Notas iniciais
Coringa abriu os olhos com dificuldade, eles estavam pesados e ele se sentia débil, mal conseguindo se manter consciente. Ele esforçou-se para mover o rosto e observar onde estava, mas sua visão não parecia cooperar, deixando-o ainda mais irritado do que já estava. Assim que sua visão voltou ao normal, que não demorou mais que alguns poucos segundos, talvez minutos, ele ficou confuso ao não encontrar as paredes acolchoadas do asilo, mas paredes retas, escuras e metálicas.
Estava bastante escuro, mas analisando melhor o lugar, o criminoso percebera a enorme porta — também metálica — que não possuía maçaneta, apenas uma pequena janela de vidro na qual ele poderia olhar se não estivesse fraco demais para levantar. Não parecia haver nenhuma outra saída além daquela e isto o deixou levemente preocupado.
Ele ainda acreditava estar em Arkham, talvez estivesse em alguma sala secreta e fosse mais algum truque médico para tentar "curá-lo" de novo, ou talvez estivesse alucinando, não seria a primeira vez. O criminoso se permitiu ficar quieto por algum tempo até se sentir um pouco melhor. Tentou se lembrar do dia — noite? — anterior mas sempre ficava lerdo depois dos sedativos. Sedativos. Ele estalou a língua ao lembrar-se de, de fato, ter recebido uma injeção e também lembrou-se do Batman, ele estivera em Arkham, fizera-no uma visita, certo?... não, Batsy não faria visitas sem ter desculpa para isso.
O palhaço se perdeu em seus pensamentos e virou-se contra a parede, esperando realmente estar em Arkham e, se estivesse, não queria ver a cara de nenhum doutor agora.
O cavaleiro das trevas caminhara até a cela onde havia deixado o psicopata. O lugar ficava num dos níveis inferiores da Batcaverna, bem longe dos computadores e das armas/acessórios, no caso de alguém fugir — e ele não havia construído o lugar para o Coringa, ele construíra imaginando que teria de conter alguém como o Crocodilo, então as paredes eram reforçadas, fazendo com que fugir seja improvável —, ao chegar, teve de pausar na porta e se preparar para um possível ataque, que ele não duvidaria receber.
Batman olhou pela pequena janela na porta, avistando-o deitado na cama, estava imóvel e sequer parecia respirar, Bruce sentiu um arrepio ao imaginar que o Coringa estivesse morto. Quando ele entrou, não baixou a guarda, mesmo depois que o palhaço permaneceu quieto. Coringa então virou-se para encarar o morcego — sua pele desumanamente pálida possuía uma espessa camada de sangue por cima, deixando-o com uma aparência macabra — e sentou-se, soltando leves grunhidos dolorosos enquanto o fazia, esperando qualquer ação do detetive.
O vigilante, mesmo se preparando para o pior, não esperava encontrar o palhaço acordado — havia usado um tranquilizante bastante intenso — mas se ele estava, então significava que tinha alta resistência às drogas e talvez este fosse um dos motivos de boa parte dos remédios de Arkham não funcionarem nele. Para a surpresa do cavaleiro, o psicopata não o recebera com o enorme sorriso sádico no qual Bruce estava acostumado a vê-lo, ele o encarava com um olhar raivoso que o detetive se atreveria a dizer que nunca recebera dele antes.
O palhaço sorriu — os dentes sendo uma das poucas partes acima da cintura que não estava totalmente ensanguentada — mas a irritação ainda estava presente, mesmo que parecesse tentar escondê-la.
— Olá, Bats! — Ele disse, odiando a sonolência que demonstrara na voz — Se eu soubesse que sentia tanto a minha falta, eu teria vindo por conta própria, era só pedir.
— Pinguim quer você morto — Batman informou e Coringa rolou os olhos como se não fosse grande coisa — E quer sua cabeça numa bandeja de ouro — Ele continuou e o interno o encarava sem interesse — Por quê?
— Sei lá, já pensou em perguntar pra ele? — O psicopata respondera com um sorriso e Bruce se aproximou para intimidá-lo, mas o outro não se impressionou — Todo mundo quer minha cabeça, Batsy, por que está tão surpreso?
— Cobblepot está pagando e, por mais que ele te odeie, nós dois sabemos que ele não desperdiçaria 5 milhões — Batman disse e isto pareceu chamar a atenção do criminoso, que sorriu de orelha a orelha.
