As pessoas claramente riam nas costas –e algumas até na cara– de Pip, provavelmente pelo incidente com o vestido da semana passada, mas o loiro não prestava atenção em nada daquilo. Sua mente estava ocupada demais ponderando sobre os acontecimentos do último fim de semana, mais precisamente sobre o beijo, enquanto caminhava na direção do ginásio para a aula de educação física. Talvez fosse exagero seu pensar em Um simples beijo por tanto tempo, ou talvez não, realmente não sabia ao certo.

Damien não havia aparecido o dia todo e Pip estaria mentindo se falasse que não estava sentindo falta dele, mas não reclamaria disso para ele depois, pois de fato o loiro não tinha esse direito.

Já na porta do vestiário Pip entrou tentando não ser notado e foi para os fundos do lugar, esperaria todos ali saírem para poder se trocar, o loiro não deixava de admitir que tinha um pouco de vergonha para trocar de roupa em "público" e torceria para que ninguém lhe trançasse em um armário, o loiro perdeu a conta de quantas vezes alguém fez questão de lhe prender em um daqueles buracos sufocantes e apertados. E ele não deixaria de odiar todas às vezes. Alguns minutos esperando foram o suficiente, o loiro tratou de se trocar suas roupas pelo uniforme para aquela aula, uma blusa branca desnecessariamente justa e uma bermuda cinza meio curta, para depois sair correndo até a quadra e esperar que a professora não o expulsasse da aula por apenas três minutos de atraso.

Por sorte os times ainda estavam sendo escolhidos e Pip rapidamente esgueirou-se para perto daquelas pessoas que nunca eram escolhidos primeiro. No final o loiro ficou no time das "sobras" como de costume, com Tweek, Bradley, Butters, Kevin e Gary, sendo que o último era relativamente bom em esportes, mas ninguém gostava do garoto mórmon. Eles teriam que competir contra Cartman, Kyle, Stan, Kenny, Clyde e Trent, e a maioria deles era boa em esportes.

O jogo seria queimado, Pip não gostava muito de bolas, pois elas doíam muito quando acertavam com força, mas entre todos os esportes aquele que mais suportava jogar era queimado.

E do outro lado da quadra o loiro conseguiu ouvir algumas conversar, notando que a bola estava nas mãos de Trent.

–E ai Cartman, o nerd, o francês ou o viciado em café? –Trent perguntou sínico

–So joga logo essa merda, eu tenho mais o que fazer. –Eric respondeu mal humorado.

Pip lembrou-se de como uma bolada dada por Trent doía e quase rezou para que ele não fosse o infeliz na mira daquele brutamonte. A bola vermelha voou na direção de Kevin e o pobre garoto desviou correndo quase desesperado, Gary agarrou-a depois de ela bater no chão e jogou na direção de Clyde, o qual segurou com imensa facilidade, mirou em Bradley e acertou em cheio no braço esquerdo do garoto.

Quando a bola foi na direção de Pip o loiro -impressionantemente- a segurou e jogou para Gary. A razão de o britânico achar queimado suportável era o fato dele não ser ruim no jogo, dependendo da força ele até conseguia segurar algumas das boladas. A maioria dos integrantes do seu time saíram nos primeiros quinze minutos de jogo, no final sobrando apenas Pip, Tweek –que era incrivelmente rápido– e Gary.

–Eu só queria terminar logo com essa merda. –Eric falou impaciente. –Mas os viados não querem ajudar.

–Bem, desculpe por ser um incômodo por tanto tempo –Gary falava sorrindo e Pip quase podia dizer que ele era masoquista. –pode me acertar Eric, eu também cansei disso.

Gary saiu com um olho meio machucado que mais tarde ficaria roxo, mas não reclamou.

–Agora aquela coisa ai. –Stan referia-se a Tweek, enquanto mirava no mesmo.

–I-i-isso é muita pressão! –Gritou, dando alguns passos para trás e puxando a blusa.

–Fica parado, coisa.

Tweek até tentou correr, porém já estava bastante cansado e Stan acertou o meio de suas costas em cheio fazendo o loiro soltar um "Jesus cristo" e correr para perto de Craig, o qual observava a cena ao longe com alguns outros alunos.

–Sua vez, francesinha. –Zombou Trent. –Você até que foi bem no jogo, eu pensei que franceses não soubessem jogar.

–E não sabem! –Stan riu.

Talvez pelo sangue correndo rápido ou pela adrenalina jogada no sangue, Pip se irritou terrivelmente mais rápido que onde costume. Quando a bola voou na direção do loiro ele não desviou, apenas segurou com as duas mãos e, cego pelo ódio, devolveu com toda força para o outro lado da quadra recebendo um grito como resposta.

–PORRA, MEU NARIZ! –O nariz de Kyle sangrava, provavelmente estava quebrado.

–Oh meu Deus, eu sinto muito Kyle! –Pip estava sendo honesto depois da onda de ódio. –E-eu...

