Eyes That I Love Both (REMAKE)
13 Consolo. Desabafo. Atitude.
Notas iniciais
Nico andava a passos decididos em direção à cabine de Percy.
Sua mente não era mais o turbilhão de pensamentos confusos, e agora ele finalmente sabia o que fazer — tudo graças a Jason.
Já era noite cerrada céu acima, e nem os pássaros cantavam.
Nico estava parado próximo a Festes, a figura de proa do navio com seu corpo de bronze cintilando à luz azulada da lua, com a espada de ferro negro pendurada na cintura e a jaqueta em volta do corpo. Ele olhava sem expressão para as águas escuras do mar, pensando em tudo que havia sido praticamente obrigado a dizer. Agora Jason sabia que ele gostava de Percy e também o que era. O filho de Júpiter insistia em se aproximar, tentando de alguma forma ajudar Nico, isso ele bem sabia; mas simplesmente não queria ser ajudado, porque não tinha como. Ele havia dito para Nico parar de se esconder, e essa verdade apunhalou seu coração como uma adaga afiadíssima, deixando-o enraivecido.
E falando nele...
Jason se aproximava a passos lentos e hesitantes, com as mãos nos bolsos de sua calça jeans azul-escuro, usando a camiseta roxa do Acampamento Júpiter, com as letras SPQR gravadas no tecido. A fraca e pálida luz da lua fazia seus olhos azuis brilharem intensamente, como pequenos faróis de neon, e Nico não podia negar que ele era realmente muito belo e atraente.
– Ehr... Olá, Nico. – saudou ele, com a voz fraca e temerosa.
Medo. Essas eram as reações clássicas que todos tinham quando estavam de frente a Nico, e não era de se surpreender. Um filho de Hades tinha a aura da morte pairando sobre ele? Nico não sabia, mas parecia que ele sempre andava com o corpo coberto de sangue, e todos temiam se aproximar dele – exceto Percy, que sempre foi tão gentil com o filho de Hades, sempre o tratando como a pessoa que ele era, e não pelo filho de quem ele era.
– Olá, Jason.
– Eu queria conversar com você, se possível... – murmurou o loiro, recostando-se à amurada do lado direito de Nico, pousando os cotovelos na madeira, fitando o rosto de Nico.
Novamente; pensou Nico, amaldiçoando-se a si mesmo. O garoto balançou afirmativamente a cabeça, incitando o loiro alto a prosseguir com seja lá o que fosse que ele quisesse dizer. Ele hesitou por alguns instantes, provavelmente procurando a forma certa de iniciar a frase – ou o sermão, pensou Nico.
– Sabe – começou ele, fitando o chão do convés. -, eu realmente quero muito te ajudar...
– Eu não preciso de ajuda. – cortou Nico rapidamente, levantando-se e pronto para sair dali, não querendo tocar novamente no assunto. Mas o garoto tocou seu tórax frágil com uma mão grande e quente, empurrando-o para trás e impedindo que Nico se desvencilhasse do sermão que viria a seguir.
–... Mas você não me deixa ajudá-lo – continuou ele, ainda pressionando o corpo de Nico contra a amurada. Ele olhou com seus olhos azuis nas esferas negras do filho de Hades, seu rosto implorando, preocupado. – Deixe-me ajudá-lo, Nico. Por favor.
Nico respirou fundo.
– Como você acha que pode me ajudar? – perguntou ele, sua voz soando mais grave do queria.
– E-eu não sei...
– Então como espera me ajudar? – perguntou Nico, empurrando o corpo para frente, tentando se libertar da mão forte que o pressionava, mas novamente a palma o empurrou contra a amurada.
– Espero um pouco, está bem? – ele exalou o ar dos pulmões pesada e longamente, e após uma pausa continuou: – Eu realmente não sei como você está se sentindo...
– Não sabe mesmo.
–... mas mesmo assim eu quero ajudar. – continuou ele, sem nem dar atenção à interrupção de Nico. Ele riu consigo mesmo, diminuído a pressão da mão contra o peito de Nico, e refletiu, mais para si mesmo: — Eu não sou tão bom conselheiro como a Piper, mas de qualquer forma eu sou a única pessoa que sabe. – ele olhou nos olhos de Nico. – Certo?
