Eyes That I Love Both (REMAKE)
8 Reação Errada
Notas iniciais
Era um quarto modestamente grande, o de Percy Jackson.
Havia uma escrivaninha de madeira lisa e reluzente a alguns passos no lado direito da entrada com uma cadeira macia e com rodas, virada de costas para a janela; havia também uma estante com livros didáticos e alguns poucos de literatura – embora ele já soubesse que fosse praticamente impossível para semideuses lerem a língua normal como inglês, já que estavam acostumados com o grego antigo – que há muito pareciam estar ali sem nunca serem tocados; havia um guarda roupa pequeno, com duas portas e duas gavetas inferiores e em frente ao guarda roupa, havia a cama de solteiro de Percy Jackson, com um colchão espesso e macio forrado com um lençol branco e dois travesseiros próximos à cabeceira da cama, e ao lado dela havia um criado-mudo com um relógio digital e um abajur de tecido ao lado; A janela do quarto dele era um retângulo pequeno exatamente em cima da cama, lançando grossos feixes da luz tom caramelo que a lua emitia do céu através de suas persianas abertas. Percy apertou o interruptor ao lado do umbral da porta, fazendo o majestoso e belo brilho dourado desaparecer com a luz branca da lâmpada.
– Nico – chamou a voz de Percy; Nico ergueu os olhos para o rosto cansado de moreno à sua frente. – Tem um colchão em baixo da cama – continuou ele, apontando com o indicador da mão direita o colchão enrolado em baixo da cama. -, você pode estender ele no chão ao lado da cama e dormir.
Nico assentiu com a cabeça, e enquanto Percy se agachava para pegar o colchão em baixo da cama, perguntou confuso:
– Mas não havia um sofá na sala? Eu poderia dormir lá...
– Ah, sim, o sofá! – Percy bateu levemente com a palma da mão direita na testa. – Bem, é que a Srta. O’Leary o destruiu enquanto tentava pegar um rato...
Nico imaginou a cena em sua mente: uma enorme pata envolta em pêlo negro e denso acertando um pequeno e frágil sofá, fazendo-o voar pela janela em uma chuva de destroços. Não conseguiu segurar um riso leve.
Percy apoiou o colchão na porta do guarda roupa de madeira cor de azeviche, e deu a volta na cama em direção ao banheiro que tinha no quarto. Nico andou até o colchão, abriu-o e o colocou no chão, pegando um travesseiro macio da cama de Percy, e como todas as outras coisas no quarto – inclusive o próprio quarto – tinha o cheiro dele: maresia. Nico aproximou o tecido macio da fronha do travesseiro ao nariz e inspirou a suave fragrância até seus pulmões, e uma sensação estranha e boa percorreu seu corpo, desde a nuca até a ponta dos dedos do pé; mas um barulho de água no banheiro em que Percy entrara o assustou e Nico colocou rapidamente o travesseiro em cima do colchão.
Percy voltara, se encaminhando ao guarda roupa próximo a Nico com um sorriso idiota no rosto. Junto de seu cheiro habitual, estava impregnada também uma leve fragrância de menta e hortelã. Abriu as portas duplas do móvel e retirou de lá um cobertor fino e leve, embora estivesse calor dentro do quarto dele, e Nico o olhou com um olhar assustado, como que dizendo: Você não está sentindo o calor infernal que está fazendo? Percy olhou para Nico, sentado em cima do colchão como se estivesse meditando igual a um Buda enviado diretamente da china, e leu seu olhar confuso.
– É que eu simplesmente não consigo dormir sem cobertor, não importa o calor que estiver fazendo, entende? – Explicou Percy jogando o cobertor em cima da cama. Mas é claro que ele entendia, Bianca era exatamente assim; assentiu levemente com a cabeça com um sorriso leve no canto dos lábios à lembrança calorosa – e ao mesmo tempo dolorida e repleta de saudade — de Bianca.
Nico deixou o corpo cair para trás e sua cabeça pousou levemente no travesseiro; ele cruzou os dedos atrás da cabeça, fitando o teto iluminado pela luz branca e forte da lâmpada. Ergueu o braço esquerdo até o criado-mudo e tateou a superfície do móvel à procura do relógio digital com a palma, e quando o encontrou envolveu-o nos dedos e o levou até a frente dos olhos, vendo a hora em números que brilhavam em verde:
01h12min AM
Ergueu novamente o braço, recolocando o relógio em cima do criado-mudo. Percy havia saído do quarto, e Nico podia ouvir, ao longe, pequenos ruídos de trincos e fechaduras provenientes das não muitas janelas e a única porta sendo fechadas e trancadas, e quando o barulho enfim cessou, Percy entrou silencioso como uma sombra da cozinha escura ao quarto.
