Eu tentei
22 Ruínas - Parte 2
Notas iniciais
Children waiting for the day they feel good /Crianças esperando pelo dia em que sentirão bem
Happy birthday, happy birthday /Feliz aniversário, feliz aniversário
—Boa tarde Seiya.
—Dr. Saga. Tudo bom?
—Espero que com você sim. Como está hoje?
Seiya sentou-se em frente a Saga, e Saori permanecia ao fundo da sala. Céus, ele não poderia estar mais bonito do que antes, poderia?
—Estou bem. Digo até que empolgado. Soube das novidades?
Saga exibiu uma expressão de curiosidade. Cruzou uma perna e fez sinal para que Seiya continuasse a falar.
—Aquela mulher foi presa há pouco. Finalmente conseguiram encontrá—la.
—Pandora?
—Sim! Foi presa no aeroporto. A essa hora já deve estar sendo interrogada.
Saga pareceu surpreso e aliviado ao mesmo tempo. Mirou Saori que exibiu um sorriso pequeno.
—Mas que boa notícia. Realmente, digna de comemoração.
—De fato. Sabe, quando eu soube disso eu fiquei pensando…
—Sim?
—Agora que ela está presa… Isso, digo, pode ajudar?
Saga estreitou os olhos, curioso e atento a Seiya.
—Ajudar? Em que?
Seiya pareceu subitamente desconfortável. Coçou a nuca e suspirou antes de falar.
—Ajudar com o Ikki.
—Não entendi.
Pelo tom que ele usara, eu sabia que ele havia entendido sim. E muito bem, mas o teatrinho precisava continuar. Só de ouvir meu nome saindo da boca dele, eu já estava com as palmas das mão suadas.
—Digo… Não sei, eu tenho falado com Shun e os outros sobre o Ikki, mas…
Interrompendo de maneira abrupta, Saga inquiriu:
—Tem falado sobre Ikki com seus amigos, mas ainda não falou com ele depois de tudo que aconteceu. Por que isso?
—Bom… É…
Levou algum tempo até que ele falasse. Enquanto isso o silêncio perdurou.
—Eu não… Já disse antes, eu não conseguiria encarar o Ikki até que… Na minha cabeça estivesse claro que ele era inocente.
—Mas ele sempre foi inocente. O máximo de culpa que pode ser atribuída a ele é pela má sorte de se relacionar com a pessoa errada. Está mais do que claro que ele jamais faria o que fez se estivesse em si.
—Eu sei disso. Mas foi estranho sabe? Vê-lo daquele jeito... Falando em mim. Por que logo eu? Digo… Eu nunca entenderei como o Ikki foi se apaixonar por mim.
—Ninguém sabe explicar o porque de um sentimento surgir. Biologicamente podemos culpar os hormônios, mas os motivos para uma paixão passam por inúmeras áreas. Se tem essa dúvida, poderia simplesmente ter chegado a ele e perguntado, não?
Seiya encarava Saga com o olhar ansioso. Pareceu desanimar um pouco.
—Não é simples assim e você sabe. Somos amigos, eu sempre o considerei como uma espécie de irmão mais velho...
Aquela frase me doeu no mais profundo do ser.
—E então eu descubro que ele se apaixonou por mim. Até hoje isso é...
Ouvi um suspiro e vi Seiya coçar a cabeça. Saga aguardou um pouco e pressionou suavemente para que ele continuasse a falar.
—Até hoje isso é o que?
—Estranho. No mínimo. Quer dizer, olha pra ele, certo? Bonito, seguro de si, transbordando saúde e independência. Ele era meio que um modelo de homem pra mim sabe?
—Modelo?
Eu também me surpreendi tanto quanto Saga ao ouvir aquilo.
—É. Ao contrário de mim que tenho que me esforçar dez vezes pra fazer algo comum, ele parecia simplesmente estalar os dedos e pronto, algo extraordinário acontecia. Eu poderia enumerar mil qualidades nele mas não faria diferença. O que importa é que eu não consigo ver um motivo mínimo sequer para ele se interessar por mim.
