Ex(change) Girl
36 Capítulo 36
Notas iniciais
Pov Annabeth
"Rabiosa. If you don't get enough I'll make it double. I'm tryin to have fun and I love you but you want me"
Rabiosa soa a toda altura nas dezenas de caixas de som espalhadas por todo o campo e arquibancadas. A arena da escola estava lotada, a capacidade de dois mil espectadores ultrapassada. E nenhum deles torcia pra nós.
Estávamos em San Diego, segunda cidade mais populosa da Califórnia, na final do campeonato. No início havia me decepcionado, afinal estava tudo planejado para que fosse em Los Angeles, e eu realmente tinha vontade de conhecer a cidade. Mas, devido o fato de o outro finalista ser de San Diego e ter oferecido o próprio estádio para sediar a final, aqui estávamos nós!
Duas horas de viagem de ônibus, e havíamos chegado hoje mesmo. O nosso orçamento não estava lá essas coisas, além de que a cidade ficava perto de Carmel Valley, não havia necessidade de pernoitar. O time todo ficou chateado, uma das melhores partes do campeonato estadual é conhecer outras cidades, e nesse caso nós não íamos conhecer nada. Mas, de qualquer forma, foi uma viagem tranquila, se não fosse pelo meu problema de enjoo em viagens de mais de quinze minutos dentro daquela lataria grande e amarela.
Era uma tarde ensolarada, já passava das treze da tarde, e havíamos almoçado sanduíches naturais com Coca Cola Diet na cantina da escola da casa. Foi divertido, quase como se estivéssemos na nossa escola, fora o fato das diversas provocações da torcida e equipe adversária, que estava sentada a menos de três mesas de distância de nós.
A temperatura beirava os vinte e dois graus, afinal ainda era inverno, e essa era a temperatura normal de inverno na Califórnia. Nada que nos deixasse soando e fedendo, e nada que nos fizesse usar moletom. O que era ótimo tendo em vista que éramos cheerleaders e que usávamos um uniforme de um palmo de top e saia.
A parte ruim, era que o sol da tarde deixava os meus olhos encandeados, e eu não enxergava praticamente nada que estava a mais de um palmo de distância de mim.
"Rabiosa, rabiosa. Come closer, come pull me closer. Yo soy rabiosa, rabiosa. Come closer, come pull me closer."
Era a parte final da coreografia, quinze segundos cronometrados e então a música remix acabaria e nós correríamos de volta ao banco dos reservas.
Jogo o cabelo para trás, o meu quadril fazendo movimentos circulares e pausados, quase como uma dança do ventre mais rápida e menos metódica. Desço até o chão, parando lá por meio segundo, e subindo lentamente, as minhas mãos passeando desde o tênis branco e sujo de grama e adubo até as minhas coxas. Um mortal para trás, e no segundo seguinte ao que os meus pés tocam a grama recém aparada, a música acaba.
Respiro fundo, ainda meio tonta das acrobacias recém realizadas e do sol que fez a minha pupila diminuir muito rapidamente. Uma sirene toca, indicando que o último período iria começar. Corremos até o banco dos reservas, pegando uma garrafa de Gatorade e toalhas brancas. Alguns aplausos ainda ecoando na minha cabeça. Aquele havia sido o recorde de espectadores que já nos assistiram, eu ainda podia sentir o sangue pulsando por minhas veias, a adrenalina sendo lentamente substituída por nervosismo.
– Você foi demais! -Nico diz, dando um beijo no topo da minha cabeça antes de correr até o resto do time, reunido no meio do campo
– Obrigada -digo para o nada, já que ele provavelmente já não podia ouvir nada- Eu acho.
– Uau. -Percy diz, me dando um breve selinho antes de colocar de volta o capacete- Uau. Depois precisamos conversar mais sobre isso. Desde quando você sabe dançar assim? -franze as sobrancelhas- Uau.
– Todo o tempo do mundo depois que formos campeões. -digo, sorrindo de lado
– Ótimo. Vou ganhar essa pra você. -diz, me dando uma piscadela antes de correr de encontro com os outros
– Parece que alguém ficou animadinho vendo namorada descer até o chão. — Thalia diz, as sobrancelhas arqueadas e o sorriso de deboche no rosto
– Ah cale a boca. -reviro os olhos- Nós mandamos muito bem!
– Com certeza, capitã! -Clarisse aparece do além, colocando o braço sobre os meus ombros, sorrindo feito uma boba- Não tem pra ninguém, esse campeonato é nosso!
Todas gritamos em apoio, jogando o resto de enérgico que havia sobrado em nossas garrafas uma nas outras. Realmente havíamos passado muito tempo ensaiando, nos dedicado muito por aquela coreografia. E ela havia saído exatamente como nós queríamos. Perfeita.
O time adversário joga a bola, o garoto de camisa laranja néon e extremamente chamativa avançando algumas jardas. Cameron, um garoto do time da Goode, o intercepta, e assim o jogo segue, até que o tempo acaba e é a nossa vez de avançar.
