Por vários segundos Pip considerou-se um incrível imbecil por simplesmente sair do apartamento de Nero sem mais nem menos, ele estava no inferno, quantas coisas ruins poderiam lhe acontecer? Tantas que nem fez questão de listar... Mas o loiro também teve o direito de se sentir desconfortável na presença dos dois demônios, Nandah havia lhe matado e Nero meio que conspirou para isso, o mínimo que poderia fazer era sair de perto dos dois.

Além disso, aquela garota parecia ser uma boa companhia.

— Queres saber a razão para tudo isso? Inveja, falta do que fazer... Enfim, somente motivos infantis.

Ísis representava o pecado da vaidade de maneira óbvia, uma bela moça de longos cabelos loiros e olhos vermelhos. Ela já conversava com Pip a um tempo considerável, e ele não se lembrava exatamente de como aquilo havia começado. Bem, era bastante estranho que o demônio representante da vaidade estivesse sendo tão agradável com o britânico, tudo bem que ela possuía uma postura meio esnobe, refletido no vestido extravagante de época que usava e no apartamento bem decorado em um estilo clássico, que em questão de luxo daria de dez a zero em qualquer castelo, e no modo superior que falava, mas nada daquilo atrapalhava de fato a conversa.

Ambos estavam na sala, Pip sentado no sofá para três pessoas e Ísis no menor. Havia um jogo de chá na mesa de centro, e a loira segurava uma xícara, bebericando de vez em quando.

— Você quer dizer, inveja do Damien? – Pip questionou.

— Sim, algo parecido. – Ísis falava daquele jeito impecável. – Todos os príncipes querer possuir o título de anticristo, é uma honra no inferno, e da um poder imensurável a quem possui. Sem falar do apocalipse.

— Isso eu já entendi, mas ainda não sei como vocês podem me usar para conseguir isso...

— Me pergunto se isso é modéstia, ou simplesmente inocência. – Ísis sorriu de um jeito estranho, mostrando seis dentes mais afiados, três de cada lado de sua arcada dentária. – Ou talvez tu apenas não esteja vendo a verdade.
Talvez Pip realmente não estivesse vendo a verdade, ou melhor, quase parecia hesitante em ve-la. Era uma conclusão irreal demais, em tantos aspectos.

— O que será que o Damien viu em ti...?

— Perdão?

— A única coisa tua que pode chamar atenção de um demônio e a alma. – Ísis bebericou um pouco do chá antes de continuar. – O que mais ele viu?

— Em mim? –Pelo olhar de Ísis, Pip notou que a loira não esperava que ele falasse algo. — Alguém desesperado por um amigo, talvez.

— Faça-me o favor, Damien não sente pena.

— Eu nunca disse isso.

A representante da vaidade não falou mais nada nos próximos minutos, somente ficou encarando, Pip como se pensasse em algo. Já o loiro, com a cabeça abaixada, olhava para suas mãos descansando no colo. Pensando em tudo que havia ocorrido, realmente, Damien nunca havia demonstrado sentir pena sobre sua situação, nunca soltou uma palavra de conforto ou deu um olhar de compaixão. Mas não achava aquilo muito estranho, afinal ele era um demônio e esses seres não sentiam empatia, Pip achava.

— Phillip. – Ísis o chamou de repente.

— Sim? – Levantou a cabeça para encarar a loira.

— Tu sabes que se apaixonou pela pior criatura da Terra?

O que o britânico falaria em seguida responderia aquela pergunta de maneira bem mais eficaz que um simples "sim" ou "não".

— O Damien não é a pior pessoa, ele me ajudou inúmeras vezes quando eu estava vivo!

— Defendendo-o hein... – Ísis deu um sorriso estranho. – Defendendo o anticristo, senhor falso profeta?

— E-eu não...

— Tua fé não te impediu, por acaso? – Ela não permitiu que o outro terminasse de falar. – Tu fazes alguma ideia do quanto isso é errado? – O sorriso dela não morreu, e a voz estava venenosa. – Sim, tu fazes. E tu se dizes cristão, porém ama o inimigo mortal dele e sabe o quanto isso é estranho e errado. — Ela soltou um breve e irônico riso. – Tu não se sentes minimamente culpado com isso?

Pip calou-se depois daquilo. Era verdade, era tudo verdade. O que o loiro sentia beirava a própria heresia, ele supôs, esse sentimento por essa pessoa em particular era algo completamente errado. Porém o relevante agora era... Por que ele nunca havia pensado daquele jeito antes? Era quase como se Ísis estivesse tentando manipular Pip, mas qual a razão disso?

Mas não houve muito tempo para Pip refletir sobre aquilo depois que a porta da frente foi arrebentada com um alto estrondo e dali entrou entrou uma certa pessoa que pareceu muito irritado. O loiro levantou a cabeça naquela direcão e Ísis simplesmente falou:

— Isso não foi nada educado, Damien.

