Everybody hates Pip
16 Situações
Por um tempo Pip ficou olhando para o professor de história explicar sobre algo relacionado a segunda grande guerra mundial sem prestar a menor atenção em qualquer coisa que ele falava, alheio a qualquer coisa ao seu redor. Naqueles últimos dias as coisas estavam diferente, e ao mesmo tempo terrivelmente iguais. Diferentes no sentido do que acontecia ao redor e igual no que ocorria com Pip diariamente, pois não importava o quanto as pessoas estivessem ocupadas, alguém sempre daria um jeito de deixar o loiro para baixo, bate-lo um pouco e humilha-lo publicamente das maneiras mais simples até as mais vergonhosas. Era quase como se todos ali sentissem um prazer sádico e cruel em maltratar Pip.
Mas tal coisa era extremamente óbvia e, por mais deprimente que pudesse parecer, Pip já havia se acostumado depois de tanto anos na mesma situação.
O professor parecia concentrado, ele explicava a matéria maravilhosamente bem e era quase impossível não entender pelo menos um pouco do que o homem falava. A maior parte dos alunos também estava concentrada, com exceção de poucos como Pip ou Craig, o qual estava debruçado sobre a mesa escondendo um hematoma roxo na bochecha esquerda. Alguns boatos diziam que ele havia conseguido aquilo do seu pai, mas Pip não procurou se aprofundar muito em tais teorias e deduções.
Então um barulho de espiro não muito alto porém nem tão baixo assim percorreu a sala, interrompendo de maneira brusca o falatório do professor e fazendo o homem percorrer os olhos pela sala a procura de um culpado. Por mais que tal coisa fosse acidental e totalmente irrelevante para qualquer tipo de repreensão ou castigo, aquele professor em particular, por mais que fosse um bom educador, não gostava muito da idéia de precisar ensinar em um colégio no interior para um bando de adolescentes quando poderia estar em uma faculdade em Denver e costumava descontar suas frustrações em alguns alunos. De maneira mais precisa, em Pip. Sem falar que naquele dia o humor dele parecia terrível e aquilo não era nem um pouco bom.
Todos estavam em silêncio temendo a ira daquele homem quase careca e o loiro era uma dessas pessoas, Pip afundou na sua carteira quase como se quisesse escapar despercebido pelo olhar feroz e frio daquele professor.
E Pip quase conseguiu. Quase. Como se o homem estivesse prestes a desistir ele deu uma última olhada na sala, pregou os olhos no britânico por breves segundos e Pip pode jurar que ele quase sorriu.
–Muito engraçado Pip. –Todos os olhares ali pousaram em Pip, o qual afundou ainda mais na carteira. –Você deve achar muito engraçado interromper minha aula assim.
–Eu não falei nada. –Pip falou meio baixo demais.
–Não me venha com essa conversa fiada dessa sua gente, franceses são todos iguais.
–Mas eu não sou...
–Não me faça perder a pouca paciência que ainda tenho para você. –Interrompeu o loiro, irritadiço. –Vamos acabar com isso logo. O Harold que resolva o que fazer com você.
Algumas pessoas cochichavam baixo e outras apenas observavam a cena em silêncio, mas uma coisa era certa, todos sabiam que Pip não era o culpado de qualquer coisa... Mas quem diabos, no céu, Terra ou inferno, ajudaria o loiro em alguma coisa? De fato ninguém gostava dele.
Pip apenas se levantou, pegou seu material didático e saiu em silêncio, já era demasiadamente experiente com aquele tipo de situação para saber que um debate não adiantaria de nada. Sempre era mais fácil e simples abaixar a cabeça e aceitar o que os outro lhe impunham, sem contestar e nem tentar provar o contrário.
–E você também Craig. Se é para dormir na minha aula só aproveite e vá dormir no banco de espera. –O loiro pode ouvir de dentro da sala o professor falando e segundos depois um Craig Tucker saindo da sala com sua típica cara de poucos amigos.
Pip preferiu seguir um pouco mais atrás de Craig, quase podendo sentir uma aura pesada que emanava dele. Não havia ninguém pelos corredores quando ambos chegaram na frente da sala do sr. Green, o loiro apenas se sentou em uma das cadeiras de espera e Craig deu três irritadas e barulhentas batidas na porta, para também se sentar com uma distância de três cadeiras de Pip.
Segundos depois a secretária de Sr. Green abriu a porta e encarou por uns instantes para os dois adolescentes no banco de espera, com um olhar extremamente irritado. As roupas da mulher loira estavam meio amassadas e parte da blusa, sempre colocada por dentro da saia e bem arrumada, estava com parte para fora e mal abotoada. Pip preferiu não pensar no que poderia estar acontecendo naquela sala e Craig, depois que a secretária fechou a porta, riu sarcasticamente e sem vontade nenhuma.
–Se a sua mulher souber disso Harold... –O moreno falava mais para si mesmo do que para Pip.
Pouco tempo depois a mesma mulher loira saiu da sala já um pouco mais arrumada e mandou os dois garotos ali entrarem. Sr. Green mantinha uma expressão seria e mal humorada, seguindo tanto Pip quanto Craig se sentarem no sofá verde e novo de três lugares que ficava de frente para a mesa do homem ruivo.
–Eu me pergunto porque vocês dois são sempre os mais problemáticos. –Ele falou seriamente.
–Eu também adoro vir aqui, Harold. –Craig revirou os olhos.
Pip preferiu não falar nada.
–Mal educado como sempre, sr. Tucker. –Falou no mesmo tom. –O que você fez dessa vez?
–Dormi na aula insuportável do Ivan, não sei como alguém agüente aquele cara.
–Aparentemente só você é o Pip não se dão muito bem com ele.
