Exodus
3 Passeio Noturno
Voltamos a andar, revezei a Hina com o Lucca. O que será que está acontecendo? Será que tem alguma relação com os celulares estarem fora de serviço? E se a queda de energia da escola também tiver algo a ver? É mesmo, agora que penso nisso, a energia não tinha voltado quando fomos embora do parque. Outra coisa estranha é que não tem ninguém na estrada. Não que este lugar seja movimentado, mas não vimos mais nenhum carro passar depois que chegamos... Isso foi um intervalo de tempo relativamente grande, com certeza algo deve ter acontecido.
Continuamos andando pela estrada. Já estava noite, somente a luz do luar iluminava o caminho. Ainda não tinha energia. Demos sorte de ser uma bela noite de lua cheia, então dava para ver tudo.
Finalmente estávamos perto da área urbana da cidade. Andamos por umas duas horas para chegar onde estávamos. A nossa escola e o parque do clube de esportes ficavam localizados em uma área verde de preservação florestal, um pouco afastada da zona urbana. Foi só quando nos aproximamos que fomos capazes de ver o que realmente havia acontecido. A maioria das casas havia sido destruída, totalmente ou parcialmente, todas as construções tinham sofrido algum tipo de dano. Ainda havia algumas coisas em chamas. Para isso estar assim... O lugar deve ter sido bombardeado.
– Não pode ser... Como... COMO ISSO FOI ACONTECER!? – A Nikki surtou novamente, em desespero.
Shelley sentou no chão. Era como se a esperança de todos tivesse sido esmagada. Não acredito... Estamos em guerra. Nós realmente entramos em uma guerra.
Um sentimento de desespero abalou meu interior, fiquei triste, senti vontade de gritar, de fugir, de bater em algo. Mas tenho que ser forte para ajudar meus amigos nesse momento tão ruim.
– Não podemos voltar – Falei.
– Como assim não podemos voltar!? – Disse a Nikki.
– Pablo, temos que ver nossas famílias! – Gritou Shelley.
– Como vamos fazer isso!? A cidade foi atacada! Aqueles aviões que vimos antes deviam ser bombardeiros! Não sabemos ao certo qual é a nossa situação, mas definitivamente estamos em guerra!
– Espere Pablo... Nós temos que ao menos dar uma olhada. – Lucca falou com pesar.
– Mas Lucca!
– Eu entendo o que você quer dizer e concordo com você... Mas temos que olhar nem que seja um pouco. Não vou aguentar não saber o que aconteceu com a minha família.
Droga o que eu faço agora!? Também estou perplexo com tudo isso, mas, e se tiver soldados na cidade? Eles vão pegar a gente?
Fiquei em silencio e balancei a cabeça dizendo sim. Ninguém disse mais nada, fomos andando entre as ruas juntos. Havia escombros e corpos desfigurados por todo lugar. Acho que as bombas devem ter destruído a aparência e a vida dessas pessoas, sem falar das que foram queimadas... sinto um enjoo muito forte ao ver isso. Tenho que parar. Coloquei Hina no chão, ajoelhei e vomitei. Droga me sinto muito mal!
Olhei para os outros.Todos estavam mal. O Lucca também estava enjoado. A Nikki estava apavorada e com muito medo. Shelley havia começado a chorar. Hina só tinha uma expressão levemente deprimida e seu rosto. Realmente tem algo de errado com essa garota.
Andamos por toda aquela desgraça até chegar à casa da Nikki, que ficava mais perto, em uma colina onde tinha uma bela vista para a cidade. Ao ver o que tinha acontecido, ficamos sem reação. Não havia mais casa. O local da sua residência e a dos vizinhos fora substituída por uma grande cratera. Não tinha nada dentro dela, só terra e alguns escombros.
Nikki começou a gritar, tomada pelo desespero e pela angustia da realidade que caía sobre ela.
Ficamos paralisados novamente. Isso não pode estar acontecendo! Não é real, deve ser um sonho... Tenho certeza de que acordei esta manhã, me despedi dos meus pais e fui para a escola, me encontrei com meus amigos, estudei e me diverti muito a tarde, deitei no chão junto com eles e admiramos o céu ao pôr-do-sol. Isso... Isso é...
– ISSO NÃO PODE SER REAL!
Sentei no chão, olhei ao meu redor. Tudo o que eu podia ver eram os escombros, a morte e a destruição. Milhares de vidas perdidas... arruinadas pela ganância e por dinheiro. Meus amigos ao meu redor estavam acabados. Lucca estava sem reação, Nikki estava histérica e desesperada, enquanto Shelley tentava acalmá-la. Hina estava triste. Eu estou mal. Preciso sair daqui. Nós temos que ir.
