Everybody hates Pip
26 O acordo
Notas iniciais
Pip simplesmente não teve nenhuma oportunidade real de falar alguma coisa. Todo o suposto julgamento ocorreu dentro do ambiente bagunçado, cheio de papéis e que, depois de um tempo, se tornou claustrofóbico. Pareceu bem mais uma discussão informal do que algo que realmente iria decidir um par de coisas importantes, como a vida de Damien. Jesus, como o loiro estava preocupado, como estava nervoso e como era agoniante não poder fazer nada para ajudar.
Não quando quem era o problema nessa história toda era ele. Por mais que o anticristo ja tivesse segurado sua mão, beijado o seu rosto e garantido que Pip não tinha culpa de nada sobre a situação em que estavam, não conseguia acreditar. No fundo sabia que a culpa era sua.
Invemon, o demônio da inveja, foi o primeiro a falar, com um sorriso venenoso, sobre os riscos de ter um líder como Damien. Pois ele havia desenvolvido sentimentos bons sobre um humano e isso, além de ser uma vergonha, faria Damien pensar que algo era mais importante do que o destino dele, o apocalipse.
Não lembrava de nenhuma vez que Damien falou positivamente sobre o suposto destino dele, mas parecia algo importante. Era algo importante. Estava escrito na bíblia, afinal.
Nandah, representante da avareza, foi quem tomou a palavra depois. Ela citou aquelas regras para demônios que Pip já conhecia, dando ênfase em como Damien não preenchia mais nenhum dos requisitos.
Nem mesmo nesse momento ele pareceu se importar, com os braços cruzados na frente do corpo e olhando para a demônio com as sobrancelhas franzidas.
Foi quando Daeriit, o demônio da gula, falou de como eles deveriam se livrar do atual anticristo o mais rápido possível, para entrarem no processo de decidir quem ocuparia o cargo, que Damien se pronunciou:
— Isso é uma piada, certo? — Ele parecia absolutamente indignado. — Eu já falei que desisto dessa merda de bom grado e deixo vocês se matarem! Qual o seu problema!?
Isso era novidade, Pip gostaria de ter sabido sobre esse detalhe antes…
— Você desistir de “bom grado” não é o suficiente — Nandah zombou. — nós precisamos de uma garantia. É só uma sugestão, mas morte parece bom o suficiente-
— Não!?
Lilith, que estava concentrada apenas em escutar, bateu o martelo na mesa e jogou algumas canetas no chão antes que uma discussão começasse. Todos olharam na direção da primeira mulher do mundo, quietos:
— É razoável que Damien não concorde, vocês sabem disso. — Ela descansou o martelo na mesa, passeando os olhos verdes por todos presentes e dando um olhar especialmente significativo para Pip. Quase se escondeu atrás de Damien. — Nem todo julgamento precisa de um vencedor e um perdedor, as partes podem entrar em um acordo.
— Isso é mais uma piada ou o que?!
— Damien, você pode abdicar, lembra?
...
Sim, lembrava dessa conversa. Sabia bem o que abdicar representava naquele contexto específico, mas nenhum dos seus outros primos entendeu, nem Pip. Abdicar significava abrir mão dos poderes, desistir de tudo que já conheceu e teve certeza na vida, abandonar a história para que nasceu para cumprir.
Mas também significava algo bem diferente de morte, mas, ao mesmo tempo, era a promessa de uma morte certa.
A mortalidade.
— Por que eu apenas não posso ser banido para a Terra?
— Não é o suficiente. — Nero falou pela primeira vez em muito tempo. — Eu não entendi bem o que significaria “abdicar”, mas mesmo com banimento você é bem capaz de causar problemas aqui no Inferno. Nós ainda iremos atrás de você se esse fosse o caso.
— Isso significa que eu não seria mais um demônio.
Um silêncio desconfortável pairou no ambiente por alguns segundos, ainda com sua mãe observando a cena toda com atenção do mundo, até que Afrodite questionou:
— Isso é… possível?
Era meio engraçado pensar nisso, mas, para Damien, era bastante possível sim. Tudo por causa da natureza da sua mãe, uma criatura humana criada nos primórdios da Terra pelas próprias mãos de Deus, pelo mesmo barro que Ele fez Adão. Por causa dela o anticristo tinha aquela metade genuinamente humana, uma coisa dentro da sua existência que poderia lembrar uma alma humana, mortal.
Sempre soube que era diferente dos primos, desde o começo, mas só veio a entender o motivo disso quando finalmente perguntou. Lilith não hesitou em falar sobre isso, sobre o direito de escolha que ele, e só ele, tinha.
Não que as circunstâncias lhe dessem uma escolha, mas, em teoria, Damien tinha uma. Tinha aquele mesmo livre arbítrio teórico dos humanos para decidir o que fazer com as suas vidas.
— Para Damien, é sim. Ele é diferente de vocês. — Lilith explicou brevemente o que já tinha falado para o filho, mais resumido. — Ele não precisa ficar aqui se realmente não quiser.
Ser o anticristo, o gatilho do apocalipse, nunca foi algo que Damien desejou, mas sempre aceitou que era o seu futuro. Não seria nenhum tipo de sacrifício abdicar do seu lado demônio, não só por causa de Pip, mas porque seria uma escolha sua.
Ainda sim, havia algo que lhe preocupava, relacionado ao loiro.
— Mas e o Pip? Como ele fica? — Praticamente rosnou apenas de lembrar o que havia acontecido. — Vocês mataram ele!
