Eyes That I Love Both (REMAKE)
11 Sentimentos Contraditórios
Notas iniciais
“Iriam juntos para Tokyo.”
Sim, era esse o desejo no coração de Nico, e foi graças a esse desejo ardente que o filho de Hades conseguiu suportar os acontecimentos confusos que se seguiram: o desaparecimento repentino do filho do mar; Gaia reerguendo-se sedenta por vingança, movida por ódio; os planos confusos dos deuses do Olimpo. A profecia que rondava em ambos os Acampamentos. Era tudo tão confuso... Mas desde que Percy estivesse bem, Nico poderia se sentir um pouco melhor, sabendo que sua felicidade, o único motivo restante de seu amor, estava bem.
Era uma tarde como todas as outras: agitada; porém essa tarde era uma agitação em um lugar um pouco diferente de todos os outros. Nico não estava no Acampamento Meio-Sangue, mas sim no Acampamento Júpiter. E esse era um dia particularmente estranho, cheio de surpresas agradáveis e outra nem tanto.
Percy, o filho de Poseidon que estava a muito desaparecido, havia chegado de alguma forma no Acampamento Júpiter. Nico sabia que não deveria interferir nos planos nos deuses; principalmente nos planos dela; pensou Nico, referindo-se à Hera, ou sua forma romana: Juno. Os conflitos de personalidade dos deuses estavam cada vez mais intensos, e por esse motivo Nico evitava ao máximo fazer visitas ao mundo inferior, com medo de como poderia ser a outra personalidade de seu pai. Fora um teste de tamanha dificuldade fingir que nunca antes havia visto Percy que Nico pensou em desistir; teve de sufocar a alegria de ver novamente aquele par de esferas brilhantes; teve de se controlar para não se jogar nos braços dele e chorar de alegria por finalmente vê-lo depois de tanto tempo, e acima de tudo por ele estar bem – confuso e perdido, mas bem. Estava na companhia de Hazel, sua meia-irmã, filha da forma romana de Hades: Plutão; e Frank Zhang, o asiático grande e robusto com rosto de bebê, filho da forma romana de Ares: Marte.
Ele lhe contou resumidamente a história de como chegou ao acampamento Júpiter, com os acréscimos dos relatos de Hazel e Frank. Percy contou que sua mente era apenas um branco; sem memórias completas, apenas fragmentos sem sentidos. Mas havia um nome; um nome de alguém muito especial para ele. Por um momento Nico havia pensado que seria seu nome, já que Percy tanto insistira que o amava. “Eu te amo, Nico.” Essa frase ainda ecoava profundamente em sua mente, e sempre lhe dava lembranças quentes e agradáveis daquela noite com o filho do mar. Mas não era o seu nome que ele se lembrava. Era o nome de Annabeth Chase, e o que ela poderia ser para ele: sua amada namorada. Nico instintivamente cerrou os punhos fortemente, fazendo as unhas se enterrarem com força na carne das palmas das mãos ao ouvir o nome da filha de Atena; ela sempre lhe causava esse sentimento de ciúmes e raiva. E um sentimento de traição por parte de Percy passou rapidamente por sua mente, mas ele tentou afastar o pensamento, pois o filho do mar não tinha culpa de nada disso; a culpada era ela, a maldita Juno (ou Hera, tanto faz). Por Hades!, como era difícil conversar com ele, fingindo nunca o ter conhecido antes! Era quase torturante!
Enfim ele foi embora; tinha algo mais importante e urgente a fazer, e Nico agradeceu por sua ida; agora poderia se sentir triste e ao mesmo tempo aliviado. Recostou-se no tronco áspero de cascas grossas de um pinheiro marcial, grande e antigo. Nico usava sua clássica calça jeans preta, uma camiseta das caveiras dançantes, um all star preto; seu cabelo, como sempre era a massa desgrenhada e negra; sua espada de ferro negro ameaçadoramente grande e de gume assustadoramente afiado estava atada ao lado de sua cintura, o ferro negro cintilando em linhas finas e brilhantes.
Agora ele conseguia empunhar normalmente a espada; o ferimento há muito já havia curado e se cicatrizado, e quando Nico a empunhou pela primeira vez depois do ferimento estar totalmente curado foi para extravasar a raiva dentro de si. Raiva do quê?, perguntava-se ele. Mas no fundo não era raiva alguma. O filho de Hades apenas procurava um sentimento que pudesse se sobrepuser acima da imensa saudade que sentia dentro de si. Uma parte dele também se culpava por isso.