– Lucca. Pessoal. Vamos embora. – Falei com pesar.
Ele olhou para mim arrasado, e concordou fazendo um gesto com a cabeça.
Peguei Hina nas costas enquanto Shelley tentava acalmar Nikki. Continuamos a andar pelas ruas da cidade sob o luar que nos iluminava, procurando por um lugar para poder passar a noite.
– Pablo? O que vamos fazer agora? A Hina não pode mais voltar para casa? Como vamos ficar?– Perguntou Hina.
– Sim, a Hina não vai mais poder voltar para casa. Nunca mais. Mas eu te garanto Hina: Nós vamos pegar esses desgraçados que fizeram isso com a gente – Falei em um tom de ódio.
Ela me abraçou mais forte:
– Pablo, a Hina está com medo. – Ela disse com uma voz frouxa, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos.
– Eu também estou, mas dessa vez vamos ter que ser fortes para suportar tudo isso. Mesmo que você não consiga fazer isso sozinha. Mesmo que você não aguente, eu posso te ajudar, eu posso suportar isso por você, pois sou seu amigo e estarei sempre ao seu lado. Sempre ao lado de todos, porque vocês são tudo para mim.
Assim que acabei falar todos me olharam. Nikki veio e me abraçou. Shelley e Lucca também. Ficamos todos abraçados por um tempo. É tão doloroso, mas ao mesmo tempo confortante. Gostaria de ficar assim para sempre com eles.
Depois do nosso abraço coletivo, ganhamos força para continuar andando pela cidade. Andamos mais ou menos por meia hora, e conseguimos achar um bom lugar para passar a noite.
Paramos em frente a uma casa bem grande. Ela tinha um buraco no teto, mas ainda estava inteira. Hina desceu das minhas costas e entramos. Tinha uma sala bem grande na entrada. Nos dividimos para explorar o lugar. Achei comida no armário, mais uns fósforos e algumas velas na gaveta. Lucca encontrou pedaços de corpos estraçalhados no quintal. Hina achou alguns cobertores e mantas. Shelley achou uma arma com alguma munição em cima do guarda roupa e Nikki achou um rádio a pilha que ainda tinha carga. Depois da busca nos reunimos na sala. Acendi algumas velas na mesa da sala e na cozinha para podermos enxergar o ambiente a nossa volta.
– Acho que devíamos passar a noite aqui – Falei – Tem água, comida, e podemos tentar achar algo no rádio.
Todos ficaram de acordo. Apesar da galera estar bem mal eles estavam conseguindo lidar com a situação. Ascendemos mais velas pela casa e Shelley foi fazer a janta. Ela era a única que sabia cozinhar. Tinha um pacote de macarrão no armário que ela preparou com alguns vegetais. Todos estávamos cansados com fome e com sono, mas mesmo assim tínhamos que decidir o que fazer.
– O que faremos a partir de agora? – Perguntei.
– Acho que por enquanto devíamos tentar ligar esse rádio e examinar a arma – Respondeu Lucca.
– Ok.
Nikki era a única que sabia atirar pra valer, então ela inspecionou a arma com a Hina enquanto eu e o Lucca tentamos o rádio. Todas as estações estavam fora do ar, mas de repente conseguimos pegar alguma coisa. Todos ficaram em silêncio e pararam o que estavam fazendo para escutar a transmissão. Aumentamos o volume no máximo. Havia muita estática, mas deu para ouvir claramente:
–... base também foi atacada no leste do território, muitas cidades foram bombardeadas juntamente com as principais usinas de energia e comunicações. O exército está resistindo ao ataque no Norte, o único local ainda intocado pela guerra, onde se localiza a mina de recursos. Os Estados Unidos se aliaram ao inimigo e forneceram grande quantidade de armas e soldados para o ataque inicial, eles agora são oficialmente o inimigo. Nenhum país se envolveu a nosso fav-.... calculasse que mais de três milhões de vidas já tenham sido perdidas nos ataques aéreos. O status da nossa Força Aé-...
Não deu para ouvir mais nada, a estática aumentou muito e perdemos contato com a transmissão.
– Devíamos ir para o norte – Falou o Lucca – Se a guerra ainda não chegou lá nós realmente podemos ter alguma chance de sobreviver se conseguimos ir para o lugar.
– Você está louco! – Disse a Nikki – Como poderíamos deixar nossos pais aqui? Eu tenho certeza que eles est-
– Nikki! – Disse a Hina com uma voz um pouco impotente – Papa e mama morreram. Os seus, os da Hina, os do Pablo, os de todo mundo. Todos eles moravam aqui, nessa cidade. Eles morreram queimados junto com as outras pessoas. Nikki, nós devemos fazer o que o Lucca disse.