Made to feel the way that every child should /Feitas para se sentir da maneira que toda crianÇa deveria
Sit and listen, sit and listen /Sentar e escutar, sentar e escutar
Saga exibia uma expressão indecifrável. Apoiou o rosto em uma das mãos enquanto perguntava de maneira inocente:
—Como eu disse, só mesmo perguntando a ele para poder sanar essa dúvida. Você não se sente pronto para finalmente falar com ele?
Seiya considerava a pergunta, pois estava inquieto, estralando as mãos, remexendo de maneira desconfortável na cadeira. Ele parecia prestes a explodir.
—Acho que... Bom, agora tudo está mais claro pra mim. Eu acredito realmente que ele não teve nenhuma culpa em relação ao que aconteceu, mas...
—Mas?
—Eu não sei lidar com esse negócio dele estar apaixonado por mim. Não sei, é...
—Isso por que ele é homem?
—Não. Não só por isso, é por... Céus, eu não quero magoá-lo, fico imaginando como ele deve estar com essa história toda e... Me sinto péssimo. Queria que ele não estivesse passando por isso. Eu sei como é horrível ser um apaixonado não correspondido. Não desejo que ele esteja vivendo isso. Sabe, eu não... Hum...
Estava ali. Eu sabia que estava próximo o momento que eu mais temia.
E não errei.
—Eu não gosto dele dessa forma. Nunca vai haver a menor chance disso. Ele é como um irmão mais velho.
—Entendo...
—E como eu posso me aproximar dele de novo sem magoá-lo? Será que isso é possível?
Saga olhava em minha direção como se não houvesse nenhuma barreira ali. Seus olhos pareciam se cravar nos meus, ainda que eu soubesse que isso seria impossível com uma parede entre nós. Sua resposta foi praticamente o ponto final para mim.
—Seiya, o único jeito de resolver isso é sendo honesto consigo e com Ikki. Dê a ele a chance de ouvir diretamente de você que apesar de tudo, você quer que ele ainda faça parte da sua vida. Você quer isso não quer?
—Quero, claro. Mas...
—Se ele vai se machucar? Óbvio que sim. Mas as vezes pode ser necessário que ele sofra uma ferida para se curar de problemas mais sérios. Já pensou que isso pode ser libertador?
—Será? Eu tento me colocar no lugar dele e só penso em vergonha...
—Não adianta nesse caso, talvez ele tenha algo mais do que vergonha rondando seus pensamentos... Ou nem seja isso, mas outra coisa. O que ele sente ou como se sente cabe apenas a ele, Seiya. Se quer ajudá-lo, sabe o que deve fazer.
Seiya estava completamente apreensivo.
—Sei... Mas não vai ser fácil.
—Você o ama?
Seiya piscou algumas vezes.
—Amo. Assim como amo Shun, Hyoga...
—E Shiryu?
Podem dizer que foi loucura minha, talvez tenha sido mesmo, mas eu por um instante achei que naquele momento Seiya corou.
—Isso vai ser outra coisa que teremos que discutir mais a frente.
Saori tinha uma expressão estranha, um misto de tristeza e vazio; mirava a paisagem como se fosse uma estátua. Saga coçou uma têmpora.
—Percebeu algo sobre seus sentimentos em relação a ele finalmente?
—Eu... Caramba Dr...
Seiya estava muito inquieto.
—Eu... Tenho pensado muito sobre isso. Muito. Talvez eu... Talvez eu ame o Shiryu, mas tenho medo de... Acabar como o Ikki, sentindo algo por alguém que nunca me olhará da mesma maneira sabe?
Seiya continuou falando. E falando. E Saga conduzia a conversa de forma que tudo ficasse super claro. Após alguns minutos, Saga sentenciou:
—Certo... Quer falar sobre algo mais?
Eu não ouvi nada depois daquilo. Não me interessava, realmente. O martelo foi batido, o mundo silenciou e por fim a ficha caiu de forma definitiva.
Eu jamais teria uma chance com ele. Jamais.
Havia sim a hipótese de voltarmos ao normal, ao que era antes. Amigos, aquela distância saudável e o resto. Mas eu não queria aquilo.
Finalmente eu decidira o que queria. E o que faria dali em diante.
