Everybody hates Pip

27 De volta ao ponto de partida


A volta a vida de Pip foi, na verdade, muito mais simples e tranquila do que ele pensou que seria.

A despedida com Satã foi um pouco emocionante, ele lhe abraçou de um jeito que o loiro sentiu que quebraria a maioria dos ossos do seu corpo e com Damien foi o mesmo, mas o Príncipe do Inferno parecia feliz pelo filho apesar de todos os pesares. Ele chorou, falando sobre como sentiria falta do filho, mas estava feliz por ele, enquanto o anticristo – na verdade, ex-anticristo – pareceu bastante envergonhado com a cena.

No geral não houve nada muito grandioso antes que acordasse no chão gelado, bem onde Nandah tinha lhe matado – Deus, parecia que fazia uma eternidade desde que tudo aconteceu. – como se tudo que viveu no Inferno não passasse de um sonho estranhamente realista e cheio de detalhes.

Mas assim focou sua visão embaçada, viu Damien de pé não muito longe, oferecendo uma mão para lhe ajudar a sair do chão.

Não havia sido um sonho.

Segurou a mão dele e prontamente levantou-se, finalmente observando os arredores. Não sabia exatamente a hora, mas o Sol estava desaparecendo na paisagem montanhosa e por isso supôs que já estava bem tarde.

— Você tá bem, Pip?

— Eu me sinto muito bem. — Deu um sorriso incerto e honesto, mesmo que agora não soubesse bem o que fazer já que tinha voltado a ter as preocupações de um vivo. Finalmente olhou para o rosto do moreno e a primeira coisa que reparou foi nos olhos, não havia mais aquele vermelho vivo que o britânico podia jurar que brilhava, eles tinham escurecido vários tons até um castanho avermelhado e incomparavelmente mais humano que antes. Não era feio, mas não estava acostumado. Pensou se deveria perguntar ou não, mas acabou cedendo. — E você também está bem…?

— É um pouco esquisito. — Ele admitiu. — Eu só não lembrava desse lugar ser tão frio.

Sem deixar de sentir aquela incerteza de sempre se aproximou de Damien e segurou a mão dele, tirando a prova de que realmente ele não era mais tão quente, no sentido mais literal da palavra, quanto antes. Agora havia só aquele calor normal de um ser humano vivo. Ele… realmente não era mais um demônio e era muito estranho para o loiro perceber isso. Damien tinha abdicado de tudo e por mais que ele já tivesse lhe dito antes de chegarem ali que aquilo não seria um problema, Pip não conseguia não pensar que talvez fosse, sim. E que era culpa sua.

— Ei, Pip, acorda? — Chamou a sua atenção e o loiro desviou o olhar, sem graça. — Tem alguma coisa na minha cara ou você tá só pensando demais, de novo?

— Pensando demais…

Sorriu fraco tentando afastar aqueles pensamentos, pois também havia esse outro lado inteiro naquela história. Quase como se fosse um tipo de recomeço… Por mais que Pip estivesse de volta a South Park.

Pensando bem, realmente não sabia porque diabos tinha voltado logo para aquela cidade de fim de mundo.

— Você pode pensar depois que a gente sair dessa merda de frio.

Damien apertou a sua mão em uma demonstração discreta de afeto e lhe puxou levemente para andar e sair do meio da calçada. No pouco tempo que andaram Pip observou que nada realmente tinha mudado na cidade como sempre nunca mudava, por mais que sempre acontecesse um monte de coisas bizarras por ali. Na área residencial, entre duas outras casas bastante genéricas, o moreno continuou a lhe guiar para a do meio e logo ele comentou que isso tinha sido um presente de Satã para a nova estadia na Terra, dessa vez como mortal, e Damien já estava com a chave.

Ela parecia tão simples por fora quando era por dentro, por mais que a paleta de cores fosse bem sombria não dava nem para comparar com a antiga mansão de filme de terror que ele morava antes. Havia apenas um andar, com uma suíte, um banheiro e a sala separada da cozinha.

Quando, ainda no Inferno, o pai de Damien disse ao filho que eles não iriam se preocupar com nada por um tempo, certamente era sobre isso estava falando.

