Eyes That I Love Both (REMAKE)
15 Não Me Afaste de Você
Notas iniciais
Percy acelerou nervosamente o passo quando o convés se abriu diante de seus olhos, brilhando com a luz pálida da lua.
Varrendo o convés extenso com olhos inquietos, Percy vê uma grande silhueta próxima ao grande mastro do navio. Uma silhueta grande. Ele se aproxima a passos rápidos e largos, ansiado encontrar Nico, abraçá-lo e pedir desculpas pelo modo idiota e egoísta como agiu. Ela pensava que fosse Nico que estivesse próximo ao mastro, pois o filho de Hades tinha o costume de subir no topo e se sentar lá, fitando com olhos vidrados e distantes o mar. Mas o que Percy realmente viu chocou sua mente, e ele ficou ali, simplesmente parado e sem reação, vendo Nico apertado contra o corpo robusto de Jason, beijando-o.
Percy demorou alguns segundos, tentando afastar a imagem involuntária da mente, enfim percebendo que não era uma simples imagem, mas sim o que realmente estava acontecendo, e enfim conseguiu exclamar, sentindo a raiva borbulhar como um vulcão em erupção dentro dele, dirigindo-se a Jason:
– O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO?
Instantaneamente, Nico afasta Jason do aperto em que estava envolto com seus braços num movimento brusco, e o loiro recua alguns passos tentando recuperar o controle. Nico vira o rosto rapidamente para fitar Percy que assistia a tudo com uma expressão de ódio e desapontamento.
– Percy... – foi tudo que o filho de Hades conseguiu balbuciar, com voz tremula e embargada. Seu rosto estava manchado com grossas linhas de lágrimas e seus olhos estavam vermelhos e inchados, marejados de lágrimas que ainda escorriam do canto de seus olhos negros.
O filho do mar sentiu a raiva queimar mais dentro dele e cerrou fortemente os punhos, sentindo a unha afundar na carne da palma emitindo uma dor distante ao seu cérebro. Ele olhou por cima do ombro do filho de Hades, para o rosto branco de Jason que fitava o rosto de Percy com uma expressão séria, como se ele fosse o culpado de tê-lo feito beijar Nico. E em parte ele era culpado, certo? Mas ele se recusava a aceitar essa verdade.
Com olhos que brilhavam de ódio e com apenas um vontade na mente, Percy se aproximou de Jason com passadas pesadas e largas, e quando chegou próximo a ele ergueu o punho cerrado com força, e o loiro apenas virou o rosto, esperando o que viria a seguir, preparado e sem vontade de revidar ou esquivar; e Percy fez descer um soco forte no lado esquerdo do rosto do filho de Júpiter, que cambaleou e chocou as costas na amurada com o rosto inclinado para o lado.
– PERCY! – gritou Nico, se jogando contra o corpo do filho do mar, e colocando as duas mãos no peito quente e palpitante dele, fazendo força e o impedindo de avançar na direção de Jason. – Por que você fez isso?
Percy desceu abruptamente o olhar na direção de Nico, com um olhar confuso de olhos arregalados.
– Por quê? – ele repetiu a pergunta, como se estivesse procurando algum sentido nela. – É obvio o porquê! – Ele apontou um dedo avermelhado e trêmulo de raiva na direção de Jason recostado contra a amurada. – Porque ele te beijou!
Nico não conseguiu dizer nada. Ficou apenas a fitar os olhos verde-mar de Percy tremeluzirem de raiva e alguns outros sentimentos que nunca antes Nico havia visto. Sua respiração era rápida e descontrolada e seu rosto era uma mancha vermelha, assim como suas orelhas, que pareciam queimar. O filho de Hades também estava confuso com a súbita ação de Jason, e na hora ficou sem reação. Nico ergueu olhou fundo nos olhos de Percy, com uma expressão de advertência no rosto, e ele pareceu entender, pois desviou o olhar para o lado, emburrado, mas enfim se acalmando um pouco.
– Jason – chamou Nico, andando a passos rápidos na direção de Jason, que se levantava aos poucos. – Você está bem? – perguntou Nico, e Jason olhou na direção dele, com o lábio inferior enfeitado com um talho que sangrava. Ele cuspiu o sangue misturado com saliva no convés do navio, limpando os lábios com as costas da mão esquerda logo em seguida, e, para a surpresa de Nico, ele sorriu.
