Eu tentei

23 A verdade revelada


Notas iniciais
E cá estamos nós. É o fim dessa jornada, mas não o fim das explicações... Lá embaixo vocês vão entender melhor. Boa leitura e considerem que esse capítulo está pesado mas de MANEIRA NENHUMA FAZ APOLOGIA OU DECLARA INCENTIVO A DAR FIM A PRÓPRIA VIDA. Até as notas finais

Sim, vocês não entenderam errado.

Seiya me beijou. O melhor beijo da minha vida. Aqueles minutos em que eu senti suas mãos ao meu redor, em que pude acariciar seu cabelo, sentir o gosto que há anos eu desejava provar foram os melhores de toda minha vida. Ele depositou carinho ali, pleno e genuíno. E eu sorvi cada gota do momento que considerei o mais perfeito da minha existência.

Quando acabou ele me encarava, sem graça.

—Eu... Desculpa, eu te devia isso.

—Devia?

—Ikki eu... Entenda, eu amo você como amo os outros e definitivamente não te quero longe nem fora da minha vida. Eu quero fazer o que for possível para que todos nós...

Ele continuou a falar, e eu o escutei, o coração explodindo de alegria. Na verdade eu fiquei tão chocado com aquilo que mal entendi o que ele falou na sequência. Apenas fiquei o encarando, gravando na memória seus traços, seu jeito... Estava tudo fora de órbita, mil emoções brotaram ao mesmo tempo, eu queria rir e chorar e não entendia nada do que estava acontecendo. Comecei a sentir uma ansiedade imensa, eu faria alguma besteira se aquele momento continuasse. Tive que mentir um pouco ao interromper o Seiya.

—Seiya... Eu preciso dormir, pensar em tudo que houve e... Podemos conversar depois? É muito a processar. Eu não... Estou me sentindo muito bem.

Ele me encarou, agora me estudando, tentando adivinhar o que acontecia.

—Eu... Fiz algo errado?

—Não, não. Você foi perfeito. Eu só... Preciso de um tempo para processar tudo. Mesmo.

—É. Concordo que é muito pra pensar. Olha, em uns dias vai completar um ano que a Shina morreu. Nós faremos uma homenagem a ela e eu gostaria muito que você estivesse presente. Claro que queria te ver antes disso se desse.

—Eu... Prometo que vou pensar sobre isso.

—Tá bem. Vou indo então.

—Ok.

—Tem certeza que não quer que eu fique mais um pouco?

—Preciso mesmo processar isso tudo...

Acompanhei ele até a porta. Nos despedimos com um abraço, um abraço que eu nunca esqueci, forte, demorado, completamente real para mim.

—Até logo Ikki. Vou esperar uma ligação sua.

—Até Seiya. E Seiya?

Ele se virou, curioso e ansioso com meu chamado.

—Oi?

—Obrigado. Obrigado mesmo por tudo.

—Conte comigo sempre Ikki.

—- --

—Alô?

—Preciso falar com você, com o Saga, aconteceu... Aconteceu... Preciso muito falar com vocês. Agora, o quanto antes.

—Ikki, calma. O que foi?

—Não sei Saori, não estou entendendo nada, eu só... Preciso mesmo conversar. Eu acho que enlouqueci de vez.

Saori demorou alguns segundos a responder.

—Deixe-me ver como farei, estou longe... Me dê dois minutos e já te ligo.

Enquanto eu a esperava, corri para me arrumar. Eu não conseguia conter o riso, sentia uma alegria imensa mas estranha, irracional, era como se tudo que eu houvesse desacreditado ao longo dos últimos tempos resolvesse renascer. Eu precisava de ajuda, precisava acreditar que aquilo era real.

Seiya me beijou. Me queria por perto. Não me odiava e nem me queria longe. Se aquilo era verdade então eu tinha que agir, tinha que estar perfeito, tinha tanta coisa a fazer e... Meu raciocínio foi interrompido pelo toque do telefone.

—Oi?

—Saga conversará com você na casa dele. Desculpe minha ausência, mas eu estou em outra cidade e não volto hoje. Pode me adiantar o assunto?

—Melhor será falarmos ao vivo. Quando você volta?

—Depois de amanhã talvez. Vou ficar preocupada se você não falar comigo Ikki.

—Não é nada para se preocupar, é só... Talvez eu fique bem com Seiya. Ele me procurou hoje Saori.

O silêncio dela no outro lado da linha já deveria ter sido motivo o suficiente para que eu me tocasse de que ela não gostou do que ouviu.

—Saori?

—Isso é bom de saber. Você está bem?

—Não sei. Estou confuso, estou ansioso, estou... Sei lá.

—Vá para a casa do Saga, enviarei uma mensagem com o endereço. Kanon está cuidando dele, e provavelmente ele teve fisioterapia de manhã, pode não estar no seu melhor humor, fique sabendo.

Por um milésimo de segundo eu estranhei aquilo; Saga nunca negou qualquer tipo de atendimento a ninguém, muito menos a mim. Eu sabia que ele estava atendendo já alguns casos, e só não retomara integralmente comigo por ordem de Saori. Aquele aviso foi algo inédito, mas eu queria entender o que estava acontecendo comigo, portanto ignorei o fato e prossegui.

—Não pediria ajuda a vocês se não fosse realmente sério.

—Eu sei. Espero que a conversa ajude. Assim que chegar eu te ligo e nos encontramos. Prefere que seja no consultório ou em algum outro lugar?

—Você escolhe onde for melhor.

—Está certo. Boa sorte então.

Ela desligou e eu aguardei ansioso pela mensagem com o endereço. Assim que chegou, me coloquei a caminho. Eu nem sabia o que ou como pensar, apenas reagi a aquilo tudo. Não demorei muito a enxergar a rua com o endereço: era um condomínio fechado, com casas lindamente organizadas, vários estilos expostos em cada construção. A casa de Saga era grande, só a porta já causava um impacto forte. Fui recebido por uma empregada gentil que me levou até uma sala, onde pude ver meu psiquiatra ao lado do irmão gêmeo. Era como ver um reflexo no espelho. Ele sorriu de maneira terna e curiosa com minha entrada.

—Ikki. Não nego que fiquei intrigado quando Saori me ligou. O que aconteceu?

Estranhamente fui recepcionado com um abraço. Kanon me olhava com um misto de piedade e dúvida, também foi afetuoso em sua saudação. Saga estava sentado em um sofá e fez sinal para que eu tomasse assento em uma poltrona a sua frente. Kanon avisou que precisava comprar algumas coisas e voltaria mais tarde. Sentei-me esfregando as mãos. Mirei Saga, sorrindo como há tempos não fazia.

—Então? Parece empolgado, o que houve?

—Saga... Seiya foi me procurar.

Ele arqueou uma sobrancelha.

—Mesmo?

—Sim. Nós conversamos um pouco, ele... Ele me beijou Saga.

