Everybody hates Pip

29 No fim, as coisas podem dar certo


Não era rotineiro para Pip sair por South Park de um modo geral, tanto por não ter dinheiro para gastar quanto por não ser exatamente bem-vindo em lugar algum. Mas agora existiam motivos reais para, em um sábado às dez horas da manhã, ter saído de casa e entrar naquela lanchonete que ficava exatamente na rua oposta à do cinema, e esses motivos eram relacionados apenas a Damien.

Ele tinha arrumado um emprego de meio período. Pip não tinha entendido muito bem o porquê disso, não parecia que dinheiro fosse ser um problema por um período de tempo previsível, mas a verdade era que Damien podia fazer o que bem quisesse e Pip iria apoiá-lo.

Por mais que agora estivesse vendo ele naquele uniforme cinza sem graça, ainda era difícil acreditar. Mesmo que o ex-anticristo estivesse do outro lado do balcão daquela lanchonete fast-food, Pip ainda não conseguia imaginá-lo trabalhando no McDonald's.

Mas ele estava trabalhando exatamente no McDonald's. Era um tanto irônico, de certa forma.

Isso inspirou Pip a tentar fazer o mesmo algum tempo atrás, arrumar um trabalho em algum lugar, mas foram apenas duas tentativas – uma no Tweak Bros Coffee e outra em uma livraria – para o loiro entender que ninguém naquela cidade nunca iria lhe contratar para nada, ao menos não naquele momento. Era meio frustrante pensar nisso, mas nada que já não estivesse habituado.

Enfim, era o décimo dia de trabalho de Damien na lanchonete e, na sua visão, todos os dias pareciam iguais. Bem, naquele exato momento não tinha ninguém dentro do McDonald’s, os dois poderiam ter um momento sozinho sem a gerente estar por perto e Pip estava mais que feliz em escutar Damien reclamando do trabalho dele:

— É um saco, Phillip — Ah sim, e desde aquele dia, em que ele descobriu o pequeno segredo de Pip, passou apenas a lhe chamar pelo nome completo e o loiro ainda estava em processo de se acostumar. Não que fosse algo ruim, muito pelo contrário. — a gerente reclama quando eu encosto no celular até quando não tem uma alma aqui!

— Ela está apenas fazendo o trabalho dela…

— Eu sei, mas é chato pra caralho. — O moreno revirou os olhos, apoiou as mãos no balcão e olhou por cima do ombro. — Não sei o que deu nela hoje, normalmente ela já teria vindo reclamar que eu tô conversando demais com você…

Isso era uma coisa que já tinha acontecido há alguns dias, mas, honestamente, Pip achou uma reação razoável por parte da gerente. Damien não estava ali para ficar conversando e não seria o loiro que sabotaria o trabalho dele.

Colocou a mão por cima do balcão e segurou a de Damien e, assim que ele olhou de novo na sua direção, abriu um sorriso pequeno.

— Falta apenas algumas horas para o seu expediente terminar, não é? — Ele concordou com a cabeça e apertou carinhosamente a mão de Pip.

— Como não tem nada pra fazer em casa, eu tava pensando se você não quer ficar por aqui mesmo e a gente assistir algum filme?

Se os dois iriam realmente assistir ao filme ou não, só poderia descobrir na hora, mas, de todo modo, as duas opções eram ótimas e esse não era um convite que Pip negaria:

— Parece uma ideia maravilhosa! — Sorriu mais uma vez e se perguntou o que estaria em cartaz no cinema, não era um lugar que costumava frequentar. — Você sabe o que-

— Olha só quem tá aqui!

Aquela interrupção não foi algo previsível porque ninguém estava prestando atenção e, por mais que o tamanho de Eric Cartman realmente chamasse alguma atenção, nem mesmo Damien, que estava do lado certo para ver o garoto gordo, pareceu perceber a presença dele antes que ele realmente falasse alguma coisa.

