Notas iniciais
Três dias. O Coringa não saiu da cela por quase três dias inteiros. Bruce sabia que ele ficaria com raiva ou até agressivo por causa da confusão que houve pelos remédios, mas ele não imaginava isso. O palhaço ficou trancado por vontade própria o tempo inteiro e só saía ao ter certeza que o vigilante não estava e, para piorar, ele ainda se recusava a tomar o maldito comprimido.
No primeiro dia, Bruce tentou dialogar sobre o assunto, tentou sinceramente ajudar, mas o outro definitivamente não o queria por perto e deixou isso bem claro quando ignorou a maior parte do que o cavaleiro havia falado e ironizou o resto. Bruce pensou até mesmo em compartilhar com o palhaço as informações que havia conseguido sobre o Pinguim e o tal ajudante — ou chefe — dele, mas ainda não tinha certeza se deveria, principalmente com o Coringa agindo daquele jeito.
No segundo dia, o vigilante teve de aguentar as provocações do outro, que desta vez não eram apenas provocações, ele queria arrancar uma reação do Batman, queria vê-lo com raiva nem que isso o custasse algumas costelas quebradas, queria irritá-lo. Bruce se controlava o tempo inteiro enquanto o criminoso descrevia como matava suas vítimas e como elas sofriam. O detetive quase o socou, mas percebera que era exatamente isso que ele queria, então tentava ignorar tudo o que ele dizia quando ele precisava ir até lá.
No terceiro dia, o Coringa decidira sair e agira como se nada houvesse acontecido. Ele agiu como se seu braço não estivesse machucado e como se Bruce não o tivesse forçado a tomar a pílula. Bruce não se surpreendeu, já que o humor do palhaço era facilmente mutável e pelo menos agora ele não precisaria ouvir mais provocações — ou era o que achava, até que o incidente com o Robin aconteceu.
Bruce havia decidido sair com Vicky Vale por uma noite — já que se sua persona de playboy ficasse sumido por muito tempo, as pessoas passariam a estranhar — e, quando chegara, teve de ir direto vestir seu traje para separar o Robin do palhaço, pois o menino prodígio não aguentou meio minuto da conversa fiada do criminoso. Coringa teve de ser sedado e o Robin teve de ser retirado á força — e Bruce poderia muito bem adivinhar o porquê da reação do seu ajudante.
O detetive teve de acalmar Tim — que ganhou um olho roxo e dor nas costelas com a briga — e garantir que ao garoto que ele e Alfred estariam seguros, e que o palhaço não conseguiria ter acesso a nenhuma informação sobre eles ou sobre a Bárbara. Bruce ficou aliviado pelo bom senso do Tim, mesmo depois de ele ter praticamente quebrado a cara do palhaço. O garoto decidiu que deixaria tudo nas mãos do vigilante e que definitivamente não iria na Batcaverna até ela estar devidamente segura.
Bruce não podia culpá-lo.
Acabou que o Coringa ficou muito mais machucado que o Robin, — e ele ainda estava rindo quando o Batman chegou para olhar como ele estava — com o nariz ensanguentado, mais um olho roxo e um corte, que provavelmente não era muito profundo, na bochecha. Com essa aparência, o detetive teve certeza de que o palhaço havia falado sobre a Bárbara, e mesmo assim Bruce não conseguiu deixar de se sentir culpado ao ver o estado deprimente que o palhaço se encontrava.
O Coringa estava sentado no chão, encostado na parede e com metade do rosto com sangue que escorria do nariz. O vigilante se aproximou e as risadas cessaram, o palhaço olhou diretamente para ele e depois deu aquele sorriso sádico que Bruce estivera tão acostumado a ver. Ele ajoelhou-se perto do palhaço e segurou-lhe o rosto, sem se importar em ser gentil, o que fez o outro suspirar com a dor.
