Ex(change) Girl
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Tritão dirigia raivoso o seu Mercedes SUV preto. Havíamos acabado de sair da Metropolitan, a mais nova inovação em forma de boate de toda a Carmel, e digamos que aquele encontrozinho com Percy não havia deixado ele muito mais animado.
Ele tinha ido me pegar no colégio depois do treino de hoje. Havia saído cedo de Stanford e veio passar o fim de semana com o pai. Na verdade a relação deles era complicada. Tritão era quase três anos mais velho que Percy, ele era filho de Poseidon com outra mulher, mulher está que foi deixada quando Poseidon conheceu Sally, mãe de Percy. Sally e Poseidon "se apaixonaram loucamente" o que fez com que ele deixasse Anfitrite, mãe de Tritão e se casasse novamente.
Percy nasceu um ano depois e com isso Tritão foi temporariamente esquecido. Enquanto Anfitrite e o filho ficavam morando em São Fransico, Poseidon e a nova esposa se mudaram para Nova Iorque. Pelo que Tritão me disse, foram quatro longos anos sem que Poseidon ao menos ligasse ou desse notícias. O relacionamento de Poseidon e Sally foi por água abaixo, Percy ficou morando com a mãe e Poseidon voltou para São Francisco. Tritão foi passar um tempo morando com o pai, e pelo que me disse os dois ficaram bem próximos, até que um dia Percy ligou, disse que iria passar as férias com o pai. Poseidon ficou tão animado, tão encantado de ter Percy por perto que não ligava mais ou simplesmente esqueceu do filho mais velho.
Mesmo depois que Percy voltou para casa, Poseidon simplesmente não se interessava mais por Tritão, este então voltou a morar com a mãe. Em algum momento em que ele não teve notícias do pai, Percy voltou a morar com Poseidon e os dois se mudaram para Carmel. Foi só então, no verão passado, quando Tritão foi estudar em Stanford, que voltou a falar com o pai. O campus da universidade ficava perto de Carmel, então nos fins de semana ele vinha para cá, e tinha de aturar o irmão mais novo.
Bom, essa foi a versão resumida da história contada por Tritão, então não posso confirmar nada.
–Para onde estamos indo Tritão? -pergunto alarmada. Aquele não era o caminho da minha casa- Tritão?
Ele passa a marcha do carro e vira na rua da minha casa, em algum ponto mais a leste.
–Desculpe Annabeth -ele diz- Não se incomodaria de ir lá pra casa?
Olho pra ele. O medo me consome. Eu não podia acreditar que ele estava me pedindo isso. Era o mesmo que dizer "Vamos transar?". Seguro o banco de couro com força.
–Relaxa Ann. Eu não vou fazer nada que você não queira, vamos só, conversar -ele fala, enquanto solta o ar.
–Tudo bem, contanto que você me leve pra casa depois -digo, falsamente despreocupada
–Claro.
Ele vira duas quadras adiante, em uma casa grande e esbelta. Enormes portões brancos cercavam os muros claros da mansão. Uma enorme construção em estilo grego pintada de azul se localizava no centro da propriedade. Muitos carros de luxo estavam estacionados em linha reta. Tritão deixa o carro em um lugar qualquer e me guia até o prédio de três andares que é a mansão dos Jackson.
Na uma semana de convivência tranquila que tive com Percy não tive a oportunidade de conhecer a sua casa, e durante o resto dos quase três meses não nos falávamos o suficiente para que ele me convidasse para algumas das festinhas íntimas aí realizadas.
Por dentro a casa era ainda mais impressionante. O piso em porcelanato branco era tão brilhante que eu podia ver o meu reflexo, as colunas gregas davam um ar clássico ao lugar, a enorme quantidade de sofás brancos espalhados pelo cômodo me faziam ter vontade de simplesmente deitar e descansar, as paredes azuis eram totalmente aconchegantes, sem falar nas maravilhosas obras arte.
Tritão passa direto pela sala visitas e chegamos ao que imagino ser o centro da casa, a direita estão a sala de tv e o bar, a esquerda a cozinha, em frente uma porta de vidro que leva a área externa, e no meio a enorme escada de vidro que leva aos outros andares. Vamos para o bar, Tritão serve dois copos de whisky e gelo e me da um.