Quer dizer, Damien que não iria se preocupar com nada. Pip ainda tinha a sua “casa” e secretamente rezava para que ela ainda estivesse de pé depois de todo o tempo que ficou ausente. Será que a suas coisas ainda estavam lá? O loiro estava começando a se sentir ansioso pensando nisso, enquanto observava Damien explorando a nova cozinha com a geladeira e armários cheios de comida, onde também tinha aquela porta de correr de vidro que era a passagem para o quintal da casa.

Tratou de afastar todos esses pensamentos pessoalmente preocupantes, poderia verificar isso depois e não queria arrastar Damien para ainda mais problemas do que já tinha arrastado.

No quarto era relativamente amplo e tinha aquela cama de casal, um armário embutido na parede e bastantes roupas lá dentro. Tudo absolutamente arrumado e pronto para uso.

— O seu pai é muito gentil…

— Ele só se preocupa um pouco demais. — O moreno revirou os olhos, pegando um dos cinco moletons pretos de gola alta que sempre usava, todos um igual ao outro. — Só um pouco.

— Eu gostaria de poder agradecê-lo. — Pip comentou sorrindo um pouco, mesmo sabendo que nada daquilo era seu, iria agradecer por ele ser tão zeloso com Damien.

A resposta de Damien foi um encolher de ombros e um resmungo incompreensível, não particularmente interessado. Praticamente seguiu ele de volta a sala, onde tinha aquele sofá de três lugares e uma televisão na frente e sentou-se ao lado dele, honestamente sem saber o que falar ou fazer agora, mas aceitando de bom grado o braço do moreno ao redor dos seus ombros depois que ele ligou a TV.

Encostou-se nele tentando ficar confortável, apenas apreciando o momento enquanto passava algum programa sobre jardinagem, que logo Damien mudou de canal algumas vezes. Não estava particularmente com vontade de assistir qualquer coisa que fosse, não se sentia acostumado a situação atual e queria conversar, mas não tinha muita certeza sobre o que.

A última coisa que Pip esperava na vida era uma pergunta como aquela:

— Você tá feliz?

Virou o rosto para Damien e observou que ele também olhava na sua direção, com as sobrancelhas franzidas e um tipo de incerteza, coisa que não estava acostumado a ver nos olhos dele. Sorriu desejando tranquilizá-lo:

— Damien, eu nunca estive mais feliz. — Isso não era mentira, estava com Damien, a pessoa que mais amava no mundo e depois de tudo que passaram, sabia que era um sentimento mútuo. — Eu estou com você, nós estamos juntos. Por que eu não estaria feliz?

Com a outra mão o ex-anticristo afastou uma mecha loira prendendo-a atrás da orelha, carinhosamente, finalmente com sorriso no rosto. Bem menor que o de Pip, mas ainda sim um sorriso. O loiro acabou fazendo o primeiro movimento e aproximou o rosto do dele, assim podendo começar um beijo terno, calmo e demorado.

Quando se separaram, mas sem realmente se afastar muito, o sorriso de Damien ainda estava ali e isso acalmou o coração do britânico.

— Sei que tu deve ter alguma coisa pra arrumar em casa, não sei — Ele começou e virou o rosto de volta para a tela da TV, no fundo lhe decepcionando um pouco. — mas você quer ficar aqui essa noite…?

— Eu adoraria!

Respondeu imediatamente e feliz, quase aliviado. Não estava com vontade de voltar para os seus antigos problemas quando achou que nunca mais teria que encará-los. Sem falar que não conseguia se imaginar recusando de passar algum tempo com Damien. Ganhou um olhar alegre dele, que apenas deu um beijo consideravelmente mais rápido e apenas na bochecha do loiro.

— Ei Pip, tu tá com fome?

Estava prestes a responder que não apenas por pura educação, mas o seu estômago roncou e estragou todos os seus planos. Quando Damien riu, sentiu o rosto esquentar de vergonha, mas manteve um sorriso no rosto:

— Acho que eu aceitaria algo para comer, sim…

— Eu vou fazer alguma coisa para a gente. — Ele levantou do sofá, mas antes de qualquer coisa virou-se para Pip. — Mas aceito ajuda, alias.