Desde o dia que havia dormido com Percy, Nico não havia posto nem um pé sequer no CHB. Tinha medo e vergonha de se encontrar com Annie, mesmo ela já sabendo de tudo e não tendo nenhuma relação com Percy, segundo este havia dito. Ela deveria estar tão preocupada quanto Nico estava em relação ao desaparecimento de Percy. Nico tinha total consciência de que Annabeth ainda gostava de Percy, isso não tinha nem como discutir ou esconder, e nesse exato momento ela muito bem poderia estar cruzando os céus montada em uma carruagem de pégasos, à procura incessante dele.
Nico respirou fundo e decidiu caminhar para expulsar a inquietação.
Andava de cabeça baixa por entre as grandes construções de mármore branco reluzente, fitando os próprios pés levantar poeira a cada passo.
– Olá, Nico Di Angelo. – chamou uma voz à sua frente. Nico parou e levantou os olhos para fitar a dono da voz. Droga. Por que logo ele?
– Olá Octavian. – disse Nico, com um profundo e proposital desanimo em seu tom de voz, colocando as mãos no bolso. O garoto a sua frente era poucos centímetros maior do que Nico. Tinha um cabelo loiro como palha, que caía dividido no meio da testa; seus olhos eram de um azul opaco; frio, e seu rosto era uma máscara de mármore branco, sem expressão. Usava a clássica toga roxa passada sobre os ombros e fixada à cintura sobre a túnica branca que se estendia até as pernas. No lado esquerdo da cintura havia uma adaga cerimonial que reluzia, e no lado direito havia dois ursos de pelúcias atados com fios de couro um pouco abaixo da cintura. Ele se aproximou em passos lentos na direção de Nico, analisando o rosto do filho de Hades – Plutão ali. — Você está se sentindo bem? – perguntou ele, com falsa preocupação, acrescentando em seguida: – Está com uma feição abatida desde que conversou com o garoto que chegou há pouco.
Nico engoliu em seco. Octavian podia ser alguém extremamente irritante, mas era perspicaz, e quando não ia com a cara de alguém, fazia de tudo pra ferrar essa pessoa.
– Em que isso te importa? – rebateu Nico, olhando com seus olhos negros que brilhavam de ódio no fundo dos olhos azuis do agoure.
– Mas que reação inesperada, Nico. – disse ele com um débil sorriso nos lábios finos e rosados. – Eu me preocupo com cada pessoa que vem até aqui.
Nico nada respondeu. Continuou em silêncio, fitando o rosto de Octavian.
– Você não acha um pouco estranho, Nico? – perguntou ele enquanto andava ao redor de Nico, olhando para as construções que se erguiam ao redor deles. – Ele apareceu do nada durante a noite, e a própria Juno com ele, dizendo coisas maravilhosas sobre ele, que seria importante e blá, blá. – Ele respirou fundo, e olhando para o horizonte, refletiu: — Ele diz não se lembrar de praticamente nada, além de um nome: Annabeth. Mas o que achei mais estranho é aquela camiseta estranha dele; na verdade me é vagamente familiar, só não me lembro de onde. Tem letras estampadas, mas estão demasiadas gastas para poderem ser lidas. – Ainda bem, pensou Nico. – E aquela espada dele... Aquele material... Aquele símbolo na empunhadura... – Ele ergueu o rosto para Nico, os olhos brilhando de algo que Nico especulou ser raiva, e disse devagar e com tom de voz baixo como um sussurro: — Aquele colar de contas no pescoço. Não lhe é estranho, Nico Di Angelo?
– Não. Ele é apenas mais um que estava perdido por aí e...
– Mas é claro que não lhe é estranho... – Cortou ele rapidamente. O agoure bateu levemente com os quatro dedos da mão direita na testa. – Afinal, você chegou aqui da mesma forma. – Ele olhou no fundo dos olhos negros de Nico com aqueles malditos olhos que pareciam sondar o âmago de sua mente. Nico não podia contar que quando chegou no Acampamento foi trazido diretamente pelo próprio pai, Hades, dizendo que era muito importante ele saber sobre a existência de ambos acampamentos. O agoure olhou para ele com aqueles olhos frios e calculistas e perguntou ameaçadoramente: — Quem é ele? – ele se aproximou mais um passo na direção de Nico. -Quem é você?
Nico recuou um passo instintivamente.
– O-o que você está insinuando, Octavian? – perguntou Nico com voz trêmula.
