Darcy estava inquieto depois de chegar da casa de Elisabeta. Não comeu muito no jantar e se sentou no sofá pra ler alguma coisa, mas não conseguia se concentrar. Não conseguia tirar o rosto de Elisa da cabeça. A maneira como ela reagiu a “história” dos dois lhe deu esperanças que ele não ousava ter antes disso. Darcy era um especialista em Elisabeta. Ele a observava com atenção sempre que podia e agora, que os dois estavam passando tanto tempo juntos, ele sabia que muito pouco a surpreendia.

Mas ela tinha ficado surpresa. Darcy precisaria ser mais direto com ela, mas tinha medo de assustá-la, logo agora que as coisas estavam começando. Ele ainda tinha mais uma semana, faria o melhor que pudesse. Darcy sequer ligava para o baile de dona Margareth, era tudo uma desculpa para ficar perto de Elisa, que precisava dele pra acalmar dona Ofélia.

Ele ouviu batidas na porta e ficou surpreso ao ver Elisabeta, como se seus pensamentos tivessem se materializado na frente dele. Ela estava descabelada e assustada, mas estonteante.

— Oi, meu amor. – ele disse. – Não me leve a mal, você está linda como sempre, mas o que aconteceu?

— Eu… – ela perdeu as palavras. Ele era tão lindo. Ela perdeu também a coragem. – Eu preciso falar com Jane.

O rosto de Darcy assumiu uma feição séria. Ela ia terminar tudo com ele, pois não achava certo mentir para a família. Ele confessaria tudo e ai eles não precisariam mais mentir. Ia ser verdade.

— Aconteceu alguma coisa?

— O que? – ela precisou parar pra pensar que ele podia achar que tinha acontecido algum acidente. – Não, não… é só uma dúvida mesmo. Não se preocupe, não é nada sério.

Ele fechou a porta atrás dela e fez menção para que ela entrasse. Antes que pudesse pedir um momento a sós com Elisa, Jane, que também estava na sala, se levantou.

— Elisa, o que houve? – ela perguntou enquanto Elisa cumprimentava Camilo. Julieta e Aurélio já tinham se recolhido.

— Nada, não houve nada. Eu preciso falar com você, mas tem que ser em particular.

— Vamos, vamos. – Jane apontou as escadas. Elisa percebeu que Darcy estava segurando seus ombros o tempo todo e se soltou dele.

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Assim que Jane fechou a porta do quarto, Elisa disparou a chorar.

— Jane, como você sabia? Quando eu e Darcy contamos você estava genuinamente empolgada.

— Do que você tá falando? – Jane olhou pra irmã como se ela estivesse louca.

— Você parecia acreditar. – Elisa explicou como se fosse óbvio.

— Acreditar em que?

— Ah meu Deus. Jane. Eu e Darcy não estamos juntos de verdade. Foi um acordo pra que mamãe não me enchesse a paciência sobre estar solteira e porque ele precisava de alguém pra um baile, é tudo fingimento. Mas você acreditou. Você disse que sabia. Você e Camilo apostaram! – Elisa estava histérica.

— Como assim não é verdade…? É claro que você estão juntos, vocês fazem tudo juntos. Você foi morar comigo, lembra? Não com Darcy… –Jane tentou brincar, mas percebeu que Elisa não estava rindo. – Meu Deus, Elisa. Meu Deus.

As duas ficaram se olhando em silêncio, Elisa sem saber como contar pra irmã que queria que a história fosse mentira, que ela nunca desejava ter inventado tamanho absurdo. Sem saber como contar que a mentira tinha se tornado realidade.

— Como você sabia, Jane? – Elisa perguntou de novo.

— Lembra quando eu fiquei gripada aqui? Ele só tinha olhos pra você. Eu achei que estava delirando de febre, porque você sempre xingava ele e falava mal, mas não estava. – Elisa abaixou a cabeça e se deitou no colo de Jane, escutando uma confirmação que ela não sabia se queria escutar. – Ai quando eu melhorei, eu fiquei reparando pra ver se era coisa da minha cabeça, mas não era. Você sabe como eu sou romântica e eu já estava apaixonada por Camilo, achei que minha cabeça estava me pregando peças. – ela riu. – O olhar dele pra você sempre foi o mesmo que eu vi nos olhos do papai pra mamãe: ele às vezes fica irritado com ela, mas nunca deixa de olhá-la com olhos de amor. E eu acho que você tem o mesmo olhar pra Darcy, mas vocês dois passaram muito tempo se negando isso. Acho que está na hora de parar. – ela suspirou. – Bom, eu achei que já tinha parado, mas fui enganada.