– Agora que me dei conta, Percy – observou Nico, lembrando-se de alguém que era de extrema importância, e que Nico havia gostado desde a primeira vez que vira, devido à enorme gentileza e a forma dócil e gentil com que falava e agia. – Onde está sua mãe?
– Ah, sim, eu também me esqueci de te dizer isso – começou a responder ele enquanto fechava a porta atrás de si com o pé, e depois caminhando até a cama: — Ela viajou com o Paul e só estará de volta na quarta-feira. – O moreno lhe direcionou um sorriso estranho que Nico automaticamente identificou como malicia, e acrescentou em um tom baixo, quase um sussurro: — Então teremos a casa só pra nós, para podermos fazer o que a gente quiser...
O coração de Nico e ele mesmo deram um pulo. Assustado e confuso com a súbita mudança de personalidade de Percy, Nico se sentou no colchão, com o travesseiro sobre o colo, sem conseguir reagir de forma alguma ao que lhe foi dito. Levantou lentamente os olhos até Percy, e o viu se despindo da camiseta que usava, exibindo seu corpo escultural, belo e defino. Sua pele brilhava quando a luz acertava as gotículas de suor, brilhavam como se pequenos diamante tivessem sido colocados em sua pele, fazendo-o reluzir sensualmente. Nico estava boquiaberto. Não conseguia despregar os olhos do corpo do moreno à sua frente, que nem percebia o menor fitando-o com olhos negros que brilhavam como um céu estrelado. Nico seguiu com os olhos uma fina gota de suor que se formou no pescoço do filho do mar e deslizou por seu tórax que subia e descia com sua respiração, continuando seu caminho criando uma linha úmida e brilhante em seu abdômen, contornando seu umbigo e sendo sugada pelo tecido de sua cueca branca. Nico engoliu em seco quando o passeio sensual da gota se findou, e sentia seu corpo quente, mas não por causa do calor do ambiente ou do calor que se fazia dentro do quarto; era um calor que se acendeu dentro de seu estômago, e que agora se contorcia como uma cobra flamejante dentro dele, e Nico não sabia como fazer aquele calor sumir.
Percy virou a cabeça na direção de Nico, sentando na cama, olhando atentamente para ele com um rosto atônito e totalmente ruborizado, e enfim encontrou seus olhos: dois pares de esferas perfeitas da mais pura e bela obsidiana.
– Está muito calor... – disse Percy, mais para si mesmo do que para Nico, mas o garoto assentiu freneticamente, gaguejando um “sim” sussurrante. – Então por que não tira a camiseta também? – perguntou Percy, lhe direcionando um sorriso gentil.
– Es-está tudo bem... – respondeu o garoto, fitando os dedos entrelaçados em cima da perna.
Percy assentiu e depois brincou:
– Você vai derreter todo. – E ao dizer isso, imagens rápidas como um flash passarem em sua mente: Nico deitado em sua cama, ofegante e suado, totalmente despido de roupa; eram imagens do sonho que tivera na madrugada em que o filho de Hades foi embora após um pesadelo. Sentiu um calor bem-vindo invadir seu corpo, começando no interior do estômago e se dividindo entre seu peito, e outro mais atrevido que desceu rapidamente até abaixo da sua virilha, esquentando seu membro, que quase que imediatamente ficou ereto, pressionando fortemente o tecido da calça jeans. Percy se jogou rapidamente em cima da cama, para esconder a excitação e a protuberância que se elevou em sua calça.
Nico ainda não conseguia tirar a imagem do corpo de Percy de sua mente. Seu coração martelava no peito, parecendo que a qualquer momento poderia rasgá-lo e sair pulando por aí.
Percy havia se jogando na cama, mas Nico continuou sentado por alguns segundos, sem saber o que fazer, quando enfim se recuperou e se deitou de lado, encarando a porta escura do guarda-roupa, de costas para a cama e para Percy; Nico ouvia a respiração pesada dele, mas o quarto era só silêncio, mas sua mente não... Ela era um turbilhão de pensamentos e sentimentos.
Nico sentia que tinha de falar algo; tinha de fazer algo, mas não conseguia saber o que era, e nem por que havia tanta urgência nesse pensamento; como se seu futuro dependesse disso.