Pude ver que ele arregalou os olhos, mas nada disse.

—Ele disse que me perdoou, e que me amava e queria por perto. Que me devia aquilo e...

Contei a conversa toda duas vezes, palavra por palavra. Saga me escutava com uma expressão indecifrável no rosto. Quando terminei, excitado e empolgado, ele parecia congelado no sofá.

—E então? O que acha disso?

—Eu?

—Sim. Digo, eu estou feliz, completamente feliz, mas não entendo isso, assim, do nada. Não é muito repentino?

—Como você se sente além de feliz?

Estranhei aquela pergunta.

—Eu... Não sei, foi tudo muito melhor do que eu sempre imaginei. Ele me beijou. Eu achava que ele nunca mais iria me olhar no olho, eu já me conformara com essa realidade, e de repente... Pelo que entendi ele... Ele me quer, quer ficar comigo Saga.

—Ele disse isso?

—Não com essas palavras, mas eu entendi...

Saga massageava as têmporas a essa altura, tinha os olhos fechados e suspirou cansado.

—Entendeu tudo errado. Obvio.

—Como é?

—Eu escutei palavra por palavra do que você me contou e em momento algum ele disse que ia ficar com você.

—Mas ele me beijou!

—Vamos devagar aqui. Veja bem, Seiya foi a sua procura, quis saber de você e você pôde se declarar para ele em privado. Não foi algo pensado, foi espontâneo e de certa forma bom pois você entendeu que não era rejeitado por ele, mesmo depois de tudo certo?

—Certo.

—Eu entendi que ele deseja uma reaproximação por conta de todos vocês, do seu grupo de convivência. Talvez ele tenha sentido que sua ausência interferiu negativamente e resolveu fazer algo. O beijo pode ter sido, não sei, uma forma de tentar demonstrar que ele está mesmo disposto a fazer qualquer coisa por vocês como grupo, como família que ele os vê. E você é peça chave nesse grupo.

Aquilo foi como uma freada brusca de uma moto em alta velocidade.

—Não. Eu não posso ter entendido tudo errado assim. Eu vi nos olhos dele, eu...

—Você ficou em dúvida por que no fundo sabe a verdade. Ele quer sim que você fique bem, que vocês todos fiquem bem, e como você mesmo disse quando conversamos sobre os motivos de você ter se apaixonado por ele, você disse que ele tem um jeito “todo dele”. Jeito esse que se preocupa com todos, certo?

—Sim, mas...

—E se bem me lembro, você disse que jamais poderia ter uma chance com ele por que ele tinha uma afinidade natural com Shiryu, e ele não era gay, mas se fosse jamais seria você o escolhido dele por que você era sujo. Não foi isso?

—Foi, mas...

—E você ouviu quando ele disse que amava o Shiryu mas tinha medo de agir como você, amando alguém que não poderia corresponder o sentimento, certo?

—Para Saga. Para com isso.

—Com o que?

—Com essa atitude, com isso... Pela primeira vez desde que começamos o acompanhamento eu chego para você com um pouco de esperança, chego feliz, e você vem me jogar um balde água fria?

—Não posso te iludir e nem estou aqui para mentir para você ou te dar falsas esperanças. Quero que enxergue o que está por trás disso tudo, mesmo sendo possível a essa altura identificar que você já sabe parte da verdade. Meu papel é te mostrar as opções que você pode seguir e te ajudar nisso, mas as decisões sempre cabem a você.

Eu respirei fundo. Toda aquela emoção contagiante estava se transformando em raiva.

—Eu... Entendi que o Seiya me quer também, eu...

—Seiya quer que todos fiquem bem. E está disposto a pagar qualquer preço que seja por isso. Olhando a situação do seu ponto de vista, com o que você me disse, eu só vejo um rapaz tentando equilibrar uma situação em bem do círculo social. Se você ficar bom, todos ficam bem. Para você ficar bom, ele tem que se aproximar. O beijo para mim soou apenas como um ato desesperado de ajuda e nada mais.

—PARA COM ISSO!

Não consegui conter o berro. Saga porém continuava impassível.

—Você me disse no dia que me passou o primeiro remédio que havia uma chance, que havia esperança no meu caso. Você me disse que se eu te obedecesse e seguisse o tratamento a risca eu teria uma chance com o Seiya, e agora que parece...

—Opa. Alto lá rapaz, eu nunca disse que você teria uma chance com o Seiya.

Fiquei parado ali, incrédulo com aquela declaração.

—Eu disse que você teria uma chance com essa situação. Quando eu disse isso, foi uma chance de se curar, de perceber que sua vida não deve depender do que você recebe ou deixa de receber dos outros. No caso do Seiya, eu quis dizer que você teria uma chance sim, de se curar dessa projeção estúpida que idealizou na pessoa dele. E quando você estava indo para a cadeia, eu lembro que Saori disse que havia sim a chance dele não sair da sua vida. E ela não errou no que disse. Mas em momento algum eu disse que você tinha uma chance com Seiya. Você que quis ouvir isso.

Saga parecia ter escutado a coisa mais estúpida do mundo e o jeito com que ele me olhava me fez sentir o ser vivo mais burro do planeta. Quando tentei me lembrar das nossas conversas realmente vi que ele nunca prometera nada direto. Ele não estava mentindo.

—Então eu... Esse tempo todo...

—Ikki, seria bom que se sentasse.

Nem reparei que tinha me levantado e estava andando para lá e para cá. O olhar vítreo de Saga ainda tinha um efeito dominante sobre mim. Com alguma ressalva, sentei-me sem encará-lo.

—Há dias Saori tem me contado, e eu já havia percebido há algum tempo que você tem andado desanimado, especialmente após o episódio da noite em que foi preso. Pelo que contam, você anda mais retraído do que o normal, age de maneira mecânica, isolou-se do mundo e o seu contato maior tem sido com seu irmão, Hyoga e Shiryu. Estou certo?

—Não é mentira...

—Você entrou em uma explícita crise de depressão. Veja bem, uma crise, você não é ainda um depressivo oficialmente. Mas eu pude diagnosticar que além disso você...

Saga me encarou, ponderando se deveria ou não aquela altura revelar o que descobrira. Ele me olhava como se estivesse vendo além de mim. Nunca poderei descrever o quanto aquilo era incômodo.

—Você tem além do que já estamos tratando, uma transtorno obsessivo que posso chamar de limerente.

—O que?

—Não é um termo oficial, veja bem. Você está obcecado pelo Seiya. Isso não é amor, nunca foi. É uma idealização platônica do que você considera romance. E isso gerou outros transtornos que, bem, são eventualmente perigosos para você e os outros ao seu redor.

Só conseguia piscar, incrédulo com aquilo. Como ele ousava dizer que...

—Eu AMO o Seiya. Há muito tempo. Isso não é doença, é amor.

