Everybody hates Pip
18 Primeiras horas no inferno
Estava quente como o inferno, e de fato era o próprio inferno. Pip ainda não havia entendido em como ele poderia se encaixar na situação contada a poucos momentos por Nero, ele jamais teria se imaginado em algo parecido com aquilo, uma peça em um jogo de poder do submundo. O demônio havia lhe explicado algumas coisas, aparentemente nada de real importância, ou secreta. Damien era chamado de "príncipe da ira" e também de anticristo, sendo que "anticristo" era um título a mais, e um dos mais importantes na hierarquia do inferno. Tudo se tratava mais ou menos daqueles dois demônios, os quais também eram primos de Damien, Nero e Nandah tentando arrumar uma maneira de fazer Damien perder ou desistir de ser o anticristo, mas Pip ainda não conseguira compreender em como sua morte poderia ser benéfica para os dois demônios, ajuda-los a completar tal objetivo.
Pip agora encontrava-se sentado no sofá e Nero continuava na mesa, analisando uma maçã meio comida com uma mão, como se realmente não tivesse mais nada para fazer. Nandah havia saído a um tempo.
— Então quer dizer que existem representantes dos pecados capitais?
— Sim, é parecido com o que você leu na Bíblia cristã sobre isso. – Nero respondia as perguntas do loiro pacientemente, mesmo que estivesse com aquele ar de quem se forçava a ficar acordado, sem tirar os olhos da maçã meio comida. – O Damien representa a ira e é o atual anticristo, a Nandah a avareza e eu, obviamente, represento a preguiça.
— Isso é... diferente do que eu aprendi em toda a minha vida...
– Aposto que seja.
O silêncio reinou por alguns segundos, até Pip comentar em voz alta.
— Acho que vocês me mataram para nada.
Nero desviou o olhar da maçã mordida para o garoto britânico com as roupas ensanguentadas, encarando-o com duvida.
— Por que você acha isso?
— Não acho que Damien se importe o suficiente comigo para fazer algo. – Ele olhava para a parede, apenas para ter para onde colocar os olhos.
Pip não conseguiu esconder a tristeza naquela frase, pois realmente acreditava em tal suposta verdade. Mesmo que supostamente em vida – ainda lhe era estranho saber que estava morto, mas não desconcertante – fossem amigos, mesmo depois de alguns situações constrangedoras, mesmo depois de todas as vezes que o anticristo lhe ajudou, ainda tinha duvidas sobre ter Damien como amigo.
O demônio não respondeu, apenas encarou Pip por mais alguns segundos antes de se levantar da cadeira e passar pelo loiro até chegar nas cortinas, ele as puxou e revelou uma grande janela de vidro retangular. No momento em que a abriu, gritos, choros e lamentos de almas preencheram o ambiente da sala.
— Para o seu próprio bem Phillip, espere mesmo que Damien se importe minimamente com você. – Falou sem fazer questão de olhar para Pip lançando a maçã meio comida pela janela antes de fecha-la. Sua voz não soava sarcástica, ameaçadora nem nada parecido, era como se apenas ditasse uma verdade de conhecimento geral.
Segundos depois que Nero deixou a sala, entrando por uma porta que o loiro julgou por ser um quarto, Pip levantou-se do sofá e caminhou uns poucos passos até a janela. O vidro era morno ao toque, como qualquer coisa no inferno, mas a paisagem lá mostrada o perturbou profundamente. Havia fogo, montanhas cobertas de fogo, e no meio dele pessoas sendo queimadas para pagar pelos seus pecados, incontáveis almas, para toda a eternidade.
~ DIP ~
Em algum momento Pip não suportou mais o calor e tirou o sobretudo, deixando à mostra a camisa social de manga longa, a qual estava manchada pelo seu próprio sangue muitas vezes mais que o casaco. Não havia muito o que fazer dentro daquele apartamento, nada com que pudesse passar o tempo, apenas dormir lhe parecia uma boa opção, apesar de não estar com sono. Era óbvio que o loiro já havia tentado sair, mas uma porta trancada não ajudava em nada, ele ainda tentou procurar uma chave por alguns cantos, mas não havia muitos lugares onde ela pudesse ser escondida na sala.
