Notas iniciais
Harleen Quinzel, também conhecida como Arlequina, sorria para os dois. Seus cabelos estavam amarrados em dois rabos de cavalo, um com pontas vermelhas e o outro pretas, combinando com sua roupa cujas mesmas cores alternavam. Ela usava um corpet bem apertado e um short, com meias-calças e botas, seu cinto estava cheio de balas para suas duas pistolas, que se encontravam em seu par de coldres.
Hera, que também havia se juntado a festa — mas Bruce não fazia a mínima ideia do porquê, cruzou os braços e começou a mexer no cabelo ruivo com enorme desinteresse na situação, como se estivesse apenas esperando que a Arlequina acabasse com o que havia começado para que fossem embora de uma vez.
— Te procurei por toda parte, Pudinzinho! — Ela disse com sua voz levemente irritante e apontou a arma para o palhaço, mas Bruce entrou na frente — Sai da frente, Morcego!
— Você é quem estava atrás de matá-lo esse tempo inteiro? — Bruce perguntou, ignorando o comando dela — Pensei que amasse ele.
— Ah, eu amo... — Harley disse com um suspiro sonhador — Ele sempre vai ter um lugarzinho especial no meu coração... mas isso não quer dizer que eu tenha que perdoá-lo por tudo que ele fez comigo!
— Harley, querida — Coringa começou com voz cínica — Eu não pretendi fazer metade delas, se isso te deixar melhor.
Isso só pareceu deixar a ex-psiquiatra ainda mais furiosa do que já estava, então ela começou a atirar desesperadamente com ambas as armas, mas Bruce bloqueou todas as balas com o tecido resistente da capa, escondendo ambos. Porém, assim que ele levantou o olhar, Harley estava perto o suficiente para batê-lo com o taco de baseball, que o fez perder o equilíbrio, mas não antes de agarrar o braço da garota e arrastá-la para o chão também.
Eles rolaram por alguns segundos, pois Harley estava muito forte e Bruce não queria colocar tanta força contra uma garota, mas depois viu ser necessário devido a força inesperada dela. Bruce ficou por cima e segurou os braços dela nas laterais.
— Pense melhor, Harley! — Ele disse, tentando enfiar bom senso na cabeça dela — Se matá-lo, não será melhor do que ele!
— Não me importo! — Ela gritou, mas Bruce tinha quase certeza de que ela sequer ouviu o que ele havia dito, perdida nos próprios pensamentos de vingança.
Bruce podia entender o porquê de Harley querer se vingar do palhaço, afinal, ele havia presenciado boa parte do abuso psicológico e físico sofrido pela garota — e até havia tentado avisá-la disso, mas não teve jeito, já que ela estava perdida no amor na época. Porém, ele não podia deixá-la fazer isso, pois ele sabia que ela era melhor que isso, eles já haviam trabalhado juntos e ela não era cruel como o coringa... ele também não podia deixar, porque não saberia viver sem o palhaço, por mais que ele não admitisse isso.
Antes que Bruce falasse mais alguma coisa e tentasse fazê-la seguir a razão, algo o puxou pelos calcanhares e segurou-o firmemente de cabeça pra baixo, estendendo-se até suas coxas num aperto doloroso que o fez grunhir, para então ver que eram plantas monstruosamente grandes. Ele olhou ao redor e viu a Hera de ponta-cabeça seguindo até ele, ela se aproximou o suficiente para que ele sentisse sua respiração... e seus feromônios... ele também notou que Harley e Coringa saíram de sua linha de visão.
— Nunca ouviu que não pode se meter entre briga de casal? — Hera perguntou ironicamente e Bruce tossiu, tentando não respirar os esporos que emanavam da mulher — Não lute contra, Batman.
— Por que está ajudando ela? — Bruce se forçou a perguntar — Você não tem nada a ver com isso!
— Hmm... Harley e eu estamos juntas agora, Morcego — Hera disse e Bruce ficou muito confuso — Dei a ela uma mistura natural que a faria mais forte, você notou? — Ela sorriu — Além disso, ele merece.
— Eu sei! — Bruce tossiu mais uma vez e, de repente, respirar ficou mais fácil, o que o fez sugar o ar de forma quase desesperada. Ele notou que Hera havia parado com os feromônios.
— Então não atrapalhe — Ela falou e virou-se de costas, recebendo um chute inesperado de Tim e indo parar no chão. O garoto virou-se para Bruce e cortou as plantas que cresciam prendendo-o no teto. O vigilante caiu com um baque surdo e Robin ajudou-o a levantar com um sorriso.