— Você tá' considerando se tornar mortal e a primeira coisa que se preocupa é com ele!? — Nandah soou chochada, para dizer o mínimo. — Inacreditável…
— É isso que os humanos chamam de amor? — Havia um tipo de curiosidade nos olhos de Ísis, a representante da vaidade, que até pouco tempo estava em silêncio. Ela alisou o vestido longo sem nenhum interesse genuíno, mas pensativa. — Parece perigoso.
Lilith gesticulou atraindo a atenção de todos mais uma vez, antes de começar a explicar:
— As circunstâncias da morte de Phillip foram causadas por uma força atípica e no momento errado, — A mulher olhou para a Nandah, que encolheu os ombros com desinteresse. — ou seja, não era a hora dele morrer. Por causa disso ele pode voltar lá para cima, para o mundo mortal.
— Mas demônios não tem o poder de dar vida.
— Isso não é um problema, nós estamos no tribunal, eu posso muito bem falar com os caras lá em cima e fazê-los entender a situação.
O anticristo olhou para Pip, ele parecia estar especialmente nervoso diante da situação, com os dedos das mãos cruzados na frente do corpo, como se esperasse alguma coisa acontecer, tímido demais para falar.
— Eu posso ter um tempo para pensar-?
— Claro que não! — Afrodite cruzou os braços, impacientemente olhando na sua direção. — Você já teve tempo mais que o suficiente para pensar, nós queremos uma resposta agora.
Felizmente Lilith ignorou prontamente a demônio, sorriu e lhe respondeu:
— Claro que pode, querido. — A representante da luxúria bufou com essa resposta, mas ninguém estava prestando atenção. — Você e Phillip podem ir esclarecer as ideias na outra sala, nós vamos ficar esperando aqui.
— Vamos? — Nandah fez uma careta desgostosa. — Eu tenho mais o que fazer, sabe?
— Um de vocês está com a adaga, por causa disso, sim, nós vamos.
Então Damien pegou a mão de Pip e praticamente arrastou-o para longe daquelas aberrações que chamava de primos.
~ DIP ~
Se Pip pudesse ser sincero, não estava entendendo nada.
— Então você viraria humano e eu voltaria a vida?
— Basicamente…
Não estava entendendo nada. Aquilo nem mesmo fazia sentido! Sequer era possível!? Lembrava bem de toda a explicação de Lilith, sobre Damien sempre ter tido um lado humano desde sua criação, ainda sim… era demais. Não era nada que o loiro jamais imaginaria que fosse uma opção viável.
Olhou naqueles olhos vermelhos por um tempo considerável, esperando algo do dono deles que nem mesmo tinha certeza do que era.
— Você concorda mesmo com isso…?
— Eu já disse que sim. — Se havia alguma dúvida rondando a mente do anticristo, ao menos ele não expressava com clareza. — Eu estou perguntando o que você acha disso.
Mas aquilo quase lhe deixou sem palavras.
— O que eu acho, Damien? O que eu acho não importa! — Ainda estava nervoso, incerto, com medo de toda aquela imprevisibilidade. Gesticulou deixando todos esses sentimentos transparecerem. — Para mim não vai mudar absolutamente nada voltar, por outro lado, você vai perder tudo!
— Eu nunca realmente quis esse “tudo”, Phillip. — Vê-lo falar o seu nome, não chamar pelo apelido, sempre conseguia fazer o loiro perder o raciocínio. Ele também segurou as suas mãos. — Só quero saber se está tudo bem para você.
Desde quando as pessoas olhavam nos seus olhos para perguntar se estava confortável com a situação?! Mesmo depois de tudo, Pip não estava acostumado com isso.
— Eu não sei, desculpe? — Começou, sem ter certeza de nada que iria falar. — Se está tudo bem para você, eu não posso ser contra...
— Eu tô’ te falando que você pode voltar a vida e você não sabe?
Colocando daquele jeito as palavras tinham bem mais peso que antes. Damien bufou e Pip sentiu vontade de se encolher, mas foi surpreendido com um beijo carinhoso no rosto. Corou sem perceber, pensando em quando exatamente as coisas haviam evoluído dessa forma? Não que estivesse reclamando…
— Eu- sinto muito… Só não estava esperando por isso. — Encarou o anticristo. — Você já sabia disso tudo?
— Sim.
— E está tudo bem mesmo, Damien? E o seu pai, o que ele acha disso-?
— Ele vai entender. Você quer mesmo insistir nisso, de novo?
Há quantos minutos eles estavam discutindo sobre isso? Ou já fazia uma hora? Os outros demônios deveriam estar impacientes. Phillip não se preocupou em contar, mas tinha certeza que tinha passado um tempo considerável.
— Já falei, voltar a vida não vai fazer diferença no meu caso… você que vai perder tudo…
O britânico voltaria para a sua vida deprimente e patética em South Park e poderia se acostumar com isso, já se habituou ao ódio uma vez e fazer isso de novo não poderia ser tão difícil. Mas Damien era um caso diferente-
— Como não vai mudar? — O anticristo sorriu. — Olha Pip, acho que você ainda não percebeu, mas quando nós estivermos lá eu não vou te deixar em paz tão cedo.
Como Pip poderia pedir por outra coisa além disso? Ainda tinham dúvidas na sua mente, medos, mas ficou tão feliz por Damien lhe dar pelo menos aquela certeza no meio de tantas incertezas. Sorriu de volta timidamente e respondeu alegremente:
— Sabe Damien, eu acho que ficaria bem com isso.
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