Quanto mais você suprimir isso, mais vai te esmagar...
Nico afundou o rosto no travesseiro, sentindo o peso dessa frase; sentindo o peso da verdade que era essa frase. Ele tinha de falar para ele tudo que sentia, mas simplesmente não conseguia, ficava entalado em sua garganta como uma rolha, e se sentia sufocado.
Conte logo a ele!, Disse uma voz brava em sua mente (a dele).
Eu não consigo... Respondeu sua própria voz, também em sua mente.
Pelo menos tente! Não seja uma criança chorona e medrosa, Nico!
Não há nada mais encorajador do que ser insultado por você mesmo.
Nico respirou fundo, sentindo um nó em seu estomago e o palpitar forte e constante do coração em seu peito retumbante. Estava prestes a chamar o nome do filho do mar quando foi surpreendido pela voz dele chamando seu nome, distante e baixa como um sussurro:
– Nico... Eu tenho que te contar uma coisa... – Nico esperou em silêncio pelo quer que fosse que ele tinha a lhe dizer, não temendo nada, pois o que ele diria se Nico tivesse conseguido falar, com certeza seria muito pior. Após alguns segundos Nico ouviu o rangido da cama e olhou por sobre o ombro, vendo Percy sentado na beirada da cama, suas costas sendo banhadas pelo brilho da lua através da janela; apoiava os cotovelos nos joelhos e as mãos pendendo no vazio, seus olhos fitavam os próprios pés com uma expressão triste que fez o coração de Nico doer, e ele desviou o olhar. Ele continuou logo em seguida, com uma voz hesitante: — Sei que isso pode parecer estranho... Mas eu tenho que dizer... – Uma pausa. – Eu gosto de você.
Os dois ficaram em silencio, ambos ouvindo a respiração um do outro. Nico pensava que, outra vez seus ouvidos o estivessem enganando, mas quando Percy repetiu, com uma voz mais firme e decidida, Nico, não sabendo por que, riu baixo e disse:
– Já está tarde Percy. Pare de brincar.
Percy sentiu como se um soco revestido de cota de malha o havia acertado na boca do estomago. Ficou sem ar, com os olhos esbugalhados fitando o escuro. Certo, está certo que Percy era um palhaço na maioria das vezes, mas agora ele estava falando realmente sério. Tomou coragem e disse, com os punhos cerrados fortemente acima dos joelhos:
– Eu não estou brincando...
Nico mordia com força os lábios com força, mas ignorava a dor.
–... Eu gosto de você...
– Pare com isso... – Nico ouviu a própria voz dizer, embargada pelo choro que ameaçava subir por sua garganta, soando quase como um sussurro.
– Nico, por favor... – Percy se levantou da cama, e olhava na direção de Nico; ele não via o moreno alto, mas podia sentir seu olhar penetrante.
Por que ele está fazendo isso?, perguntava-se Nico. Ele não sabe que está me machucando com essa brincadeira?
–... Me escute...
Nico explodiu.
– PARE COM ISSO! – Seu grito ecoou pelas paredes do quarto, e só não foi ouvido por toda Nova York porque a janela estava fortemente fechada. Ele não queria mais ouvir; estava cansado de todos pensarem que ele era um morto frio e sem sentimentos. – Pare com essa brincadeira... Não tem graça... – Disse ele, e as lágrimas já se formavam em rasas poças quentes e salgadas em seus olhos.
Percy, parado em frente à cama, olhando o vulto de sombras que era a forma de Nico deitado no colchão no chão, estava confuso. Nico não lhe dera tempo de dizer nada, e já havia explodido... Essa era a pior reação possível, e Percy não esperava por ela; mas estava decidido a continuar, mesmo que ele tapasse os ouvidos para não ouvir.
– Eu não estou brincando...
– Pare...
–... Eu realmente gosto de você, Nico!
– PARE! – Gritou ele novamente. Percy também não aguentava mais. Jogou-se em cima do vulto que era Nico, virando o corpo dele para fitar seu rosto, mas ele lutava. Percy se sentou em cima de sua virilha, afastando o rosto das mãos que balançavam freneticamente tentando acertá-lo. Agarrou os pulsos do garoto com força e os empurrou contra o travesseiro ao lado da cabeça dele. Ele lutava, mas Percy era mais forte. Colocou os pulsos do garoto acima da cabeça dele, e os apertou, com apenas uma mão; com a esquerda, ergueu o braço e ligou o pequeno abajur acima deles, passando um pulso para cada mão em seguida. Percy direcionou os olhos para fitar o rosto de Nico, mas a luz o ofuscava e ele ficou com os olhos fortemente fechados esperando os olhos se acostumarem com a luz.