Pip se virou e viu que Cartman estava sozinho e não muito longe, então ele riu como se tivesse escutado alguma piada muito engraçada e pouco tempo depois Stan Marsh e os outros dois do grupo de amigos dele entraram no estabelecimento.

Talvez fosse melhor que o britânico saísse do local antes que alguma coisa acontecesse, pois nem mesmo tinha acontecido alguma coisa e Damien já parecia bem zangado. Não queria que ele fosse prejudicado por sua causa:

— Nós podemos resolver isso depois, certo, Damien?

Se virou para o moreno e sorriu nervosamente sem esperar uma resposta, não ousando chegar muito perto dele e rapidamente se afastando. Evitaria Stan, Kyle e Kenny mais ainda se eles não estivessem tão perto da porta, parados lá por algum motivo, e Pip teve vontade de se encolher quando ganhou aqueles olhares.

Talvez eles lhe deixassem ir embora sem fazer cena, pensou enquanto dava os primeiros passos para fora do McDonalds, talvez dessa vez fosse ter um pouco mais de sorte e nenhuma situação estúpida acontecesse.

Conseguiu apenas chegar na calçada antes de chamarem pelo seu apelido:

Ei, Pip!

Dessa vez o loiro não parou e nem olhou para trás, mas sim fingiu que não tinha escutado nada. Não funcionou, Kenny segurou o seu braço antes que chegasse perto de atravessar a rua.

— É falta de educação não responder quando tão te chamando.

Ele deu um sorriso falso ao mesmo tempo que os outros caras se aproximaram, mas o britânico só se preocupou em algum nível quando viu, de longe, Damien saindo de trás do balcão com as mãos fechadas em punhos.

— Perdão, companheiro. — Forçou um sorriso ao mesmo tempo que tentou se soltar, mas a mão de Kenny estava firme ao redor do seu braço. — Eu realmente estou ocupado no momento-

— Tu parecia ter bastante tempo quando tava lá conversando com o seu namoradinho. — Foi Stan que falou. Era impressionante como eles ainda usavam o fato de ser gay como algo pejorativo, mas não realmente uma surpresa.

Nesse momento Damien bateu a porta da lanchonete agressivamente quando saiu, atraindo a atenção de todos na cena e Cartman riu de novo:

— Você fica ridículo com essa roupa-

— Foda-se. — Ele se aproximou de Kenny com um brilho de raiva no fundo dos olhos, quase ameaçador. — Solta ele!

O McCormick abriu um sorriso divertido enquanto encarava o ex-anticristo e o aperto no braço de Pip ficou mais forte que antes, dava para realmente ver a roupa amassando dessa vez:

— E se eu não soltar?

— Então eu faço questão de quebrar essa sua cara de filho da puta-

— É desse jeito que você trata os seus clientes, cara? — Eric Cartman lhe interrompeu, parecendo que realmente estava se divertindo com aquilo. — A gente devia falar disso para o chefe dele.

— Não acredito que eu vou concordar com o Cartman, mas sim. — Cartman olhou para Kyle e sorriu discretamente, mas ninguém prestou atenção. O ruivo estava um pouco mais distante da confusão, com os braços cruzados, mas provocou de propósito. — A gente nem tá mais lá dentro… Sem falar que você está em horário de trabalho, não?

Mais uma vez viu Damien apertar as mãos em punhos, sem tirar os olhos de Kenny enquanto ficava cada vez mais com raiva. O britânico não tinha nem dúvida que ele faria algo que, no mínimo, faria ele perder aquele emprego… Por sua culpa. Pip não poderia deixar isso acontecer.

Conseguiu se soltar dessa vez e imediatamente segurou uma das mãos do moreno, que no mesmo instante olhou na sua direção.

— Os nossos companheiros estão certos, Damien. — Falou nervosamente e o jeito que ele franziu as sobrancelhas grossas, claramente ainda irritado, não foi nada como uma surpresa. Apesar disso, forçou um sorriso. — Por favor, eu sei que você tem que voltar para o trabalho- eu vou ficar bem.