Pip prontamente colocou-se de pé, ainda sorrindo, e respondeu:

— Claro!

~ DIP ~

Exatamente como se lembrava no Inferno, a comida de Damien era absolutamente incrível e nem mesmo a falta geral de habilidades culinárias de Pip conseguiu estragar. Frango, purê de batatas e vagem refogada, nada muito pesado e na verdade bem simples, mas Pip comeu como se fosse a coisa mais gostosa do mundo. O jantar foi bastante rápido e os dois ficaram na televisão por apenas mais uns quarenta minutos antes do loiro decidir que já estava bastante tarde e amanhã era o seu primeiro dia de aula depois de muito tempo, por isso não poderia chegar atrasado.

Tinha pegue algumas roupas de Damien emprestado para dormir e saiu do banheiro do quarto com aquela calça moletom cinza e a camisa preta de mangas longas – um conjunto bem parecido com o que tinha usado na primeira vez que ficou na casa dele, em um outro momento.

Damien já estava na cama quando Pip também se deitou, mas imediatamente ele lhe abraçou e os beijos foram inevitáveis, todos o loiro alegremente aceitou. Foi só depois que os lábios dele passaram para o seu rosto e pescoço que falou alguma coisa:

— Damien, nós precisamos ir dormir…

Ganhou um resmungo descontente de resposta, mas ele apoiou as duas mãos na cama ficando apenas um pouco acima do britânico e não parecia estar muito contente por parar:

— Ainda não são nem dez da noite, Pip. — Mesmo assim Damien acariciou o seu rosto com o polegar, lhe encarando por tempo demais e com aquela adoração que ainda não estava acostumado. Não sabia se algum dia iria se acostumar. — Você acabou de voltar a vida e já quer correr para o colégio?

A forma descrente que o ex-anticristo perguntou acabou fazendo Phillip rir e por consequência arrancou um sorriso do outro.

— Falando assim parece mesmo um tipo de absurdo— — Cortou a própria fala, ponderando por alguns instantes e apenas decidindo ser honesto. — Acho que eu estou um pouco preocupado, não quero me atrasar nos estudos.

— Quem precisa dessas coisas, Pip?

— Bem, nós dois precisamos? — Argumentou. — Agora que você vai viver apenas aqui, eu creio que seria uma boa ideia se preocupar um pouco mais com as suas notas. Eu não consigo te imaginar trabalhando no McDonalds…

Com isso Damien saiu de cima de Pip, mas se deitou logo ao lado, bufando mas apesar disso com bom humor.

— Certo, você tem um ponto aí. — Ele disse e isso fez o britânico sorrir, se encostar no peito de Damien e ganhar um carinho no cabelo. — Mas o que você quer fazer, Pip?

— Notas boas, uma bolsa na faculdade. — Franziu o cenho tentando pensar em mais alguma coisa. — Se possível, sair de South Park.

— Normal querer sair desse fim de mundo…

— E o que você quer fazer?

Isso deixou Damien quieto por mais tempo do que o loiro imaginou, com os olhos agora castanho avermelhados focado no teto pouco iluminado pelo abajur do lado da cama, mas sem deixar de acariciar levemente os seus cabelos nem por um segundo. Mas pensativo demais, como se procurasse por uma resposta que ainda não tinha certeza de qual era.

— Eu acho que agora não tenho mais um livro contando toda a minha vida, não é? — Ele soltou um riso breve, fraco, voltando a encarar o loiro. — Não pensei bem sobre isso ainda. Muito livre arbítrio, são muitas possibilidades…

Isso é bom ou ruim?

— Eu espero que seja bom. — Damien beijou o topo da sua cabeça, carinhosamente. — Você tá aqui, comigo, já é melhor do que eu podia pedir.

Corou pela demonstração de afeto junto das palavras tão doces, mas sorriu. Agora tudo iria ficar bem, pensou otimista, estava com Damien e os dois podiam ficar juntos sem mais interferências sobrenaturais ou Infernais, sem um destino maior que eles. Agora poderiam ter uma vida.

