Exodus
4 Tempestade de Metal
Acordamos no dia seguinte com o raiar do sol. Estávamos todos acabados, mas nos preparamos para seguir viagem para o norte. Shelley preparou o café da manhã. Saí com Lucca para tentar achar algum carro para usarmos, Nikki preparou a arma e Hina tentou pegar mais alguma coisa no rádio.
No fim não fomos capazes de achar nenhum carro que estava em condições de andar: todos tinham algum tipo de problema que impedia que dessa partida ou que funcionasse, então voltamos para a Casa. O café já estava pronto: Frutas com leite e pão. Hina não conseguiu captar nada e Nikki havia deixado a arma pronta. Tomamos café todos juntos. A comida também não estava gostosa. Todos estavam tensos.
Assim que acabamos o desjejum começamos a nos preparar para sair. Colocamos tudo o que precisávamos em três mochilas. O rádio portátil e a comida iam juntos, A Shelley levava aquela mochila. A munição para o rifle ficava em uma única mochila, que eu levava — a mais pesada. Os cobertores, mantas e água ficavam na mochila que o Lucca levava, a maior de todas. Nikki carregava o rifle nas costas e alguns pentes de munição nos bolsos. Cada um levava seu próprio celular consigo. Depois que acabamos de organizar nossos suprimentos achamos a direção norte. Íamos começar a andar para lá, mas algo inesperado aconteceu: Avistei mais aviões.
– Droga! Tem aviões vindo pra cá! – Gritei.
Todos olhamos para onde eu havia apontado. Bem na nossa frente tinha uma formação gigantesca de aviões cargueiros militares, voando um pouco mais baixo desta vez. Eles estavam jogando centenas de soldados e tanques de paraquedas
– Não acredito! Eles estão descendo tanques também! – Disse a Nikki.
– Droga! Vamos embora!
Começamos a correr em direção oposta a zona de pouso dos paraquedas. Infelizmente não era o Norte, primeiro precisávamos fugir dos soldados para depois pegar a direção certa.
Eles desceram bem no centro da cidade. Agora faz todo o sentido, bombardearam tudo até não sobrar nada para poderem mandar tropas lá. Desgraçados!
Continuamos correndo por um tempo, até não aguentarmos mais, entramos no meio dos campos agrícolas. O lugar não havia sido bombardeado, mas também não tinha ninguém por perto. Paramos em algumas casas pelo caminho para procurar por pessoas, mas não encontramos nada: tudo parecia ser sido deixado às pressas. Sentamos no topo de uma valeta feita para plantação e descansamos um pouco.
– Onde será que fica exatamente esse lugar que a guerra ainda não chegou? – Perguntou a Shelley.
– Oh, o homem do rádio disse que era no Norte – Respondeu Hina.
Parece que hoje estamos um pouco melhor do que ontem, ver aquilo tudo foi realmente um choque, mas não vamos desistir! Ficaremos juntos!
– Nós devemos voltar a andar – falou o Lucca.
– Ok, vamos indo então – Respondi.
Continuamos andando pelos campos abertos, eles pareciam ser mais seguros: eram cercados em enormes quadrados, com plantações e arbustos. Entramos em um que tinha algumas árvores no meio e um barranco bem longe, no final do campo. Dava para escutar barulho de água vindo de lá. Será que tem um rio?
– Vocês estão ouvindo isso? Parece que tem água lá na frente – Disse Shelley.
– Ahhh! Finalmente, eu estou morrendo de sede! – Resmungou Lucca.
– Certo, então vamos até lá – Falei.
– Oh, a Hina vai poder tomar água, obrigado por perceber o rio, Pablo!
Mas o quê? Como assim? Realmente, acho que percebi o rio primeiro, mas foi a Shelley quem falou. Como foi que ela...
De repente escutei, por uma fração de segundo um barulho muito estranho, que ficava maior a cada instante. Foi como se o tempo tivesse parado, e por algum motivo, senti algo ruim, quase como um presságio. Quando vi, vindo pela diagonal a nossa frente, um raio de luz em nossa direção: era um tiro, chegou a nós em apenas alguns milésimos e passou por Hina, que estava um pouco a minha frente.
Não fui capaz de entender direito a cena que vi diante dos meus olhos no momento. O projétil atingiu Hina em cheio, bem no meio de seu peito e apenas continuou voando em linha reta. O corpo de Hina desapareceu, sumiu bem diante dos meus olhos, é como se ela tivesse sido levada embora de nós. Todas as partes de seu corpo foram estraçalhadas e arremessadas para trás na direção em que o tiro foi, alguns pedaços recaíram sobre nós, junto com uma chuva de sangue, que acabara de cair sobre a gente. Quando me dei conta do que realmente aconteceu não pude mais me controlar:
– HINAAAAA!