– Por favor, me escute. – Dizia ele, os olhos se acostumando gradativamente à luz. – Não me importo se você gosta da Annabeth ou seja lá de quem for – o rosto de Nico era uma imagem desfocada em frente à seus olhos. -, mas eu precisava te dizer isso, eu não podia mais...
Percy se calou quando o rosto de Nico ficou nítido em sua frente.
Seus olhos estavam vermelhos e encharcados de lágrimas, e mordia os lábios com força para não soluçar. Percy esqueceu o que estava dizendo, lentamente soltou os pulsos do garoto e se levantou de cima dele.
– Desculpe... – tentou dizer ele, sentado na beirada da cama, mas sua voz falhou. Ele se sentia triste, uma tristeza enorme e impossível de se medir.
O que eu fiz?
Os soluços de Nico diminuíam aos poucos, passando de pesados e profundos a quase inaudíveis, até finalmente ser só uma respiração ofegante.
– Eu... Eu... – Nico começou a dizer quando enfim estava mais recuperado, mas não conseguiu terminar. Foi tudo tão repentino e súbito que ele pensava que era apenas uma brincadeira; e uma brincadeira sem graça. Mas quando viu os olhos cor de esmeralda de Percy através das lágrimas, compreendeu que era tudo verdade, mas não sabia por que havia agido de forma descontrolada. Respirou fundo, limpou os olhos com as costas da mão e colocou o braço esquerdo em cima dos olhos e disse com uma voz mais controlada:
– Desculpe Percy. Eu...
– Não precisa dizer nada, Nico. Eu que tenho que pedir desculpas. – Ele olhou na direção de Nico, ele podia sentir que ele o olhava. – Eu... te machuquei?
Nico sentia seus pulsos doendo e ardendo, como se tivessem colocando uma algema muito apertada nelas, e seu recente ferimento na palma da mão direita latejava fortemente, e os panos do curativo estavam empapados de sangue, mas não queria dizer que ele o havia machucado.
– Não. Está tudo bem. – mentiu ele, e pareceu a Nico que Percy havia percebido a mentira em sua voz, pois ouviu sons de passos e depois o barulho da porta se abrindo e mais passos, mas se afastando.
Nico tirou o braço de cima dos olhos e olhou na direção da porta. A luz da cozinha estava acesa.
Ele se levantou e andou a passos lentos e silenciosos até a porta, atravessou e olhou para a cozinha, onde Percy jazia sentado na cadeira em frente à mesa, com os cotovelos apoiados em sua superfície e as mãos envolvendo a cabeça num abraço solitário e triste. Nico se aproximou com o coração batendo fortemente no peito, com dois sentimentos se misturando em si. Um deles era a sensação de alegria que surgiu aos poucos quando percebeu que era verdade e que seu amor platônico também gostava dele, deixando-o um pouco além da felicidade; o outro era a tristeza pelo modo como reagiu e maior tristeza de ver Percy com uma expressão tão dolorida no rosto. Sentou-se de frente para Percy na cadeira, sem saber o quê exatamente dizer. Agora era a hora em que ele deveria também dizer o que sentia, mas não sabia como começar; o estado melancólico de Percy o deixara totalmente depressivo, e ele era o culpado. Respirou fundo.
– Percy – Chamou. O moreno não olhou na direção dele, continuou com a cabeça baixa e envolta pelas mãos. – Eu também tenho que te dizer uma coisa...
Percy levantou lentamente os olhos, com uma pequena centelha de esperança brilhando como um fósforo a ponto de extinguir sua chama fraca dentro de si. Nico olhava para ele com seus olhos negros brilhando, o rosto corado, os lábios tremiam e ele engolia profundamente a saliva a todo o momento, de forma que seu pequeno e quase invisível pomo-de-adão subia e descia freneticamente.
– Eu... – Ele hesitou, desviando o olhar para a superfície da mesa, mas continuou, olhando novamente para Percy com seus olhos escuros como azeviche: — Eu também gosto de você, Percy.