O loiro arregalou os olhos ao ver Damien ali, sentiu que fazia muito tempo desde a ultima vez que o havia visto, o anticristo estava apertando os punhos ao lado do corpo e seu olhar irritado com as sobrancelhas tensas, mas quando viu o garoto britânico loiro imediatamente pareceu ficar mais aliviado. Pip levantou-se do sofá, mas antes que pudesse ir até Damien o mesmo contornou a mesa de centro, se aproximou e teve uma atitude que o loiro nunca pensou que ele pudesse ter, ele lhe abraçou. No primeiro momento, ainda confuso, Pip não retribuiu. Mas logo lembrou-se do motivo para estar onde estava, estar morto... Era simplesmente encontrar Damien.

— Vós ja podeis ir para o quarto, sim? Obrigada.

~ DIP ~

Aquela era uma das primeiras vezes em sua vida que Damien ficava mesmo aliviado e feliz. Não conseguiu deixar de sentir muita falta de Pip naquele tempo que ficou fora, e havia ficado mesmo com muita raiva quando descobriu o que seus malditos primos haviam feito com ele. Mataram o loiro so para chamar atenção, não, para provar algo estupido sobre ele não ser digno de ser o anticristo ou algo do genero, porque amava um ser humano. E, realmente, essa regra existia, mas Damien não se importava com isso.

Os dois estavam na sala de estar de seu apartamento no inferno, Pip ainda usando aquelas malditas roupas sujas de sangue sentado no sofá encarando as proprias mãos sobre o colo, enquanto Damien estava encostado na parede com os braços cruzados, pensando em algo que pudesse falar. Talvez perguntar se ele está bem?

Não sabia dizer em qual momento passou a gostar de Pip daquela maneira, no começo ele só pareceu ser um ser humano diferente do habitual, e tal coisa chamou a atenção do anticristo, mas, a medida que o tempo passava, alguma coisa dentro de si mesmo ia mudando aos poucos. Passou a ver aquele humano de um jeito diferente do que via os outros, não suportava ver ele sendo humilhado em silêncio por alguns inuteis e agir daquela maneira ridiculamente conformada, era irritante ver o quando Pip vivia conformado com sua vida. Ele havia aceitado a ideia de que os outros o odiavam sem nenhum motivo aparente, simplesmente aceitado!

Não sentia pena de Pip, não conseguia, mas daria qualquer coisa para ver ele se vingar.

— Você esta bem Pip?

O loiro levantou a cabeça e sorriu daquele jeito quando queria transmitir que estava tudo bem, funcionaria com outros, mas não com Damien.

— Sim Damien, obrigado por perguntar. – Não soube dizer se aquela frase era uma verdade ou mentira, talvez fosse somente uma meia verdade. – Mas você não precisava ter agido daquele jeito com Ísis daquela maneira…

— Acredite em mim, ela não é legal.

— Mas ela foi legal comigo. – O jeito que o loiro via sempre o melhor em tudo irritava o anticristo muitas vezes, mas era aquilo que tornava Pip tão especial e diferente do resto.

— Certo. – Damien não estava com paciência para discuções fora do que desejava saber naquele momento. – Mas me fale o que, por todo o inferno, você fez para que a Nandah te matasse?

Pip ficou em silêncio por alguns segundos, provavelmente escolhendo as palavras, o que só deixou Damien ainda mais impaciente e inevitavelmente curioso para saber. Nandah, apesar de ser tão chata e irritante, não matava por qualquer coisa, o que era irônico para um demônio.

— Ela me ofereceu uma chance de ajudar a te encontrar... Eu só...

— Você não desconfiou nem por um momento!? – Damien, irritado pela inconsequência de Pip, apesar de não demonstrar exatamente isso, descruzou os braços e se aproximou de onde ele estava, o observando encolher-se no sofá. – Você sequer pensou se eu queria ou não ser achado!?

— Eu a-apenas não pensei d-direito na hora... Por favor Damien... – O loiro estava lacrimejando e Damien não deixou de se sentir mal no momento, não deveria ter levantado a voz.

Pip era irritante, mas Damien não conseguia ficar bravo com ele por muito tempo. O anticristo respirou fundo, acalmando os nervos, e sentou-se ao lado do loiro, o mesmo o encarava nervoso e simplesmente sem saber o que falar. Damien sabia que deveria ter explicado algo para Pip sobre como sempre seu primos tentavam lhe matar no mundo humano, mas pareceu complicado demais na hora. Não era imortal, apesar de tudo, e jamais seria.

Damien, movido por um impulso de onde não soube localizar, acaricio o rosto de Pip com a mão, sentindo até mesmo a pele dali se arrepiar e observando aquele rosto bonito ficar com as bochechas vermelhas. Aquele loiro era tão adorável envergonhado, talvez fosse o seu instinto de demônio falando mais alto, mas Damien ansiava por manchar tal alma tão branca. Havia controlado-se várias vezes enquanto ele estava vivo, a carne humana era como um manto que escondia a verdadeira intensidade de como era a alma, mas, agora sem esse manto, era quase como se Pip estivesse nú, desprotegido, sem nada que viesse a interferir Damien de corromper direto a alma.

E era a maior tentação que sentiu em toda a sua existência, não sabia se conseguiria se controlar da próxima vez, e resumir tudo em um simples beijo.

A verdade era que Damien não queria se controlar.