Eyes That I Love Both (REMAKE)
17 Um Novo Recomeço.
Notas iniciais
Nico caminhava pela margem do Lete em direção às suas águas, com a imagem dos olhos sem vida de Percy a lhe esmagar o coração e anuviar seus pensamentos, deixando apenas o desespero crescente e a vontade enorme de esquecer essa imagem dolorida.
[How has it come to this?]
Seus pés tocaram o líquido, e Nico se jogou com força nas águas, sendo levado pela forte correnteza que fazia seu corpo girar, enquanto queimava. Por instinto, o filho de Hades havia prendido a respiração, porém não iria conseguir por mais tempo; começava a sentir a vontade crescente de respirar, e ele tinha de lutar para manter os lábios cerrados.
Mas não era isso o que você queria?, uma voz feminina soou em sua mente, e Nico percebeu então que era verdade. Parou de lutar. Abriu os lábios e respirou profundamente pelo nariz e boca, sentindo o líquido queimar dentro dele como magma, tornando sua mente um embaralhado de lembranças. Seu corpo girava loucamente dentro da corrente da água.
Bianca apareceu diante de seus olhos, com braços abertos chamando Nico para um abraço, e logo sumiu.
Sua mãe, Maria di Angelo, apareceu diante de seus olhos, sorrindo, e desapareceu.
Hazel apareceu diante dele também, sorrindo e pronunciando gentilmente o nome do filho de... filho de quem? E logo, a imagem de uma garota de cabelos encaracolados e de pele morena também desapareceu.
Um garoto de olhos verdes como esmeraldas, lábios finos e levemente avermelhados contorcidos num belo sorriso, rosto anguloso e com maças salientes apareceu diante de seus olhos, logo desaparecendo.
E então... o garoto que sentia não saber quem era, girou novamente nas águas do Lete. Sua visão escureceu, e ele afundou mais nas águas do Rio do Esquecimento.
No Acampamento Júpiter, Jason observava a sombra pela qual Nico desaparecera, como que esperando que o filho de Hades voltasse; mas sabia que isso não iria acontecer tão cedo.
Jason tentava imaginar a dor que era perder alguém que se ama; tentava imaginar como seria ver o rosto que tanto amamos pálido e sem vida, mas não conseguia.
– A água! – gritou Annabeth de repente, quebrando o silêncio sepulcral que pairava sobre eles. – É isso! É ISSO!
Todos olharam confusos para ela, e quando ela explicitou sua linha de raciocínio, todos enfim sentiram uma luz começar a brilhar no final de um túnel escuro e sem vida, iluminando as sombras.
– Mas não estamos tão próximos assim da costa para colocá-lo no mar. – disse Frank, voltando novamente a ficar cabisbaixo. – Poderíamos levá-lo no Argo II e...
– Impossível – cortou Leo, balançando a cabeça, também cabisbaixo. – O navio está muito danificado e não vai aguentar outra viagem.
Todos ficaram em silêncio novamente, até que Jason disse:
– Eu posso levá-lo. – e todos os olhares se voltaram para ele, requisitando uma explicação. – Como posso voar, se eu levá-lo nos braços, poderíamos chegar rapidamente até o mar.
Todos assentiram com a cabeça, a esperança brilhando novamente no fundo do túnel escuro.
Jason foi até o corpo flácido, frio e pálido de Percy e o pegou nos braços, se sentido novamente triste por vê-lo sem vida, quando estava tão acostumado a vê-lo agitado e feliz. Concentrou o pensamento no vento ao redor, implorando desesperado por ajuda, e eles lhe concederam, e logo Jason voava com Percy nos braços em direção ao mar.
Alguns minutos depois, voando a metros de altura e a quase 100 km por hora, Jason avistou o vasto mar escuro pela noite que se estendia ate onde a vista alcançava, e começou a descer rapidamente num mergulho, sentindo o vento gélido da noite lhe acoitar o rosto.
Chegando à praia, afundou na água até acima dos joelhos, soltando lentamente o corpo de Percy sobre as águas pouco agitadas, fazendo-o flutuar, com apenas a parte do ferimento para baixo submergido na água fria que fazia o corpo de Jason tremer. Jason foi tomado pelo desespero, quando Percy não esboçou reação alguma, ficando ainda mais frio. O sangue do filho do mar se misturava com a água em rodamoinhos rubros.
– Vamos, volte. – dizia Jason, jogando um pouco de água com a mão em concha no rosto branco de Percy, desejando que ele voltasse; mas sem efeito.