Senti algo segurando em meu braço: era a mão do Lucca, ele me puxou e começou a correr junto comigo.
– CORRE!
Não consegui escutar direito o que ele disse, mas comecei a correr junto com todos em direção ao barranco do rio.
Escutei aquele barulho novamente e meu coração parou. Outro raio de luz passou do meu lado e acertou o chão na minha frente, ricocheteando para o céu.
Olhei para trás e vi ao longe um tanque saindo do meio da folhagem que separava as propriedades das fazendas vindo em nossa direção. Em cima dele havia um soldado, com metade do corpo para fora segurando uma metralhadora, montada na parte superior do veículo.
– TANQUE! – Gritei desesperadamente.
No mesmo instante que gritei tiros começaram a passar entre a gente. Eram aquelas coisas traçantes de que Nikki havia falado na noite anterior. Realmente, eram como lasers passando entre nós, raios de luz mortais.
Estávamos correndo em direção ao barranco para chegar ao córrego do outro lado e sair da linha de fogo do tanque. Outro tiro do canhão se aproximou de nós, este não era um raio de luz, não pude vê-lo, porém pude ouvir o enorme barulho que o projétil fez ao cortar o ar quando se aproximou de nós. Acertou o chão a nossa frente também, porem diferente do último ele não ricocheteou, ele explodiu. A Terra subiu, caindo sobre a gente, Lucca se desesperou e correu para o lado direito, em direção a uma árvore. O resto de nós passou pela poeira da explosão.
– Lucca! – Gritou Shelley.
Ela ia correr para junto dele atrás da árvore, olhei rapidamente para o Lucca e vi que a metralhadora estava mirando nele. Ele tinha se escondido atrás do grosso tronco da árvore. Era uma macieira. Felizmente os tiros não conseguiam atravessar aquela madeira, mas se Shelley correr para lá ela vai ser morta também! Corri mais rápido e segurei sua mão:
– Continue em frente! – Gritei.
– Mas o Lucca!
– CONTINUE CORRENDO PRA FRENTE!
Estávamos perto do barranco quando escutei o canhão atirando, mas não fui capaz de notar o som do projétil. Ah não! Será que? Olhei para o lado rapidamente e vi o tiro explodindo na árvore em que Lucca tinha se escondido. A metralhadora voltou a atirar na gente, mas conseguimos chegar ao barranco. Pulamos por cima dele e caímos atrás. Não era muito íngreme, mas o suficiente para sair da linha de visão do tanque. Realmente havia um pequeno córrego atrás da inclinação. E agora, o que faço? Se fugirmos o inimigo com certeza vai pegar o Lucca! Droga!
De repente a Nikki se levantou empunhando o rifle.
– Nikki se abaixe!
Ela ignorou e fez vários disparos contra o tanque, mas a metralhadora atirou novamente em nós, ela se abaixou.
– MERDA! Essa arma não pode penetrar a armadura do tanque!
– Mire no metralhador! – Gritei.
– Não dá, ele não para de atirar na gente!
Tirei a mochila das costas, peguei alguns cartuchos de munição e coloquei no chão rapidamente. Nikki pegou o cartucho que ela havia enchido com os tiros perfurantes e carregou no rifle.
De repente outro tiro explodiu em cima do barranco. Voou terra para todo lado. Fiquei meio surdo por alguns segundos, mas minha audição voltou rapidamente. Um buraco havia sido feito no chão e ficamos expostos, então rolamos para as laterais. Nikki foi para a direita e eu para a esquerda.
– Nikki, ele está vindo para cima de nós, o que vamos fazer!? – Gritei para ela.
Ela estava sobrecarregada. Ficou paralisada assim que eu disse isso. Olhei para a Shelley que estava mais atrás, deitada no chão com as mãos em cima da cabeça chorando de desespero e medo. Meu coração congelou. Não é possível. É assim que vai acabar? Para mim, para os meus amigos? Droga! Eu não aceito isso! Não aceito morrer desta forma!
A metralhadora cessou, olhei rapidamente por cima do barranco. O soldado estava recarregando.
– NIKKI AGORA! – Gritei com todas as minhas forças.
Nikki se levantou e começou a atirar novamente, coloquei meus olhos rentes a terra para ver o tanque. Os tiros do rifle que passavam perto do metralhador, ele tentou se esconder atrás do suporte de sua arma, mas tomou um tiro no ombro. O Tanque atirou novamente com o canhão. Senti a bala passando do lado da minha cabeça. Ele errou o barranco, o projétil não explodiu em nós. Abaixei assustado e olhei para cima. Um objeto chamou minha atenção ao longe. Avistei dois jatos voando no horizonte, atrás do tanque. Um deles virou fez a volta, vindo na nossa direção. O soldado se recompôs, pegou a metralhadora novamente e voltou a atirar. Os tiros voltaram a acertar o barranco. Nikki se abaixou.