–Pip direto para a condenação! –A professora gritou correndo na direção de Kyle.

Um pequeno tumulto estava se formando e Pip soube que mais tarde receberia o troco por ter feito, porém não estava preocupado com aquilo naquele momento. Deus, o que sr. Green faria?! O loiro não poderia ser suspenso! O pior que agora ele não tinha nenhuma razão, nenhum modo de se defender ou muito menos um bom argumento, mesmo que tivesse de nada adiantaria. Então saiu de fininho do ginásio, pedindo a Deus para que ninguém tivesse visto, e passou a andar rápido pelos corredores desertos com o objetivo de chegar até a coordenação, pois talvez se o próprio Pip dissesse o que aconteceu sr. Green não fosse suspende-lo.

Só que Pip não viu quando alguém o agarrou por trás, cobriu sua boca e puxou-lhe para dentro do armário do zelador. Antes que pudesse soltar um grito instintivo o raptor falou perto do seu ouvido:

–Shh, não grite.

A voz era de Damien. Se fosse qualquer outra voz o loiro estaria se debatendo para sair dali. Mas não com Damien.

–Se eles não te acharem não vão poder te suspender. –Damien sussurrou baixo, tirando a mão da boca do loiro.

Fazia sentido, de uma forma distorcida, mas sim, poderia funcionar.

–M-mas, Damien...

–Shhhh, eles estão lá fora. –Sussurro interrompendo Pip. –Não queremos ser achados, certo?

Pip quase conseguia ver o sorriso na voz do outro garoto naquela escuridão, mesmo meio envergonhado por Damien ainda estar lhe agarrando, achou melhor não comentar nada.

~ DIP ~

–Será que você pode me soltar?

Damien não respondeu.

–Damien?

Pip engasgou quando o anticristo o puxou mais para perto.

–O que v-você está fazendo, D-d-damien?

Por uns três segundos uma forte luz branca cegou Pip e Damien se afastou apoiando as costas na parede, mas ainda mantendo aproximação suficiente para que o loiro ficasse sem jeito, aquele lugar era um cubículo.

O zumbido da luz irritava e era a única coisa que quebrava o silêncio, que se mantéu por longos segundos até Pip perguntar:

–Por que você não foi para as aulas hoje, Damien?

–Eu estava ocupado.

–Entendi. –Pip não perguntaria mais nada. –Bem, obrigado. Se você não tivesse me puxado para esse lugar provavelmente Stan estaria me espancando atrás do colégio ou algo assim.

Damien não falou nada.

–Algo aconteceu Damien?

–Sim, na verdade sim. –Suspirou irritadiço. –Lembra de quando eu comentei sobre a minha família.

–Sim, um pouco.

–Pois bem, eles chegaram hoje e meus tios me obrigaram a não ir para o colégio.

–Você esta fugindo deles?

–Exatamente. Era barulho demais, eles são uns chatos da porra. Principalmente os meus primos.

–Mas eles estão te procurando?

–Se eu falar que sim, vai ser estranho demais?

–Não, quero dizer, acho que não...

–Então sim. Aqueles porras estão me procurando. –Damien falava com raiva. –Até parece que hoje é o dia do juízo final...

Novamente o silêncio. Damien olhava irritado para um ponto qualquer do lugar enquanto Pip o observava discretamente por debaixo da franja, enquanto pensava em algo que pudesse falar.

–Nos ja podemos sair daqui?

Damien de repente olhou para o loiro ainda com o olhar serio, mas segundos depois relaxou e deu um meio sorriso, como se estivesse lembrando de algo e falou algumas palavras que deixariam Pip extremamente envergonhado.

–Sabe Pip, eu esqueci de comentar antes. –Ele olhou o loiro de cima a baixo. –Você fica sexy com essa roupa.

Pip ficou vermelho e desejou poder se esconder em um buraco ali e agora, enquanto olhava para um ponto qualquer perto dos seus pés. Ele sabia que aquela roupa era um pouco curta demais e algo assim, mas não imaginou que Damien falaria aquilo.

–Mas nada se compara a você usando as minhas roupas.

Mas aquele sorriso de Damien fez Pip desejar atravessar aquela porta e sair correndo o mais rápido que pudesse.

–Por que vo-você esta falando isso? -Gaguejou, apoiando suas costas com força na porta atrás de si.

–Ora, porque é a verdade. – Damien aproximou-se e segurou uma das mãos de Pip que estava procurando a maçaneta da porta.

–Damien, por favor, vamos sair daqui...

–Por que?

–Não a-acho que seja permitido os alunos se e-escondendo nesses tipos de lugares...

–Tem razão, não deve ser confortável fazer isso em um armário de limpeza. – Damien sorriu maliciosamente.

E naquele momento Pip sentiu que poderia explodir de vergonha.

–Eu n-não quis dizer isso!

–Sim, eu sei.