– Está tudo bem – ele disse. – Acho que mereci essa. – ele apontou para a ferida no lábio e sorriu sem jeito. – Parece que vou ganhar outra cicatriz.
Ele se aproximou de Nico e colocou uma mão grande e quente no ombro do filho de Hades, e disse com voz carregada de arrependimento:
– Desculpe Nico. Eu não deveria ter feito aquilo; é só que... – ele hesitou, olhando para Percy que estava imóvel como uma estatua, com os braços cruzados na frente do peito, fitando friamente Jason. -... Você não parava de chorar e soluçar não importava o que eu falava, então eu nem pensei em nada, só fiz. Desculpe mesmo.
– Está tudo bem, Jason. – disse Nico, batendo com a palma da mão no ombro dele. – Você não tem culpa, é que...
– Não tem culpa? – Percy disse com voz grave, se aproximando de Jason e Nico em apenas três grandes passos. Nico tentou evitar uma aproximação, empurrando Percy para trás, porém o moreno era mais alto e mais forte que Nico e ele foi arrastado junto. Percy agarrou a gola da camiseta roxa de Jason e o puxou num gesto brusco na direção dele, ficando a apenas alguns centímetros do rosto um do outro, dizendo num sussurro grave que fez a nuca de Nico se arrepiar e o coração gelar. – Se você tocar nele de novo, eu te mato.
Jason fitava o chão com olhar culpado, não querendo encarar Percy nos olhos, mas o fez, e rebateu num tom de voz igualmente sussurrante:
– Então nunca mais o faça chorar, idiota.
Percy o largou, sentindo o peso da culpa acertar-lhe a mente como um projétil de um Glock .40 que os mortais usavam. Jason se afastou passou por Percy e por Nico com passadas rápidas, percorrendo todo o convés vazio, mas antes de virar no corredor, virou e disse:
– Ehr... Não conte nada para a Piper, ta? – e acrescentou logo em seguida: — Contem para ninguém, na verdade. – e desapareceu no corredor levemente iluminado, em direção a alguma cabine.
Percy e Nico ficaram ambos a fitar o chão, sem conseguirem olhar um para o outro, com o silêncio e a luz pálida da noite sobre eles.
– Desculpe. – disse Percy, quebrando o silêncio constrangedor. E depois de uma pausa, disse: — Eu menti.
Nico olhou para ele, com rosto confuso.
– Sobre o que? – perguntou o garoto.
– Sobre eu gostar da Annabeth. Eu menti.
Nico sentiu a tristeza diminuir dentro dele ao ouvir isso dos lábios dele, porém uma sensação ruim percorreu seu corpo, pesando em seu coração e Nico perguntou:
– Por que você mentiu?
O filho de Poseidon hesitou antes de responder, e antes de começar ergueu os olhos para a esfera de luz pálida e azulada da lua que pairava distante no céu acima deles.
– Por medo. – e antes que Nico pudesse perguntar, ele continuou, ainda fitando a lua, e o brilho que emanava da esfera brilhava intensamente em seus olhos verdes e intensos em reflexos azulados. – Eu passei todo o momento desde que fechamos as Portas, pensando que, na batalha final que se aproxima, eu possa morrer – Nico sentiu um dedo frio subir por sua espinha, fazendo todos os seus pêlos se eriçarem. Ele, dentre todos os semideuses, deveria ser o que mais estava acostumado com a ideia de morte, porém ele não queria nem sequer imaginar Percy morrer. Seria o fim de Nico, pois Percy era um dos maiores motivos para ele viver. -, então eu quis fazer com que você me odiasse e assim se afastasse de mim – continuou ele, abaixando os olhos na direção de Nico, que ouvia com um rosto de pedra e sem reação. – para que quando eu morresse você não sofresse. – Percy se aproximou de Nico e o abraçou, envolvendo o corpo pequeno, frágil e pálido de Nico com seus braços grandes, quentes e reconfortantes, e Nico também o abraçou, apoiando os braços nas costas quentes e angulosas do filho do mar, e percebeu que não se sentia mais confuso, triste, aborrecido ou qualquer outro sentimento negativo. Ali, entrelaçado no corpo de Percy, seu amor, num abraço simples, mas cheio de paixão ardente, Nico se sentia feliz; feliz por ele se preocupar com Nico. – Eu não queria te machucar daquele jeito... Eu só não queria que você não sofresse por mim; que você não chorasse por mim. – Percy apertou o abraço, e Nico sentiu algo úmido e quente molhar seus ombros, e o filho do mar começou a soluçar levemente. Nico nunca antes o havia visto chorando. Não assim. – Eu fui um idiota. Annabeth me fez perceber que, afinal, eu simplesmente te afastando não iria fazer você sofrer menos, ou que significasse que você não iria sofrer. – ele fungou, e as lágrimas escorriam do rosto dele caindo na camiseta do filho de Hades e algumas outras molhando seu pescoço. – Me desculpe Nico. Eu prefiro morrer sabendo que você estará sempre do meu lado, porque assim eu morrerei feliz.