Gostaria de ter aquela conversa com ele sozinho, mas os quatro outros garotos, na verdade, pareciam apena esperar Damien ir embora. Ambos perceberam e isso levou ao ex-anticristo hesitar, mas os dois não estavam sozinhos e nem realmente poderiam ter uma conversa decente naquele momento:

— Escuta o teu namoradinho, cara. — Kenny debochou. — Mesmo sendo francês, ele obviamente é mais esperto que você.

— Ele não é francês, seu merda.

Era sempre bom ver Damien lhe defendendo assim, mas esse não era o momento. Chamou a atenção dele puxando levemente o braço e aos poucos aquela postura agressiva se esvaiu, para dar lugar a frustração. Pip estava tão frustrado quanto ele, até mais, mas nunca na sua vida fez esse tipo de cena e isso não mudaria agora.

— Nós vamos sair depois, certo? — Sorriu tentando tranquilizá-lo e ignorou o riso debochado de Cartman no fundo. — Mas agora você precisa voltar.

O moreno ainda demorou alguns longos segundos para dar uma resposta no final, mas quando isso aconteceu, ele pareceu apenas derrotado:

Ok.

Ele olhou para os outros garotos presentes apenas por um segundo antes de pôr os olhos em Pip mais uma vez, hesitando até finalmente se afastar e entrar na lanchonete. Assim, do lado fora, conseguia ver Damien através do vidro indo para o balcão e a gerente, Heidi Turner, falando alguma coisa para ele.

Mas, quando sentiu aquela mão apertando o seu ombro, Pip soube que tinha outras coisas para se preocupar agora.


Assim que saísse daquele lugar, Damien faria questão de quebrar todos aqueles idiotas no soco, com as mãos nuas.

A gerente lhe deu um esporro quando voltou para o lado de dentro, bastante irritada, por isso precisou se justificar e ela pareceu entender, diminuiu a postura dura e agressiva e apenas disse para que não fizesse isso de novo, que, provavelmente por causa da sua atitude, Pip não deveria estar bem agora. Isso encheu Damien de ódio porque sabia que era verdade. Quando olhou pelas janelas e não viu ninguém, a sua vontade foi de ir atrás dos idiotas e, para começar, socar Stan Marsh na cara.

Phillip realmente tinha aquela fama de saco de pancadas não só no colégio, mas em toda a cidade? Pensar nisso lhe fez sentir ainda mais raiva, mas agora, atrás daquele balcão em um McDonald’s vazio, Damien precisava se controlar.

Claro que Eric Cartman e o grupo dele passarem pela porta, apenas quinze minutos depois de tirarem Pip da sua vista, realmente não ajudou a sua raiva a diminuir. Muito pelo contrário. Realmente teve vontade de matar cada um deles.

Damien anotou os pedidos em silêncio, sem nem olhar para a cara dos filhos da puta, enquanto se lamentava muito por não conseguir ter feito nada. Sinceramente? Sentia muito menos falta dos seus poderes do achou que sentiria, realmente não fazia falta, mas naquelas situações específicas era cruel que não tivesse mais nenhum deles.

— O seu namoradinho foi bem legal com a gente. — Kenny comentou e Damien finalmente tirou os olhos da caixa registradora. O sorriso dele lhe fez apertar as mãos em punhos, subitamente mais irritado que a cinco segundos atrás.

— Sim, só foi meio inútil porque não tinha dinheiro. — Stan estava mexendo no celular, riu e mostrou alguma coisa para Kyle, que revirou os olhos mas deu um sorrisinho fraco.

Essa foi a prova mais concreta que eles não tinham medo, Damien pensou enquanto Cartman arrancou o troco da sua mão. Havia apenas uma pessoa que poderia fazer a comida deles e essa pessoa era Damien, exatamente com quem eles estavam implicando agora.

O moreno foi para dentro da cozinha, tinha seis sanduíches para preparar, quatro refrigerantes e quatro pacotes de batata frita, além de um milkshake de chocolate. Cartman era realmente um porco comendo.