—Não que os detalhes sejam importantes a essa altura, mas há uma doença do amor sendo estudada há muito tempo, e no seu caso, ela pode ter surgido por conta do seu transtorno de personalidade dependente. Me diga, fale para mim sobre os defeitos do Seiya.

—Defeitos? Que defeitos?

—Qualquer defeito.

—Ele não tem defeitos, nada assim que incomode. Ele é um pouco teimoso talvez. Mas quem não é? E bagunceiro, mas todo mundo é um pouco em algum nível...

—Um dos sintomas do transtorno que estamos falando é justamente esse. Não enxergar defeitos no ente desejado, ou minimizá-los ao máximo. Agora, me fale sobre as qualidades do Seiya.

Dei um sorriso de deboche, para mim aquilo era superfácil.

—Oras... Ele é companheiro, dedicado, leal, carinhoso, esforçado, inteligente, ele...

—Chega. Viu a facilidade com que o elogiou? Ikki, você objetificou uma ideia errada de amor na pessoa do Seiya. O que você sente, posso dizer que passou de uma paixão a uma mania, uma obsessão. Amor não é o que você sente pelo Seiya.

Aquilo me enervou profundamente.

—Agora então quer dizer que tudo que eu sinto, tudo que eu senti por conta do que aconteceu não é amor? Quer você me dizer que o que eu sinto é errado?

—Sim.

Aquilo era o cúmulo da cara de pau. Ele me confrontava com toda a calma do planeta e permanecia sereno como um monge meditando.

—Você está tendo uma visão errada do que é amor, e projetou isso no Seiya, em parte, por conta da perda de Esmeralda. Você preferiu fugir da dor de enfrentar a realidade sem ela desenvolvendo um sentimento platônico e distorcido por ele. Um ato covarde, justificado pela dor da perda. Entenda que não estou dizendo que você é errado por ter agido como agiu. O errado é acreditar que sua doença é algo que não é.

—Isso é...

—Eu não terminei de falar. O problema real Ikki, é que a medida que você deixa sua vida de lado para sentir tão intensamente tudo que você acha que é amor por Seiya, você além de se prejudicar, afeta todos a sua volta. O que me preocupa é que mesmo deixando isso claro desde sempre, você não se importa. As vezes que mentiu, aliás, tentou mentir para mim ou Saori dizendo que queria melhorar, que queria ficar bem por causa dos outros... Foi tudo muito artificial. Eu percebi isso nitidamente quando observei que você não entrou em luto pela perda da Shina.

Senti um incômodo no estômago.

—Mas eu...

—Você só conseguiu pensar em como o Seiya reagiria com você por conta do seu papel na história. Em momento algum você se sentiu genuinamente culpado. Estou errado?

—Eu me senti péssimo, fui eu que...

—Não faça joguinhos comigo, já te avisei que nem tentar isso você deveria. Você apenas sentiu-se mal por que tinha medo da reação do Seiya. Não por que realmente foi vítima de Pandora e isso o levou ao episódio com Shina.

Eu tentei pensar em uma resposta. Tentei rebater aquela colocação maluca do Saga. Mas não consegui. Apenas o encarei em silêncio, agora sentindo um medo que há muito não sentia.

—Se você conseguisse perceber um pouco que fosse a realidade, pediria para que eu te internasse. Alguma noção você está despertando pelo jeito que me olha. Entende agora?

Aquilo não podia ser verdade. Não era verdade. Não podia ser verdade de nenhuma forma.

—Todos já perceberam o quão avançado está o seu quadro de perturbação mental. Por um dia apenas, repare nas pessoas a sua volta. Tente ver com os olhos de um expectador, até o fim, como todos andam. A forma como te tratam vai confirmar o que te digo.

—Não. Eu não concordo com isso. Não aceito isso.

—Quanto mais cedo aceitar a verdade, mais cedo poderá tratar o problema e terá sucesso em resolvê-lo. Você está doente, possui um transtorno de imagem dependente que desenvolveu crises depressivas, obsessão e mania disforme em relação a outras pessoas, além dos problemas de auto imagem. Quanto mais você insiste em entrar em situações perigosas, apenas alegando saciar a sua sede de atenção do objeto de desejo, você prova o quão cego está para a verdade.

Eu não queria ouvir nenhuma daquelas palavras. Saga porém não parecia estar próximo de parar de falar.

—A sua obstinação em se relacionar com uma mulher que TODOS a sua volta insistiram e provaram ser mais do que perigosa mostra sua frieza e indiferença. É nesse ponto que percebemos que o que você chama de amor não passa de obsessão. Você se envolveu com Pandora vendo ela matar, mandar matar, exibindo sua sede de dominância e desinteresse ao próximo, alegando que ela o fazia se esquecer do Seiya. Na verdade ela fazia com que você se lembrasse de si. A semelhança foi o que fez você insistir nela, mesmo sabendo que era errado. Preferiu ir contra tudo e contra todos a se encarar no espelho.

—Não foi...

—De todas as situações envolvidas, a minha foi a menor, e eu tomei um tiro e por pouco não ficaria paraplégico. E se em vez de drogar você naquela noite, ela tivesse de repente, entendido tudo errado e tivesse resolvido drogar o Seiya? Já pensou se ele fosse para a cadeia por ter matado a Shina?

—Isso...

—Se ela tivesse sucesso nas armações com meu irmão, pense... Saori poderia estar liquidada. E todos os sócios dela, quantos e quantos negócios interrompidos, famílias que poderiam ser destruídas, crianças largadas ao léu e tudo por causa de uma mulher perturbada. Que poderia aliás usar você para muitas outras situações como fantoche. Shina morreu por conta da sua teimosia no final das contas. Nos ouvisse, se afastasse dela no começo, mas não... E agora, o seu grupo, o que você chama de família, está marcado para sempre por sua culpa.

—Você disse que eu não...

—Eu quis que você enxergasse a verdade e se arrependesse. Mas como não fez isso naturalmente, quem sabe ouvindo a verdade de forma direta você consiga chegar a esse ponto. Você é culpado pela desordem na vida das pessoas que ama. Você tem o sangue da Shina nas mãos e sequer se culpa disso. Você tem o peso da cumplicidade de assassinatos e torturas e isso nunca te incomodou. No meio de tudo isso, você só queria que o Seiya estivesse ao alcance da sua admiração. Por que você foi covarde até para tentar algo sério com ele.

—MENTIRA!

—Você não está eufórico por achar que ele quer algo com você. Você está com medo de que ele queira se relacionar com você de verdade e as coisas sejam diferentes do que você sonhou, por que você desejou mesmo o platônico, o olhar distante. Por isso nunca quis mesmo dar um passo adiante.

Eu estava andando de novo, as mãos na cabeça, agoniado com aquilo. Não vou negar, algumas vezes aquele tipo de ideia realmente passou pela minha cabeça, mas...

