Eyes That I Love Both (REMAKE)
7 Outro Alguém
Notas iniciais
Sentado na cadeira de madeira polida de frente para a mesa de superfície lisa e lustrosa no apartamento de Percy Jackson e sua mãe, Nico se sentia estranho, como se estivesse entalado com grande pedaço de bolo na garganta que nem todo o refrigerante do mundo poderia fazê-lo engolir aquilo novamente; e ao mesmo tempo a sensação era boa: sentar-se de frente a Percy, observando seus olhos que pareciam duas esferas brilhosas da mais pura esmeralda bruta, e o jeito que ele comia que, por sinal, era muito engraçado.
O filho do mar comia avidamente um grande pedaço de bolo completamente azul: massa, recheio e a cobertura de glacê também azul; a única coisa que mudavam eram os tons de azul. Nico também comia o seu gênero pedaço de bolo, mas não com tanta rapidez ou ferocidade de Percy.
Nico havia tirado seu casaco e o sapato preto, de forma que estava andando descalço pela casa de Percy, sentindo o piso frio nas solas dos pés, que era uma sensação extremamente boa, após andar tanto tempo usando os sapatos. Nico usava uma calça jeans preta já um pouco desbotada e gasta, uma camiseta preta com a estampa do Black Sabbath e seu cabelo era um emaranhado de fios negros, bagunçados cada um para um sentido diferente; diziam que parecia um ninho de rato, mas Nico nunca havia visto um para comparar, então pensava uma forma melhor: parecia que havia sido pego por um furacão que os desarrumou por completo; era melhor. Sua espada negra ficara por conta de Percy para guardá-la, e ele escolheu seu quarto e lá a colocou.
Enquanto Nico comia pequenas garfadas de bolo, uma pergunta que martelava em sua cabeça há um bom tempo tomou impulso e Nico finalmente a formulou na cabeça, perguntando em seguida, após engolir um pedaço do bolo úmido e doce:
– Percy – ele chamou o moreno, e Percy olhou na direção de Nico com seus olhos brilhantes. – Desculpe a intromissão... Sei que não é da minha conta e se você não quiser falar não precisa, mas... – Nico hesitou, tomando um gole de refrigerante – sempre havia refrigerante na casa de Percy, pelos deuses – para molhar sua boca, lábios e garganta que estava secos como os de uma pessoa que passara dias no deserto, e depois continuou apreensivo: — O que você e... Annabeth... conversaram de tão sério que o fez sair durante a madrugada para “tomar ar puro”?
Percy parou de comer quando ouviu a pergunta; nem ao menos tocava a ponta do garfo no bolo macio. Parece que a pergunta não foi uma boa ideia, e Nico se arrependeu de tê-la feito quando observou o olhar do filho do mar. Percy pousou o garfo em cima do pequeno prato de porcelana branca, e ficou em silêncio pelo que pareceu quase uma eternidade, fitando o glacê de um azul profundo. Nico não sabia o que era pior:
1) O olhar melancólico e distante de Percy;
2) O silêncio quase que absoluto que pairava sobre os dois;
3) Ou a súbita vontade de abraçá-lo e expulsar aquela tristeza dele.
– Des-desculpe – desculpou-se Nico, quebrando o silêncio. – Eu não q-queria me intrometer, desculpe...
– Sem problemas, Nico. Eu precisava desabafar de qualquer forma. – Sua voz tinha um tom alto, mas forçado, como se estivesse tentando falar acima de um sentimento, tentando escondê-lo de alguma forma. Ele prosseguiu: — Nós terminamos, já faz dois dias.
Nico, de início, sentiu uma imensa felicidade se acender como uma lâmpada dentro de si, mas apertou seu interruptor rapidamente, apagando-a. Não seria nada legal ele pular e gritar de alegria – como se fosse fazer isso – quando outra pessoa acaba de terminar um namoro que parecia tão forte quantos as muralhas de um grande castelo. Annabeth é carta fora do baralho, Afrodite havia dito, quase duas semanas atrás. Como ela poderia saber? Será mais uma habilidade que a deusa tem? Nico desistiu de tentar entender mais sobre Afrodite; ela era confusa e não tinha sentido às vezes. Como o amor, uma voz doce e gentil sussurrou no âmago de sua mente, e ele se assustou com o pensamento que tinha certeza de que não era dele.
– Mas, então... – começou novamente Nico. – Se já terminaram, o que foi de tão sério? – Nico arregalou os olhos com um pensamento que passou zunindo como uma flecha por sua mente: — Mais um inimigo? A profecia de Rachel já começou?
