Aquela manhã estava mais fria do que o habitual para uma manhã em South Park, e Pip tinha a sensação que a neve nunca iria acabar. Esfregando as mãos para se aquecer ele fazia a sua caminhada matinal para o colégio, dessa vez com um pouco mais de dificuldade do que o de costume, pensando apenas no clima frio e em como o vento gelado parecia cortar-lhe a pele. Um casaco a mais faria uma grande diferença, mas ele não possuía outros casacos além de aquele que já usava.

Eu daria tanto por uma xícara de chá...

Pip suspirou e colocou as mãos nos bolsos, em uma tentativa falha de manter calor, chutando um pouco de neve em intervalos de tempo não muito bem definidos. Já era sexta-feira o loiro não possuía muitos planos para o fim de semana, além de supostamente ajudar Nandah e Nero em alguma coisa que envolvia achar Damien, eles começariam no sábado, mesmo que nenhum dos dois tivesse especificado ou explicado nada mais profundo que aquilo. Não negava que estava ansioso, inquieto e um pouco inseguro. Mas por que? A verdade era que Pip não sabia no que estava se envolvendo e ninguém parecia fazer questão de lhe explicar. O loiro estava no escuro em relação a muitas coisas: o que Nandah e Nero queriam com Damien, o que se passava com o anticristo e como tudo aquilo poderia se encaixar.

A única coisa que poderia ter um pouco mais de certeza era que de fato tinha algo de errado em tudo aquilo, Pip só não sabia por onde começar a explicar.

Quando Pip avistou o colégio no final da rua apressou o passo instintivamente, sabendo que dentro daquele prédio séria bem mais quente e agradável. Ele chegou ao mesmo tempo que o ônibus escolar, mas por sorte conseguiu entrar antes que a maioria esmagadora e como sempre foi até o final do último corredor onde ficava o seu armário para pegar os livros. Nesse meio tempo o colégio encheu-se de alunos, deixando o ambiente aos poucos menos frio que antes.

Alguma coisa dizia a Pip que aquele dia seria mais calmo que os outros, que todos estavam preocupados demais com o frio anormal para lembrar de intimidar um pequeno, fraco e inútil garoto francês – perdão, britânico – e talvez hoje as pessoas fizessem o favor de não nota-lo.

Tal coisa poderia acontecer, mas era inegavelmente difícil.

Ao fechar a porta do armário, já com os livros em mãos, Pip pode ver pelo canto dos olhos um aluno que já não via a algum tempo e de fato estava ótimo sem vê-lo. Stan havia voltado junto do resto do time, aparentemente carregando mais uma vitória pelo modo que agia com todos ao redor e sorria para tudo, caminhava naquela direção conversando animadamente com seus amigos – Kyle e Cartman – e mais alguns integrantes do time.

A vitória do time trazia um imenso alívio ao loiro, pois quanto eles perdiam um jogo tinham uma tradição quase doentia de descontar a frustração e a raiva, através de agressões tanto físicas quanto verbais nas pessoas ao redor, no caso, em Pip. Quem mais fazia era Stan, Trent e Clyde, eventualmente.

Pip começou a caminhar com o objetivo de chegar à sala da sua primeira aula do dia, de matemática, levando os livros em frente ao corpo, pois eram muitos para que conseguisse carregar debaixo do braço. Mesmo segurando o material didático firmemente contra o corpo ainda não foi o suficiente para impedir que que o 'acidente' acontecesse. Kenny passou do seu lado e, propositalmente, derrubou todos os livros que carregava no chão com apenas uma mão, em seguida foi na direção de Stan, o qual riu alto e comentou algo sobre como Kenny deveria ter derrubado o britânico, não os livros.

– Cuidado com os livros, Pip! – Stan disse debochadamente, arrancando risos de alguns que presenciavam a cena.

Pip perguntou-se como eles ainda conseguiam ver graça naquilo, sendo que nem mesmo ele próprio se afetava tanto quanto deveria e resumia suas atitudes a se ajoelhar no chão e recolher o material didático, exatamente como fazia agora.

Havia se transformado em algo tão rotineiro quanto deprimente a muitos anos.