— Cheguei tarde? — Ele perguntou e Bruce tentou deixar sua respiração um pouco mais normal antes de responder.
— Na hora certa — Bruce comentou, sorrindo pra ele — Distraia a Hera, vou atrás da Harley.
— Vai me deixar com a mais perigosa?! — Tim reclamou e Bruce sorriu novamente.
— Confio no seu potencial — Bruce disse antes de correr e começar a procurar a Arlequina.
Bruce não demorou muito para achar os dois palhaços, mas quando os viu, eles rolavam no chão numa briga muito desconcertada e ambos brigavam por dominância. Ele viu Coringa receber três fortes socos no rosto enquanto corria uma distância enorme para alcançá-los. O vigilante percebeu o estado dos dois: estavam sujos, o que indicava que já estavam no chão há um tempo, Harley tinha um de seus rabos de cavalo desfeitos e agora segurava uma faca personalizada na garganta do palhaço.
Antes que Bruce pudesse falar algo, alcançá-los ou fazer alguma coisa. Harley começou a soluçar alto e grossas lágrimas caíam de seu rosto, manchando-o inteiro com a maquiagem. Bruce, então, sentiu medo de que o Coringa tivesse-a machucado, sentindo-se culpado por ter pensado apenas no bem-estar do palhaço até agora e não na Harley.
O Morcego hesitou e não se aproximou, pois ela ainda segurava a faca no pescoço do Coringa, que a encarava confuso enquanto ela chorava desesperadamente em cima dele.
— Eu... te amei... tanto, Sr.C — Ela disse em meio a soluços, mãos tremendo — E você... me tratava... por que você é tão ruim?!
Bruce podia tê-la tirado de lá, mas sentiu que essa era uma conversa que ela precisava ter para seguir em frente, então apenas esperou, enquanto seu coração apertava com cada palavra dolorosa que ela dizia.
— Fiz tudo por você! — Ela gritou — Veja o que me tornei! sou uma psicopata por sua causa! você me machucou de novo e de novo! mas eu te perdoava de novo e de novo! porque você era tudo pra mim e eu... eu não passava de um bichinho pra você... algo pra você descontar sua raiva...
Harley continuava tremendo e chorando, Coringa parecia chocado, mas Bruce não sabia exatamente o motivo — talvez as palavras dela tivessem tido efeito, o que era menos provável, ou ele estivesse surpreso com a Coragem que ela teve pra enfrentá-lo finalmente.
— Eu sabia que você era ruim — Ela falou com enorme tristeza — E seus tapas doíam, mas pensar em te perder doía tanto a mais... que eu aceitava. Quero que me responda com sinceridade pelo menos uma vez nesse nosso relacionamento miserável... você chegou a sentir qualquer coisa por mim? não minta — Ela apertou um pouco mais a faca.
— Não — Coringa respondeu e as lágrimas dela recomeçaram, mas dessa vez silenciosas.
— E o ciúme do Pistoleiro? — Ela perguntou com um pouco de esperança. Bruce sentiu enorme pena dela, pois, por mais que ela estivesse com outra pessoa, era em óbvio que seu amor pelo palhaço não seria facilmente substituído.
— Como o ciúme que tenho dos meus ternos — Ele disse — Você era minha possessão apenas.
— Eu devia te matar! — Ela disse, mas então largou a faca e se levantou — Mas eu não mereço ter seu sangue imundo nas minhas mãos.
Bruce não tinha palavras para expressar o quão orgulhoso ele se sentiu da Harley naquele momento, ele queria abraçá-la, mas sabia que não seria bem-vindo. Harley se distanciou do palhaço e virou-se, dando de cara com Bruce e enxugando as lágrimas o mais rápido que pôde, espalhando sombra preta e vermelha por todo o rosto.
— Apreciando o show? — Ela perguntou de forma agressiva e Bruce levantou as mãos em rendição.
— Sinto muito, Harley — Ele disse — Você merece alguém melhor... espero que a Hera seja essa pessoa.
Harley, então, corou até a ponta das orelhas, mas sorriu mesmo assim, deixando Bruce um pouco menos-pior do que antes. Ao menos saber que Harley tinha alguém — não abusiva — com quem contar era o suficiente, pois Bruce conseguia ver que ela era mais vítima do que vilã, já que ela só estava tentando impressionar o cara errado.
— Eu devia tê-lo matado — Ela disse com um sorriso triste, mas não se virou para olhar o palhaço — Mas não consigo...
— Você só estaria dando a ele o que ele quer... se tornando tão ruim quanto o próprio — Bruce disse na tentativa de reconfortá-la.