Went to school and I was very nervous /Fui à escola e estava muito nervoso
No one knew me, no one knew me /Ninguém me conhecia, ninguém me conhecia
Quando Saga terminou com Seiya depois de alguns minutos eles se despediram cordialmente e Saori saiu com Seiya. Saga ainda levou alguns minutos sozinho na sala vazia, andando para lá e para cá em silêncio. Eu estava em estado de suspensão, ou como vocês preferirem chamar: só conseguia sentir o fim de toda uma história, via um filme passando na minha cabeça. Mal vi quando Saga entrou na sala onde eu estava; sentou-se próximo a mim e ficou me encarando. Como eu nada disse, ele começou:
—E então?
—O que?
—O que me diz?
Eu nem hesitei por que a resposta estava pronta aquela altura.
—Que preciso de ajuda. Quero esquecer essa história. Preciso seguir minha vida e não vai ser mais dessa forma.
Não era realmente aquilo que Saga esperava.
—Desculpe?
—Eu quero ir em frente. Preciso de ajuda pois ainda não consigo mudar a ideia, mas quero trocar essa fixação por algo diferente e tocar minha vida. Nem que precise operar minha cabeça pra isso. Me passe remédios, terapias, o que quiser. Mas me ajude a sair disso.
Saga acenou com a cabeça e sorriu quando apoiou a mão em meu ombro. Ele parecia querer olhar além de mim, mas vocês não conseguem imaginar o poder que a dor proporciona para fingir ou encobrir determinadas coisas. E eu utilizei disso a meu favor a partir daquele momento.
—Vamos começar esse novo capítulo.
Hello teacher tell me what's my lesson / oi professor, diga me qual a minha lição
Llook right through me, look right through me /Olhe através de mim, olhe através de mim
Eu poderia falar a vocês que depois daquele dia tudo mudou. Que eu procurei entender meus sentimentos, descobri a razão das minhas carências e por que projetei tudo em Seiya. Que eu consegui dar uma guinada na minha vida, e redescobri como tudo e maravilhoso e etc.
Mas seria apenas mentira.
E isso é algo do qual eu estava cansado. Mais ainda por que tinha feito isso constantemente naquela época. Eu cansei. Eu havia realmente tentado mas havia uma parte de mim que não ia mudar, não queria mudar.
Por conta dela eu agi como agi depois daquele momento. E vocês devem estar tão cansados quanto eu. Já vamos acabar aqui, eu garanto.
Mas antes que a história termine, eu ainda tenho algumas coisas pra contar.
Meu último encontro com Pandora, por exemplo.
Quando finalmente a encontraram tiveram certa dificuldade em prendê-la. Por nada ela ia escapar do país, mas alguns funcionários com medo dos últimos atos dela resolveram dar com a língua nos dentes. E após a transferência para um manicômio judiciário, coisa que eu atribuo aos advogados dela, pois o que aquela maldita merecia era pena de morte, eu finalmente me vi cara a cara com ela.
Ao entrarmos na sala em que ocorreria a conversa -Saga e Saori me acompanhavam, assim como Shaka- pude vê-la pela primeira vez como ela realmente era. Sem maquiagem e enrolada em uma camisa de força, ela parecia nada mais que uma garota comum. Não aquela mulher fatal que eu convivi por dias a fio.
—Ikki.
Sua voz estava carregada de desprezo. Tive dificuldade em acreditar que ela era realmente ela. Estava pálida, de uma cor entre um branco encardido e um branco cadavérico. Não nego que um arrepio passou por mim quando a encarei.
—Pandora.
Ela inclinou a cabeça e parecia me analisar. Repetiu o gesto algumas vezes.
—Então. A que devo o desprazer dessa visita?
—Eu precisava te ver.
—Me viu. Podemos acabar por aqui?
—Não faça isso. Você me deve algumas respostas.
Ela deu uma gargalhada sinistra.
—Eu te devo? Eu te devo? Eu não te devo nada. Sua bicha...
Ela lutava contra a camisa de força, sem sucesso.
—Eu quero você longe de mim. Coisa nojenta.
—Não brinque comigo. Só vamos sair daqui quando você responder minhas perguntas.
Ela olhava as pessoas ao redor, como que esperando que alguém a levasse dali, mas ninguém se mexia. Entendeu que não haveria diálogo.