Ainda com a cabeça quente de raiva, enquanto preparava a comida, olhou de canto de olho para o único grupo entre as mesas e todos eles pareciam bastante distraídos. A gerente também não parecia prestar atenção agora e por isso Damien pensou no que poderia fazer sem ser pego e o momento perfeito foi quando teve que encher os copos de refrigerante.

Infelizmente, estava cuspindo no penúltimo quando foi pego.

O que você tá fazendo!? — Heidi chegou perto de repente, mas sussurrando obviamente sem querer chamar atenção, e ela parecia realmente zangada.

Por instinto, Damien apontou para a área comum do restaurante e ela seguiu com o olhar e de repente a expressão mudou assim que viu quem exatamente estava rindo e conversando na mesa. A garota ficou quieta por alguns segundos, até que, de repente, falou:

Ele esqueceu que eu trabalho aqui…? — Ela parecia falar mais para si mesma do que para Damien, que não pensou em questionar. Havia alguma coisa sombria no olhar de Heidi quando ela olhou para os copos de refrigerante e pegou o maior deles. — Esse é do Cartman, certo?

— Sim.

Então a garota cuspiu no copo vazio e encheu de Coca-Cola e gelo, enquanto Damien apenas olhou toda a cena, chocado.

— Deixa que eu assumo daqui.

Então Heidi foi preparar o resto do pedido e colocou toda a comida pronta em uma bandeja, que estava visivelmente cheia e pesada, e foi para perto do balcão com um sorriso no rosto e o jeito que Eric Cartman olhou para ela, assustado, fez Damien se ver obrigado a cobrir a boca com a mão para não rir tão alto.

Talvez a gerente não fosse tão ruim assim...

~ DIP ~

Damien pode sair do trabalho dele no horário de sempre – pelo menos nos fins de semana – um pouco depois das uma hora da tarde e os dois saíram da lanchonete de mãos dadas. Pensar que, há pouco tempo, Pip morreria de vergonha só por causa disso era um contraste bem engraçado.

Estava um pouco sem jeito pelo que tinha acontecido mais cedo, já que Stan achou que seria uma boa ideia lhe jogar em uma lata de lixo quando Damien não pode fazer nada. Estava vazia e eles tiraram apenas algumas fotos, ainda sim o britânico temia que estivesse fedendo por causa disso, mesmo que não parecesse ser o caso.

E, claro, não falaria sobre nada disso com Damien enquanto ele não perguntasse, não queria irritá-lo por pouca coisa.

— Então, você quer mesmo ir pro cinema? — Ele perguntou. Damien estava usando as roupas habituais dele, o uniforme deveria estar na mochila preta e discreta que ele carregava por apenas uma das alças.

— Parece uma boa ideia. — Respondeu. Não tinha nada muito melhor para os dois fazerem no momento e agora Pip havia pensado em um detalhe. — Honestamente, faz muito tempo que eu não vou ao cinema…

Eles tiveram tempo de atravessar a rua e se aproximar do cinema da cidade, Pip até mesmo chegou a ver os dois filmes que estavam em cartaz e, na verdade, nenhum dos filmes, tanto aquele com o Adam Sandler quanto mais um filme canadense com Terrance e Phillip, pareciam realmente muito bons.

Poderia ser meio preconceituoso nesse caso, mas não realmente precisava ver para saber que não colocaria a mão no fogo por nenhum filme ali.

Virou o rosto para Damien e, pela forma que estava olhando os cartazes, ele parecia ter opiniões semelhantes a sua.

Eu não sei se é uma ideia tão boa assim…

O loiro comentou baixinho e isso arrancou um riso de Damien, que apenas concordou com a cabeça.

O mais provável era que eles fossem embora agora, já que o que passava na televisão não era tão diferente do que estava no cinema e, se fossem fazer realmente outra coisa em vez de assistir qualquer filme que fosse, não precisavam estar necessariamente lá para isso.