Jason estava prestes a desistir, quando a boca de Percy se abriu e ele respirou profundamente, os lábios roxos e os olhos voltando gradativamente a brilhar, a coloração lhe inundando a face à medida que o coração voltava a bombear o sangue. Ele ofegava profundamente, desesperado.
– Calma – disse Jason, e ele ergueu os olhos verdes na direção dos olhos azuis do filho de Júpiter, e sorriu. Aquele maldito sorriu depois de tudo que havia feito todos passarem. Jason soltou o corpo de Percy, e ele ficou em pé, recuperado, ainda respirando ofegante. Mas agora a cor de seus lábios havia voltado ao normal.
Jason indica a praia com as mãos tremulas de frio e os dois andam com os pés submersos na água até a areia, onde ambos andam com passos cansados até onde a areia não era acertada pela onde espumante, e ali se deitaram, ambos ofegantes.
– Cara – disse Percy, após uma respiração profunda. -, eu sonhei que havia morrido.
Jason sorriu, seu corpo tremendo e os dentes batendo.
– Cara, eu acho que vou morrer de hipotermia. – disse Jason, com voz sussurrante e fraca e corpo trêmulo.
– Não seja por isso. – disse Percy, se inclinando na direção de Jason e tocando sua barriga fria através do tecido encharcado, e no mesmo instante, Jason se sentiu seco, como se nunca antes houvesse entrado na água. Sentou-se e olhou na direção de Percy, que também estava completamente seco, com apenas um talho na camiseta alaranjada e uma mancha vermelha ao redor.
– Sabe – começou a dizer Jason enquanto se levantava, continuando em seguida: -, ser filho de Ne... Poseidon têm suas vantagens.
Percy riu alto enquanto se levantava, caminhando em direção ao calçamento.
– Ser filho de Júpiter também não é tão ruim. – ele disse, e ambos riram.
Chegaram ao calçamento e uma figura vestida completamente de negro fitava-os com um olhar frio e penetrante por baixo da sombra de uma árvore.
– Espero que já tenham terminado de brincar. – disse a figura.
– Quem é você? – disse Percy, já tirando a caneta de dentro do bolso, abrindo-a com um click e apontando a lâmina de bronze para a figura.
– É assim que você trata um sogro, Perseu? – disse ele, saindo de debaixo da sombra, seu rosto pálido sendo banhado pela luz fraca do luar.
– Hades? – perguntou Percy, visivelmente confuso.
– E também Plutão – corrigiu Hades/Plutão, dando um relance de olhar à Jason. – Agora todos estão com ambas as formas romanas e gregas em plena harmonia. Mas não é por isso que eu estou aqui.
– Então por que é? – perguntou Percy.
– É Nico. – respondeu o deus. Ao ouvir o nome do filho de Hades, Percy abaixou a espada e seu olhar mostrou preocupação.
– O que houve com ele? – ele perguntou, colocando a agora caneta no bolso.
O deus exalou todo o ar dos pulmões, e depois disse:
– Ele pulou no Lete.
– Ele o quê? – perguntaram Jason e Percy em uníssono.
– É isso mesmo – ele afirmou com a cabeça, continuando: — E eu não posso tocar aquelas águas, então preciso de sua ajuda, Perseu Jackson.
Percy nem hesitou. Correu até o lado do deus e colocou a mão em seu ombro, e logo os dois afundaram em suas próprias sombras.
Em seguida, Jason pediu a ajuda dos ventos novamente, flutuando no ar em direção ao Acampamento Júpiter.
Quando chegaram do outro lado da sombra, eles estavam no Tártaro, próximo à margem do Lete e Percy rapidamente avistou Nico, flutuando pelas águas, sendo virado e revirado pelas correntes, e o filho do mar não pensou duas vezes: correu na direção da água, se jogando como um nadador profissional nas águas.
Teve de lutar fortemente para que nem uma gota sequer tocasse nele, para que não perdesse as memórias que há pouco havia recuperado. Agarrou a mão de Nico, envolvendo rapidamente ambos numa bolha de ar e desejando que o corpo dele estivesse totalmente seco, e assim se fez.
Com o filho de Hades carregado nos braços Percy impulsionou a bolha para cima e para frente e foram como que cuspidos do rio, aterrissando na terra poeirenta e batida do Tártaro. Percy colocou o corpo de Nico de costas no chão e braços abertos, e tocou-lhe o peito, e quase que imediatamente um chafariz de água saiu pela boca do filho de Hades, enquanto ele tossia mais água sobre o chão, que absorveu o liquido como uma esponja. O rosto dele estava branco e os lábios roxos. Ele ainda tossia quando Percy, eufórico e feliz se inclinava sobre ele e lhe beijava os lábios gelados, sentindo o desespero sair de suas costas. Nico abriu os olhos e viu Percy sobre ele, se inclinado para mais um beijo, e automaticamente afastou o corpo dele, e o filho do mar caiu sentado, observando Nico se levantar, limpando os lábios com as costas das mãos.