—Pois bem. O que você quer saber?
A primeira pergunta era a mais óbvia.
—Por quê?
—Por que o que?
—Fez o que fez comigo. Me fez matar... Matar a Shina.
Ela piscou algumas vezes e riu. Riu com vontade.
—Se eu pudesse até enxugaria as lágrimas, pois você me fez chorar de rir agora. Eu fui ao hospital apenas para te ver, estava preocupada com você sabia?
Eu fiz uma burrada, admito. Virei para Saga e sorri, como se estivesse confirmando uma teoria. Ele manteve a expressão dura.
Até Pandora rir de maneira debochada.
—Preocupada... Até descobrir que estava perdendo meu tempo com mais da sua raça. Mais uma bicha. Uma desgraça de uma maldita bicha.
Ela cuspiu em mim. Apenas limpei o rosto, enquanto esperava que ela despejasse o que quer que fosse. Ela me olhava como seu fosse pior que qualquer sujeira de rua.
—O que diabos eu fiz de errado? Qual foi a entidade que me amaldiçoou para que eu sempre fosse cercada por essa raça? Por culpa de vocês eu me transformei nisso... MALDITOS SEJAM TODOS OS VIADOS DO MUNDO!
Ela se debatia na cadeira. Eu não entendia muito bem o por que daquela cena, mas Saga e Saori pareciam confirmar algo pelo jeito com que trocavam olhares. Shaka discretamente mexeu no celular e pude perceber que ele o colocava no bolso da frente. Antes que eu conseguisse abrir a boca, ouvi a voz de Saga.
—Por que afinal esse ódio desmedido contra homossexuais?
Ela foi parando devagar de se debater, respirando rápido e sacudindo a cabeça. Mirou um olhar atrevido em Saga.
—Se você tivesse sua vida roubada por essa espécie amaldiçoada os odiaria tanto quanto eu.
—Vida roubada?
Ninguém parecia entender aquela colocação. Aguardamos até que ela finalmente desabafasse.
—Eu era uma criança normal. Tinha uma vida feliz e confortável com meus pais. Minha mãe estava grávida e eu teria um irmãozinho. Era tudo perfeito.
Ela parecia absorta, como se contemplasse algo distante enquanto falava.
—Até que um dia, uma fatalidade aconteceu. Um acidente, um incêndio e minha vida mudou completamente. Eu fiquei sozinha no mundo. Uma criança. Nem oito anos eu deveria ter na época. Conseguem imaginar o desespero que senti? O vazio e a solidão? Eu estava no hospital, cercada por médicos e policiais quando acordei e recebi a notícia. Mas olhem como a vida é engraçada.
Ela manteve um olhar vidrado na mesa a sua frente, como que revendo uma cena desagradável. Sacudiu a cabeça e continuou com a voz monótona.
—Aparentemente meus pais tinham parentes desconhecidos em algum lugar do mundo, e então eu não ficaria sozinha. Foi aí que entraram em cena meus tios. Ou os malditos que diziam serem meus tios. Tio Nato e tio Nos, gêmeos que se diferenciavam apenas pelas cores do cabelo. Acho que vocês devem conhecê-los.
—Espere... Os presidentes da empresa Yama... São seus tios? São Heinstein também?
—De alguma forma, sim, tem alguma ligação com a família do meu pai. O fato é que minha tutela, e todas as posses da minha família passaram para as mãos deles. E não neguemos que eles construíram um império maior do que meus pais seriam capazes. Mas a que preço...
—Pandora... O que eles fizeram a você?
—Nada direto. Apenas tornaram minha vida cinza. Quando fui morar com eles, logo descobri que preferiam a companhia de rapazes a de moças. Inúmeras vezes ouvi risadas cruéis de escárnio da parte deles para com os amantes, se julgavam deuses aqueles idiotas. E eu era toda problemática aos olhos deles, tinha sido mal educada pelos meus pais, criada com liberdade da forma errada. Eles me garantiram que iriam me ensinar a ser mulher de verdade, muito melhor que qualquer uma poderia ensinar. Até minha adolescência, eu fui forçada a aprender a melhor etiqueta disponível no planeta, aprendi a ser uma lady. Isso durante o dia. A noite eu era tratada como um soldado raso em treinamento. Aprendi a lutar, manejar armas, bater, socar... Aprendi que ou era cruel com quem fosse um possível inimigo ou a vida seria cruel comigo. Cada vez que eu exibia um sinal de piedade ou hesitação em machucar, eu era castigada. Jejuns. Humilhações públicas. Agressões.