Percy arregalou os olhos, a boca entreaberta. Sua mente ainda tentava repassar o que foi dito, para ele ter absoluta certeza de que não estava ouvindo coisas, quando o filho de Hades à sua frente começava a dizer rapidamente com o rosto corado e orelhas vermelhas:
– Eu nunca consegui dizer pois eu tinha medo do que você poderia pensar e eu nunca sequer imaginei que você por um acaso poderia gostar de mim afinal você e Annabeth pareciam tão felizes juntos que eu guardei só pra mim mas quando você disse tudo aqui pra mim eu não soube como reagir então fiquei gritando que nem um idiota porque eu pensei que você estava caçoando de mim... – Ele parou, enfim. Seus lábios tremiam e seus olhos estavam inquietos, sem conseguir olhar para os de Percy por mais do que três segundos. – Desculpe. – Concluiu ele, com uma expressão de pesar e culpa, os olhos ameaçando se inundarem em lágrimas.
Percy não conseguiu segurar um riso. Parecia que haviam sugado toda a tristeza dele com um super potente aspirador de pó, deixando apenas uma enorme felicidade. Não havia mais um centelha fraca de esperança dentro dele, havia uma lareira viva e forte que queimava todo sentimento contrário.
– Por-por que você ta rindo? – perguntou Nico Di Angelo, olhando emburrado para Percy.
– Nada não. – respondeu Percy. Tirou as mãos de cima da cabeça e as pousou na mesa. Seu coração batia forte no peito e ele não sabia o que fazer ou dizer à seguir; com uma felicidade enorme dentro de si, que o fazia sorrir mesmo sem ter motivo algum.
Um silêncio sepulcral pairou sobre os dois por alguns segundos.
Nico sentia como se um peso de uma tonelada tivesse sido tirado de suas costas; se sentia mais leve e confiante. Certo, nem tão confiante assim.
O corte na mão direita ardia através das grossas faixas que o envolviam, e Nico levou instintivamente a mão esquerda ao ferimento, fazendo uma expressão de dor e reprimindo um gemido. Percy levantou-se da mesa num salto e no mesmo instante já estava ao lado de Nico segurando-lhe a mão ferida enquanto observava o sangue que manchava as faixas com profunda concentração.
– Acho que finalmente o remédio começou a fazer efeito. – Disse ele, mais para si mesmo do que para Nico. Percy lembrava um doutor que examinava uma folha de raio-X de uma pessoa com câncer maligno no cérebro. Segurou a mão de Nico por mais alguns instante e ele pôde sentir os batimentos através da leve pulsão na ponta de seus dedos; em seguida soltou a mão de Nico e contornou a mesa, sentando-se novamente à sua frente. Ficaram em silêncio por mais alguns instantes, até que Percy disse, sorrindo feito um idiota:
– Eu ainda não acredito que isso esteja acontecendo.
Nico apenas assentiu com a cabeça, concordando. Nem eu; pensou ele.
Subitamente, um toque quente em sua mão esquerda sobressaltou Nico, que olhou na direção automaticamente, e viu a mão quente e grande de Percy sobre a sua mão pequena, frágil e pálida; ele olhou para Percy com o rosto corado, e logo em seguida desviou o olhar para as mãos. Nico, lenta e hesitantemente, levanta a palma da mão esquerda e Percy entrelaça os dedos dele nos de Nico. O garoto levanta os olhos na direção das esmeraldas brilhantes que eram os olhos do filho do mar. Ele sorri. Nico cora mais fortemente, sentindo um enorme calor invadir-lhe as faces sem permissão.
– Você fica tão bonito quando está com vergonha – Disse Percy, com uma voz baixa e um sorriso no canto dos lábios finos e levemente avermelhados. Nico desvia o olhar para a mesa, e gaguejando tenta responder, mas é interrompido com o toque da mão de Percy em seu queixo, levantando o rosto de Nico até fitar o seu. Percy havia se inclinado sobre a mesa, de forma que o rosto dele e o de Nico estavam a poucos centímetros um do outro; a respiração de ambos se misturando em uma expiração quente; os olhos fitando-os um ao outro com puro desejo; os lábios de Percy se aproximando cada vez mais dos lábios finos e frios de Nico; os olhos do filho do mar fechados.
Nico fechou também os olhos quando sentiu os lábios quentes e macios de Percy tocarem os seus, se entregando ao total prazer; se entregando de corpo e alma por aquilo que não passara de puro sonho e apenas desejo antes, mas que agora acontecia realmente. Sentiu a língua quente e úmida do moreno procurar avidamente por uma abertura, e Nico não resiste e abre passagem para o caloroso beijo do portador dos olhos que ele tanto ama.
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