Estava 28 a 26 para eles, e o jogo parecia se arrastar. Precisávamos de um Touch Down ou de um Goal para vencermos. Percy corre, avançando muitas jardas, e Nico desvia de alguns jogadores, mas acaba sem opções. Lança a bola para Percy, que corre até o fim da área de campo e joga a bola no chão. Touch Down!
Ainda faltavam pouco mais de um minuto, e era vez do time adversário avançar. Um moreno grande e gordo, que mais parecia um presunto naquele uniforme tangerina, corre com a bola, mas acaba no chão. Havíamos ganhado!
Nós éramos os novos campeões estaduais da California, e estávamos no federal!
Corro até o campo, trocando alguns abraços com alguns jogadores e parabenizando outros. Antes que eu possa encontrá-lo, sinto seus braços fortes segurando a minha cintura, me girando no ar.
– Nós ganhamos! -grito, agarrando o seu pescoço- Eu não acredito que somos campeões!
– Nós ganhamos! Estamos no federal! -diz, me dando um longo beijo
Nada podia estar melhor. Nós havíamos acabado de receber o troféu de campeões, estávamos no federal, eu estava com Percy, e aquele era o melhor beijo que eu já havia recebido em toda a minha vida.
♡
Seguro a mão de Percy, me equilibrando nele para não cair, e desço o degrau do ônibus amarelo. Eu estava meio enjoada da viagem de ônibus, e o fato de calçar um salto de dez centímetros não ajudava em nada nesse quesito.
– E então, pra onde? -Connor pergunta, apoiado no carro negro de Nico
– Cara, eu gastei dois mil dólares nessa pintura, vê se desencosta, seu folgado! -Nico reclama
– Não sei... Acho que o papai não se preocuparia de irmos pro clube. -Travis da de ombros
– Por mim tudo bem. -digo, apoiando meu corpo no de Percy
– Por mim também. -ele diz
– Ah, o velho nem vai notar... São só umas trinta pessoas, ele deixa passar. -Connor diz, dando de ombros e destravando o próprio carro
– Tudo bem, nos vemos lá. -Nico fala, entrando no próprio carro- Thalia você vem?
– Eu... -ela diz, me lançando um olhar de dúvida, ao qual eu respondo com um movimento afirmativo de cabeça- Vou. Até mais Annie.
– Não fique bêbada antes de eu chegar, baby. -rio, lançando um olhar malicioso para ela- E nem gravida.
Ela me lança um olhar raivoso, mas também sorri de lado.
– Não vou. -fala, entrando no conversível preto e sombrio do Di Angelo
– Vamos? -Percy pergunta, me puxando mais para perto
– Vamos. -digo, o beijando
Entramos em seu BMW, o vento e a brisa forte me deixando completamente descabelada.
– Sabe... Essa não foi uma das suas melhores coreografias. -ele diz, finalmente, cortando o silêncio
– Não foi? Eu pensei que você tinha gostado...
– Eu gostei -diz, segurando com força no volante, os nós dos dedos brancos- Mas não fui o único.
– O que? -rio- Você está com ciúmes?!
– Não ria -reclama- Annabeth... Te ver rebolando daquele jeito... -ele suspira, acelerando mais o carro- Me deixou completamente louco. Eu só sentia vontade de entrar lá e te tirar daquele campo...
– Percy... -tento o interromper
– E te agarrar, te ter só pra mim. Você não tem ideia do quanto eu tive que me segurar pra não bater em todos aqueles caras que estavam te encarando...
– Percy! Aquilo era uma apresentação de cheerleaders! Meio que todo mundo encara...
– Mas eles não estavam encarando a apresentação, eles estavam encarando você!
– Não pira Percy! Você não pode saber, porque você estava me encarando.
– Eu sentia, Annabeth, você sente quando estão encarando o que é seu. -ele aperta ainda mais o volante
– Desde quando eu sou sua? Eu não sou propriedade de ninguém...
– Annabeth, você é minha namorada, minha mulher, meu amor, eu tenho todo direito de reclamar de que...
– Você tem direito de reclamar, não de me proibir de fazer nada. Eu não vou parar de fazer o que eu amo só porque você quer Percy, não vai rolar. -suspiro- Você devia ficar contente, feliz, porque eu estou com você. E não quero saber de nenhum outro, ou de nada, porque eu te amo.
Ele freia bruscamente, o carro dando um solavanco repentino. Se vida para mim, os olhos verdes em um tom escuro, as sobrancelhas cerradas. Sua mão vem para o meu rosto, o susto me faz recuar, o que o faz comprimir os lábios.
– Annabeth... -sua voz soa rouca, seus olhos ficando mais claros, a testa franzida- Eu te amo tanto... É que, eu simplesmente não acredito que realmente te tenho só pra mim. Você é tão incrível, e linda... E diz que me ama. Eu não sei o que fiz pra merecer alguém tão maravilhosa como você.