—Você é um doente covarde que foi longe demais. A pergunta agora é apenas uma.

Eu nem reparei direito que estava chorando e até babando aquela altura. Encarei Saga que parecia tranquilo e autoconfiante em demasia.

—Você quer ficar bem de verdade? Sim ou não?

Mas aquilo fora longe demais. Era o cúmulo para mim.

—Chega. Você é um mentiroso. O Seiya me ama, eu amo o Seiya e nós vamos ficar juntos. E eu vou provar meu amor por ele e tudo que passou de ruim vai ficar para trás e...

—Vai persistir no erro? Mesmo?

—EU O AMO!

—E vai contar a ele toda a verdade sobre você?

—TUDO!

E naquele momento Saga disse as palavras que me fizeram sair correndo dali.

—Inclusive o que aconteceu na noite em que ficou preso? A noite em que se recusa a falar sobre, mas que recentemente chegou aos meus ouvidos que Frei foi chamado por um dos seus companheiros de cela naquele dia e ele fez uma colocação preocupante? Você ignorou alguns pedidos de exames que fiz há algum tempo... Por que será heim? Vai contar ao Seiya que você...

Saí correndo sim. Levei alguns minutos para me recompor, mas saí dali. Decidido a nunca mais encarar Saga novamente.

—- -- --

Mas a essa altura claro que ficou bem explícito que nada funcionava muito facilmente para mim não é? Eu mal dormi naquela noite e no dia seguinte, só relaxei um pouco quando Seiya me ligou e ficamos duas horas jogando conversa fora. Aquilo me acalmou muito, falamos de tudo e de nada. Depois consegui falar com Saori, que ficou de me encontrar em casa mesmo. Pelo tom tranquilo dela, percebi que ainda não havia conversado com Saga.

No outro dia enfim, conversei com Saori. Primeiro contei toda a situação com Seiya, e por fim a conversa com Saga. Enquanto eu falava ela permanecia impassível. Apenas quando eu terminei de falar que ela me encarou.

—E o que pensa sobre as últimas palavras de Saga? Há alguma verdade nisso?

—Eu... Mesmo que haja, ainda há muito o que fazer. Mas o que quero saber é apenas uma coisa Saori: isso está mesmo acontecendo? Seiya está mesmo disposto a ficar comigo?

Ela me olhou, um misto de tristeza e piedade nos olhos.

—Está. Ao que tudo indica, está sim.

—Então eu estava certo? Ele me quer mesmo como namorado e nós poderemos ser um casal finalmente?

Nunca antes eu me lembro de ter recebido um olhar como aquele por parte de Saori. Era de um desprezo quase equivalente ao que vi inúmeras vezes na expressão de Pandora.

—Não estou certa quanto a isso. Acho, assim como Saga, que o ato de Seiya é uma tentativa de reestabelecer a normalidade que todos tinham antes de tudo que aconteceu. Você é motivo do desequilíbrio. Se ele conseguir ajudar você, ajuda a todos. Eu irei ser um tanto quanto antiética agora, mas... É o único jeito.

Eu já estava paralisado mesmo, me preparei para a bomba. E me preparei corretamente, por que foi bomba mesmo.

—Eu também acompanho Seiya, Shun e Hyoga, assim como faço com você. Shiryu ficou um tempo comigo, mas eu encontrei um psiquiatra que falava melhor a língua dele. Todos vieram a mim com dúvidas comuns, por isso a terapia. Clinicamente falando, são todos saudáveis, fazem terapia por que veem no processo uma forte ferramenta de autoconhecimento. Eu sei, portanto, tudo que acontece com vocês além de ser amiga, por estar de fora e entender as atitudes de cada um nesse cenário nosso, nesse âmbito que tratamos por familiar. E vou te contar o ponto comum de todos.

Eu mal piscava.

—Todos se preocupam em demasia com você, pois todos perceberam que você está muito doente. Shun é o mais afetado, ele anda em um nível de estresse tão grande que mal dorme. Seiya quer fazer de tudo para ajudá-lo pois não suporta vê-lo mal por sua causa. Hyoga e Shiryu não conseguem saber onde depositar toda a preocupação: se em você, ou no Shun. Nossas últimas conversas têm sido praticamente sobre você. Você tem sido o maior problema de todos recentemente. E eles vem sendo negativamente afetados por isso.

—Eu... Não...

—Por favor, me escute com atenção. Eu sei o quanto você os ama, principalmente seu irmão. Só você pode resolver isso e ajudar a todos antes que haja um colapso e nossa família fique em frangalhos. Ikki, por favor, retorne ao Saga e siga o tratamento que ele deixou preparado para as doenças que diagnosticou. Retire o foco do Seiya, especialmente se você o ama de verdade, pelo bem dele inclusive. Não entre nessa espiral de pensamento que pode machucar você ainda mais, junto com outros então... Céus...

Eu não sabia o que responder. Portanto menti para sair logo dali, mesmo tendo certeza que Saori não acreditou em uma palavra sequer do que eu havia dito. Jurei que voltaria a ver Saga, que iria em frente com o novo tratamento e tudo o mais.

Mas eu tinha certeza que não precisava mais daquilo. Eu estava curado, o Seiya era o meu remédio e eu o tomaria sem medo e sem dúvidas.

O Seiya era meu finalmente e nem Saori nem Saga iriam retirá-lo de mim.

—- --

Até o dia que faria um ano da morte da Shina eu conversei com o Seiya quase todos os dias. Acabou que nossa agenda não permitiu que nos víssemos cara a cara, mas pudemos manter contato e eu conheci muito mais dele do que jamais imaginei ser possível.

Não era mesmo o que eu esperava.

Shun pareceu mais relaxado nessa época, ao passo que Hyoga ficou mais calado e quase sempre observando tudo ao redor, enquanto Shiryu permanecia irritado e distante. Saori me cobrava a visita a Saga, e consegui negociar para fazê-lo depois da missa em homenagem a Shina. Seiya parecia esgotado sempre que falava comigo, mas estava ali. Eu mal podia contar as horas para que nós telefonássemos um ao outro. Pareceu por um tempo que eu estava realizando um sonho. Não mentirei, nos dias em que ele não ligava ou demorava a fazê-lo eu ainda saí com alguns estranhos pela internet. Mas não me submeti a nada anormal ou diferente, não precisava mais sentir as coisas naquele nível.

E enfim chegou o dia da homenagem a Shina que iniciaria com uma missa, depois uma pequena celebração para quem a conhecia. Iríamos todos nos encontrar em uma igreja próxima a saída da cidade em que ela adorava frequentar, e de lá iríamos a mansão de Saori. O local ficava próximo a um bosque, e era no final de um antigo cemitério de gente rica que estava sendo revitalizado, portanto havia muita bagunça ainda aquela altura. Eu honestamente tinha muitas dúvidas quanto a ir nessa homenagem. Afinal, foi por minha causa que estaríamos ali. Mas todos insistiram para que eu fosse, seria bom, provaria por completo minha inocência e mostraria o quanto eu me importava com ela de fato, me deixando “limpo” aos olhos de todos os que a conheciam de alguma forma.