– Não, não – Percy respondeu rapidamente, assustado; balançava as mãos na frente do rosto freneticamente. – Era sobre outra coisa; sobre outro alguém.
Nico sentiu uma grande e intensa onde de ciúme invadir todo seu corpo e mente – mesmo Percy não sendo dele, ele sentia ciúmes; isso era normal, ou não? -, e cerrou os punhos sobre a mesa. Percy agora fitava a lua que despontava no céu escuro com um olhar pensativo. Outro alguém?
Ignorando o ciúme cada vez mais presente e crescente dentro de Nico, ele estendeu uma mão – a direita – pálida e pequena e tocou a base do pulso esquerdo de Percy – que estava quente. O garoto maior a sua frente não recuou nem se retraiu ao toque; direcionou à Nico um olhar melancólico e triste e tentou um sorriso.
– Não correspondido? – perguntou Nico, retirando a ponta dos dedos da pele quente e macia Percy, voltando a comer o resto do bolo no pequeno prato de porcelana a sua frente. Percy assentiu levemente com a cabeça, a boca cheia de bolo. – Eu entendo como é. – Afinal gosto do você, que nem olha pra mim.
Percy, observando o olhar vago e distante de Nico tivera quase certeza de seus temores. Eu entendo come é, Nico dissera, provavelmente se referindo aos sentimentos que sentia por Annabeth, que não sentia nada em relação a ele.
A recente conversa de Percy com Annabeth por MdI (Mensagem de Iris) fora exatamente sobre essa especulação, e Annabeth concordou, dizendo que isso poderia explicar muita coisa e, que se realmente fosse o caso, Percy não poderia forçá-lo a nada. Ele não precisava ouvir isso dela, sabia o suficiente para entender o que é ser forçado a gostar de alguém.
O sentimento que Percy sentia e não era correspondido esmagava seu coração como um elefante pisando em uma formiga; se sentia prensado, sufocado. Queria contar tudo que sentia ao filho de Hades, mas não conseguia... Ficava entalado em sua garganta que nem o bolo que estava à sua frente.
Desde que entendeu o que sentia por Nico, Percy havia caído, literalmente, de cara nos doces, para tentar afastar as mágoas; mas sem nenhum resultado positivo. Sempre que sua mãe fazia o tão aclamado bolo azul, Percy automaticamente lembrava-se de Nico e da primeira vez que o garoto comera o bolo em sua casa; e a lembrando o deixava mais deprê ainda.
O filho de Hades olhou para ele do outro lado da mesa. Havia uma mancha de glacê azul no canto de seus lábios, mas ele nem parecia perceber. Ele disse, enquanto mastigava lentamente o bolo:
– Boa sorte para você, e que essa pessoa também sinta algo por você – havia um leve tom que Percy não conseguiu assimilar. Seria raiva? Inveja? Ciúmes? Descartou a ultima possibilidade; não era possível, afinal...
– Acho que não... – rebateu Percy, se referindo a Nico. O garoto assentiu com a cabeça, como se entendo seus sentimentos.
Eu gosto dele, mas ele gosta de outra pessoa; pensava Nico, decepcionado.
Eu gosto dele, mas ele gosta de outra pessoa; pensava Percy, cabisbaixo.
Lentamente os dois voltaram a comer, cada um, os respectivos restos de bolo que estavam em seus pratos de porcelana branca e alva, Percy com garfadas rápida e grandes, e Nico com garfadas pequenas e lentas. Percy terminou seu bolo primeiro, e quando Nico terminou o seu, apanhou os pratos e talheres de ambos e levou a louça nas mãos até a pia, onde começou a lavar a pequena louça ali formada.
Enquanto isso, Percy voltou a olhar para a janela onde, por detrás do vidro fino e transparente da janela, ela admirava com olhar distante a majestosa lua com seu brilho de tom caramelo.
– Nico – chamou subitamente Percy. Sua voz agora estava mais cheia de vida, embora ainda meio trêmula e hesitante, e Nico identificou o que seria seu característico tom zombeteiro que se segue a alguma piada. Nico interrompeu a lavagem da louça, com a mão envolta em uma luva natural de espuma. Olhou por cima do ombro até avistar Percy, olhando ainda para a janela, com os dois braços inclinados para trás, os cotovelos apoiados na base das costas da cadeira. – Você é bonito – disse o moreno, e por um momento Nico achou que seus ouvidos estivessem com algum problema ou que estivesse ouvindo coisas, mas quando se deu conta de que era tudo real, sentiu o não-bem-vindo rubor invadir seu rosto, e voltou a atenção à louça em sua frente, mas o garoto continuou em seguida: — Se você fosse um pouco mais velho e uma garota – ele podia sentir que agora Percy olhava na direção dele com seus olhos verde-mar; continuou: — eu pegava você.