Saori e Saga escutavam sem expressar o quanto estavam escandalizados com aquilo. Apenas eu e Shaka exibíamos nossa surpresa.
—Quando atingi a maioridade e demonstrei interesse em um rapaz, eles resolveram que era hora de me ensinar a ser mulher. Foram horas e horas de exibições de filmes pornô, sessões de conversa com prostitutas e michês, aulas de "educação" sexual do ponto de vista deles. No final o que importava era sempre uma coisa: domínio. Estar por cima. E foi por isso, seguir as lições deles que eu destruí meu coração.
—Desculpe, eu não entendo...
—O rapaz por que me apaixonei... Eu era nova, queria impressionar e no fim acabei assustando ele. Rompemos, na verdade, eu fui repelida. E eles me obrigaram a matá-lo. Era, segundo os dois, a lição definitiva. Acabar com o que mais me traria sofrimento, mostrar que eu estava pronta para dominar o domínio. Ou era isso ou eu morreria pelas mãos deles. Pronto. Eu estou aqui.
Aquilo explicava muito. Não pude deixar de me sentir apiedado por ela naquele momento.
—Essas malditas bichas me fizeram assim. Depois começaram a ficar incomodados por que eu roubava a cena, os amantes deles tão convictos de sua homossexualidade sucumbiam ao meu charme. Quando percebei que o que eles queriam era ter o que eu tinha, passei a desprezá-los ainda mais. Aprendi a reconhecer meu poder e fiz muito bom uso dele. Ainda os obedecia por questões burocráticas, mas eles não podiam mais me controlar e sabiam disso. Estudei para comandar as empresas e por fim expulsá-los do meu caminho, mas eles sempre tentavam manejar de forma que isso não acontecesse. Elegeram vários aspirantes que, poxa, nunca tinham plenas condições de serem chamados de donos do império Yama. E o resto vocês já sabem.
—Mas... Pandora, você é uma mulher inteligente. Não pode apenas culpar seus tios...
—Eles não são meus parentes. Nunca foram. Minha família morreu naquele incêndio que mais tarde, descobri por acaso, foi obra deles também. Eu estava planejando uma vingança Saga. E só não a executei por conta de outra bicha que surgiu no meu caminho.
Ela me olhava com ódio.
—Como eu quis acreditar que você era diferente. Como eu pensei que você se parecia com meu primeiro amor, que você provavelmente era o que ele seria se tivesse ficado vivo. Aí descubro que no fundo, era apenas outra praga torta. Como eu te odeio Ikki...
Não havia necessidade de ouvir mais nada. Ela me odiava por que achava que eu era
igual as pessoas que a machucaram. Não precisava questionar, racionalizar, nada. Tudo se resumia a um ódio profundo e desmedido que era o que a comandava.
Enxergando por fim aquilo, decidi sair da sala. Foi a última vez que vi Pandora. Alguns meses depois soube que ela fugira da clínica e fora alvejada pela polícia por resistir a prisão de forma violenta, havia capangas e um grupo de pessoas armadas na fuga dela. Me perguntei se algum dia ela teve a chance de mudar, ou o desejo.
Mas óbvio que essa era uma resposta que eu jamais descobriria.
And I find it kinda funny /E eu acho isso meio engraçado
I find it kinda sad /Acho isso meio triste
The dreams in which I'm dying /Os sonhos em que estou morrendo
Are the best I've ever had / São os melhores que eu já tive
Naquele dia em que Shaka esteve comigo e Saori visitando Pandora pela última vez, ele filmou o depoimento dela. Não havia como provar que os presidentes do grupo Yama realmente mataram da forma como ela disse, a não ser que encontrassem corpos, comprovassem épocas, entre outras mil coisas. Só assim aquele vídeo gravado de forma bem ilegal diga-se de passagem, poderia valer como testemunho. Shaka empenhou-se profundamente em estudar a situação.