– Nada. Não estou insinuando nada. – respondeu ele rapidamente, as mãos erguidas balançando negativamente em frente ao rosto; deixou-as cair ao lado do corpo, e disse: — Eu tenho certeza.
– Certeza de quê? – perguntou Nico, o coração batendo forte no peito, com medo do que poderia acontecer.
– Certeza de que você já o viu antes; que o conhece de algum lugar. – Ele levantou os olhos para o céu, e inspirou profundamente o ar com os olhos fechados. — Ah. Sinto cheiro de traição.
Nico não conseguiu responder. Olhava atônito para o garoto à sua frente com olhos esbugalhados e suor brotando em gotículas pequenas e quentes em sua testa. Sentia raiva do agoure, e também medo.
– Não seja tolo, Nico. – continuou ele, se deliciando com a expressão no rosto do garoto. – Eu estava observando vocês conversarem, e percebi que quando ele disse o nome da garota que provavelmente poderia ser a namorada dele, você ficou realmente inquieto. Eu diria até nervoso.
– B-bobagem. – enfim conseguiu ele dizer, gaguejando. Sentia a garganta e os lábios secos.
– Será? – questionou ele, seus olhos brilhando. – Eu tenho apenas duas explicações palpáveis para essa reação. A primeira seria que você conhece a garota ao qual ele se referiu à apenas um nome flutuando em sua mente, ou a segunda que seria que você a odeia... Por ela ser a namorada dele, suponho. O que significa... – ele sorriu. Nico não reagia; e não tinha como. O que poderia dizer? Às vezes Nico pensava que apenas Percy era lerdo o suficiente para não perceber que o filho de Hades gostava dele, quando todos tinham essa pequena sombra de dúvida, embora tivessem medo de perguntar ou dar vida a essa dúvida. Mas Octavian, parado em sua frente, fazia essas dúvidas jorrarem de seus lábios venenosos como a mais pura verdade que era. Ele concluiu: -... Que você gosta dele.
– Eu acabei de conhecer ele. – Nico havia se recuperado e conseguia manter e voz mais firme e controlada. – Eu nunca antes ouvi falar dessa garota que ele chama de Annabeth, e eu tenho absoluta certeza que eu não gosto dele.
Octavian apenas balançou lentamente a cabeça em negativa, os olhos baixos e expressão de falsa decepção.
– Pobre Nico. – ele virou as costas para Nico, e olhando por cima dos ombros disse: — Não se preocupe. Logo tudo ficará muito bem esclarecido e descobriremos a verdade. – e depois se afastou a passos lentos por entre as ruas.
Quando Nico enfim teve certeza que estava sozinho, fechou e mão direita em um punho fortemente cerrado e socou com força uma parede de mármore liso ao seu lado, mordendo o lábio com força e se amaldiçoando por sua impulsividade quando se trata de Percy.
Nico havia negado tudo, só que era quase óbvio que suas negações eram mentiras; até ele mesmo sabia que eram mentiras, e a essência de uma mentira bem elaborada é acreditar que ela era real. Mas como ele poderia acreditar na mentira que não gostava de Percy quando esse sentimento queimava tão intensamente dentro dele? Era impossível. Ele teve vontade de voltar a encontrar com Afrodite, para colocar tudo em panos limpos. Nico tinha uma leve e tênue sombra de desconfiança de que havia os dedos maliciosos da deusa na mudança súbita de amores de Percy; mas ele havia gostado dessa mudança, e em seu íntimo ele estava agradecido à deusa.
Um sentimento tão forte não desaparece tão rapidamente, ele pensou consigo mesmo, se sentindo novamente triste e abatido.
[Is this what you call love?]
O medo de perder Percy fazia seu coração doer profundamente. Nico sabia que não poderia competir com a loira de olhos prateados; acima de tudo ele sabia que não poderia exigir que Percy ficasse com ele; não poderia obrigar.
[This is a war I can't win!]
Nico sentia os olhos arderem pedindo licença para caírem em prantos, mas conseguiu se segurar e reprimir as lágrimas involuntárias. E ainda tinha mais um compromisso naquele mesmo dia fatídico: tinha que participar do conselho onde debateriam o que fariam a seguir a respeito do filho de Netuno. Nico teria de encarar novamente Percy, fingindo que não o conhecia, escondendo os sentimentos e aparentar indiferença; Octavian também estaria lá, analisando todos os rostos ao redor com aqueles olhos azuis frios e repletos de ódio. Nico respirou fundo e andou até o local estabelecido para a reunião.
