Exodus

2 Reminiscência de Pablo - Parte II


Assim que o sinal tocou jogamos o lixo e voltamos para as aulas. Nikki sempre voltava comigo pois era da minha sala. Shelley e Lucca tinham a mesma idade, mas eram de salas diferentes. Hina ainda estava no sétimo ano escolar, no ensino fundamental.

Mal eu sabia que as aulas que estávamos tendo naquele dia, seriam minhas ultimas. Se de algum jeito eu pudesse voltar no tempo, eu com certeza acharia um jeito de consertar o que passou.

Em algum momento depois que voltamos as aulas a energia acabou, as luzes de emergência ascenderam mas ficou um clima tão relaxante que acabei dormindo.

Acordei com o sinal da escola batendo. Acho que dormi na aula de geografia de novo. Saco! Essa matéria chata. Mas a mesa estava tão confortável!

Olhei para os lados. Todos já estavam pegando suas coisas e indo embora. A Nikki veio até minha mesa para me esperar. Ahh eu babei nos cadernos! Ela vai ver!

– Pablo, Pronto para ir?

– Ahh! Sim! Acho que estou mais descansado agora – Guardei os cadernos rapidamente.

– Pare de dormir nas aulas! – Nikki socou meu braço — Você acaba se ferrando depois.

– Ah ok, tudo bem, vou tentar prestar mais atenção – Ai, isso dói! Porque ela me socou?

Acabei de juntar minhas coisas e descemos as escadas. Todo mundo já estava lá em baixo esperando a gente.

– Beleza! Agora que acabamos aqui vamos jogar badminton! — Falou Lucca.

Naquele dia não chegamos a usar nossos uniformes de educação física. Deve ter sido por isso que todos concordaram em jogar. Mas eles realmente estavam felizes. Bem, quem não ficaria em um dia como esse!?

Esperamos um pouco na frente da escola até que o ônibus passasse. Pegamos ele e fomos direto para o parque.

– Galera, tem um filme novo passando no cinema, que tal se formos assistir juntos no domingo? – Perguntou Nikki.

– Ahh um encontro em massa hein!? O que será que vamos fazer depois desse cinema!? – Disse Lucca.

– Seu pervertido do cassete! – Nikki socou o braço dele também.

– Ai! Isso dói!

– Hunm. Pervertidos como você merecem muito mais que isso!

– Ohhh, a Hina quer dormir com os garotos!

– Hina não diga essas coisas! – Respondeu Shelley.

O tempo que passamos no ônibus foi bem agitado, mas tudo se acertou quando chegamos no parque.

– Ahhh! Sexta-feira é tão bom!

– Não é? – Respondeu Shelley.

– Ãnm? Esse lugar está vazio? Que estranho, sempre tem gente na quadra de basquete e de baseball...

– É mesmo. Bem tanto faz, vamos jogar! – Respondi.

– Yay! – Hina tem um jeito de se comunicar muito peculiar. Ela é mesmo estranha, mas é tão linda!

– Ok, vamos nos trocar. A gente se encontra na quadra em cinco minutos.

Fui ao vestiário masculino com o Lucca colocar a outra roupa enquanto as garotas foram se trocar no outro vestiário. O uniforme masculino de educação física da nossa escola era constituído por uma camiseta larga regata e um shorts que descia até os joelhos, enquanto o feminino usava uma camisa um pouco mais apertada com um tipo de shorts que parecia mais uma sunga, ou a parte de baixo de um biquíni, bem curto e bem apertado!

Nos encontramos na quadra depois. Shelley parecia meio incomodada com algo.

– Shelley, o que foi?

– Não acredito que a energia ainda não voltou, eu ia deixar meu celular carregando.

–Ah, entendo. Tudo bem, se precisar pode usar o meu.

– Obrigada Pablo!

Sorteamos os times e jogamos dois contra dois revezando as pessoas em cada jogo. Por incrível que parece a Hina até que jogava bem, e a equipe dela chegou a ganhar o round mais de uma vez.