Não devo esquecer do meu julgamento. Todos os envolvidos possíveis e impossíveis testemunharam a meu favor. O que mais foi surpreendente no entanto, foi que o irmão de Saga se expôs. Kanon foi ao tribunal, confessou que estava mancomunado com Pandora, que a época do julgamento já falecera, e expôs todo o plano dos dois. Ofereceu-se como delator do esquema que o conglomerado Yama tramava contra o grupo Solo e as empresas Kido. O caso tomou proporções muito maiores do que qualquer um esperava. Eu fui apenas o capítulo inicial de uma guerra muito, muito ruim. Saga estava aos prantos quando Kanon se aproximou e os dois choraram juntos, Kanon fizera aquilo por ele, para obter o perdão do irmão. Agora ele era uma testemunha protegida e sua vida mudara da água para o vinho, mas o que importava para os dois era o fato de terem reestabelecido os laços fraternos. Nem preciso dizer que fui inocentado e livre de todo aquele peso amaldiçoado. O testemunho de Kanon era tudo que Shaka precisava para acusar formalmente os Yama, e assim começou outra história que, honestamente, não convém discutir aqui.
Apenas, claro, devo contar a vocês que mesmo com a segurança da justiça e com tudo que Saori pode oferecer de segurança privada, quase conseguiram matar Kanon. Porém o confundiram e quem tomou um tiro em seu lugar foi Saga.
I find it hard to tell you /Acho difícil dizer isso pra você
I find it hard to take /Pois acho difícil de encarar
When people run in circles /Quando as pessoas andam em círculos
It's a very, very /É um mundo muito, muito
Mad World, mad world /Louco, louco
Saga ficou três meses em coma, passou por uma cirurgia grave e quase ficou paraplégico. Continuei minhas sessões com Saori e, uma vez que ela não lera nada que fosse deveras agravante, não procurou outro psiquiatra; manteve a medicação que Saga prescreveu e assim seguimos.
Fui visitá-lo com certa frequência. Sentia que se ao menos ele soubesse que eu ainda estava ali, não sei, poderia ser um estímulo para a recuperação. Eu podia ser apenas um paciente para ele, mas aquela altura eu podia confessar que ele era mais que apenas meu médico. Era meu amigo.
Um dia, um dia bem atípico por sinal, eu ouvi a campainha tocar. Ia dormir até mais tarde e pensei que Shun esquecera a chave e algo do tipo, ele andava bem esquecido naquela época. Ao me levantar, fui me arrastando até a porta e a abri de forma automática, sem sequer olhar quem estava ali. Resmunguei irritado.
—Shun, melhor você ver com a Saori o que anda acontecendo, você está muito esquecido. O que deixou para trás dessa vez?
Mas não obtive resposta.
—Shun? O que...?
Me virei e senti que o corpo todo ficou em descompasso. O raciocínio já fraco ficou atropelado. Diante de mim estava ele. Lindo. Me encarando com aqueles olhos arregalados, exibindo um sorriso sem graça e muito inquieto. Seiya claramente estava desconfortável.
—Oi Ikki.
Pisquei algumas vezes duvidando da minha sanidade.
—Seiya?
—Posso... Entrar?
Apenas sacudi a cabeça e ele entrou, fechando a porta atrás de si.
—O Shun não está, saiu tem pouco tempo... Pode encontrá-lo na...
—Eu vim ver você.
Respirei fundo. Eu não estava preparado para aquilo.
—Me ver?
—Sim. Podemos conversar um pouco?
Não sabia como reagir, simplesmente. Apontei para o sofá e ele se dirigiu para lá. Usava uma camisa vermelha, os punhos dobrados até os cotovelos e um jeans justo com uma bota preta. Não pude deixar de pensar em como ele estava sexy. Ao encará-lo, ele sorriu sem graça.
—Então... Como tem passado?
—Eu?
—É. Como andam as coisas?
—Eu... Não sei... Bem eu acho.
—Já faz tempo não é?
—Seiya, desculpa eu... Eu não estou entendendo. Por que você...