– Percy você não pode estar falando... -tento falar, mas ele coloca o indicador sobre a minha boca, me pedindo para o escutar
– Eu não sei, mas é que... Com todos esses caras te olhando, te dando mole, eu tenho medo de que você se dê conta de que pode ter alguém aí fora que seja muito melhor do que eu, que eu não te mereço... Eu te amo tanto...
– Se você me ama mesmo, devia saber que não importa o que digam, façam, ou o que for, eu nunca te deixaria. Percy, você não entende, quando eu digo que te amo é pra valer. Eu não falo da boca pra fora, é o que eu sinto, aqui dentro. -falo, segurando a sua mão e colocando sobre o meu coração
– Eu te amo tanto... Eu nunca pensei que fosse sentir isso, sabe? Meus pais... Você sabe, se separaram, meu pai e Anfitrite nunca se deram bem, minha mãe e seu marido... Eu acho que, nunca tinha acreditado no amor. Nunca tive motivos. Até que... Você apareceu, e meu Deus!
– Não precisa falar, ta certo? -digo, segurando o seu rosto com as duas mãos, olhando em seus olhos- Eu te amo, e você também me ama. É isso o que importa, não é?
Percy sorri, se aproximando e me beijando lentamente.
– É, é isso o que importa. -ele diz, dando um beijo no canto da minha e boca e acelerando novamente o carro- Vamos logo, antes que eles entrem e nós fiquemos do lado de fora.
Rio, me acomodando no banco e observando as ruas escuras passando rapidamente. Esse é o Percy que eu amava, ainda amo.
♡
– Annabeth? -uma voz ecoa por todo o ambiente- Annabeth, eu sei que você está no bar, venha até a pista.
A música havia parado, as pessoas reclamavam, outras se perguntavam quem seria Annabeth. Eu me perguntava quem estava me chamando. Seria... Percy?
– Annabeth por favor, venha até aqui. -diz, e definitivamente, apesar da fala enrolada e da voz alterada, era Percy
Me levanto, pegando o copo de whisky com energético que estava bebericando e andando até o pequeno palco onde ficava o dj e, agora, Percy. Deus, o que ele estava planejando?
– Ah, aí está você. -ele sorri, os olhos brilhando- Eu só queria falar, pra todo mundo ouvir, que eu te amo. Eu te amo muito, muito, muito, muito. Eu te amo tanto que o meu peito dói só de pensar em não te ver.
Eu ainda estava em choque, os lábios entreabertos, os olhos ameaçavam começar a lacrimejar. Apesar de bêbado, ele conseguia ser incrível.
– Eu te amo, Annabeth!–ele diz, novamente, descendo do palco e largando o microfone
Ele cambaleia um pouco até mim, me abraçando e me girando no ar.
– O que foi isso? -pergunto, me referindo a cena de poucos segundos atrás
– Eu só quis que todo mundo aqui soubesse, que eu te amo e que você é minha -ele ri, me beijando- Vem, vamos pra um lugar mais reservado.
Rio, o seguindo até a parte superior do clube. A mesma parte superior onde eu confessei que o amava. A mesma parte superior em que nós ficamos, pela primeira vez.
"Eu te amo tanto que o meu peito dói só de pensar em não te ver."
Ele havia dito isso, essas palavras haviam saído da boca dele. O que eu faria? Como eu daria a notícia que dali a pouco mais de cinco meses eu voltaria para o Brasil, e ele provavelmente nunca mais iria me ver?
O meu rosto se contorce, uma careta de medo, sofrimento e saudade. Deus, como eu poderia viver sem Percy? Como poderia viver sem a sua risada rouca, o seu sorriso de lado, os seus braços fortes, os domingos surfando juntos, como eu poderia viver sem os seus olhos verdes, sem a sua voz chamando meu nome?
– Annabeth? -ele pergunta,mas sobrancelhas unidas em uma careta de preocupação- Você está bem?
– Eu... Estou. Por que não estaria? -tento desconversar
– Você está com a testa franzida e os olhos inquietos, do jeito que sempre fica quando está preocupada. -ele da de ombros
Como ele podia me conhecer tão bem? Isso não facilitava em nada as coisas.
– Eu... Só estou pensando na faculdade. -digo, afinal não era totalmente mentira
– Por que você está pensando nisso agora? -pergunta- Vem, vamos aproveitar...
– Eu não sei... É que eu não queria ficar longe de você. -falo de uma vez, na esperança que ele entenda
– Você não precisa ficar longe de mim. -ele sorri, sereno- Nós podemos tentar a mesma universidade... Você sabe, eu tenho vaga garantida em Stanford e eu sempre achei que você faria lá também... Mas se você quiser, eu posso ir pra...
– Você também tem vaga em Stanford?! -pergunto
– Tenho... Por que?
– Deus! Eu só... -respiro fundo, tomando coragem para o que iria falar agora- Percy, eu acho que... Eu vou ter que fazer faculdade no Brasil.
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