Eu estrelo você

25 Estrela superficial


Notas iniciais
~ Um capítulo inteiro narrado pelo coelhinho albino o/

Nell POV

— Obrigado por ter trazido a gente aqui, mãe. — Falei assim que minha mãe me tirou do carro com a ajuda de Verônica.

Eu odeio essa cadeira de rodas, não vejo a hora de conseguir andar sem ela. Meus pais já sabem que eu estou começando a voltar à andar, tanto que eles me levaram no médico pra fazer mais alguns exames por garantia.

Minha mãe até chorou de felicidade quando eu falei, pareceu como se ela tivesse ganhado o ano. Ela também disse que daria um ótimo presente pro Biel, pra Márci e pro Guilherme no natal, como forma de agradecimento.

Já o meu pai, disse que me mudar de escola foi a melhor coisa à se fazer, pois até amig'A's eu tenho agora (Ele se referiu à Márci)

— Que nada Nell. — Disse minha mãe, entrando dentro do carro e fechando a porta.

— Tchau, adorei o papo com você. — Falou Verônica, soltando um sorriso simpático para a minha mãe.

— Eu também Verônica, da próxima vez conversamos mais, haha. — Disse minha mãe.

— Claro! — Exclamou Verônica. — A propósito, sabe que...

"Da próxima vez"? Quem disse que haverá próxima vez? Nunca pensei que a Verônica fosse se dar bem com a minha mãe, acho que a subestimei um pouco. Claro, eu já sabia que Verônica era extremamente sociável, como requisitado para alguém do clube de jornalismo, no entanto, não pensei que ela teria tanta simpatia com a minha mãe. A Verônica conseguiu guardar um "amor" besta e sem sentido por seu amigo homossexual por uma grande e absurda quantidade de tempo, aliás, mesmo que não tenha sido tanto tempo assim, no caso deles, podemos considerar que meros meses tenham sido uma absurda quantidade de tempo justamente porque foi algo inútil e sem sentido. O fato de que ela foi capaz de nutrir sentimentos pelo Pedro me faz pensar que ela é do tipo superficial, tanto para amor como para qualquer outro sentimento. Ela se apaixonou por seu amigo superficialmente, manteve isso por um tempo de forma superficial, e então, foi "desmascarada" de forma superficial. Verônica não se abalou muito quando teve a verdade jogada na sua cara, por igual. Foi algo superficial, que mesmo que ela tenha considerado algo incomensuravelmente importante no momento, não deixou de ser superficial. Ela só esteve se iludindo igual todo o tempo em que gostou do Pedro.

Eu irritei Verônica naquele dia em que discutimos, e fui eu mesmo quem descobri e falei sobre os sentimentos dela pelo amigo dela. Se fosse qualquer pessoa no lugar do Verônica; se fosse a Márcia por exemplo, tenho certeza de que ela nunca mais olharia na minha cara de novo. Verônica é orgulhosa, por igual, e eu tenho certeza de que ela não gosta de perder num discussão, no entanto, o fato dela sentir as coisas superficialmente entram em colapso contra quaisquer outras coisas que ela possa sentir. Naquele dia, Verônica ficou zangada comigo, mas, acabou não sendo nada tão grave. Ela me perdoou, aceitou a derrota, engoliu o orgulho, viu que estava errada e aceitou tudo numa boa. Provavelmente é por isso que ela conseguiu conversar normalmente com minha mãe agora. Para ela, tudo isso já passou, apesar de não ser o caso.

— Não, mas nesse dia não costuma haver aula em nossa cidade. É considerado um feriado. — Falou minha mãe de dentro do carro à Verônica, com o vidro do mesmo aberto até a metade.

— Eu sei disso, no entanto o meu clube vai ser responsável por algumas tarefas adicionais na escola, então teremos que estar presentes juntos do grêmio estudantil mesmo num dia em que não haverá aula, semana que vem. — Disse Verônica.

Enquanto elas continuavam conversando, comecei a fitar a casa de Verônica. Olhando de fora, parecia uma casa muito simples. A casa de Verônica não possui uma garagem, o portão é daqueles pequenos que já dá acesso a um corredor direto, além disso, consigo ver parte desse corredor devido ao portão dela ser daqueles com vários ferros e cheios de fissuras. É um portão de pobre, sem nenhuma segurança. O chão do corredor não é azulejado, apenas cimentado, além disso, há um cachorro latindo para nós bem à minha frente, do lado de dentro. Quer dizer que a Verônica tem um cachorro? Estou surpreso, não esperava que ela fosse do tipo que gostava da companhia de animais.

Não, não. Se bem que eu não tenho certeza disso. Esse cachorro pode ser de algum irmão ou irmã dela, ou, pode ser de algum vizinho. Não dá pra saber como é a estrutura dessa casa por dentro, talvez na verdade sejam duas casas divididas entre dois inquilinos. Odeio não conseguir enxergar direito.