Nico hesitou. Como contar que provavelmente Annabeth sabia, assim como seu pai, Afrodite e metade de todas as pessoas que conhecia? Bem, estas últimas não diretamente, mas poderiam especular mesmo na brincadeira.
– Não... – Cedeu Nico. Acho que eu realmente preciso desabafar de alguma forma; pensou ele, decidido.
– Não? – Jason arqueou as sobrancelhas à negação.
– Não. – Nico olhou para os próprios pés. – Vou te contar algo, que pode ser ainda mais secreto que isso. – Ele ergueu os olhos para os de Jason. – Jure que não vai contar a ninguém.
– Eu juro, claro que juro.
– Pelo Estige...
– Juro pelo Estige. – cedeu ele.
Então Nico respirou fundo, e contou.
Contou do dia em que havia viajado para Tokyo, e lá havia ficado por algumas longas semanas, andando sem rumo pelas ruas da grande cidade. Sobre como se sentia em relação à Percy quando pensava que o sentimento que sentia dentro de si era proibido e impossível, e sentia o choro já ameaçando subir pela garganta enquanto relatava resumidamente os fatos. Contou da saudade enorme e súbita que havia sentido dele e da visita que havia feito durante a noite ao filho do Deus do Mar, e de que dormiu no sofá da sala dele, e também do pesadelo que teve; e foi ai que Nico sentiu as primeiras lágrimas se formaram em pequenas e rasas poças úmidas em seus olhos.
Continuou o relato, agora sem hesitar. As palavras fluíam de seus lábios como água de uma torneira aberta. Contou que havia ido embora durante a madrugada mesmo com a insistência de Percy para que passasse a noite; por algum motivo desconhecido, Nico escondeu o fato de que se encontrou com a deusa do amor e da beleza, pulando diretamente para a parte em que viajara pelas sombras diretamente para seu chalé no acampamento, dormindo e acordando apenas uma semana e cinco dias depois, o que provocou uma surpresa no rosto de Jason, que tão atentamente ouvia o relato de Nico, com uma expressão de tristeza no rosto. De alguma forma Nico pensava que ele estava sentindo a dor de Nico através de suas palavras. Contou que se encontrou novamente com Percy no acampamento e que conversaram durante o almoço, e até disse ao filho de Júpiter o assunto. Contou que se sentiu triste, com ciúmes, nervoso; a mistura de vários sentimentos confusos e fortes dentro de seu coração, e que este parecia explodir de tanta pressão. Contou que foi encontrar o pai, e que este lhe dera um frasco contendo um pó mágico que faz dormir, percebendo a grande tristeza que caía sobre o filho, entendo e já sabendo tudo que se passava.
– Então eu dormi, graças àquele pó, por dois dias inteiros. – disse Nico, a voz trêmula, sabendo que chegava aos poucos na parte mais calorosa e feliz que deixaria seu coração em cacos. – E quando acordei, com muita fome, decidi comprar um lanche em qualquer lugar que fosse, e depois de comprar, fiquei andando sem rumo pelas ruas de Nova York.
“Andei por tanto tempo mesmo depois das minhas fritas e refrigerante terem acabado. Estava quente, e escuro e eu andei sem rumo, nem sabendo onde estava; só querendo tirar ele da minha mente, mas... aquele desgraçado continuava a aparecer! E quando me dei conta, eu estava próximo à região onde ele morava em seu apartamento, e quando tentei fugir, ele apareceu, fazendo com que eu ficasse sem ação, embora estivesse com saudades. Conversamos ali mesmo, no meio da calçada; ele me falando que conversou há pouco com a Annabeth e que por causa do que eles conversaram, ele estava precisando tomar ar puro. Eu nunca soube o que era o que eles haviam conversado, mas seja o que fosse o deixou realmente muito abatido.” Nico parou para secar uma lágrima que escorria solitária em seu rosto.
– Eu tentava me afastar – disse Nico, a voz já sendo tomada pela raiva; não por Percy, mais raiva de si mesmo. – Mas quanto mais eu me afastava, mais esse sentimento ficava mais forte.