– O que você pensa que está fazendo? – ele exclamou, o rosto vermelho. Ele se levantou, e quase se desequilibrou, mas Percy lhe segurou pelo braço; mas Nico se desvencilhou do aparo com um movimento brusco. – Não me toque! – ele olhou para Percy com seus olhos negros como ônix, e acrescentou; — Quem é você?
Percy, inicialmente, ponderou que fosse uma piada, e olhou confuso para o deus, mas ele não precisou dizer nada, pois se lembrou dos efeitos das águas do Lete.
– Mas é claro – disse Percy, batendo levemente na testa com os dedos, amaldiçoando a si mesmo pela lerdeza em momentos tão importantes. – Ele não se lembra de nada.
– Lembrar do quê? – perguntou Nico, confuso. Percy olhou para ele e fez um rápido teste.
– Você sabe quem é?
– É claro que eu sei! – ele disse, colocando as mãos na cintura, mas hesitou, olhando para todos os lados. – Ehr... Bem... Eu não sei. Quem sou eu?
Percy bufou, mas conseguiu sorrir, apesar dos acontecimentos que se desenrolavam, um atrás do outro.
– Você é Nico di Angelo, por hora é o suficiente saber apenas isso. – disse Percy, em seguida olhou para a figura impotente e visivelmente decepcionada do deus Hades/Plutão, e imaginou como seria a sensação de ter um filho diante de você que não sabe quem é você. – Ehr... Poderia nos levar de volta ao Acampamento Júpiter? Lá é melhor para a gente ver o que fazer em seguida.
O deus assentiu com a cabeça e colocou a mão fria no ombro de Percy, e ele por sua vez estendeu a mão para um Nico confuso e totalmente perdido, dizendo:
– Segure em minha mão para irmos a uma viagem que tenho certeza que você vai gostar.
Nico hesitou, mas enfim tocou a mão de Percy, e o filho do mar notou que ele tinha o rosto levemente corado, e evitava olhar nos olhos dele. E esse simples gesto de vergonha acalmou o coração de Percy, que havia pensado que nunca mais teria o antigo Nico novamente ao seu lado. Com a mão dada a Nico e com Hades/Plutão a tocar-lhe o ombro, os três afundaram nas sombras, Nico olhando com olhos arregalados e boca escancarada num grito mudo, enquanto a parte de baixo de seu corpo afundava nas sombras abaixo dele mesmo.
Havia sido complicado e confuso ter de explicar a todos o que havia acontecido, desde a ressurreição de Percy até um Nico sem memórias; mas após alguns longos minutos, todos entenderam. Annabeth havia explicado que o Lete apaga totalmente as memórias, porém há chances de se recuperar as memórias aos poucos; com o passar do tempo, e com estímulos, como por exemplo, lugares que a pessoa costumava muito visitar antes da perda, a recuperação se aceleraria um pouco, mais ainda seria longa.
– Mas Percy – começou Annabeth, olhando para o filho do mar com um olhar confuso -, isto também significa que... – ela hesitou, olhando ao redor, e Percy assentiu, incitando-a a continuar. Já estava na hora de deixar de esconder. -... que ele não se lembra de nada que vocês dois fizeram, ou o que ele sentia por você.
Percy olhou para Nico, que estava andando por entre as construções de mármore branco quebrado, admirando tudo ao redor, desde as construções, até aos campistas de armadura, e os faunos que passavam trotando por entre as ruas. Seus olhos brilhavam de excitação e ele apontava histericamente para todo lugar, gritando para Percy: “Você viu isso? ELES TÊM PERNAS DE BODES!” ou “Isso é fantástico!” e também “Eu nunca pensei que isso pudesse existir!” e um dos gritos que acendeu a esperança de Percy “Isso parece com as coisas que tem naquele jogo que eu gosto! O MITOMAGIA É REAL!”
– Eu acho – começou a dizer Percy, ainda olhando para um Nico que ele aprendera a amar, num tom de voz meditativo e distante, avaliando os possíveis acontecimentos que poderiam ocorrer, e concluiu com um leve sorriso no rosto: — que posso ensiná-lo a me amar novamente.
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