A propósito, é um pouco engraçado. Da mesma forma que eu não compreendo a estrutura da casa da Verônica, a verdade é que também não compreendo sua estrutura familiar. Já me surpreendi pelo cachorro, mas, que tipo de família a Verônica tem? Em que tipo de ambiente ela vive todos os dias? Será que foi uma idéia ter vindo aqui? Agora que paro pra pensar, eu na realidade não sei nada sobre ela. Talvez a resposta por trás de sua personalidade superficial esteja aqui, ou talvez não. Será que ela tem algum sobrinho morando com ela? Ou algum parente que não faz parte de uma família nuclear? A propósito, será que ela tem uma família nuclear?

E então, senti algo tocando na minha cadeira por trás. Era Verônica.

— Vamos? — Indagou ela.

— Mas mi... — Eu ia dizer, mas olhei para trás e percebi que o carro da minha mãe já estava de partida. Nem ouvi ela dando tchau.

— O que??

— Hã?

— O que você ia dizer? — Perguntou Verônica.

— Nada, deixa. — Respondi.

— Fala.

— Não era nada, sério, eu ia falar sobre minha mãe mas percebi que ela já estava saindo.

— Ah, tá bom. — Falou ela, permanecendo parada atrás de mim, segurando minha cadeira de rodas pelos pegadores.

— ... O que você está fazendo? — Perguntei, esperando algum movimento dela.

— Verdade, tenho que abrir o portão primeiro. — Respondeu ela.

— É... Creio que sim. — Afirmei.

— Também tenho que prender minha cachorra. — Disse.

"Minha". Então era dela no fim das contas.

— Então prende ela, ué.

— Você não gosta de animais, Nell? — Indagou a garota, enquanto saía de trás de mim e andava até o portão.

— Não é que eu não goste, é que eu nunca tive nenhum antes, então nunca sei como agir perto de um. Me lembro que sempre quis ter um Yorkshire, mas meus pais não deixaram. Diziam que mesmo que eu tivesse, não seria capaz de cuidar e nem de brincar com ele.

— Isso foi bem duro, não? Bom, falar que não é capaz de cuidar, tudo bem. Os pais sempre falam que nós somos desleixados mesmo, afinal um dos nossos papéis como filhos folgados é sermos desleixados, mas, dizer que não é capaz de brincar com ele foi bem... Monstruoso. — Comentou Verônica, enquanto colocava sua mochila no chão, abria e procurava pela chave de casa.

— Monstruoso? — Perguntei.

— É, monstruoso. Me desculpa, mas "monstro" é um adjetivo que cai bem aos seus pais. — Respondeu ela.

— ......? Mas você estava conversando com a minha mãe normalmente até agora a pouco. — Comentei.

— E daí? Isso não quer dizer nada. Eu não tenho costume de ser sincera em minhas conversas e minha simpatia por si só é uma mentira. — Falou ela.

— A única que merece o adjetivo de "monstro" aqui é você, se isso for verdade.

— É mentira, estou brincando. — Disse ela. — Se bem que isso pode ser uma mentira também.

— Você está jogando comigo?? Eu não vou cair nessa. Você sabe que eu sou do tipo pensativo e quer me confundir, não é? Mas para a sua informação, eu já tenho uma tese bem formada sobre você na minha cabeça e será muito difícil de mudá-la. — Respondi.

— Ah, é mesmo? Palmas. Você descobriu tudo. — Disse ela, dando uma leve risadinha.

— ... — Fiquei em silêncio enquanto observava ela abrindo o portão. Aquela calçada era bem estreita, aliás.

Verônica é uma garota inteligente. Ela sem dúvidas é muito inteligente no fim das contas. Ela tem uma lábia muito boa, mas, não vai funcionar comigo.

— Nell. Se fosse mesmo a minha vontade te enganar sobre algo, você não seria capaz de descobrir há não ser que eu te contasse. — Comentou ela.

Geralmente, eu sou bem calmo, mas assim que Verônica disse isso, me senti levemente irritado.

— Tá bom. — Afirmei, soando indiferente.

— Se eu te contasse que na realidade, eu nunca gostei do Pedro da maneira que você disse, você acharia que eu estou mentindo? — Perguntou ela, enquanto entrava pelo portão afastando a cachorra com a perna.

— Sem sombra de dúvidas. Isso seria uma mentira descarada. — Respondi.

— Ah, é mesmo? — Indagou Verônica, enquanto pegava a cachorra pela coleira e a levava para o fundo do corredor. Rapidamente desapareceram do meu campo de visão, mas, pude ouvir as duas enquanto iam mais fundo naquele corredor.

Esperei que Verônica retornasse e abrisse o portão. Ela me pegou pelo pegador da cadeira de rodas e me levou para dentro.

Enquanto andávamos, pude ver mais sobre o local que antes estava escuro para mim. Havia uma porta ao lado esquerdo do corredor, na parede, que é onde estava a casa da Verônica. Do lado direito, havia um simples muro que separava a casa dela das outras. No entanto, não usaríamos esta porta para entrar na casa dela. Havia uma mais no fundo perto de onde a cachorra estava presa, à qual usaríamos para entrar.