Nico não sabia se estava realmente ouvindo aquilo. Ficou nervoso, com vergonha, sem reação, tudo de uma vez só. Começou a lavar a louça mais rapidamente, enquanto procurava alguma resposta que parecesse bem humorada, quando a lâmina afiada da faca que lavava muito rapidamente, deslizou por sobre a palma molhada de sua mão direita; ele sentiu a queimação e afastou rápida e instintivamente a mão, apertando o pulso com a esquerda, e a faca caiu com um tilintar alto no piso da cozinha.
Percy estava rindo, mas quando ouviu o arquejo de dor de Nico seguido do tilintar metálico, correu sem pensar na direção do garoto.
Nico pressionava o ferimento com a outra mão. O sabão espumante da louça deslizou por sobre a pele inchada em volta do ferimento e penetrou a ferida, e Nico reprimiu um grito quando a pontada de dor estremeceu seu corpo. Quando Percy chegou ao seu lado e pegou sua mão ferida ela sangrava grossos filetes avermelhados que caia em gotas no chão; Percy envolveu a mão ferida de Nico com as suas grandes, e ao mesmo tempo, delicada mãos, analisando com grande concentração e preocupação o ferimento. Por um breve segundo Nico se esqueceu completamente da dor; olhava para o garoto em sua frente, envolvendo sua pequena e pálida mão com as suas grandes a quentes, e quando voltou a atenção para o ferimento se espantou, vendo que era pior do que ele imaginara ser: um corte profundo que dividia sua palma em dois extremos, desde a base do polegar até a base do mínino, passando por sua linha da vida.
– Mau presságio; lembrou-se da voz de sua mãe, quando um dia ela acidentalmente se cortara enquanto cozinhava na cozinha de sua casa, há muito tempo atrás, antes de ser preso no Hotel Lótus. – Quando a gente machuca a nossa linha da vida, isso tem vários significados... – ela explicava para Bianca; Nico ainda não entendia muita coisa, mas ouvia. – Perda de um ente querido, amigo querido, alguém próximo; mas geralmente também pode significar a própria morte.
Nico estremeceu com a lembrança, uma das muitas calorosas e ao mesmo tempo obscura lembrança, pois, afinal, havia sido como ela havia previsto: morte própria.
Percy pegou a mão ferida de Nico, com a palma virada para cima, ligou a torneira e colocou a ferida em baixa da torrente constante de água fria. Nico sentiu uma pontada de dor que continuou por um bom tempo, como se estivessem cutucando sua ferida com várias agulhas; quase gritou, mas conseguiu transformar o possível grito em um grunhido abafado quase inaudível. Sua mãe permaneceu em baixo da torrente constante de água por alguns segundos, com Percy a olhá-la, fitando incrédulo o ferimento. O sangue escorria juntamente com a água, e caía no rolo da pia, sumindo no buraco escuro.
– Por que não some? – Perguntou Percy, fitando, com a testa franzida, o ferimento na mão de Nico. Ele não resistiu e riu, tirando em seguida a mão de debaixo da água e a envolvendo no tecido da própria camiseta.
– Porque você é o único filho de Poseidon por aqui, Percy. – respondeu Nico, fechando a torneira com a mão esquerda – a boa. – Filhos de Hades não têm habilidades regenerativas. – E isso nem é água vinda diretamente do mar, quis acrescentar Nico, mas não queria colocar o moreno ainda mais pra baixo do que ele já estava naquele dia.
Percy apenas assentiu com a cabeça lentamente, a boca entreaberta, como que se tivesse dizendo “ah, entendi”. Nico andou até a mesa e se sentou na cadeira. Sua camiseta preta estava com uma grande mancha escura de sangue onde o ferimento era pressionado com força numa tentativa de estancar o sangramento, que parecia estar funcionando, e o sangramento havia se tornado menos constante.
– Já volto. – Disse Percy, andando em direção a um corredor e desaparecendo quando penetrou nas sombras; voltou alguns minutos depois com uma pequena caixa de metal com uma diminuta cruz vermelha estampada no centro da superfície da tampa. Primeiros Socorros, leu Nico.