— É bom saber que não estou sendo vendido por um preço ordinário — Coringa disse e Bruce apertou os punhos, ele realmente não queria ficar ouvindo besteiras — E por que você não pega a recompensa, grandão? me matar seria facílimo pra você e isto deixaria Gotham mais segura. Qual a sua desculpa?
— Não vou me igualar a você e ao resto da escória.
— E por que não me deixa morrer, então?
— Seria a mesma coisa.
— Oh, claro, continue contando isso a si mesmo, quem sabe um dia você acredita — Coringa sorriu e Batman quis socá-lo, mas era exatamente isso que ele esperava — Então... você vai me soltar ou o quê?
— Você fica preso aqui até que eu consiga pegar o pinguim e entender o que está acontecendo.
— Estou sob a proteção do grande cavaleiro das trevas — Coringa fingiu um suspiro — Meu herói.
Bruce dirigiu-se a saída, pois se ficasse mais um segundo com o palhaço e suas provocações, provavelmente usaria da força bruta para fazê-lo voltar a dormir.
— Ei, você não vai me deixar assim, vai? — O palhaço reclamou e indicou a própria aparência.
Batman viu que ele tinha razão, sua aparência estava detestável e o cheiro começaria a impregnar no lugar.
Já irritado, o vigilante segurou-o pelo braço com força o suficiente para machucar e o levantou, o criminoso quase fora direto para o chão, mas conseguiu se equilibrar e empurrou o vigilante na tentativa falha de se soltar.
Bruce o arrastou para fora da cela e o segurara enquanto o escoltava até os chuveiros da Batcaverna — que ficavam um nível acima, ao lado do lugar onde ele e o Robin treinavam. O morcego não deixou brechas para que o palhaço visse qualquer coisa além de paredes rochosas, empurrando-o.
— Você tá levando essa coisa de 'morcego' um pouco longe demais, não acha? — Coringa disse ao ser solto, referindo-se à caverna.
O local dos chuveiros era ladrilhado, paredes e piso inteiramente brancos e três divisórias com duchas, além das toalhas limpas na paredes. Eles ficaram parados lado-a-lado por um tempo e Bruce cruzou os braços.
— Você vai ficar aqui? — Perguntou ao perceber que o morcego não sairia.
O cavaleiro não respondera, apenas esperara, ele não correria o risco de o palhaço estar escondendo algo que possa ser usado como arma entre as roupas. Coringa deu de ombros e começou a despir-se — ele não parecia nem um pouco incomodado com a nudez — fazendo com que Bruce notasse as diversas marcas roxas e amareladas nas costas dele, imaginando que deva tê-las ganhado na luta do dia anterior e que esse fosse a causa das suas dores. Quando o interno estava completamente sem roupas, virou seu rosto para o morcego e sorriu antes de entrar em uma das divisórias e sumir da vista do vigilante.
Batman esperou por muito tempo e começou a desconfiar que o palhaço havia desmaiado ou algo do tipo, mas antes que ele decidisse se aproximar para olhar, o Coringa saíra da divisória e pegara uma toalha, Bruce o encarou enquanto o fazia. Agora o cabelo verde estava completamente visível sem o vermelho para cobrir, assim como seu rosto. O morcego não pôde deixar de notar que o olho esquerdo dele estava roxo devido ao seu soco.
Coringa se aproximou e cruzou os braços.
— Você vai me dar alguma roupa ou prefere que eu fique assim? — Ele dissera com malícia e Bruce quis socá-lo novamente. Batman puxou o palhaço novamente e o levou de volta para a cela, praticamente jogando-o lá dentro.
— Espere aqui. — O vigilante disse e o psicopata riu.
— E eu tenho outra opção?
———
Ao voltar, Bruce trouxera algumas roupas e comprimidos — durante o período em que o palhaço estive inconsciente, o vigilante decidira rever todo o arquivo dele de Arkham, decidindo manter o tratamento do asilo, mesmo que causassem pouco efeito — antipsicóticos, antidepressivos e alguns que o ajudariam a dormir. O prisioneiro estava inquieto e andava de um lado para o outro até que o detetive finalmente voltasse, desta vez recebendo-o com o seu sorriso icônico.