Eu queria ir sozinho, e planejei em chegar mais próximo ao final da cerimônia. Assim evitaria um mau estar maior no ambiente, além de evitar muito sentimentalismo. Os carros estavam longe, e eu tive que andar uns bons dez minutos até achar o local certo, passando por uma parte de jazigos quebrados que tinham deixado um rastro de pedras e estátuas partidas, além de piorar o estado do chão agora lamacento. Bem ao lado da igreja em si, havia o que deveria ter sido um anexo ou coisa do tipo, também todo derrubado, exibindo algumas paredes destroçadas e alguns bancos antigos, sinal de puro abandono; talvez aquilo fizesse parte da revitalização também. Minha primeira surpresa começou quando, ao chegar, vi que havia gente de pé para fora da igreja. Pelo jeito Shina era muito mais conhecida do que eu imaginava, ou poderia ser também por conta da fama que o caso tomou na época, e aquela multidão de curiosos podia apenas querer verificar se eu seria corajoso o suficiente para ir até ali.

Eu usava óculos escuro, e tive a precaução de colocar um gorro; chovia, o dia estava feio e eu poderia passar bastante despercebido, como fiz aliás. Ao entrar com alguma dificuldade, procurei até encontrar Saori e os outros sentados na primeira fila. O silêncio era quebrado apenas por um piano triste que ecoava no ambiente. Seiya estava com a cabeça apoiada no ombro de Marin, e tinha uma mão afagada por Saori. Shun estava com a cabeça baixa, e cheguei a tempo de vê-lo virando o rosto em direção a June e abraçá-la. Uma foto da Shina havia sido transformada em um banner, ela sorria tranquila e me senti ligeiramente mal por relembrar que naquele dia eu estava com ela e os outros, e tinha sido o Seiya que batera aquela foto. Talvez por isso aquele sorriso tão perfeito e espontâneo. Tudo que eu queria era que aquilo acabasse logo para que eu pudesse me aproximar de Seiya. Já estava imaginando como poderia tê-lo em meus braços, o trataria com todo meu carinho e ele ia esquecer aquela cena rápido, sem dúvida alguma.

O padre pediu que todos se levantassem para fazer uma prece por Shina e pelos que haviam ficado sentindo a dor da saudade, e eu saí nesse instante. Nunca fui religioso de fato, e confesso que essa ideia de adoração ao invisível me incomodava muito. Aguardei próximo a entrada da igreja, observando os arredores e as pessoas que passavam se cobrindo, tentando escapar da chuva e do vento mais forte que começou a soprar repentinamente. Eu estava protegido, portanto fiquei apenas ali, pensando em Seiya e tentando esquecer as palavras duras de Saori e as cruéis de Saga que me perseguiam nos últimos dias.

Não demorou muito, as pessoas começaram a sair. Não tão rápido quanto eu esperava, e também se amontoaram ali na saída de forma que ficou uma confusão enorme e eu perdi meu grupo de vista. Teria que encenar um pouco, mas já estava previamente pensando sobre o que dizer então estava tranquilo sobre isso. Meu nervosismo era apenas em ficar logo sozinho com Seiya. Mas por onde quer que olhasse eu não o via; apenas Shiryu passou próximo a mim sem me reconhecer, indo em direção ao caminho que quase todos tomavam, e que eu usei para chegar até ali. Mas não reparei bem nele, e decidi entrar para procurar os outros.

Saori, June e Marin conversavam, enquanto Hyoga parecia inquieto a espera de algo. Estranhei a ausência do meu irmão e de Seiya, e não os encontrei no interior da igreja. Andei ao redor e não vi nenhum sinal deles. Contornei a igreja um pouco, e próximo das paredes quebradas do que devia ser o anexo da igreja, vi Shun andando de um lado pra outro, protegido pela única parte coberta que restava. Me aproximei devagar, queria dar um susto nele, uma brincadeira boba, por isso me aproximei silenciosamente. Sabia que não era momento para aquilo, mas isso poderia ser, sei lá, uma pequena distração diante daquilo tudo. Foi quando vi que ele não estava sozinho. Seiya estava ali, com uma expressão derrotada no rosto, os ombros caídos aos se aproximar de Shun. Me aproximei o máximo que pude e consegui escutá-los entre alguns destroços que me permitiam também vê-los com clareza e passar despercebido, apesar de ter que ficar agachado.

—Como foi?

—Como acha que foi Shun? Ele não concorda com isso, de jeito nenhum.

Shun pareceu nervoso. Arregalou os olhos.

—Acha que ele vai falar...

—Não sei. Ele me garantiu que ficaria em silêncio, mas... Não posso dizer.

—Mas que droga. Pelos deuses...

Shun tinha as mãos enterradas nos cabelos, visivelmente nervoso. Seiya se aproximou, cansado.

—Calma Shun, nós vamos dar um jeito nisso.

—Mas o que eu fiz, o que nós fizemos para merecer esse inferno Seiya? Que droga, acho que Shiryu está certo. Eu nunca deveria ter sugerido isso...

—Mas a sua ideia foi a mais coerente no meio disso tudo Shun. E sabe que eu faria o mesmo se estivesse no seu lugar.

—Não, eu errei. Nunca deveria ter te pedido isso Seiya, não a essa altura, logo agora que as coisas se acertaram para você...

Eu não estava entendendo nada daquela conversa.

—Shun, escuta. Lembra do que conversamos? Eu que me propus a fazer isso, está bem? Nunca vou te culpar nem acusar de nada.

—Mas você está fazendo isso por mim, Seiya. Por que você é meu amigo e viu meu desespero. Mas isso é errado, muito errado...

—Foi o que eu disse a esse teimoso.

Shiryu se aproximou, carrancudo e visivelmente irritado saindo sabe-se lá de onde. Chegara por trás de Seiya e seu rosto exibia uma expressão de desaprovação que faria qualquer um sentir-se culpado do que quer que fosse. Ver os três ali estava me deixando intrigado.

—Shun, por mais que eu entenda tanto o seu ponto de vista quanto o do Seiya, eu simplesmente não posso concordar com isso. Não posso.

—Não vamos discutir isso aqui. Não é hora nem lugar, e eu já te disse Shiryu, se você tiver uma ideia melhor, somos todo ouvidos. Acha mesmo que eu aceitaria me sujeitar a isso se tivesse qualquer outra escolha?

—Eu sei que não, eu sei, mas parece... Droga, me desculpa Shun, não é nada contra você, mas e eu heim? Como eu fico nessa história?

—Shiryu...