Os dois não tiveram tempo de realmente sair da frente do cinema, não depois que Trent e os amigos dele, Terrance, Bill e Fosse apareceram saindo pelas portas duplas e conversando e rindo entre eles.

Damien e Pip se encararam apenas por um segundos antes de ambos, ao mesmo tempo, darem as costas para sair dali, mas, infelizmente, apenas não foi rápido o suficiente:

— Olha só quem tá aqui! — Foi a voz de Trent e logo a mão dele estava no ombro do ex-anticristo, impedindo ele de continuar a andar. — Vocês fugiram tão rápido da última vez que a gente nem teve tempo de se despedir.

Terrance foi para um lado e Bill e Fosse foram para o outro, desse modo Pip se viu cercado por aqueles valentões. Era por isso que o britânico evitava aquele lado da cidade e costumava sair tão pouco, as agressões e o bullying não estavam limitadas, de modo algum, apenas ao ambiente escolar.

Não tinha acontecido nada, mas o pobre britânico já nervoso mais uma vez. Eles iriam descontar da última vez? Tentar roubar o seu dinheiro? Trent era mais agressivo quando não conseguia o que queria, mais que Stan e os amigos dele, então Pip não poderia esperar uma coisa simples como uma lata de lixo:

— Nós já estamos de saída, Trent, então se você fizer a gentileza de-

— E tu, Pip — Terrance lhe interrompeu grosseiramente. — pensei que tu fosse mais educado com todo aquele papo gay sobre ser cavalheiro, mas não pode nem emprestar um pouco de dinheiro para a gente!

Com o que as pessoas estavam hoje em querer o dinheiro que Pip não tinha?

— Eu realmente espero que vocês me perdoem companheiros, mas eu ainda não tenho dinheiro algum.

— Bem, que pena. — Trent falou de um jeito debochado e roubou a mochila de Damien, que imediatamente gritou um “ei!” bastante zangado. — Mas o teu namorado deve ter, certo?

Porém, o ex-anticristo não foi para cima do valentão esperando resolver aquele conflito com palavras, mas tentou puxar a mochila dele de volta. Antes de uma briga real começar, quando Damien levantou o punho para bater em Trent, Bill e Fosse trataram se segurar o outro garoto pelos braços.

Enquanto isso, Trent abriu a mochila e enfiou uma mão lá dentro provavelmente procurando por uma carteira ou algo do tipo. Pip nem mesmo teve chance de fazer algo, não depois de Terrance chutar a sua perna quando tentou se aproximar e, por isso, o garoto estrangeiro caiu pateticamente no chão usando as mãos de apoio.

Enquanto isso, Trent estava com a mão dentro da mochila preta olhando o que tinha lá dentro, também jogando algumas coisas no chão – como o uniforme que Damien usou. – até que ele apenas virou tudo no chão.

Não haviam muitas coisas dentro da mochila de Damien, Pip viu apenas um caderno, alguns papéis e a carteira dele caindo.

Também teve uma outra pequena coisa que chamou mais a atenção do loiro, uma caixinha preta de veludo que caiu por cima do caderno e do lado da carteira e até mesmo levantou o rosto, pois pensou ter visto errado. Mas não tinha e também não foi o único a notar aquele pequeno objeto singular, que não combinada com o resto dos itens.

O que é isso? — O loiro mais alto presente apenas se abaixou por um segundos e pegou a caixinha preta, ele estava com um sorriso zombeteiro no rosto, que aumentou quando ele abriu. — Que surpresa…

Apenas teve tempo de levantar, com a perna latejando fracamente de dor, antes de ver Trent tirando um anel prateado da caixa, que brilhou depois de exposto à luz do Sol.

O que?

Damien chutou Bill e conseguiu se livrar de Fosse com um soco antes de partir para cima de Trent. Ele parecia, de jeitos um tanto mais irônicos do que deveria, a personificação da raiva quando acertou o punho no rosto de Trent. O valentão deixou o anel prateado voar e Pip o viu caindo no asfalto, não estava muito longe, só que estava bem mais preocupado com Damien que tinha caído depois de um empurrão e agora levava chutes.

