Exodus
1 Reminiscência de Pablo - Parte I
Não tenho certeza de como foi que tudo aconteceu, fora tão rápido quanto um piscar de olhos. Eu nunca poderia ter imaginado que tudo acabaria de tal forma, meus amigos, minha família, as coisas importantes para mim, e eu mesmo. Tudo desapareceu da noite para o dia. Acho que nem fomos capazes de dar conta do que realmente passou. Parecia um dia normal, um dia qualquer como todos os outros sempre são: cheios de alegria e energia, cercados de amigos, de pessoas que se importavam umas com as outras e que se amavam.
Eu estava na sala de aula quando o sinal para o intervalo tocou. Ahhh que bom! Finalmente vou poder dar um tempo aqui, essa aula de história já deu o que tinha que dar.
Levantei de minha mesa e desci as escadas até o pátio interno, acompanhado pela Nikki. Almoçávamos lá todos os dias juntos, em uma mesa que ficava em baixo de uma cerejeira majestosa. Geralmente eu ia conversando com ela e por isso acabava sempre distraído.
– Ei! Pablo! Aqui!
Olhei para a frente e vi a mesa em baixo da árvore, todo mundo já estava a nossa espera. Como sempre, o Lucca nunca perdia o bom humor, a Shelley sempre um pouco tímida e a Hina... adorável!
– Lucca! – Acenei para ele e caminhei em direção a mesa com a Nikki.
Me aproximei, cumprimentei todos e sentei. Começamos a conversar como de costume. É realmente uma pena que o intervalo só tenha 15 minutos.
– Nikki, como foi nas provas? – Perguntou Shelley.
– Não sei ao certo, mas estudei bastante, então devo ter ido bem.
– Isso é ótimo! Parabéns!
– Ahhh, que nada, ainda nem recebemos as notas. Mas realmente espero ter ido bem.
Enquanto elas continuavam a conversa sobre notas eu puxei assunto com o Lucca:
– Então, o que vamos fazer hoje? – Perguntei.
– Podemos jogar um pouco de badminton, se a galera topar. O que você acha Hina?
– Ohh, a Hina gostou da ideia, vamos jogar todos juntos – Ela respondeu com um sorrio meigo no rosto.
Sempre fui amigo do pessoal com quem estou sentado, brincávamos quando éramos crianças, e estamos juntos desde então, apesar de termos idades diferentes. Acho que somos “amigos de infância” ou algo assim. Nos reunimos todos os dias depois das aulas para fazer qualquer coisa juntos: Jogar, estudar, curtir a vida.
Lucca e eu somos os únicos garotos. Ele tem quinze anos e eu, catorze, ambos gostamos esportes. Ele e é bem divertido, sempre otimista, acho que me dou melhor com esse garoto do que com as outras. É como se fosse o meu irmão, sempre me ouve quando eu preciso, e me ajuda com qualquer coisa.
A Nikki também tem catorze anos, conheço ela a mais tempo do que todos, por isso acho que somos um pouco mais unidos. Ela é uma garota muito legal, acho que deve entender como funciona a mente masculina, por isso não faz aquelas coisas estranhas que garotas geralmente fazem, e me sinto sempre a vontade quando falo com ela. Shelley tem quinze anos, vai muito bem na escola e gosta bastante de pintar. Com certeza vai ser uma ótima artista no futuro, seus trabalhos deslumbram os professores e até mesmo os artistas profissionais que a vêem ocasionalmente. Apesar disso ela é mais tímida e reservada, mesmo assim é uma ótima pessoa.
A mais nova e mais estranha é a Hina. Ela tem 11 anos (mas aparenta ser mais nova) e é sobrinha do Lucca. Conhecemos ela desde o dia em que nasceu. Apesar dos outros não perceberem, tenho certeza de que essa garota não é normal! Ela refere-se a si mesma em terceira pessoa, nunca está de mau humor, é quieta, porém não é nem um pouco tímida, age sempre de forma amável e compreensiva com todos, além de conseguir socializar facilmente. Ela é muito bonita, como as garotas dizem: “fofinha”, na verdade a pessoa mais linda que já vi em toda a minha vida, parece até uma deusa e miniatura, ou melhor, uma boneca perfeita feita a mão. Ela sempre faz de tudo para alegrar as pessoas ao seu redor e parece emanar uma aura sinistra que faz com que os seres gostem dela simplesmente ficando perto. Apesar de ser meio estranho, acaba sendo muito bom, pois nunca brigamos quando estamos com ela, é como se tudo fosse sempre um mar de rosas quando ela está por perto. Não tem como algo assim ser real! Sempre fico me perguntando se ela não é um tipo de ilusão e eu estou ficando louco. Mas será que penso isso porque talvez eu... go- gosto dela!?