— Não vai precisar de pontos — Batman comentou sobre o corte e depois viu que o nariz do palhaço não havia parado de sangrar, então pegou um lenço no meio do equipamento que trouxe e fez o Coringa olhar para cima enquanto pressionava o lenço¹ — Segura.
Coringa levantou uma mão fraca e fez o que foi pedido. Bruce se perguntou como ele ficou assim, já que ambos — tanto ele, como o Robin — já haviam brigado antes e a força era comparável. Mas agora o menino prodígio havia praticamente o destruído, o detetive até imaginou que se não houvesse chegado a tempo o criminoso poderia estar morto, mas preferiu afastar a ideia e pensar que Tim seria melhor que isso.
Ou talvez o Coringa estivesse tão desesperado por uma reação que se deixou apanhar, Bruce pensou, mas a ideia era absurda demais, mesmo se tratando do palhaço príncipe do crime.
— Pensei que não se preocupasse comigo — Coringa comentou, ainda segurando o lenço, enquanto Batman limpava o corte com antisséptico. Quando percebeu que o detetive não responderia, ele continuou — Treinou bem o seu passarinho. Sabe, gosto mais deste do que do anterior, aquele era um porre.
O coração de Bruce apertou ao lembrar de Jason, pois a culpa ainda o consumia. Ele o ignorou novamente.
— Foi por isso que eu matei ele — Coringa disse e sorriu, seus dentes ensaguentados, deixando-o com a aparência doentia. Bruce cerrou os punhos — Como era o nome dele, Batsy?
— Cala a boca — Batman disse e foi mais um aviso do que uma ordem.
Por mais incrível que parecesse, Coringa obedeceu e, depois de ter se acalmado, Bruce decidira que era hora de conversarem de verdade.
— Qual o seu problema? — Batman perguntou, orgulhoso de como a voz saiu neutra e não raivosa ou confusa. Coringa arqueou a sobrancelha.
— Eu tenho vários, pode ser mais específico?
— Os remédios... por que você não dorme? — Ele perguntou e Coringa rolou os olhos, disposto a ignorá-lo — Não quero ter que machucá-lo pra que me responda.
— ...Não gosto da ideia de ficar inconsciente, de não ter controle sobre mim mesmo — Coringa respondeu sinceramente depois de alguns segundos em silêncio e Bruce até se surpreendeu por ter sido respondido, já era um começo — E odeio sedativos — Ele olhou intensamente para o vigilante e ele soube que o palhaço queria matá-lo por tê-lo dado tantos.
— Paranoia? — Batman perguntou depois de mais alguns segundos em silêncio, Coringa já estava distraído com os próprios pensamentos.
— Chame do que quiser.
— E por que fez isso? — Bruce perguntou, referindo-se ao Robin — O que você ganhou ao irritá-lo? além de um nariz sangrando e um tranquilizante que diz odiar.
— Eu só estava entediado, Batsy — Coringa rolou os olhos como se fosse óbvio — Não sei se percebeu, mas não é exatamente um sonho ficar nessa sua caverninha. E dá pra parar com esse interrogatório? você não é meu psicólogo.
— Mas eu poderia te ajudar se você quisesse — Coringa o encarou incrédulo.
— Ah, por favor, você tá vestido de morcego e eu que preciso de ajuda? — Coringa riu — A única ajuda que eu preciso é pra conseguir ir tomar banho, já que meu querido anfitrião resolveu me dar uma porra de sedativo.
Bruce pensou por um momento até tomar a decisão de ajudar o palhaço, ele sentia que devia.
— Anda — Bruce ofereceu-se para ajudá-lo a levantar e o palhaço arqueou a sobrancelha — Antes que eu desista — Coringa hesitantemente aceitou a ajuda, não conseguindo colocar força nos pés.
Batman se levantou, braço esquerdo envolvendo o palhaço, que tinha o braço direito sob os ombros do vigilantes. Coringa ficou estranhamente quieto e tenso — o detetive pôde perceber — durante o caminho para os chuveiros.