— Eu amo Darcy. Não sei se é recíproco. – Elisa estava quase dormindo. Sentimentos eram muito exaustivos.

— Elisa. Você é tão inteligente, mas também incrivelmente burra às vezes. – Jane deu um peteleco na cabeça da irmã. – Se Darcy não te amasse ele nunca teria te feito essa proposta absurda! Aceitar ficar uma semana com dona Ofélia perguntando sobre casamento e filhos por vontade própria e te dizendo que ele precisa de alguém pra fingir ser noiva dele? Por favor. Ele poderia muito bem falar com Dona Margareth que aceitava namorar Briana. Ele queria a sua companhia. E ele te provou isso várias vezes e eu tenho certeza que você não prestou atenção pois estava preocupada com medo de amar.

— Jane… eu estou mesmo com medo. – Elisa bocejou.

— O que ele disse hoje era verdade? Que vocês se beijaram quando ele estava aqui? – ela perguntou pra irmã.

— É sim. — Elisa confirmou.

— Acho que tudo faz mais sentido agora. Você se sentiu pessoalmente ofendida com a intromissão dele no meu namoro então. — Jane concluiu.

— Acho que sim. Acho que eu fiquei irritada porque foi só um beijo, mas parecia que ele não confiava em mim.

— Um beijo nunca é só um beijo, Elisa. – Jane passou a mão pelo cabelo dela, que já sentia as pálpebras pesadas.

— Você deve estar certa… — Elisa disse antes de fechar os olhos e apagar.

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— Será que está tudo bem com ela? – Darcy estava andando de um lado pro outro, preocupado com Elisabeta.

— Claro que sim, meu amigo. — Camilo tentava acalmá-lo. – Caso contrário Jane já teria descido pra pedir sua ajuda.

Foi como se Camilo invocasse a esposa, que naquele momento estava descendo a escada.

— O que ela tem Jane? Nunca vi Elisabeta assim. – Darcy perguntou, sua testa franzida com rugas de preocupação.

— Não é nada demais, ela estava chateada com um assunto, mas acho que já resolveu. — a cunhada o acalmou. – Amanhã você conversa com ela, tá bom?

Ela chamou o marido pra dormir e Darcy ficou sentado na sala, olhando pro teto, querendo mais que tudo que ele tivesse tido antes disso tudo a coragem pra falar com ela, que Elisa fosse mesmo sua namorada, sua esposa, qualquer relacionamento que lhe desse permissão de pegá-la nos braços, encher de beijos e tirar a tristeza do seu rosto.

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Elisabeta acordou com a cabeça cheia, sem saber direito onde estava, até que se lembrou da conversa com Jane na noite passada. Agora que tinha aceitado que amava Darcy poderia analisar mais profundamente porque tinha ficado tão magoada quando ele acusou Jane. Era como se ele estivesse acusando ela. Elisa tinha ficado triste pelo tanto de possibilidades que a denúncia contra Jane tinha tirado dela. A irmã tinha conseguido seguir em frente, mas Elisa tinha se fechado. Darcy tentou entrar em contato com ela várias vezes, mas ela simplesmente fingia que ele não existia ou então dava respostas atravessadas para as coisas que ele falava. Agora que ela entendia melhor, pôde perceber que não tinha dado tempo pra ele se explicar, não tinha se permitido aceitar desculpas. Não era mais assustador admitir que estava apaixonada por Darcy em tão pouco tempo, porque ela tinha tentado matar o sentimento, mas ele floresceu mesmo assim. Ela não acreditava que estava usando metáforas tão bregas. Ia tomar coragem e conversar com Darcy. Se ajeitou rapidamente na frente do espelho e esperava sair sem acordar ninguém, pois o dia não tinha amanhecido totalmente. Se sua mãe descobrisse que ela não tinha dormido em casa, Elisa escutaria xingamentos até o fim dos tempos. Ela ficou surpresa quando viu Darcy acomodado no sofá da sala, mas conseguiu sair sem ninguém perceber. Ela teria que se explicar com Jane depois, mas antes Jane que dona Ofélia.