Bill também tinha se juntado a Trent, enquanto Fosse foi pegar o anel na rua:

— Essa é a coisa mais gay que eu já vi na vida. — Ele riu e Bill acompanhou.

Pip sabia que não era uma pessoa muito esperta, ele se conhecia muito bem e sabia que realmente precisava de um tempo a mais que os outros para conseguir compreender certas coisas.

Mas, apenas dessa vez, não estava mesmo entendendo errado?

Assim que percebeu que, mais uma vez, estava sendo inútil, tentou ao menos ir para o meio daquela briga injusta e tirar Damien de lá, afinal, eles estavam atrás de Pip para começo de conversa.

Mas deveria ter previsto Terrance puxando o seu cabelo dolorosamente e tentou segurar o braço dele por trás, enquanto os olhos lacrimejavam pela dor. Não adiantou de nada.

No momento que Damien tentou se levantar, Trent pisou com a bota dele em cima da mão e apenas riu quando o moreno xingou. A cena toda durou pouco tempo, mas pareceu muito maior vista pelos olhos do britânico, que tinha aquela angústia crescendo no peito por vários motivos.

— Vocês são patéticos… — Trent cuspiu. — Pelo menos a gente pode arrumar uma grana boa com isso, então valeu por serem uns idiotas.

O mais provável era que aqueles valentões continuassem ali e batessem nos dois por mais algum tempo, até se cansarem ou ficarem entediados, o britânico conseguia imaginar bem isso acontecendo.

Mas, dessa vez, esse não foi o caso.

— Ei, o que vocês estão fazendo!?

Não foi uma voz que Pip reconheceu imediatamente e também não pode ver de quem era daquela posição. Terrance que respondeu:

— Nada que seja da sua conta, viadinho.

— A gente vai chamar a polícia. — Havia outra pessoa, que soou bem mais calma e entediada que a primeira.

— Foda-se. — Dessa vez Trent respondeu e ele não pareceu muito confiante e, por consequência, felizmente parou de bater em Damien.

— Realmente? Por que tem um do outro lado da rua. — Uma pausa breve, parecendo esperar por uma resposta que não veio. — Então não faz mal eu chamar ele? Ok.

O desconhecido falou alto, mas sem realmente gritar, “ladrão” e apenas com isso Terrance finalmente soltou o cabelo de Pip. Os outros valentões também foram embora. Era Trent que já tinha histórico na polícia, não era? Enfim, não importava.

Praticamente correu para perto de Damien, querendo ver se estava tudo bem e quando ele levantou a cabeça havia sangue escorrendo pelo nariz. Mas também tinha aquele olhar quebrado. Chamou pelo nome, mas ele não lhe encarou de volta e apenas tentou limpar o sangue com a manga do casaco preto.

— Vocês estão bem…?

Finalmente levantou o rosto e foi bastante inesperado ver Tweek e Craig parados não muito longe dali. O outro loiro se aproximou para pegar a mochila jogada no chão e as outras coisas, colocando tudo lá dentro, e foi apenas o tempo de Damien se levantar e arrancar a mochila das mãos dele, grosseiramente.

— É assim que você agradece? — Craig perguntou com sarcasmo e o olhar mal humorado do ex-anticristo apenas fez ele dar os ombros, não particularmente incomodado.

— Obrigado por nos ajudar- — Pip tratou de agradecer, mas não teve tempo para elaborar nada melhor quando viu Damien indo embora. — Espero poder compensar vocês por isso depois, mas agora eu realmente preciso ir.

Não foi difícil alcançar o outro garoto, mas o britânico não encontrou coragem para perguntar se estava tudo bem quando, obviamente, não estava. Sem saber bem o que fazer, timidamente, aproximou a sua mão da dele e ele não hesitou em segurar, apenas apertando um pouco mais forte que o necessário, mas não incomodava realmente.