—Não me venha com papinho a toa Seiya. Acha mesmo que eu vou... Que eu vou o que? Ver você namorando o Ikki e ficar tranquilo com essa situação?

Aquilo me deixou com as pernas bambas. Eu não estava crente que eles estavam tendo uma conversa daquela.

—Shiryu, você sabe que é o único jeito. Já disse, se tiver uma outra ideia melhor... Mas eu nunca te dei motivos para se sentir inseguro. Por mais que eu aceite namorar o Ikki, você sabe que é só por um tempo, até ele melhorar... Mas eu vou continuar com você, isso não muda nada...

Shiryu afastou Seiya que tentou abraçá-lo e virou as costas. Shun os observava, angustiado.

—Shiryu, por favor, não brigue com o Seiya. Se quiser culpar alguém, culpe a mim. Eu sei que ele está fazendo isso por minha causa.

—Não Shun, não faça isso. Não é só por você, é por todos nós. Shiryu, você sabe que o Ikki está doente, precisa de ajuda. É quase como se ele precisasse de uma transfusão de sangue e eu tendo o mesmo tipo me recusasse a doar. Você me perdoaria se fosse esse o caso?

—Mas não é esse o caso. Nem de longe é esse o caso. Vocês não percebem que isso só pode piorar tudo?

—Não teria como eles perceberem se você não se explicou antes, não é?

Hyoga chegara naquele momento e encarava Shiryu, com olhos tranquilos.

—Eu não preciso explicar o óbvio Hyoga.

—Meu Deus... Vem, vira.

Pacientemente, vi Hyoga virar Shiryu de modo que ele ficasse de frente para Seiya. Eu estava perto de entender a realidade, não queria mais continuar ali. Mas não consegui me mexer.

—Shiryu, entenda que o bem-estar do Ikki é o nosso bem-estar. Nós somos uma família, sabe muito bem disso. Desde que o Ikki se envolveu nessa confusão e tudo veio a tona olha o que aconteceu a nossa volta. O Shun tem andado cheio de medo, ansioso, se sentindo culpado, preocupado com a vida do Ikki. Isso reflete em nós que nos preocupamos com eles. Seiya não ia conseguir ficar sem se intrometer...

—Ei!

—Sem fazer nada, você me entendeu seu teimoso. Céus, ter que explicar tudo para vocês toda hora cansa!

Seiya fazia bico, e Shun tinha os olhos cheios de lágrimas. Shiryu permanecia carrancudo.

—E como eu dizia, Seiya ia fazer algo para ajudar pois não conseguiria ficar de fora. Isso sem estar envolvido, imagina sabendo que ele é um dos motivos de toda a situação atual? Obviamente que em algum momento eu e você iríamos entrar na história também. Por que como ele, não iríamos permanecer indiferentes ao sofrimento do Shun e do Ikki. E eu entendo o seu lado completamente, mas acho que você deve colaborar conosco.

—Mas isso não é uma solução. É uma mentira! Uma grande mentira! Vocês já viram isso funcionar mesmo?

—Você está com medo só. Medo de que o Seiya acabe de alguma forma se apaixonando pelo Ikki. É compreensível, mas ele merece um voto de confiança não acha?

—Não tenho medo disso. Minha vez de ter que explicar tudo não é?

E foi naquele momento que tudo acabou.

—Seiya fingir que corresponde aos sentimentos do Ikki para estimulá-lo a sair dessa depressão profunda é uma mentira. Uma encenação feita a pedido do Shun em um momento de desespero. Se o Seiya levar isso adiante, bem, vocês também só estão trabalhando com a hipótese de que vai funcionar. E se ele não melhorar? E se ele descobrir, como acham que vai reagir? Eu que sou normal já nem sei dizer como faria se descobrisse que alguém que está comigo faz isso por piedade, e pior, a pedido de alguém que eu amo. Isso é uma traição de, sei lá, não consigo nem imaginar um nível pra isso. Imaginem ele, perturbado do jeito que está?

—Mas ele não vai descobrir nada.

—E SE descobrir Shun? Acha que ele vai ficar feliz em saber que o Seiya ficou com ele por pena? Ia gostar de saber que isso aconteceu por que o irmão dele pediu? Ia se sentir como sabendo que eu e o Hyoga sabemos de tudo isso e compactuamos com essa mentira? Isso ia deixá-lo feliz? Eu tenho certeza que não.

—É por um tempo só... Só até essa depressão maldita melhorar, eu sei que Saori e o Dr Saga estão acompanhando ele e ele vai ficar bom. E aí quando ele se recuperar, nós podemos esquecer essa história e estaremos todos em paz de novo. Por favor Shiryu, tenta entender...

—Você é gentil demais Shun. Mas saiba que o dito popular é muito válido: o inferno está cheio de boas intenções. Por mais que você esteja pensando em ajudar o Ikki, não vai ser mentindo que vai conseguir alguma coisa. Para mim bastava que continuasse agindo como está fazendo, dando seu apoio e carinho.

—Mas não é o bastante. Eu não sou o bastante.

—E por mais que eu fique triste sabendo disso, você também precisa entender que a vida dele diz respeito a ele, e você ficar se intrometendo desse jeito não é saudável pra ninguém. Ele tem que decidir as coisas por si e arcar com as consequências, boas ou ruins.

—Saga me disse que ele vai morrer.

Todos encararam Shun exibindo expressões de susto. Shun continuou com a voz fria, cansada, diferente do tom emotivo e lamentoso que vinha usando. Fiquei assustado com aquilo.

—Ikki está em um estágio profundo da doença que o faz enxergar tudo de maneira errada. Inclusive seu modo de encarar a vida. Saga teme que ele tente se matar caso a doença continue progredindo. Se fosse seu irmão, como você agiria Shiryu?

Ele piscou algumas vezes, incrédulo. Shun se aproximou e o encarou, o rosto erguido em desafio.

—Se tiver alguma ideia que possa ajudar a salvar meu irmão, eu paro com essa história agora. Se não tem, ou ajuda ou para de piorar o que já está uma droga.

—Mentir não é a solução.

—E qual é? Hã? Diga, qualquer uma vale. Diga uma solução que ninguém pensou antes e nós nos renderemos ao seu brilhantismo, felizes e gratos por não ter que mentir para um doente que precisa de ajuda. É a vida do meu irmão que está em risco. Eu vou fazer o que puder para ajudá-lo. E se tiver que mentir, assim será.

Seiya se colocou entre eles, afastando Shun que pela primeira vez na vida pareceu representar uma ameaça para alguém.

—E eu já disse que vou ajudá-lo, por que a sua ideia é a melhor que tivemos até agora. Acho que todo mundo aqui está nervoso, precisamos nos acalmar.

—Saori sabe disso? Falaram com Saga?

—Não Shiryu, e nem iremos. Eles não concordariam, e é melhor evitarmos qualquer espécie de desentendimento. Eu sou o motivo disso tudo, e estou com Shun até o final.