–Ele que se foda...
Sr. Green balançou a cabeça negativamente e pegou alguns papéis em uma das gavetas.
–Se vocês continuarem vindo aqui tantas vezes por semana serei obrigado a lhes dar uma suspensão.
–Por favor, não Sr. Green! –Pip falou quase com desespero.
–Vai ser até melhor não precisar vir para essa merda de lugar. –Craig respondeu.
–Por mais difícil que isso possa parecer, até mesmo Pip tem mais senso comum que você Sr. Tucker. –O homem bufou meio irritado. –Mas eu não posso esperar nada muito diferente do seu tipo de gente...
–Tipo de gente...? –A voz dele soava com uma evidente irritação.
–Sim. Seu pai deve estar decepcionado pelo filho ter virado esse tipinho...
–Acho que isso está meio óbvio. –Craig respondeu com uma mistura de raiva e sarcasmo, apontando para a parte com o hematoma roxo no rosto.
–Eu não o culpo, faria a mesma coisa se eu tivesse um filho e ele agisse dessa maneia.
–Então você é um filho da puta.
Um silêncio ensurdecedor se manteve por algum tempo, tempo que Pip desejou muito desaparecer daquele lugar.
–Eu deveria te expulsar por isso Craig.
–Eu não me importo.
–Três horas de detenção para os dois. –Sr. Green parecia prestes a perder a paciência. –E Craig, o seu pai vai saber disso.
–Ele que se foda. E você também.
Craig saiu da sala batendo os pés e fechando a porta com força desnecessária, Pip jurou que faltou apenas um pouco mais de força para ela se quebrar.
– Pode ir Pip... E se você ver a Olívia mande ela vir aqui.
– Sim senhor.
~ DIP ~
Quando Pip saiu do colégio já estava meio escuro e poucas pessoas caminhavam pelas ruas, mesmo que não estivesse muito tarde South Park continuava sendo uma cidade pequena demais que so reunia uma boa quantidade de habitantes no mesmo lugar quando era atacada por algum tipo de monstro ou alienígenas pousavam por aquelas bandas. Nada fora do normal, pelo menos para aquela cidade em particular.
No horizonte espalhavam-se tons de laranja, vermelho e rosa que desapareciam aos poucos por detrás das varias montanhas, do lado oposto ao sol o azul já estava um pouco escuro e por alguma razão uma lua minguante podia ser vista. Mas Pip não prestava atenção em nada daquilo, apenas conseguia pensar no frio, em como um casaco a mais faria uma grande diferença e, ao se lembrar pela milésima vez, suspirar pesadamente por não ter um casaco a mais ou muito menos dinheiro para poder compra-lo.
Cruzou os braços para tentar se aquecer um pouco e passou a caminhar um pouco mais rápido, mas sem olhar para frente. O sol parecia estar se pondo mais rápido que o habitual, mas Pip não prestava atenção em tal coisa e apenas parou para notar quando os postes de luz acenderam um a um. Já está tão tarde? Realmente não sabia dizer, o loiro não tinha celular ou relógio para poder orientar-se e essa era a principal razão de sempre acordar ao amanhecer para ir ao colégio. Preferia chegar algumas horas adiantado do que minutos atrasado...
E nenhum professor deixaria Pip entrar em sala depois do horário, pois ninguém gostava dele. Mas afinal, quem iria gostar de alguém inútil e fraco como Pip?
Damien iria... Talvez. Pip gostava de pensar que sim, mesmo achando muito difícil. Principalmente por ele ter ido embora sem explicar nada e o que mais deixava o loiro triste era saber que Damien realmente não precisava dar quaisquer tipo de satisfação ou explicação.
Mesmo sendo algo completamente inacreditável e estranho, mesmo soando daquela maneira terrivelmente errada, Pip estava sim gostando do anticristo. E por um momento perguntou-se o que Deus pensava daquilo e teve quase certeza de que não poderia ser nada de bom.
– Hey, você!
A voz feminina soava atrás de Pip, meio impaciente. Ao se virar viu que quem lhe chamava era a novata, se não estivesse enganado o seu nome era Nandah ou algo do tipo. Do lado dela Nero estava com as mãos enfiadas nos bolsos da calça preta, com seu ar constante de cansaço e desinteresse.
Pip pensou em perguntar o que eles queriam, mas antes que pudesse pensar em formular uma frase Nandah caminhou rápido para perto do loiro, o qual controlou o instinto de dar um passo para trás e tentou, em vão, manter-se firme diante daquela figura centímetros mais alta que transmitia um ar de superioridade pelos os olhos de íris vermelha mesclada com vários tons diferentes daquela cor.
– Você também quer achar o Damien, certo?
O britânico ficou sem palavras por alguns breves momentos e Nandah, sem paciência alguma, apressou-o.
– Fala logo, eu não tenho a noite toda!
–Por que você quer saber?
–Porque eu acho que você pode ajudar a encontrá-lo.
Pip, por breves segundos, pensou em como Damien pareceu ter o objetivo de não ser encontrado quando falou consigo pela última vez, no nervosismo em sua voz e o modo em como ele olhava para os lados, quase como se quisesse ter certeza de que ninguém estava-lhe seguindo... Mas tudo isso não passou de alguns segundos de reflexão quando Nandah falou que Pip poderia ajudar a encontrar o anticristo, pois, sem sombra de dúvidas, o loiro queria acha-ló, desejava poder vê-lo novamente e, com um pouco mais de coragem, lhe falar o que sentia.
Mesmo que parecesse extremamente gay, mas no fundo aquela era a intenção.
– Como eu posso ajudar?
Então por um momento quase se arrependeu de ter falado aquilo, principalmente depois de ver o sorriso estranho que Nandah havia dado-lhe.
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