Foram alguns minutos de uma caminhada silenciosa, com Pip tendo muitas perguntas em mente mas sem ter coragem de fazer nenhuma delas, principalmente por causa daquele jeito cabisbaixo de Damien que simplesmente não combinava com ele.

Também não tinha certeza se ele queria conversar sobre isso, a situação ainda parecia irreal demais para o britânico, piorava ainda mais por não ter nada dito em voz alta.

Depois de muito tempo caminhando naquele silêncio desconfortável, Damien finalmente falou algo:

— Eu ia te pedir em casamento. — Ele deu uma pausa de dois segundos — Hoje.

Isso deixou Pip sem palavras e os dois pararam de andar subitamente, ainda no meio da calçada, mas não havia ninguém ao redor. Apenas nesse momento Damien olhou nos seus olhos:

— O anel tava na mochila porque eu já tava há algum tempo pensando como fazer isso, sabe? Eu meio que não sabia como? — Ele confessou e a fala foi toda muito desanimada, triste, de um jeito que Pip nunca tinha visto antes. Damien ficou quieto por mais alguns instantes e desviou o olhar para o chão, logo depois fechando os olhos por mais alguns segundos. — Eu pensei muito se a gente não é novo demais pra isso, ou se seria ainda mais estranho por isso. E por causa da minha indecisão, não tive a chance nem de perguntar nada.

Se passaram mais alguns instantes naquele momento de silêncio e, em meio ao monte de sentimentos que enchiam o peito de Pip, o vento frio praticamente não incomodou. O moreno, então, completou:

— Eu fui um idiota, desculpe, Phillip.

— Por que você está pedindo desculpas? — Pip questionou e segurou as duas mãos de Damien, coisa que fez ele voltar a encarar o loiro. — Eu sei que o que aconteceu foi bastante inconveniente, mas não foi culpa sua.

Então vieram mais momentos de silêncio, enquanto os dois ainda seguravam as mãos, até que ele perguntou:

— Adianta alguma coisa levar isso pra polícia? — Ele deu um sorriso desgostoso. — Eu ainda nem terminei de pagar…

— Não muito. — Pip negou com a cabeça e para isso haviam diversos motivos, mas não vinha ao caso explicar. — Especialmente se eu for junto… Desculpe.

Damien resmungou alguma maldição e o britânico sentiu-se mal por descobrir que ele havia gastado dinheiro consigo, dessa vez atoa, mas não diria isso pois sabia que não era algo que ele gostaria de ouvir.

Fora esse detalhe, mesmo com tudo que tinha acontecido, Pip não conseguiu não sentir aquela ponta de felicidade por saber que Damien pretendia se casar com ele. Que ele estava planejando. Tinha comprado uma aliança de noivado. Parecia impossível. O sorriso que deu foi quase involuntário, enquanto ainda pensava bem no que falar no momento. E, por mais que pensasse, não achou palavras melhores que aquelas:

Eu aceito.

O olhar confuso de Damien lhe arrancou um riso e ele apertou mais um pouco as suas mãos:

— Como assim…?

— Casar com você, Damien. — Ele estava com a boca só um pouco aberta, chocado, e isso fez Pip sorrir de um jeito terno. — Eu aceito.

Foram exatamente cinco segundos em que a expressão de Damien mudou de confusão, para perplexo e, por último, ele abriu um sorriso antes de puxar Pip para um beijo intenso. Apenas jogou os braços sobre os ombros dele enquanto haviam dois braços ao redor da sua cintura. Beijar Damien sempre era como o paraíso.

Quando quebraram o beijo, o ex-anticristo apenas sufocou Pip em um abraço apertado e o loiro riu mais uma vez, alegre. Era quase como se nada de ruim tivesse acontecido naquele dia ou, apenas, como se nada disso importava mais que os dois.

E, se Pip pudesse ser honesto, realmente apenas ele e Damien importavam de verdade.

Notas finais
Eu vou deixar o discurso emocionante pro capítulo 30, que é realmente o final da fanfic... Mas obrigada por todo o apoio até hoje ♥