Seiya encarava Shiryu com a decisão mais do que estampada no rosto. Sem apoio, percebi que ele ainda tentou apelar para Hyoga.

—Você concorda com eles então?

—Enquanto o Ikki estiver mal, o Shun vai ficar inquieto, o Seiya também e eu não aguento isso. Sinto muito Shiryu, mas ainda que não concorde com o modo, concordo com a ação.

Ouvi alguns gritos a medida que me afastava silenciosamente. Minha cabeça girava, minhas pernas tremiam, meu coração estava disparado. Então era tudo verdade, o que Saori e Saga tentaram me alertar... O modo como reagiram quando contei sobre o beijo... O jeito cansado com que Seiya vinha interagindo comigo, o silêncio constante de Shun... Tudo era uma mentira, uma tentativa de me enganar e...

Voltei. Voltei pois algo estava prestes a explodir dentro de mim. Eu senti um ódio indescritível e não sabia por quem especificamente. Quando me aproximei, eles tentaram parecer normais, mas não puderam evitar o susto ao me ver ali. Shun foi o primeiro a se dirigir a mim.

—Ikki. Não vimos você durante a cerimônia, eu fiquei...

—Cala a boca. Cala a porra da maldita boca. Eu quero ouvir de vocês. De todos vocês. É verdade isso? Você está querendo fingir que quer ficar comigo por pena Seiya?

Ver todos arregalando os olhos e se encarando pedindo ajuda em silêncio foi a gota d'água. Quando Seiya gaguejou, foi que o ódio enfim explodiu.

—Ikki... Eu... Nós... Escuta, você... Vo... Não é...

—FALA!

—Eu disse que isso não ia dar certo não disse? Eu avisei, mas vocês teimaram... Agora só resta falar a verdade.

—Fica quieto Shiryu, agora não é hora disso. Ikki, me escuta, você não sabe do que está falando, essa ideia é...

—Eu estava procurando vocês e quando cheguei peguei bem o começo da discussão Seiya. Não mente pra mim, eu ouvi tudo, eu sei de tudo. Então é uma encenação? Um gesto de pena? É um complô, todos contra mim dizendo que estão a meu favor, é isso?

—Ikki, calma, vamos conversar e...

—E VOCÊ SHUN? VOCÊ QUE É O RESPONSÁVEL POR ESSA GRANDE PEÇA ENTÃO? VOCÊ QUE PEDIU PRO SEIYA MENTIR PRA MIM?

—Ikki, calma, por favor. Olha, eu sei que...

—VOCÊ MENTIU PRA MIM! MEU IRMÃO ORQUESTROU UMA MENTIRA NA MINHA CARA E EU...

—CALA A BOCA!

O grito de Shun comigo foi o que mais chocou todos ali. Eu mesmo me peguei assustado com aquele rompante.

—CALA A BOCA! EU ESTOU TENTANDO AJUDAR VOCÊ. POR QUE VOCÊ NÃO PERCEBE QUE ESTÁ ACABANDO COM A GENTE. ACABANDO COM TUDO. CALA A MALDITA BOCA!

Cautelosamente Seiya se aproximou e pousou as mãos nos ombros de um Shun choroso, com os olhos vermelhos e arregalados.

—Calma Shun, nós vamos nos acertar, calma...

O silêncio que se seguiu enquanto nos encarávamos foi curto mas não poderia estar envolto em uma atmosfera pior. A tensão quase palpável foi quebrada por outra voz impaciente, dessa vez a de Shiryu.

—Pois bem, se ninguém fala, eu falo. Ikki, é verdade. Shun pediu ajuda a Seiya, e eles combinaram que ele namoraria com você até que essa crise sua passasse. Seiya só teve certeza disso depois de ir encontrar com você uns dias atrás e viu que você estava péssimo. Eu obviamente não concordei com isso, mas eles insistiram e eu...

—Você deve estar adorando esse circo não? Só para ter razão. Para dizer que estava certo. Por que agora o caminho está livre não é?

—O que... Como assim, do que você...

—Você estava certo. Eu não vou aceitar que alguém fique comigo por pena. Ainda que seja o único homem por quem eu me apaixonei de verdade. Por que eu me apaixonei por você viu Seiya? Eu realmente achei que você me queria também. Acha que eu estou me sentindo como sabendo que isso tudo é uma mentira sua e do meu irmão?

Não havia como encobrir ou se desculpar, e Seiya logo percebeu isso, pois suspirou cansado antes de me responder de maneira desanimada:

—Tenta entender... Nós estávamos pensando no seu bem...

—MEU BEM?

—Seu bem, você não estava melhorando depois de tudo e... Por favor Ikki, vamos conversar...

—Tudo que eu não quero é conversar. Chega. Já percebi tudo.

Me virei para ir embora mas Shun me puxou. Ele estava fora de si.

—Agora chega. Vai parar de fugir e encarar os problemas de frente. Chega dessa covardia toda.

—Espera aí... Além de tudo vai me chamar de covarde?

—Covarde. Fraco. Medroso. Sim, você é tudo isso ouviu bem? Por sua causa a minha vida, a nossa vida virou um inferno. UM INFERNO POR SUA CULPA!

—EU NÃO TENHO CULPA DE NADA!

—TEM SIM. VOCÊ TEM CULPA SIM.

—Será que vocês podem parar de gritar por favor? Daqui a pouco vai ter gente aqui em volta...

—ME DEIXA HYOGA! QUEM SABE GRITANDO ENTRE ALGUMA COISA NA CABEÇA DESSE DOENTE. QUEM SABE ASSIM ELE OUVE.

—OUVE O QUE?

—QUE NÓS TODOS AQUI NOS PREOCUPAMOS COM VOCÊ. QUE NÓS TE AMAMOS E ESTAMOS DISPOSTOS A QUALQUER COISA PARA TE AJUDAR. ENTENDE ISSO OU SUA OBSESSÃO MALDITA TE IMPEDE DE ENXERGAR ISSO TAMBÉM?

Aquilo era demais. Simplesmente demais. Senti um vulcão explodir dentro de mim e quando percebi já havia explodido junto. Só quando percebi o fio de sangue escorrendo da boca do Shun que caí de volta em mim. Hyoga ficou encolerizado quando se colocou entre nós.

—Que merda é essa Ikki? Vai dar de bater nos outros agora? Primeiro a Shina, agora...

—EU NÃO FIZ NADA COM A SHINA!

—Deixa Hyoga. Deixa ele. Finalmente está exibindo uma reação. Melhor que ele sinta algo e se mexa do que ficar preso naquela letargia depressiva, certo?

—Mas Shun...

—Deixa. Vem me bater Ikki. Se isso vai fazer você reagir, vem então. Me bate. Eu não vou revidar. Mas vai ter que me prometer que quando acabar vai direto atrás do Saga e vai começar o tratamento novo.