Nico sorriu. Nunca me afaste de você.
– Idiota. Você não vai morrer – repreendeu Nico, acariciando os cabelos sedosos e macios de Percy. -, você prometeu que não iria me abandonar, lembra? – Percy riu, engolindo o choro.
Percy se afastou do abraço, limpando o rosto molhado de lágrimas com as costas das mãos, enquanto um sorriso estava estampado nos finos lábios dele.
– Sim, eu lembro. – disse ele, a voz ainda um pouco embargada.
Então os dois ficaram em silêncio, simplesmente olhando um para o outro; Percy com seu habitual sorriso idiota no rosto e Nico desviando os olhos sempre que eles voltavam insistentes, ao rosto de Percy.
– E aí, se reconciliaram? – perguntou uma voz distante e feminina atrás de Percy, e ambos viraram, sobressaltados, na direção da voz e se depararam com Annabeth que estava imóvel com as mãos na cintura.
– O-o-o que... – começou Nico, gaguejando e sentindo o rosto se esquentando. Tentou recuperar o controle da voz e conseguiu perguntar, ainda voz com trêmula e hesitante, cheia de vergonha: – Você está aí desde quando?
– Ah, isso não importa. – disse ela com desdém. Percebendo a forma como Nico olhava para ela, depois para Percy, e depois para o chão, ela bufou e disse, tentando acalmar o filho de Hades: — Fique calmo, Nico. Não ouvi ou vi nada de mais. – E Nico se sentiu um pouco mais calmo, mesmo sabendo que era uma mentira; uma mentira sadia. – Enfim – retomou Annabeth. – Vocês vão ir comer ou não?
Ambos assentiram, e Annabeth iniciou o caminho com um Nico envergonhado e rosto corado, e um Percy inquieto em direção à cozinha.
No dia seguinte, enquanto todos e Reyna, a pretora do Acampamento Júpiter, comiam, eles discutiam como levariam a Atena Partenos até o Acampamento, quando Nico se ofereceu.
Naquela tarde, com o sol quase a se por sobre a água resplandecente do Rio Aqueronte, ele, Reyna e o treinador Hedge, se preparavam para viajar nas sombras, acompanhados da grande Atena Partenos, brilhante e reluzente em seu corpo de ouro maciço. Todos prontos, seguravam as cordas, enquanto Nico se preparava para transportar uma estatua gigante até quase o outro lado do mundo; o ar escureceu quando a Atena Partenos e seus três acompanhantes – ou guarda-costas – afundaram na grande e densa sombra formada em baixo da estátua. Antes de afundar completamente nas sombras Nico olhou para Percy, e o filho do mar moveu os lábios dizendo três frases curtas e sem som, que aparentemente apenas Nico conseguiu ler, e o filho de Hades se sentiu feliz e um calor subiu por sobre sua barriga e esquentou seu coração. Lendo os lábios de Percy, Nico imaginou a voz dele em sua mente dizendo:
Nós nos vemos em breve. Se cuide. Eu te amo.
E não sentindo nenhuma vergonha ou hesitação, Nico respondeu apenas uma frase muda, que ao ler os lábios de Nico, Percy sorriu, com seus olhos brilhando com a luz do sol poente refletido nas águas do Aqueronte. Aquele sorriso gentil, espontâneo, reconfortante, puro e quente.
Nico havia dito:
Eu também.
E assim os três desapareceram nas sombras da Atena Partenos, viajando no vácuo escuro e sem vida que eram as sombras.
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