– Pablo? Ei Pablo! – Lucca estalou os dedos em frente à minha testa.
– Ãnm? Ah desculpe – Acho que fiquei viajando...
– Você está bem? Parece que estava bem longe daqui – Ele olhou para mim e para a Hina – Ahh será que...
– Lucca! Não fique pensando asneiras! O que você quer dizer com isso!? – Falei em um tom revoltado.
– Nada demais, acho que esse seu rosto corado já diz tudo, não?
Ele percebeu! Mas que saco, alunos do ensino médio realmente tem um “chan” para essas coisas!
– Pablo, não vai comer hoje? – Perguntou Shelley.
Ah, é mesmo, estamos em almoço. Fiquei tão focado na Hina que esqueci de comer. Me virei e abri minha bolsa. Enfiei a mão lá dentro. Anm? Está vazia! Esqueci meu lanche! Ah o que eu faço agora? Estou com fome e esqueci meu almoço... isso não é bom. Deitei a cabeça sobre a mesa.
– Oh, Pablo esqueceu seu lance de novo. Não tem problema, a Hina divide com você!– Ela falou com um sorriso.
A voz da Hina é surpreendentemente calma e relaxante não importa o momento. Ela é realmente tão fofinha!
– Sério!? Obrigado Hina!
Ela partiu seu lanche na metade e entregou um dos pedaços a mim.
Peguei aquela parte de sanduíche na mão. Parecia muito apetitoso. Só me dei conta do sabor depois de morder.
– Ahhhh!Mas o quê que é isso!? Esse negócio tem um gosto horrível! Hina, o que foi que você fez!?
– É um lanche feito com coisas saudáveis para deixar a Hina forte. Se o Pablo comer ele também vai ficar forte e vai poder bater nos bandidos que estão ameaçando nosso lar!
Bandidos? Do que ela está falando?
– É verdade, tinha me esquecido de falar. Vocês viram a situação do país na TV? – A Shelley perguntou.
Ah, é mesmo. Agora me lembrei.
– Soube que não vai bem – Respondeu Lucca – Parece que o nosso presidente está entrando em uma briga por recursos valiosos com o pais vizinho. Uma multinacional instalada aqui descobriu uma infinidade de recursos minerais em nosso território, mas fica localizado em um local histórico de extrema importância cultural para nosso país. Então nosso presidente rompeu o contrato com a empresa e elevou o assunto a nível nacional. O pais vizinho está muito nervoso com isso, e parece que outras nações também estão começando a se envolver.
– Essa droga de presidente! Porque ele tinha que romper o contrato!? Agora compramos briga com outro país... e se nos invadirem por causa disso!?
– Calma Nikki, não acho que chegariam a tanto, quero dizer, são só recursos, certo? – Respondi.
– Parece que você não entendeu a gravidade da situação Pablo – Respondeu Shelley – O depósito de recursos naturais encontrados pela multinacional é um dos maiores do mundo, e provavelmente é capaz de sustentar a economia do nosso pais inteiro sozinho. Não acha que vale uma guerra para obter esse negócio?
– Concordo que a situação esteja ruim, mas temos que ser otimistas! Ficar pensando nisso não vai resolver nada! Temos que nos preparar para o pior e esperar o melhor.
Há! Esse é o Lucca que eu conheço, sempre otimista com as coisas. Espero que ele esteja certo quanto a isso, não aguentaria ver o futuro de meus amigos ser destruído por mais uma guerra idiota baseada em ganância.
– Não se preocupem gente! Somos amigos, e nada vai separar a gente, com ou sem guerra vamos continuar todos juntos, não é!?
Todos pararam o que estavam fazendo e olharam para mim.
– Pablo tem razão, ficaremos juntos não importa o que aconteça! – Respondeu Nikki.
Para finalizar nossa discussão e reforçar nossa união brindamos os sucos de caixinha e continuamos conversando e rindo até que o intervalo acabasse.
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