—Eu não vou atrás de ninguém. Isso não está funcionando.

—Pare de ser tão teimoso. Estamos preocupados com sua vida, com esse perigo que você está correndo... Há uma chance se...

—NÃO HÁ CHANCE NENHUMA. NÃO FALE COMO SE HOUVESSE ESPERANÇA. NÃO ENTENDE QUE ACABOU? ACABOU TUDO, AQUI E AGORA.

—Ikki...

—Você se intrometeu aonde não foi chamado Shun. E...

—EU FIZ ISSO POR VOCÊ!

—NÃO! FEZ POR VOCÊ MESMO. POR QUE VOCÊ QUER QUE TUDO SEJA SEMPRE PACÍFICO E PERFEITO. A VIDA NÃO É ASSIM SABIA?

—Ikki, chega. Não fale assim com o Shun, ele não merece isso.

—Não? E quem eu culpo então Seiya? Hã?

—Não sei, mas o Shun não. Ele sempre foi um irmão perfeito, dedicado, carinhoso, leal... Não vê o quanto está magoando ele agindo desse jeito? Olhe para você, realmente está parecendo um animal.

Foi mais uma ficha que caiu ali.

—Então quer dizer que além de me ver como um doente, me achar culpado pela morte dessa vadia que ri feito uma anta lá dentro, ainda me vê como um animal? Essa é sua visão de mim Seiya?

—Epa. Olha lá, vê como fala. Shina não era uma vadia, nunca foi. E eu disse, já deixamos essa história para trás. Pandora foi a culpada.

—Por que ele insistiu em ir atrás dela.

—Shun, melhor ficar quieto...

—Não Seiya. Chega de ficar quieto. A culpa de tudo isso, a culpa de chegarmos a esse ponto é dele. A culpa é sua sim Ikki. E eu estou cansado. Cansado de me preocupar, cansado de tentar fazer você entender, cansado disso tudo. Pra mim chega, definitivamente. CHEGA!

Shun passou por mim e saiu pisando duro. Seiya ainda tentou falar com ele.

—Shun, espera, precisamos conversar com o Ikki, olha...

—EU CANSEI! Se ele quiser morrer, que morra então. Cansei de mostrar todo meu amor e ser desrespeitado dessa forma. Quer morrer mesmo?

Ele se virou para mim, apontando o dedo.

—Vá em frente, eu não vou tentar mais te fazer feliz ou te ajudar. A vida é sua, faça dela o que quiser, eu não vou me importar mais. Eu tentei Ikki, tentei mesmo. Mas chega. A partir de agora, eu lavo minhas mãos de tudo que for referente a você. Vou esquecer que tive um irmão um dia. Vou deixar meu sentimento de lado em prol do meu bem-estar. Você não merece o meu amor depois de todo mal que me fez, ainda de forma consciente.

—Shun!

Seiya saiu atrás dele, seguido por Shiryu. Hyoga foi o último, mas ainda se virou e me disse, um tanto quanto confuso.

—Ikki, isso foi... Da boca para fora. Shun está nervoso, cansado, por favor, não leve isso em conta. Vamos conversar com calma mais tarde, sim? Eu vou com eles... Fica... Bem, por favor.

E finalmente o silêncio voltou. Estava eu cercado pelas ruínas e destroços de um lugar antigo, em meio ao que um dia foram pessoas, ouvindo a chuva e sentindo o vento frio. Sozinho e consciente pela primeira vez do tamanho do mal que fizera as pessoas a minha volta.

—- -- --

Quase dez dias se passaram depois do episódio da missa. A raiva que eu sentia não diminuíra, mas se mesclou a tristeza e eu pensei muito sobre tudo que ocorrera. Pensei muito sobre as palavras de Shun, de Saori e Saga. Pensei bem sobre as atitudes de Seiya e dos outros. Pensei, pensei, e quanto mais pensava, menos solução eu via. Shun não me procurou, bem como nenhum dos outros. Apenas Saori e Saga me ligaram, mas não atendi nenhum deles.

Foi na quarta feira que decidi agir enfim. Eu precisava fazer alguma coisa, e foi o que fiz, ainda que contra minha vontade. Não pensei muito sobre o resultado, só tentei melhorar as coisas. Não me senti melhor fazendo o que fiz, mas fiz. Afinal eu percebi que todos estavam certos. De novo.

Entrei em um estado apático enfim depois daquela quarta. Cansado de tudo, de todos, de mim. Não queria mais dias iguais aqueles que eu estava vivendo. Precisava fazer algo para acabar com aquilo. E fiz. Eu decidi sair para dar uma caminhada.

Era meio da tarde, um sábado qualquer e tudo estava como sempre. As pessoas viviam seu cotidiano, muitas rindo, outras nem tanto, mas todas prosseguindo. Eu precisava muito me isolar, remoer tudo que acontecera nos últimos dias uma vez mais.

Eu não ia me enganar; não de novo. Havia algo martelando na minha cabeça nos últimos dias e definitivamente aquilo era a minha solução; um passo que mudaria tudo. Por isso eu me preparei: deixei algumas coisas prontas, documentos assinados, depoimentos em áudio e vídeo, tudo enviado para as pessoas certas. Não precisava me preocupar com mais nada, por isso fui seguindo sem um rumo certo: só precisava andar um pouco. Algo mecânico, que gastasse energia, assim eu pensava sem ficar pensando. Vi um casal de adolescentes rindo enquanto eu caminhava e a menina cobrava o rapaz de uma ida a praia. Quanto tempo eu não via o mar. Sentir a areia nos pés, as ondas indo e vindo... Era mesmo uma excelente ideia. Aquela altura estava quase no fim da tarde já, eu andara bastante mas não liguei para isso. Havia uma praia à uma hora de onde eu estava, e foi para lá que segui.

Quando cheguei já havia anoitecido. Soprava um vento bem fresco e a praia estava quase vazia. Descalcei os tênis e fui caminhando, sentindo o momento e pensando sobre tudo.

Sobre mim principalmente. Sobre o que eu sentia, o que queria, o que precisava fazer...

Seiya... Shun... Meus amigos, Saori... Meu trabalho, meu...

Futuro.

O mar escuro estava tranquilo. Convidativo. Tirei minha camiseta, larguei tudo na areia e mergulhei. Fiquei boiando ali, deixando a maré me levar, observando o céu escuro enquanto boiava lentamente naquelas águas também escuras.

Fechei os olhos e mergulhei naquela escuridão. Eu precisava de paz. E naquele momento eu consegui alguma.

Eu tentei tanto em tantas coisas... Esse foi meu último pensamento

Notas finais
E enfim chegamos ao final. Claro que ainda há algumas coisas a explicar e por isso vejo vocês no próximo, que já postei junto para concluirmos sem mais nenhuma demora. Portanto os agradecimentos ficam todos para o próximo. Beijaço e até lá