— Mas então todo esse esforço pra nada? — Harley começou melancólica — A confusão no manicômio... aguentar o Bolopot...
Bruce realmente não sabia o que responder a isso, não queria dar a ela razão para dar meia volta e acabar o que começara, acabando com o Coringa de vez, então ficou calado enquanto ela colocava seus pensamentos em ordem. O vigilante deveria levar ela e a Hera pra Arkham, mas sabia que o lugar não iria ajudá-las e sim piorá-las, já que ninguém seguia as regras as quais o lugar fora realmente criado pra cumprir, então decidiu ignorar por enquanto.
Harley começou a andar novamente e Bruce a seguiu, dando uma leve olhada para o palhaço, que ainda sentava no chão e o encarava diretamente. Eles então chegaram onde Tim e Hera haviam ficado lutando, mas Tim estava batendo a própria cabeça contra a parede, e Hera redecorando a Batcaverna com várias plantas e flores, algumas normais e algumas ridiculamente grandes.
— O que está fazendo?! — Bruce reclamou, aproximando-se da mulher, que apenas sorriu pra ele.
— Alguém já te disse que o preto é brega? — Hera perguntou, colocando as mãos na cintura.
— Várias vezes. Desfaça isso — Ele disse agressivamente e ela parecia pronta pra atacar, mas Harley assobiou.
— Vamos, Ruiva, já fiz o que tinha que fazer! — Harley falou, subindo na escavadeira e estando um pouco mais alegre que antes na presença da outra moça.
— A gente se vê, morcego — Hera soprou um beijo cheio de feromônios pra ele, que ele afastou urgentemente com a mão.
Hera caminhou elegantemente para o automóvel, que Harley pilotou pra fora da caverna, deixando um buraco florido gigantesco no lugar. Bruce correu para Tim, que ainda batia a cabeça, segurando-o pelos ombros e afastando-o da parede — sua testa já estava bastante ralada.
— Ei, tudo bem? — Bruce perguntou e sacudiu-o levemente.
— Ahm... — Tim gemeu. Bruce tinha certeza que Hera usou alguma coisa nele e o mandou ficar batendo a cabeça só pra se divertir, mas o efeito não havia passado ainda.
— Vem, vou levá-lo para enfermaria — O vigilante ajustou o braço de seu ajudante sob seus ombros e ajudou-o a caminhar, enquanto pensava numa solução para essas plantas e o buraco gigantesco. Bruce deixou Tim deitado em uma das camas, tentando deixá-lo o mais confortável possível e então o Coringa entrou hesitantemente no lugar. O vigilante demorou um pouco para voltar sua atenção para o palhaço — Você sabia? — Batman perguntou seriamente e Coringa fez cara de inocente.
— Do quê?
— Que era ela? — Ele encarou o palhaço, que suspirou cansado.
— Sim.
— Por que não me contou? — Bruce perguntou, sem perceber que havia levantado a voz.
— Porque eu planejava matá-la — Coringa deu de ombros — Mas então eu descobri sobre Bruce Wayne e me distraí...
— Você planejava matá-la? — Bruce repetiu, sentindo a raiva subir dentro de si — Ela faria tudo por você! inclusive te deixou vivo hoje!
— Pois é, eu sabia que ela era uma covarde — Coringa falou e Bruce sentiu vontade de socá-lo, como tantas outras vezes.
— Como você pode ser assim? tão horrível, cruel... — Bruce o empurrou contra a parede e o palhaço riu.
— Assim você me deixa vermelho — Ele provocou e Bruce quase desejou que Harley tivesse terminado o serviço. O vigilante o socou, fazendo-o rir novamente e levou um soco quase tão forte no rosto que a armadura tomou a maior parte do dano — Mais forte, bats.
Bruce se afastou com raiva antes que fizesse algo da qual se arrependesse, mas Coringa praticamente o agarrou, braços firmemente ao redor de seu pescoço e deu-lhe um beijo nos lábios, ao qual deixou Bruce paralisado antes de voltar a empurrar o palhaço contra a parede e beijá-lo com força. Coringa tinha gosto de sangue e, por algum motivo, isso só deixava Bruce mais ardente. Eles não brigaram por dominância, pois Coringa já entregava-a ao Batman de propósito, apenas se permitindo ser manuseado durante o ato. Eles ficaram alguns minutos assim, como se estivessem tão desesperados pelo toque um do outro que sequer pararam para respirar, até que um pigarro chamou a atenção de ambos.
— Eu preferia não ver esse tipo de coisa, obrigado — Tim disse com irritação e eles se separaram.
Fale com o autor