– Não, Percy, não precisa – recusou-se Nico, apertando a mão envolta na camiseta contra o peito. Uma linha úmida e escura de sangue escorreu de seu peito até sua virilha num deslizar quente, onde penetrou no tecido de sua cueca e parou sua descida. Percy ignorou a recusa; segurou o pulso direito do garoto e puxou-o para cima da mesa, apoiando as costas da mão na superfície da mesa.
Percy limpou o ferimento com espessa e áspera folha de gaze que rapidamente transformou o tecido branco em um tom de profundo carmesim, depois espalhou uma pasta branca por cima e em volta do ferimento que o adormeceu aos poucos, até Nico não sentir mais nada, exceto um leve formigamento, em seguida enrolou uma faixa em volta da mão, impossibilitando-a de se fechar em punho. Depois de terminado o curativo, Percy entregou uma folha de Ambrósia, que Nico mastigou lentamente, sentindo o gosto azedo e viscoso do sumo em sua boca; Percy desaparecera novamente pelo mesmo corredor, e demorou um pouco mais pra voltar dessa vez.
Quando retornou, trazia um tecido azul jogado sobre o ombro. Arremessou-o para Nico, e ele apanhou com a mão esquerda, depois de quase estender a direita por impulso; quando abriu o tecido ele percebeu que era uma camiseta regata.
– Já que a sua está toda suja de sangue, achei que iria preferir dormir com uma roupa limpa. – E sorriu gentilmente para Nico. Ele retribuiu o sorriso. Percy passou por ele e foi até a pia, onde limpou o chão com um pano velho e surrado, apanhou a faca caída e agora lavava a louça não terminada.
Nico olhou para a camiseta em sua mão: era azul, como a água do mar banhada pelo sol do amanhecer. Ele se levantou e a sua camiseta preta manchada de sangue.
Enquanto Nico estava sem camisa, arrumando uma posição para vestir a azul por sobre o corpo – Percy tinha certeza que ficaria grande, afinal era dele – Percy olhou discretamente por sobre o ombro, sem parar de lavar a louça, e avistou o garoto. Seu corpo era pequeno e pálido, embora tivesse músculos e fossem definidos. Uma linha escura de sangue já seco começava em seu tórax – que Percy examinou minuciosamente – e escorria até a virilha, um pouco abaixo do umbigo, onde uma fina linha do tecido preto de sua cueca era visível – e a àquela visão, Percy sentiu o coração acelerado e sentia uma leve excitação crescer dentro de si. Concentrado no corpo do filho de Hades, Percy se descuidou e deixou o prato escorregar de sua mão escorregadia devido ao sabão e espuma, e ele bateu com força dentro da pia, provocando um estrondo alto que poderia ter acordado até a Sra. O’leary de seu mais profundo sono; Percy virou para a louça à frente, assustado, pensando em que tinha quase sido pego.
– Tudo bem aí? – Perguntou a voz de Nico atrás de Percy.
– Aham – fez Percy em resposta, lavando a louça e com a imagem do corpo de Nico na mente.
A camiseta que Percy lhe dera era realmente grande, observou Nico, olhando para os próprios pés. Elas chegavam a cerca de cinco cm acima dos joelhos do garoto, e de estampa, havia dois peixes dourados nadando como se estivessem seguido um ou outro em um circulo sem fim. Nico gostou da camiseta. Era um presente de Percy a ele, e era possível sentir o cheiro de maresia na camiseta, e esse era o cheiro de Percy, que Nico tanto amava.
O moreno de olhos de esmeralda brilhantes havia terminado a louça e agora caminhava na direção de Nico enquanto secava as mãos em um pano de pia branco. Nico se virou para ele, junto os pés e apontou da estampa até onde a camiseta batia acima dos joelhos e perguntou:
– Serio? – Olhou para a camiseta e depois para Percy que abafava um riso mordendo os lábios.
Súbita e inesperadamente, a boca de Nico se abre como se fosse rugir e ele boceja alto e longamente. O bocejo é algo curioso, é como se fosse uma epidemia: se uma pessoa boceja quem estiver próximo também é afetado e boceja; dito e feito. Percy também escancara a boca e boceja alto, colocando a mão em frente à boca. Quando o moreno fechou os lábios, seus olhos estavam marejados d’água e ele os piscava a todo o momento.
– Vamos dormir? – perguntou Percy, já caminhando até a porta de seu quarto, sem esperar resposta.
Só se for com você e na mesma cama, pensou Nico, encaminhando-se atrás de Percy.
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