“Eu tentei ir embora, me afastar dele novamente, sentindo a raiva me queimar só dele ter mencionado o nome dela, mas eu estava sem forças, e ele me convidou para comer bolo em sua casa, e dormir lá até que eu recuperasse as forças. E assim eu fui em parte feliz por poder estar perto dele; sentir a presença dele me reconfortava e quando eu estava perto dele eu não sentia esses pensamentos em minha cabeça, mas só felicidade, embora eu tivesse que lutar para não demonstrá-la. Comemos e então fomos dormir, e foi aí que tudo ficou confuso...”
Nico interrompeu a narrativa sentindo as lágrimas voltando a encher seus olhos; a respiração ficando descontrolada.
– Nico... – disse Jason, com tom de voz baixo e gentil. – continue.
E ele continuou, sentindo a lembrança feliz machucar seu peito:
– Ele... Ele disse que estava gostando de mim, e quando ele disse isso, eu realmente pensei que fosse apenas mais um de suas brincadeiras sem graça...
– Sim, ele as faz muito. – observou Jason, sorrindo fracamente.
–... Mas não era. – continuou Nico.
– O quê? – a voz de Jason estava repleta de confusão e ele parecia estar totalmente desacreditado, assim como Nico havia se sentido. O garoto fez um sinal com a mão, pedindo para continuar. – Desculpe. Prossiga.
– Eu me surpreendi de inicio também, mas depois, não sei o porquê, eu me senti confuso e me descontrolei, tendo uma reação errada.
“Ele insistiu em continuar, dizendo que não mais aguentava guardar esse sentimento só para ele, mas eu não queria ouvir, porém ele não ligou e continuou mesmo assim, dizendo que me amava e coisas do tipo.” Nico parou, respirou fundo e continuou: “Não vou dizer que não gostei; fiquei muito feliz; feliz é pouco. E após alguns acontecimentos confusos, ele me beijou, quando eu disse que também gostava dele... E assim...” Nico hesitou, sentindo a vergonha se sobrepor à tristeza por um momento, não sabendo como colocar em palavras o que havia acontecido.
– Então nós... Nós...
– Tá. Eu entendi. – Cortou Jason com um aceno de mão, enfim aliviando a pressão contra o peito de Nico e voltando a se recostar na amurada do navio. – Então é isso.
– Mas ele parece não se lembrar de nada. – Acrescentou Nico logo em seguida, não querendo que Jason pensasse que Percy o havia enganado. – Parece que Hera – ou Juno – roubou essa memória dele.
– Entendo... Isso é realmente confuso... – Ele levantou o olhar para os olhos negros de Nico, avermelhados por causa do choro, e disse com uma voz carregada de dor: — E muito triste Nico. Eu sinto muito. Mesmo.
Nico ficou em silêncio. Será que realmente sente? Pensou ele, duvidando.
– Então – começou a dizer ele, e Nico se atentou a voz. – se ele se esqueceu, a única coisa que você tem de fazer é lembrá-lo, não?
O garoto olhou confuso para o loiro ao seu lado.
– Mas... Não é tão fácil assim.
– Não vamos saber até tentar. Quer dizer, não vai saber até tentar. – corrigiu-se.
Ele tinha razão. Nico acenou afirmativamente a cabeça, entendo a linha de raciocínio de Jason.
Nico limpou os olhos marejados de lágrimas e, por algum motivo impensável e confuso ele abraçou Jason fortemente, e engolindo o ultimo soluço disse:
– Obrigado Jason. – Ele apertou mais o abraço, enterrando o rosto nos ombros dele. – Obrigado mesmo.
O filho de Júpiter hesitou por um momento, estupefato, mas enfim retribuiu o abraço, envolvendo o corpo pequeno e frágil do filho de Hades em seus braços quentes e fortes.
– Eu só quis ajudar Nico. – disse ele. – Não tem que agradecer.
Nico se afastou do abraço dele, olhou-o nos olhos e passando por ele, andou na direção das cabines, onde em uma delas, Percy estava.
Cinco metros à frente Nico avistou a porta da cabine de Percy. Acelerou os passos, e quando chegou de frente para a porta, respirou fundo, pensando no que iria dizer ao filho do mar e, hesitante, ergueu o punho, batendo com o nós dos dedos na superfície dura e irregular da madeira.
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