—Eu fui burro Ikki. Me desculpa. Eu fui burro, fui covarde e você não mereceu isso.
Eu não sabia o que nem como pensar qualquer coisa. Minha boca estava seca e minhas mãos suadas. Eu podia ouvir meu coração batendo rápido, descompassado.
—Eu deveria ter conversado com você assim que soube de tudo que passou, mas eu não consegui. Nunca me achei pronto para isso, mas percebi que tanto eu quanto você precisamos disso. Eu tenho algumas coisas pra dizer e perguntar. Pode... Você pode, aliás, você gostaria de me ajudar com isso, se possível?
Se ele me pedisse para pular da janela naquele momento, eu o faria sem pensar uma vez sequer. Foi só estar com ele ali, e tudo voltou a tona com mais força ainda. Concordei com a cabeça.
—Em primeiro lugar, eu quero que fique mais do que claro que eu jamais te julgarei por nada. Você foi uma vítima de uma situação que acabaria com qualquer um e eu fico feliz de ver que você passou por tudo aquilo. Então... Nunca vou te acusar de nada. Para mim você é o mesmo de sempre, e o caso com a Shina... Foi uma fatalidade e ponto. Você não fez nada.
Apenas concordei acenando a cabeça.
—Eu quero muito saber uma coisa. Por que...
Ele crispava as mãos, coçava o pescoço, mas eu sabia o que ele queria perguntar.
—Por que eu me apaixonei por você?
—É.
—Não sei. Não sei como surgiu, quando... Tenho uma ideia muito... Atrapalhada. Sei que surgiu. E eu alimentei o sentimento. Eu... Eu te amei em segredo por muito tempo.
Uma coisa era dizer as coisas daquela forma; senti que o peito ia explodir e fiquei tonto. Daquela maneira era o mais próximo do certo ou do que eu achava que deveria ser certo. Não foi a declaração que fiz em nenhuma fantasia nem nada, mas foi bom, finalmente, por para fora para ele aquilo tudo. Ele me olhava, ansioso.
—Não tem nenhum motivo especial? Nada... Não sei, só aconteceu?
—Aconteceu. Talvez seja o seu jeito, talvez tenha sido um momento, desculpe não ter uma resposta mas é isso. Eu te amei e nunca quis dizer nada por medo.
Seiya deu uma risadinha sem graça.
—Eu acho que faria o mesmo.
—Não sei. Mas eu tive medo de que, se eu te contasse isso, você me pusesse pra fora da sua vida e nem sua amizade eu tivesse mais. Eu morri de medo dias e dias dessa situação. Quando aconteceu de verdade eu... Foi como se o mundo desabasse.
Os olhos do Seiya brilharam.
—Ikki...
—Eu não queria isso Seiya. Nunca quis, sofrer por amor, te colocar nessa situação... Mas eu não soube... Não consegui lidar. Busquei em outras pessoas o que achava que encontraria em você. E por isso me envolvi com coisas que... É melhor esquecer. Mas Saori tem me ajudado, Dr Saga, nossos amigos... E a vida tem caminhado.
—Mas... Você... Ainda me ama? Ainda tem esse sentimento de amor por mim?
Eu sabia que ele ia destruir o pouco que me restava aquela altura com a piedade que viria em seguida, mas não conseguia mais mentir, não queria mais mentir.
—Seiya eu... Droga. Eu ainda te amo.
Ele suspirou.
—Eu sei que não vou ser correspondido. Sei que isso é impossível, sei de tudo, mas eu não mando nos meus sentimentos. Eu queria mandar, mas não...
Comecei a chorar. Cobri o rosto com as mãos. Aquele momento não podia acontecer, e eu não conseguia entender nada do turbilhão emocional que me assaltou. Senti as mãos do Seiya nas minhas, forçando com delicadeza de forma que eu mostrasse o rosto.
Ele limpou as lágrimas com os dedos. Me encarou, como uma serpente diante da presa. Eu não conseguia me mexer. Só sentia o momento. Não entendia nada, não processei nada.
E demorei a acreditar que ele estava com a boca colada a minha.
Enlarging your world, mad world /Ampliando seu mundo, mundo louco
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