Agora, sentado no chão com as costas apoiadas no sofá e abraçando as próprias pernas, Pip ponderava sobre muitas coisas. A primeira coisa, apesar de tudo, era sobre a sua morte. O loiro, incrivelmente, não estava triste ou deprimido por ter falecido, a única coisa que lhe prendia a vida era a esperança de um futuro e Deus, e mesmo que agora já não tivesse nenhum dos dois no inferno, não sentia-se propriamente mal por isso. Era um sentimento estranho, quase como se não tivesse tanto apego a vida quando supôs ter, mas talvez fosse suspeito para falar na situação em que encontrava-se, afinal, estava morto. E de algum modo aquilo era um alívio, talvez no inferno não fosse odiado apenas por ocupar algum espaço no mundo. Talvez ele estivesse melhor mesmo morto, como Cartman costumava falar.
Depois de pensar um pouco decidiu que somente a ideia de nunca mais precisar olhar na cara de Cartman, e de todos os outros que fizeram de sua curta vida um inferno, não deixava de ser terrivelmente reconfortante.
Pip virou a cabeça na direção da porta quando ouviu o barulho dela sendo destrancada, e dali viu Nandah entrando com uma com um sorriso extremamente satisfeita, mostrando os dois caninos ligeiramente maiores que o normal. O loiro não pode deixar de notar o estado da porta, esquecida e aberta. Percebeu ali uma chance perigosamente óbvia, porém relevante.
— Não se preocupe Pip, logo o seu príncipe de cavalo branco vira lhe resgatar. – O modo ela falou foi malicioso, cruel, mas verdadeiro.
— O Damien...? – Pip não deixou de ficar um pouco envergonhado.
— Você o considera o seu príncipe de cavalo branco? Que bonitinho... – Riu e se sentou no , cruzando as pernas. – e que conveniente.
– E-eu nunca disse nada disso...
— Não precisa, apenas sua reação quando citei o Damien denunciou tudo.
Pip não respondeu por vergonha e por realmente não saber o que falar, mas Nandah continuou a falar com o tom que misturava animação com crueldade.
— Você não tem a menor noção do quando o anticristo gostar de você é bom coisinha... Bem, pelo menos para mim.
— O que... – Pip engoliu a vergonha por um momento e virou-se para a garota demônio. – do que v-você esta falando...?
Nandah encarou o loiro britânico por uns segundos e sorriu.
— Existem alguns critérios que um dos setes representantes deve ter parar ser o anticristo, começar o apocalipse e essas merdas. Até pouco tempo o seu namorado estava dentro de todos esses padrões: Ódio a Deus e tudo que ele representa, ódio a Terra e tudo que ele criou nela e ódio a todos os seus filhos, vulgo humanidade. – Ela falava como se tivesse decorado um texto, um discurso, gesticulando e contando nos dedos. – Mas quando Damien te conheceu, não te odiou coisinha. Muito pelo contrário, ele ficou um pouco mais humano.
— E isso é ruim?
— Para um demônio, péssimo. Para o Damien? Pior ainda.
Após isso ela parou de dar atenção a Pip e foi bater na porta do suposto quarto de Nero, provavelmente para irrita-lo. Enquanto isso a porta continuava aberta como em um convite para o loiro sair.
Ficou observando Nandah por um segundos, a qual falava algo sobre como Nero deveria ir tomar naquele lugar, e levantou-se de onde estava para andar com passos rápidos e silenciosos até a saída, que dava para um corredor com paredes escuras. Pip olhou brevemente para os dois lados e escolheu a direta, não tinha a menor ideia se era a direção certa, mas era uma questão de intento, ou quase como se algo estivesse manipulando-lhe a ir por aquele lado. Já estava no inferno de qualquer modo, o que tinha mais a perder?
Somente desejava encontrar Damien logo.
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