– FILHO DA PUTA! – Ela Gritou com um incrível tom de ódio.
Olhei para cima. O jato continuava se aproximando em nossa direção.
– Nikki, olhe! – Apontei para o jato.
Assim que viu o jato ela tirou um cartucho do bolso, carregou o rifle novamente e começou a mirar no avião que vinha em nossa direção.
Espiei o tanque por cima do barranco entre os tiros e pude ver: o jato se aproximou em uma velocidade incrível e começou a atirar com sua metralhadora no tanque. Imediatamente os tiros vindos em nossa direção pararam, mas alguns projéteis que o avião disparou ricochetearam na armadura do veículo e vieram em nossa direção. Me escondi no barranco novamente e olhei para trás na direção do rio. O jato passou por cima de nós e fez uma manobra de parafuso, dobrando novamente e retornando para junto do outro avião. Acho que pude ver o símbolo da nossa força aérea nele. Nos levantamos e olhamos para o tanque. Estava pegando fogo. O veículo havia se aproximado bastante de nós. Alguém abriu uma escotilha na parte frontal desesperado, pulou fora e saiu correndo.
Nikki imediatamente atirou no soldado. Ela acertou três vezes nas costas dele, depois disso ele caiu no chão e começou a gritar. Nikki se levantou e foi correndo em sua direção.
– Nikki espere! – Gritei.
Sai correndo atrás dela.
Chegamos perto do soldado. Ele usava uma farda americana. O local onde Nikki havia acertado os tiros nele estavam ardendo em chamas. Era a munição incendiária. Ele estava queimando por dentro. Ela mirou o rifle novamente nele e atirou até que a carga da arma acabasse, parecia um demônio tomado pela raiva e pelo ódio.
– Pro inferno seu desgraçado! – Ela gritou.
Escutamos um grito: era a Shelley, ela estava na árvore em que Lucca tinha se escondido. Corremos até lá. Quando chegamos Nikki largou o rifle e ajoelhou do lado de Lucca imediatamente. Meu coração congelou ao ver aquilo. A explosão do tiro que acertou o tronco havia arrancando suas duas pernas e a parte frontal do seu estomago estava aberta, seus órgãos internos estavam saindo para fora. Ele estava segurando seu intestino com a mão e gritando de dor e agonia. Havia muito sangue e sujeira em volta. Algumas partes de seu corpo haviam sido queimadas.
– Lucca! Lucca!
Ajoelhei do lado dele. Lagrimas começaram a escorrer dos meus olhos. Shelley não sabia o que fazer.
– Lucca, aguente firme! Nós vamos sair dessa! – Falei chorando.
Ele tentava, mas não conseguia dizer nada, estava engasgando com o próprio sangue.
Ficamos ao lado dele. Não havia mais o que fazer. Nosso amigo estava morrendo. Shelley estava horrorizada, Nikki estava desesperada. Meu coração estava se despedaçando ao ver meu parceiro daquele jeito. Ele está aqui ao meu lado, e eu não posso fazer nada! Minha mente sobrecarregou: eu não era capaz de pensar em mais nada, fui tomado pelo medo e pelo desespero, que me consumiam por dentro.
Lucca começou a convulsionar e em pouco tempo parou de se mexer. Hina, Lucca... O que vou dizer para a Nikki? Para a Shelley? Prometi que protegeria todos, que tudo ficaria bem se ficássemos juntos... o que eu faço?
Nikki sentou do meu lado. Shelley também.
– Pablo. Shelley. Nós... Nós temos que matar todos os desgraçados que fizeram isso com a gente... eles não merecem perdão – Nikki estava muito inquieta enquanto falava.
Shelley não conseguia mais falar.
– Hina, Lucca, por favor desculpem-nos! Nós não conseguimos salvá-los! – Falei chorando – vocês sempre viverão dentro de nossos corações, nunca vou me esquecer de vocês e do que aconteceu aqui hoje. Por favor, desculpem-nos!
Shelley estava em choque. Eu sentia algo terrível dentro de mim, era como se meu coração estivesse sendo esmagado, como se veneno corresse em minhas veias.
Nikki levantou, enxugou as lágrimas e falou:
– Temos que ser fortes agora. Não podemos deixar que o mesmo aconteça com nós, não podemos deixar que o sacrifício da Hina e do Lucca tenham sido em vão! Vamos continuar!
De algum jeito conseguimos levantar e acompanhar a Nikki. Ela deve ter se trancado dos seus próprios sentimentos em uma fortaleza interna em seu coração. Nikki... Por quanto tempo ela vai aguentar isso?
Continuamos andando, desta vez rumo ao norte, agora na direção lateral em que as tropas inimigas tinham chegado por ar.
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