Tudo correu bem – ta, nem tanto. – e quando enfim tudo terminou Nico desapareceu mais rápido do que quando entrou, ansiando pela companhia gentil, calma e acolhedora de sua meia-irmã Hazel.
Aquela noite, Nico e Hazel conversarem até altas horas da noite, cobertos pela luz tênue e aconchegante da lua. Aparentemente Octavian não comentou nada com ninguém, pois a agitação era normal. Ele se despediu da irmã e andou até as árvores; lá adentrou nas sombras de um grande pinheiro, caindo no abismo escuro e sem vida, e quando chegou do outro lado, estava no mundo inferior, muito distante do palácio negro do pai. Uma grande figura vinha andando nas margens de um dos rios que corria pelo Mundo Inferior, o Lete, conhecido por suas águas que derretiam e apagavam as lembranças. Poderia ter sido ali mesmo que Percy pudesse ter perdido as memórias, mas Nico achava que o mais provável era que suas memórias tivessem sido roubadas, já que algumas ainda pulsavam na mente do filho do mar e algumas outras eram apenas fragmentos. A figura se aproximou mais, e quando avistou o rosto de Nico sorriu e avançou em passos rápidos, abraçando-o com braços enormes e firmes.
– Oi Amigo De Percy Jackson! – exclamou Bob, o titã sem memórias.
– Ah, Olá Bob. – conseguiu responder Nico. – Por favor, me ponha no chão... – o filho de Hades arfou por ar. – Esta me... sufocando.
O titã pousou-o gentilmente no chão, e Nico ergueu os olhos para o rosto preocupado do titã. Ele tinha uma aparência assustadora – mesmo empunhando uma vassoura como espada e usando roupa de faxineiro – mas era muito gentil, atencioso e amigável.
– Desculpe. Bob não fez por querer.
– Sem problema, Bob. – acalmou-o Nico, sentando-se no chão frio e poeirento do Mundo Inferior, um pouco distante da margem do Lete, acompanhando as água com os olhos. – Passei por coisas piores hoje.
– Amigo De Percy...
– Meu nome é Nico, Bob.
– Desculpe. Ehr... Nico está triste? – perguntou ele, abaixando-se desengonçadamente para se sentar de frente para Nico no chão. – Bob pode cantar para alegrar Nico.
– Não, não precisa Bob. Estou melhor. – ele olhou para cima; para o rosto do titã e disse: — Eu vi Percy hoje, Bob.
– Percy! – gritou ele, batendo palmas. – Como está Percy, Amigo De Bob?
Nico olhou para o Lete novamente, percorrendo com olhos pensativos o curso do rio até onde desaparecia por entre os grandes pedregulhos avermelhados.
– Ele está ótimo. – melhor do que eu e você, quis dizer Nico, mas se conteve. Bob sorriu com a notícia, e Nico acrescentou uma mentira: — E ele te mandou um oi e disse que em breve viria te visitar.
O titã sorriu e assentiu fervorosamente com a cabeça, e fitando as águas calmas do rio do esquecimento, Nico se viu novamente pensando nos olhos de esmeralda de Percy e novamente sentiu seu mundo desabar sobre suas costas frágeis.
Nico queria poder esquecer o dia em que conhecera Percy.
Queria poder tirar da cabeça a imagem do filho do mar que insistia sempre em voltar.
Queria esquecer – por mais que tivesse gostado – daquela noite.
Queria esquecer tudo.
Olhou para as águas e cogitou a possibilidade de se jogar ali, ser banhado por aquela corrente que levaria embora todas as suas memórias; mas desistiu quando percebeu que também se esqueceria de sua mãe, de Bianca, de Hazel, e de todos que gostava, e isso também incluía ele. Nico queria esquecê-lo e ao mesmo tempo não queria.
– É tão contraditório. – disse ele em voz alta, deixando seus pensamentos saírem por seus lábios.
– O que? – perguntou Bob, o titã.
– Nada, esquece. – disse ele, mas o que realmente quis dizer foi: o amor. Ele queria perguntar ao titã como era perder a memória e não saber nem mesmo quem era, mas não; ficou temeroso de que o titã recobrasse as memórias, então se limitou a continuar ali, olhando o rio seguir lentamente seu curso por entre o Mundo Inferior. Depois de alguns minutos Bob também se foi, dizendo que tinha que voltar ao palácio para ajudar, e Nico ficou sozinho. Novamente sozinho. Sozinho com seus pensamentos perturbantes e confusos.
– Tenho de procurar as Portas da Morte. – disse Nico se levantando e andando sem rumo, procurando incansavelmente pelas Portas da Morte.
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