Parecia um bom jeito de recomeçar.

~ DIP ~

Mas para um suposto recomeço, as coisas estavam começando a ficar terrivelmente iguais.

Pip havia ido de mãos dadas com Damien para o primeiro dia de volta ao colégio e no começo tudo foi até bem agradável, fora Kenny McCormick que arregalou os olhos assim que lhe viu no corredor, mais ninguém parecia se lembrar que Pip tinha morrido. Não sabia se havia alguma coisa da mãe ou do pai de Damien nisso, mas tornou as coisas bem mais fáceis.

Estava prestes se separar de Damien, pois eles não teriam a primeira aula juntos, quando o clichê que o loiro estava habituado voltou a acontecer e algumas pessoas notaram Pip assim que ele fechou o armário.

Ei, Pip!

Nesse momento o ex-anticristo agarrou a sua mão e fuzilou com o olhar a pessoa que se aproximava pelo corredor. As pessoas, na verdade. Stan Marsh e os amigos dele pararam há alguns poucos metros de distância e Pip sentiu como se não visse nenhum deles há anos, mas também não sentiu saudades nenhuma.

O universo nunca lhe deixaria ter um dia de paz sequer, já sabia disso.

— Você sumiu, não é? — Eric Cartman, como sempre, foi o primeiro a zombar. — A gente pensou que tu tivesse fugido com o gótico aí, mas o Kenny jurou que você na verdade tava morto… Que pena, queria que o Kinny estivesse certo.

Nesse momento o loiro mais alto abaixou o capuz laranja, ele parecia especialmente confuso e ignorou os amigos por um momento, falando apenas com Pip:

— Eu lembro de você morto, eu vi…! Passou na TV como se fosse um assassinato!

Olhou por alguns segundos para Damien e ele retribuiu o olhar, em uma conversa silenciosa, então voltou-se para Kenny:

— Desculpe-me, Kenneth, mas creio que você deve estar confuso? — Falou como havia combinado com o moreno que ainda segurava a mão. — Eu apenas me afastei do colégio por tempo por causa de uma doença…

— Você se drogou com mijo de gato se novo, Kenny? — Kyle franziu as sobrancelhas.

— Não! Eu juro caras! — O garoto de casaco laranja gesticulou com uma mão só, mas àquele ponto mais ninguém deu atenção.

Damien impacientemente colocou-se no meio da discussão:

— Se vocês vieram só encher a porra do saco, acho que a gente já pode ir embora, certo Pip-

Foi Stan que agarrou o seu antebraço, lhe impedindo de apenas ir com Damien como queria. Olhou para ele um pouco confuso e temendo o que poderia acontecer, enquanto repassava na sua mente o que poderia ter feito ou acontecido para estar naquela situação, mas, honestamente, não conseguiu lembrar de nada.

— Na verdade a gente quer conversar um pouco com Pip agora.

Eles estavam fazendo toda essa cena sem absolutamente nenhum motivo, não é? No fundo o britânico já desconfiava, mas não era como se alguém precisasse de um motivo para implicar com Pip.

Definitivamente não sentiu falta disso.

Ah, não, vocês não querem.

Damien soltou a sua mão apenas para empurrar Stan para longe de um jeito excessivamente agressivo, mas justificável. Mas não esperava que o Marsh conseguisse empurra-lo tão facilmente contra os armários, batendo as costas dele com força contra a porta de metal e chamando atenção de algumas outras pessoas do corredor.

— Não encosta em mim, seu merda!

Então uma súbita percepção passou pela mente de Pip e encheu o seu peito de angústia, de preocupação, algo que iria mudar bastante coisas agora que eles estavam de volta na Terra, em South Park, e o anticristo não era mais o anticristo.

Ele era mortal agora, um simples mortal sem absolutamente nenhum tipo de poder a disposição. Sem vantagens, sem fogo ou força sobrenatural.

Quando Stan Marsh desceu o punho contra Damien, Pip percebeu que as coisas definitivamente não seriam iguais a antes.

Notas finais
Nós temos 1 ou 2 capítulos até o final :')