–Me desculpe. Aquele imbecil me faz perder a cabeça -ele diz
–Sem problemas, você não é o único que sofre com a idiotice do seu irmão -falo e dou de ombros
–É só que ele é tão prepotente, e meu pai ainda o prefere.
Posso notar a nostalgia no tom de voz dele, seus ombros estão curvados, os seus poucos músculos do braço tencionados. Ele já havia me contado a história de como o seu pai só falava e pensava no Percy e não ligava para ele, de como para todos Percy era o melhor, toda a família adorava o Percy, o garoto que joga futebol como ninguém e que é o melhor surfista do litoral oeste, e simplesmente ignoram o "outro filho" de Poseidon.
Na verdade, me toco, o que vejo no olhar de Tritão não é nostalgia. Seus olhos castanhos, tão diferentes dos verdes do irmão, tem um brilho diferente. Um brilho que reconheço. O mesmo brilho no olhar que me fazia preferir ter amigos homens, o mesmo brilho no olhar que me fazia usar calça jeans quando ia as festas com minhas amigas. É inveja.
Eu sofri por inveja. Sofri muito. Em uma fase em que todas as meninas combinavam de fazer balé juntas eu era excluída, porque dançava melhor. Em uma fase em que todas combinavam de fazer trabalhos escolares juntas eu era excluída, porque era a mais inteligente. Em uma fase em que todas se arrumavam juntas para as festinhas eu era excluída, porque era a mais bonita. Eu não estudava, dançava ou ia ao salão de beleza com as minhas amigas, simplesmente porque elas estavam ocupadas de mais sentindo inveja de mim para notarem o quanto eu sentia inveja delas. Sentia inveja de elas não terem ensaios extras para o festival de dança, porque não eram a protagonista. Sentia inveja de não ter de estudar para olimpíadas escolares, porque não eram a mais inteligente. Sentia inveja de não precisarem usar Johnson's Baby e poderem usar salto, porque não eram loiras e altas. Eu só queria ser normal. Pelo menos um pouco normal.
E era exatamente isso. Tritão tinha inveja de Percy. Tinha inveja do fato de ele ser o filho preferido de Poseidon, tinha inveja de ele jogar futebol, tinha inveja de ele participar de campeonatos de surf, tinha inveja de ele ser querido pela família. Ele tinha inveja de Percy ser tudo aquilo que ele poderia ser.
Dou dois passos adiante, ficando a poucos centímetros de Tritão. Aperto sua mão com força. Termino o meu copo de whisky em três goles e o coloco na bancada. Abraço o pescoço dele.
O fato é que eu não sabia o que éramos. Não sabia se éramos amigos, ficantes ou namorados. Não sabia se ele estava comigo porque me achava legal ou porque eu não me dava com Percy, assim como ele.
–Então quer dizer que estamos namorando?
Tritão cora com a minha pergunta. Passa a mão livre pela minha cintura, nos fazendo ficar mais próximos.
–Vem, vamos para um lugar...
–Não, não, não, não, não! Não até você responder a minha pergunta -digo retirando o seu braço da minha cintura e dando um passo para trás.
–Não sei -ele diz- A verdade é que eu gosto de estar com você. Você é muito gata, divertida, inteligente e legal. Eu te adoro.
–É mesmo?
–É isso mesmo. Então, Annabeth: você quer namorar comigo?
Eu não sabia. Não sabia se queria entrar em um relacionamento agora. Se queria me envolver. Mas eu não queria que com Tritão acontecesse o mesmo que com Will, que simplesmente me ignora desde o fora que eu lhe dei. Sem saber o que fazer, simplesmente o beijo.
Tritão interrompe o beijo e tira sua língua da minha boca. Ele segura a minha mão e me leva porta a fora. Me da um selinho e leva um soco.
Um punho forte acerta Tritão em cheio no maxilar. Ele cai com o impacto, batendo a cabeça contra o vidro da escada. Sangue escorre de sua boca e ele está desacordado.
Olho estupefata para o corpo descordado de Tritão e para o agressor que está parado ao meu lado. Percy.
–O que você pensava que estava fazendo?
–Você não pode ficar com ele -ele diz
–Ah não? -digo irônica- Por que não?
–Porque você tem de ficar comigo -Percy diz, simplesmente.
Fale com o autor