— Devia tê-lo deixado me matar — Ele comentou como se fosse algo normal a se falar — Você devia ter me matado.
— Se quer tanto morrer, faça você mesmo — Batman disse antes que pudesse pensar e o palhaço sorriu, gostou da resposta, mas não havia graça ou chacota no sorriso.
— Eu tentei — Coringa sorriu novamente e suspirou, mas com malícia desta vez — Diversas vezes, aliás. Mas meu cavaleiro das trevas sempre veio me salvar, não é? você não consegue viver sem mim, Bats.
— Você é doente — Bruce disse, sentindo uma náusea repentina e esquecendo toda a empatia que havia sentido pelo palhaço há poucos minutos.
— Você é tão doente quanto eu, querido — O palhaço disse ao chegaram ao lugar e ele começar a se despir com dificuldade. Bruce, relutantemente, teve que ajudá-lo — A diferença é que eu admito.
Ao tirar as calças, Coringa levara as mãos para o elástico da roupa íntima, pronto para tirar, mas Batman o parou ao segurar-lhe o braço, encarando-o com rigidez.
— Isso fica — Bruce disse. Ele ajudaria o palhaço, mas ele não precisava ficar vendo-o completamente nu. Coringa riu levemente.
— Que fofo, você fala como se não tivesse um — O outro dissera — Ou como se já não tivesse me visto.
Batman fingiu não notar a malícia na voz do Coringa e o ignorou. O palhaço ficara apenas com a roupa de baixo e a "coleira".
O vigilante teve de guiar o palhaço para a divisória e ficar por perto, pois o outro mal se erguia em pé. Bruce pensou no progresso que haviam feito na primeira semana e tudo pareceu ter ido por água a baixo, e ele se sentia culpado, pois talvez não fosse necessário enchê-lo de remédios como faziam em Arkham, mesmo que fosse melhor do que correr algum risco. O detetive distraiu-se até que o palhaço quase caíra sobre si e ele teve de segurá-lo pelos ombros.
O criminoso tentou se afastar por conta própria, mas ainda não tinha força o suficiente para isso, e Bruce viu o sangue. O nariz dele voltara a sangrar e seus olhos estavam só entreabertos, o que — mesmo não admitindo para si mesmo — preocupou-o. Depois de conseguir segurá-lo parado, Bruce o encostou na parede da divisória e inclinou a cabeça dele para trás, fazendo-o olhar para cima². Batman não queria ter entrado, mas já era tarde.
O detetive teve de segurá-lo na mesma posição por algum tempo — até perceber que o sangramento havia diminuído consideravelmente — o que deixava a situação bem estranha fora do contexto. O palhaço o encarara o tempo inteiro, estudando-o, Batman percebeu, mas resolveu ignorar desde que o Coringa não fizesse nenhum comentário. Até que Bruce foi pego totalmente de surpresa quando o outro inclinou-se para frente e encostou-lhe os lábios levemente.
Bruce levou alguns segundos para processar o acontecido e o empurrar contra a parede novamente, desta vez com força considerável, recebendo um grunhido de dor e uma risada rouca.
— Nunca mais faça isso — Batman avisou e o palhaço voltou a encará-lo com aquele olhos verde-ácidos.
— Senão o quê? — Ele perguntou de forma desafiadora e Bruce decidiu sair, deixando-o sozinho para se virar. Bruce sabia que o Coringa gostava de surpreender, mas ele sempre precisava de uma plateia para isso ou então não teria sentido, e desta vez não tinha.
O vigilante sentiu-se enojado pela ação do criminoso. Sentiu-se enojado pela forma como o vem tratando mesmo depois de tudo o que ele fez. Sentiu-se enojado por deixá-lo ferir o Robin e ainda cuidar dele por isso. Sentiu-se enojado consigo mesmo por ter ficado com a sensação do ato na cabeça.
Bruce decidiu que precisava pegar o pinguim o mais rápido o possível antes que ele próprio perdesse a razão.
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