Nossa... Nunca pensei que a Hina fosse capaz de dizer tal coisa. Ela deve estar arrasada com tudo que aconteceu.
Olhei para a Nikki. Era como se toda a vida tivesse saído de seu corpo. Ela ficou sem voz. Abaixou a cabeça, e concordou com a Hina.
Shelley chegou na mesa com uma travessa de macarrão com legumes. Peguei uns pratos e talheres no armário e coloquei-os sobre a mesa. Jantamos a luz de velas naquela noite. De algum jeito, a comida não estava boa, apesar da Shelley cozinhar tão bem. Nikki derramava lágrimas em seu prato enquanto comia.
Depois que jantamos fomos tomar banho. A água estava gelada e foi bem difícil se lavar, a noite era quente, mas mesmo assim ficamos com frio. Tomamos banho em grupos para ser mais rápido. Fui com o Lucca e as garotas foram todas juntas. Após o chuveiro vestimos nosso uniformes escolares novamente, pois ainda estavam limpos.
Com o banho finalizado colocamos alguns colchões no meio da sala para dormirmos juntos. Não foi fácil passar a noite lá, já fazia algum tempo que estávamos na cama, mas ninguém havia conseguido dormir, exceto a Hina.
– Pablo? Você ainda está acordado? – Sussurrou Lucca.
– Estou.
– Vem comigo.
– O quê?
– Não importa! Apenas venha comigo.
Falar sussurrando é horrível, droga, onde será que ele quer ir?
Levantei com o maior cuidado do colchão. Quando finalmente me ergui e pisei fora do colchão escutei:
– Onde vocês vão? – Disse a Shelley também sussurrando.
Olhei para ela. A Nikki também sentou no colchão. A única que realmente estava dormindo era a Hina.
– Venham vocês também – Falou o Lucca.
Seguimos ele até o andar de cima onde havia o buraco no telhado da casa. Lá estava incrivelmente iluminado com a luz do luar.
– O que foi Lucca? – Perguntei.
– Não consigo dormir.
– Você nos chamou aqui só pra isso!?
– Ssshhhh! Fale baixo, Hina está dormindo!
– Ah, é mesmo, desculpe.
– Como ela consegue dormir com tudo que está acontecendo? – Perguntei revoltado.
– Calma Pablo, a Hina ainda não conseguiu digerir tudo o que aconteceu. Ela não está muito bem.
– Ninguém está – Respondeu Nikki.
– O que vocês acham que vai acontecer amanhã?
– Não tenho certeza nem do que aconteceu hoje – Disse Shelley – Parece que foi tudo um sonho. Parece que estou vivendo em um mundo surreal.
– Também me sinto assim – Respondi.
– Nikki, o que você descobriu sobre a arma que encontramos? Podemos utilizá-la?
Ela foi pegar a arma imediatamente e trouxe até nós:
–Parece que demos sorte. Acho que alguém que morava aqui tinha hobby de fazer tiro ao alvo. Isso é um rifle semiautomático 7.92mm de longa distância, pelo jeito deve ser uma arma de caça. Parece estar funcionando, chequei ele e tudo estava em ordem. Tem bastante munição no armário. De qualquer jeito, não acho que o dono disso realmente o usava para caçar, devia ser tiro ao alvo mesmo. Aqui também tem vários tipos de munição diferente.
– O que você quer dizer com isso? – Perguntou Shelley.
– Cada tipo de munição tem um efeito diferente no alvo e no jeito com que voa. Aqui tem munição perfurante, munição perfurante traçante e munição incendiária. Cabem 12 tiros no pente dessa arma.
– Nossa Nikki, como você sabe tanto sobre isso? – Perguntei.
– Quando eu era pequena meu pai costumava me levar para atirar junto com ele, por isso sei operar algumas armas.
– Mas o que cada uma faz?
– A munição perfurante atravessa melhor alvos pesados, como metal e outros materiais duros. A munição traçante faz um rastro atrás dela como se fosse um tiro de laser. Ela é a pior de todas, pois é mais leve, tem um alcance menor e qualquer um vai ver de bem longe, inclusive o local de onde foi disparada. A incendiária faz exatamente o que o nome diz. Quando atravessa ou para em um objeto, ele pega fogo. Sendo assim, não levaremos nenhum tipo de munição traçante.
– Ok Nikki, nós entendemos. Mas você poderia nos explicar como usar a arma? – Perguntou Lucca.
Passamos mais um tempo aprendendo como usar o rifle com a Nikki, como atirar, que tipo de munição usar e como recarregar. Depois que acabamos ficamos ainda mais cansados e então finalmente conseguimos dormir.
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