sofrendo tanto. – Um silêncio pairou sobre os dois, e ao longe o crepitar continuo de fogo, a conversa constante entre os campistas e o som metálico dos talheres era a única coisa que se era ouvida. Percy se aproximou de Nico, tocando leve e docemente seu ombro, com uma expressão de profunda preocupação no rosto, e disse: — Se você quiser me contar algo, estarei sempre aqui Nico. Sempre.
Nico não soube o que falar, olhava atônito para o par de olhos que brilhavam como duas esmeraldas banhadas pela luz das chamas. Digeriu lentamente o que Percy lhe dissera. Sim, tem algo que quero te contar, pensou Nico enquanto fitava as duas esferas brilhantes à sua frente, só que não consigo. A frase que Afrodite lhe dissera voltou novamente à sua mente: “Quanto mais você guardar isso só para si, mais isso vai te esmagar por dentro.” Era verdade. A mais pura e simples de todas as verdades, mas... não era fácil expressar tudo que estava em seu coração... Ainda mais quando a pessoa que é o centro de tudo, esta louca e desesperadamente apaixonada por outra pessoa, uma garota bonita e inteligente.
Nico se levantou. Olhava para os próprios punhos cerrados, tentando conter o calor nos olhos. Direcionou o melhor sorriso que pôde ao filho do mar, mas ele mais pareceu forçado e cansado, tudo aquilo que Nico estava sentindo; disse a ele, numa voz embargada e fraca:
– Obrigado Percy, de verdade. – Nico passou as pernas por sobre o banco de madeira, prestes a deixar a área da fogueira. Olhou novamente para Percy e continuou: — Mas não é nada. – Nada? Como assim nada? É tudo!, gritou sua mente. – Até mais Percy.
Nico virou as costas para os olhos que ele tanto amava, sentindo a dor que eles lhe faziam sentir; parecia um par de espadas longas e afiadíssimas atravessando seu peito em estocadas consecutivas. Ele precisava loucamente se afastar, mesmo que isso lhe esmagasse mais e mais; e ao mesmo tempo queria continuar ali, fitando aqueles brilhantes olhos verdes. Mas que contraditório.
– Nico – chamou a voz de Percy atrás dele. Ele se virou, e viu Percy também em pé. Seus olhos brilhavam como duas esferas de fogo verde e intenso. – Para onde você vai?
Nico também não sabia. Qualquer lugar era melhor que continuar ali, e ao mesmo tempo nenhum lugar era melhor que ali; ele poderia viajar para o mundo inferior, e vigiar as almas; poderia ir pra um lugar desconhecido em uma parte qualquer do mundo; mas se Percy não estivesse por perto, não aguentaria ficar por muito tempo seja onde for.
– Para qualquer lugar. – respondeu o filho de Hades. Essa resposta apenas deixou o moreno à sua frente ainda mais preocupado e intrigado. Nico virou as costas ao seu herói, à pessoa que ele amava, mas que nunca poderia amá-lo também; andou até a floresta, se encaminhando à grande mancha escura que era a sombra de um grande pinheiro. Sentia o olhar de Percy atravessando-lhe a carne; sentia-os na sua mente. Nico afundou o pé direito na sombra, mas se deteve quando Percy disse:
– Tome cuidado. – Nico não respondeu, apenas balançou levemente a cabeça. Afundou o pé direito completamente nas sombras, e Percy disse mais uma vez: — Aparece lá em casa.
Novamente a centelha de esperança brilhou em seu coração, mas Nico não lhe deu tempo para alimentá-la: afundou completamente na densa sombra, e desapareceu.
Percy olhava a grande sombra do pinheiro pelo qual Nico acabara de sumir, com um turbilhão de pensamentos confusos e desordenados em sua mente.
O que é esse sentimento? Um aperto forte no peito quando viu Nico sumir nas sombras.
O que é essa vontade? Um impulso de pegá-lo pelos braços antes de sumir, e não deixar que ele partisse novamente.
O que é isso? O sonho em que beijava os lábios finos do garoto.
Percy chacoalhou fortemente a cabeça de um lado para outro, tentando afastar a imagem e os pensamentos da cabeça; mas sem efeito. O filho de Hades não saia de sua mente.
Enquanto Nico caía e se transportava pelas sombras de olhos fechados e cabelos esvoaçando, ele percebeu que não conseguia tirar o filho de Poseidon da sua mente.
[Every second, every minute, every hour, every day]
[It never ends]
Fale com o autor