Jogamos a tarde toda e ficamos bem cansados. Depois que a última partida terminou deitamos no chão da quadra em círculo e ficamos olhando para o céu alaranjado. O sol já estava se pondo. Faltava dez minutos para o ônibus que levava a gente para casa passar

– É tão lindo... – Disse Nikki.

– É mesmo – Respondeu Lucca.

– Seria muito bom se pudéssemos estar deitados naquelas nuvens lá e cima, elas parecem tão confortáveis... Pena que são apenas gases. – Falei.

– Ohh,a Hina achou alguns aviões. – Hina apontou uma direção no céu.

Olhamos para cima. Não acreditei no que estava vendo. Havia vários rastros de fumaça no ar, aquelas que os jatos deixam para trás. Estavam voando muito mais alto que os aviões comuns, só era possível enxergar pontos deixando rastros. Comecei a contá-los, mas acabei me confundindo quando cheguei a sessenta. Nikki ficou assustada.

– O qu-... O que é isso? – Dava para ver terror em seus olhos.

– Não pode ser – Disse Lucca – Deve ser alguma coisa especial, um treinamento, QUALQUER COISA!

– Lucca. Isso não pode ser um treinamento... Será que?

– NÃO DIGA BESTEIRAS! – Nunca vi o Lucca perder o controle daquele jeito, e não me lembro dele ter gritado com a Shelley uma única vez. Eu precisava fazer algo quanto a isso. De qualquer forma, aquela conversa de invasão deve ter mesmo ficado na cabeça deles, fala sério, pra que se exaltar assim...

– Acalmem-se pessoal! Ficar nervoso não vai ajudar em nada agora! Vamos pegar nosso ônibus e voltar para casa.

– Hina vai ir com o Pablo. Venham também, Shelley, Lucca, Nikki – Hina estava com uma expressão um pouco deprimida. Nunca havia visto ela daquele jeito antes.

Parece que a galera se recuperou antes de ter um surto. Obrigado Hina, eu te devo uma! Tenho certeza de que vamos descobrir o que é isso.

Pegamos nossas coisas e fomos até o ponto de ônibus. Esperamos, esperamos. Mas não aconteceu nada, nenhum ônibus veio buscar a gente. Já fazia vinte e dois minutos que estávamos esperando. O clima que já estava tenso entre a gente começou a piorar. A Nikki estava mais inquieta do que todos.

– Droga não aguento mais isso! Vou ligar para os meus pais e pedir para que eles busquem a gente.

Ela tirou o celular da bolsa, discou o número e ligou, mas novamente aquela expressão de desespero e terror surgiu em seus olhos assim que colocou o telefone na orelha. Ela abaixou o celular e discou de novo, dessa vez mais rápido. Todos estavam apreensivos com aquela ligação.

– Não tem linha.

– O quê!? – Perguntamos todos assustados em sincronia, com exceção da Hina, que não disse nada.

– Não tem serviço de telefone disponível, não importa para quem eu ligue, não funciona!

Ela sentou no chão, lagrimas começaram a escorrer de seu rosto, mas ela permanecia em silêncio com uma expressão de frustração.

Todos se apressaram em pegar seus celulares e fazer ligações, mas todos estavam fora de serviço.

Ajoelhei ao lado da Nikki e abracei-a.

– Nikki, vamos voltar, vai ficar tudo bem se ficarmos juntos. Eu sei que você é forte o suficiente para passar por isso com a gente.

Levantei e estendi minha mão a ela.

– Vamos?

Ela olhou para mim e começou a chorar.

– Pablo!

Nikki pulou em minha direção. Caí no chão de costas, com ela por cima de mim chorando e se segurando em meu peito. Abracei-a.

– Pronto, pronto. Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem.

Minhas palavras apenas a consolavam, pois nem eu mesmo era capaz de acreditar nelas.

Hina se aproximou de nós e abaixou também, passou a mão na cabeça da dela.