Batman ignorou tudo o que Coringa dissera: reclamações, piadas ruins, flertes inconvenientes, e entregou-lhe as roupas — uma camisa preta de manga longa,uma calça de moletom acinzentada e roupa íntima, eram novas, ele não daria algo próprio para o criminoso. O interno avaliou o que foi entregue como se fosse alguma brincadeira, ficando de cara feia.
— O que você tem contra as cores? — Ele perguntara. Bruce não conseguia parar de encarar o olho roxo, mas também percebeu o quão diferente o outro ficava sem maquiagem. O cavaleiro apenas virou de costas e esperou. Coringa arqueou a sobrancelha — Ah, você ficou tímido agora?
Sendo ignorado novamente, Coringa se vestiu rapidamente e Batman pôde ver em seu rosto que ele até preferia o uniforme de Arkham à uma roupa tão... simples. O vigilante aproximou-se novamente, desta vez com uma espécie de coleira — ela era escura e possuía três pequeníssimos cadeados — e tentou colocá-la, mas o palhaço se afastou, gargalhando.
— Sou oficialmente seu bichinho de estimação? — Ele dissera com diversão na voz — Batsy, Batsy... você não deixa de me surpreender.
— Agradeça ao Nygma, ele fez o protótipo que eu melhorei — Batman informou — Vire-se.
— Eddie? hm... — O criminoso ignorou o pedido e parecia confuso — Certo, então o que isso faz? sei que não vai me matar. Aliás, por que o Eddie faria algo assim se não fosse um pouco mais... radical?
— Como eu disse, eu a melhorei — Bruce dissera e o forçou a se virar, colocando o objeto envolta do pescoço dele.
— Eu diria que piorou, mas gostos à parte — Ele dissera, mas não parecia prestar tanta atenção na conversa, ele tentava ver os mini-cadeados — Então, o que essa coisa faz? não vou poder gritar por você, Bats?
— Se você encostar nesta porta, você é eletrocutado — Batman disse. O colar também podia ser ativado com um tipo de controle, mas Bruce decidiu não dizer — Se tentar tirá-la, será eletrocutado. Se sair-...
— Serei eletrocutado, eu já entendi — Coringa o interrompeu — Mas e se eu quiser ir ao banheiro? — Ele fez cara inocente ao perguntar.
— Você só sairá comigo — Bruce não gostou da forma de como soou.
— Hm, você é tão possessivo, isso não é saudável num relacionamento — Ele dissera brincando, mas não parecia feliz com a ideia — Tudo bem, papai, o quê mais?
— E você vai continuar com o tratamento — Coringa rolou os olhos e ficou visivelmente irritado. Bruce estendeu-lhe as três pílulas, mas ele apenas olhou — Não me faça obrigá-lo.
Coringa olhou-o nos olhos e depois para o remédio, ignorando-os. Agora ele parecia agir como uma criança teimosa. Bruce segurou seu rosto com uma mão, usando força o suficiente para deixá-lo parado, mas não para machucar de verdade.
— Eu tomo!! — Coringa disse, olhos arregalados. Batman o soltou e entregou as pílulas. O palhaço engolira duas sem sequer precisar de água, mas devolvera a terceira, fazendo com que Bruce se aproximasse, ameaçando obrigá-lo — Esta é somente pra dormir, eu não preciso.
O palhaço o encarava como se estivesse implorando. Bruce conhecia as pílulas e sabia que ele não estava mentindo sobre ela, então decidiu deixá-lo. Ele pegou o comprimido de volta e o criminoso soltou um ar que sequer sabia que estava segurando. Batman aproximou-se mais uma vez para ter certeza de que a coleira estava realmente fechada — Coringa não dissera mais nada durante o processo — e finalmente retirou-se, deixando o palhaço sozinho.
Ao subir para o nível dos computadores na Batcaverna, Alfred o aguardava com uma caneca grande de café, que Bruce quis recusar, mas sua figura paterna o conhecia bem demais e sabia que ele passaria a noite inteira acordado olhando a câmera de vigilância para garantir que o prisioneiro continue preso, então acabou aceitando e dispensou o mordomo para que o mais velho fosse descansar — por mais que o homem insistisse que Bruce fosse dormir, mesmo sabendo que era em vão.
Bruce encarou as câmeras por algumas horas antes da exaustão conseguir vencê-lo e a escuridão tomar conta.
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