~ DIP ~

Nada fora da rotina havia acontecido naquele dia, da rotina de Pip. Mas pelo menos ninguém havia lhe trancado em um armário, ou lhe surrado. Mesmo que fosse ignorado, estava bom assim, ele não tinha o direito de reclamar. Pessoalmente o britânico preferia que todos ignorassem a sua presença na maior parte do tempo, era mais fácil assim.

Saindo do colégio Pip não foi parado por ninguém, e aquilo era o melhor sinal de todos, que terminaria o dia sem nenhum novo hematoma. Ele caminhou pela calçada, observando o ônibus escolar já um pouco longe, dobrando a esquina, agora já mais conformado com o fato de não poder pisar dentro dele. Aquilo não lhe incomodava tanto na verdade, e era mais seguro ir para a sua casa a pé. Não podia negar que era longe, o loiro duvidava muito que aquele automóvel fizesse alguma rota para onde morava. Além de ser longe da área residencial de South Park, apenas Pip e mais um estudante moravam daquele lado da cidade, e esse estudante faltava na maior parte do tempo.

Em um dia qualquer da semana o loiro iria direto para sua casa, fazer as tarefas para o dia seguinte, mas hoje Pip se permitiu quebrar um pouco daquela rotina. Poderia passar no McDonald's, mesmo não sendo a melhor ou mais saudável comida de todas, continuava sendo a mais barata. O estabelecimento ficava meio longe do colégio, perto do restaurante chinês, mas não tanto assim. Não demoraria mais que meia hora de caminhada sem que não fosse interrompido.

Mas talvez, por algum acaso, sequer conseguisse chegar no seu destino.

– Pip, eu vou pegar o sua alma emprestada, tudo bem?

A voz era feminina, mas Pip não conseguiu ver a quem ela pertencia, pois instantes depois algo entrou pelas suas costas e atravessou o seu peito. Ele gritou, doía mais que qualquer outra sensação que o loiro já lembrava-se de ter sentido na vida, ele tentou se afastar, levou seus braços tremendo e tentou tirar aquilo que no momento não conseguiu identificar, mas todos aqueles atos somente faziam a dor aumentar ainda mais. Então gruniu, apertando os olhos pela dor, no momento em que aquilo que lhe atravessava foi puxado de volta.

Pip caiu para frente no chão duro da calçada, temendo e sem conseguir deixar de chorar, sentindo o sangue jorrar da ferida aberta e se espalhar pelo concreto. Com os braços apoiados do chão sujo de vermelho, tentou erguer o corpo e se virar para, inutilmente, ver quem havia feito aquilo consigo, porém a visão meio escura e desfocada não ajudava em nada.

Não conseguiu pensar em nada, a dor era imensa, se sentiu ficando cada vez mais fraco, a vista escurecendo cada vez mais e o fluxo sanguíneo diminuindo. Até o momento que não sentiu mais nada.

~ ~ ~

Nero observou Nandah matar Pip, achando aquilo particularmente exagerado, mas ainda era o modo mais fácil de conseguir o que eles queriam. Se aquele garoto loiro afetasse Damien de alguma forma, mesmo que minimamente, ja seria o suficiente para tentar a sorte. Ele realmente não tinha nada contra o garoto que estava vivo até segundos atrás, tudo bem que a alma dele era branca – não poderia deixar de se perguntar como Damien suportava ficar perto dele – ao ponto de irritar, porém realmente não faria nada com o britânico em alguma outra situação. Conhecia quem fizesse, mas, pessoalmente, não faria.

– Você tem certeza que essa era a melhor solução? – Nero perguntou apenas por perguntar, bocejando logo em seguida, com desinteresse. Não se importava propriamente com os meios.

– Talvez, mas de qualquer jeito, continua sendo o mais fácil. – Nandah respondeu enquanto tirava o excesso de sangue do braço que havia atravessado o corpo inerte no chão, a poucos minutos. – Além disso, Damien vai ficar muito puto quando souber. – Ela completou, satisfeita.

– Não sei se irritar o príncipe da ira seja uma boa ideia...