– Nikki, a Hina está aqui com você. Todos estão aqui com você, por isso não precisa ter medo. Vamos para casa.

Ela pareceu ficar confusa e não saber o que fazer. De repente parou de chorar, desencostou de mim e ficou sentada sobre meu corpo com as mãos apoiadas em meu peito.

– Desculpe Pablo... Desculpe pessoal — Ela enxugou suas lágrimas e levantou.

O Clima entre nós só piorava a cada momento. Como vou poder resolver isso?

Não havia aparecido nenhum tipo de veículo na estrada e os celulares estavam todos fora de serviço. Decidimos então voltar andando. Pegamos nossas coisas e seguimos caminho pela estrada ao pôr-do-sol. A distância era longa então só chegaríamos a noite em nossas casas. Andamos por um tempo, o sol estava quase acabando de se pôr. Os últimos raios iluminavam as nuvens no céu. A gente estava começando a ficar cansado de novo.

De repente Hina sentou no chão sobre suas pernas, mas pareceu mais que ela tinha caído, sua respiração estava bem ofegante.

– A Hina está muito cansada... Não dá pra continu-

– Hina, pode subir nas minhas costas, eu te levo — Disse o Lucca.

– Mas se a Hina subir no Lucca ele vai...

– Não se preocupe, sou forte, posso levar você.

Ela sorriu para ele. Lucca a pegou nas costas, colocou a mão em suas coxas para segurá-la e ela cruzou seus braços no peito dele. Peguei sua mochila, E Nikki pegou a bolsa do Lucca.

– Hina você é muito leve! Quanto você pesa?

Ele olhou para trás. Ela sorriu e disse:

– Segredo!

– Lucca! Não seja indelicado com a Hina! Ela é uma garota, e garotas não devem falar sobre isso com os caras! – Disse Shelley.

– Ah ok, desculp-

Antes que Lucca terminasse de falar fomos surpreendidos por algo inesperado: dois jatos militares voando muito baixo passaram sobre nossas cabeças, eles deviam estar a uns 15 metros do chão, na altura das árvores. Naquele momento o tempo parou. Tudo que pude ver foi uma imagem passando muito rapidamente pela minha visão, mas não escutei nem senti nada, eles só passaram, como uma mera imagem passa na TV quando está muda, sem som algum. Todos ficaram surpresos e olharam aqueles aviões de guerra, carregados com mísseis em baixo de suas asas, eles tinham em suas caudas o símbolo da nossa força aérea. Passaram e saíram do nosso campo de visão num piscar de olhos. Não deu tempo de me perguntar se aquilo havia sido uma ilusão ou algo real, quase no mesmo segundo, um barulho estrondoso e ensurdecedor de motores nos atingiu por trás junto com um vento fortíssimo. Eles deviam estar voando acima da velocidade do som. Isso não é bom, os jatos militares em treinamento nunca aceleram tanto. Será que realmente... Aconteceu algo ruim?

Todos ficaram paralisados. A Nikki disse para ela mesma em voz baixa, mas eu consegui ouvir:

– Então era mesmo isso – Olhei em seus olhos. Ela parecia perdida, não sabia mais o que fazer.

– Ignorem os aviões, nós temos que continuar! – Eu disse – Vocês não querem saber o que aconteceu!? Não querem saber como seus pais estão!? Qual é o estado de suas famílias!? Temos que continuar!

Era como se todos estivessem em transe, perdidos e sem rumo. Eu também não fazia a menor ideia de como deveria agir ou o que deveria dizer. Como devo me portar diante dessa situação? Aqueles aviões que vimos na quadra, eles eram enormes, e mesmo assim dava para vê-los de tão longe... Só podem ser militares. Mas o que estão fazendo aqui? Será que o país vizinho realmente organizou uma intervenção militar por causa do depósito de recursos? Como poderiam ir tão longe somente por ganância?

Eles olharam para mim. Shelley falou:

– Vamos indo. Não quero demorar a chegar em casa.