– Nero, você respeita o Damien tanto assim? Eu não sabia... – Ela falou do modo mais sarcástico possível, cruzando os braços.

Deu os ombros, não era como se respeitasse de fato o príncipe da ira, e Nandah sabia disso. Pois se o respeitasse não estaria tentando faze-lo desistir de sua posição, do titulo tão almejado por todos os outros seis príncipes do inferno.

E Nero não sabia se aquele era o momento ou situação certos, mas não ignoraria qualquer mínima chance de conseguir completar o seu objetivo.

~ DIP ~

Pip acordou sentindo uma forte queimação no peito, seguido pela mesma dor que sentiu quando teve ele sendo atravessado. O loiro abriu os olhos, vendo um ambiente relativamente escuro, e apoiou as mãos no chão morno para erguer o corpo. O local onde se encontrava parecia ser uma sala de estar, com os móveis de cor escura, carpete acinzentado meio sujo do seu próprio sangue ainda fresco e uma janela a qual no momento não era vista por causa das pesadas e longas cortinas negras. E o ar estava ridiculamente quente e abafado.

O britânico, obviamente pensou em varias coisas ao mesmo tempo e da maneira mais rápida que sua mente tinha capacidade de processar, tudo relacionado a situação em que se encontrava, mesmo que a principal e destacada pergunta fosse:

Eu morri?

Sim, Pip claramente lembrava-se de ter seu corpo sendo atravessados por algo, de perder muito sangue, da vista desfocada e escura, de sentir-se muito fraco... De morrer. Entretanto, aonde ele estava nesse exato momento? Aquele lugar parecia ser apenas mais uma sala de estar de um apartamento comum, não havia nada de extraordinário ou relevante ali.

Isso até Nandah abrir a porta no canto da sala e entrar, junto de Nero. Aqueles dois alunos novatos e estranhos.

– Ótima ideia a sua, o sangue vai destruir o carpete. — Nero disse, enquanto olhava para Pip e o sangue dele que sujava o chão.

– Não fode. Você queria que ele fosse para onde? — Nandah falou, enquanto ia na direção do sofá e se jogava nele sem a menor cerimônia. — A minha mãe ficaria histérica se visse essa coisinha em casa...

–Você fala assim porquê não é o chão da sua casa.

–Não é óbvio? — Questionou ironicamente, gesticulando com uma mão.

Pip ouviu toda aquela conversa em silêncio, sua cabeça absorvia e tentava entender o que eles estavam fazendo ali, o que estava acontecendo. Não teve sucesso.

– Com licença...?

Pip chamou a atenção deles, hesitantemente, e rapidamente os olhares vermelho se voltaram ao loiro, o qual não deixou de ficar meio acuado com aquilo, mas logo se levantou do chão e tratou de continuar.

– Se me permitem perguntar, o que está acontecendo?

– Nos ja explicamos antes, isso vai nos ajudar a encontrar o Damien. — Nandah pausou. — E, talvez, fazer ele vir até nos.

– Resumidamente, nos te matamos e raptamos. — Nero sentou-se em uma das cadeiras de uma mesa redonda e pegou uma maçã da fruteira. — Com sorte o Damien vem até aqui.

– Não fale assim imbecil, você vai assusta-lo!

Sem conseguir juntar as peças para tentar supor o que estava ocorrendo ali, Pip apoiou as costas na parede e passou a encarar o chão. Aquelas pessoas haviam lhe matado e iriam pedir um resgate para Damien? Pelo que pode deduzir, se referiam a sua alma. Porém, como aquilo se encaixava?

– V-vocês me mataram?

– Nos não, a Nandah foi a única pessoa aqui que usou o braço para atravessar as suas costas.

– Ainda tem um pouco de sangue nas minhas unhas. — Reclamou, enquanto analisava as unhas da mão direita.

– O que... O q-que vocês são...?

Nandah respondeu a pergunta assim que Pip terminou de falar, com a maior naturalidade do mundo mesclada com um pouco de ironia.

– Você já não sabe coisinha? Somos demônios.

Notas finais
*HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH* EU MATEI PIP sou uma filha da puta