— Você se lembra do que eu falei naquela hora? — Perguntou ela.

— Quando?

— Quando você afirmou que eu gostava do Pedro. — Respondeu.

— O que você falou...? Foi... Bem... — Murmurei.

Flashback ON

— Você gosta do Pedro, não é? Sua situação não é muito diferente da da Márcia, na verdade, é completamente igual. O que muda, é que você e ela são diferentes. — Disse Nell.

— Eu não gosto do Pedro. — Afirmou ela.

Flashback OFF

— Exatamente, eu havia afirmado que não gostava dele aquela hora, mas, mesmo assim, você continuou insistindo e acusando. — Afirmou Verônica. — Mesmo sem saber de nada, eu presumo.

Sem saber de nada? Sim, ela tem razão. Eu não sabia de nada quando falei aquelas coisas, estava apenas chutando. Eu costumo ter um raciocínio bom sobre as coisas e me lembro que eu tinha chegado à conclusão de que ela realmente gostava do Pedro, mas... Não tomei essa conclusão baseada em fatos, mas sim, em especulações.

— Mas você mentiu sobre essa afirmação, Verônica. As provas disso são que no fim você nos entregou o vídeo do Vinícius, e também, que não se defendeu das minhas afirmações na hora devida. Se você não gostava do Pedro, então por que não me explicou direito aquela hora? — Perguntei.

— Porque eu não quis. — Respondeu ela.

— E por que você não quis? — Indaguei.

— Porque fiquei de saco cheio. Eu queria mesmo expor o Vinícius, bastante, mas, depois que você chegou e começou a falar, fui perdendo a vontade. Decidi então, aceitar tudo e parar com aquilo de vez porque me toquei que não levaria à nada. Em parte, você estava certo. Estava certo sobre eu não poder publicar sobre aquilo no jornal da escola, nem mesmo de maneira manipulada. A coordenadora não nos deixou ver a ficha daquele aluno que pode ser o Dan, então, tenho certeza que ela acabaria conosco se eu tentasse alguma gracinha no jornal. A verdade é que eu estava me achando demais, fui muito precipitada, pensava que estava numa posição em que seria capaz de tudo com o jornal, quando na verdade, não era bem assim. Pessoas como você iriam me impedir, a coordenadora iria me impedir, e eu nem mesmo poderia fazer a sua entrevista. As pessoas não ficariam satisfeitas com minha matéria, e eu só estava sendo estúpida. — Respondeu ela, enquanto abria a porta de casa e adentrava junto comigo. Aquela porta dava na cozinha, aparentemente a sala ficava na frente onde estaria aquela primeira porta.

Verônica então, me deixou em qualquer canto e foi pegar algo na geladeira.

Será que ela está mentindo agora? Me enrolando? Tentando me manipular? Isso é bem a cara dela, mas... Mas... Se isso fosse verdade, então significaria que eu sempre estive errado sobre ela. Eu... Eu consigo aceitar o fato de que estava errado? Eu odeio estar errado, queria sempre estar certo sobre tudo, mas mesmo assim, até mesmo eu já estive errado algumas vezes. Algumas raras vezes. Algumas mínimas raras vezes.

No entanto, se eu aceitar isso que ela está dizendo e no final for uma mentira, então eu estarei caindo no joguinho dela e ao mesmo tempo sendo orgulhoso. E agora? Estou num impasse. Não sei no que acredito. Não consigo saber se ela está mentindo ou não, eu não sei mais. Se bem que o objetivo dela também pode ser fazer eu ficar confuso, ah... Ah....! AHHHH!! Eu não acredito! Ela me prendeu num paradoxo!! Não pode ser!! Ninguém nunca havia me prendido num paradoxo antes!

— Você não vai dizer nada? Está espantado? — Perguntou ela, sentando-se sob a mesa enquanto enchia um copo com suco, através de uma jarra que havia pego na geladeira.

— Não sei. — Respondi.

— Bom, eu pensei sobre tudo isso naquele momento que você estava me atacando bombas sobre eu gostar do Pedro, então, decidi fingir aceitar a sua suposição para afastar a verdade de que eu era uma inútil. Era muito mais fácil eu ter feito tudo aquilo por gostar do Pedro e ser ciumenta do que agir por mim mesma e depois me arrepender. Eu me sinto um pouco inútil, por ter errado e por ter me enganado. — Disse ela, retirando seus óculos enquanto me fitava seriamente.

— ... — Fiquei em silêncio.

— Ah, me desculpe, você quer suco? — Perguntou ela.

— Quero. — Respondi.

Ela então levantou-se e pegou um copo para mim. Como eu já estava próximo à mesa num espaço vago onde não havia uma cadeira normal, foi fácil me aproximar da mesma.

Verônica me serviu aquele suco de maracujá natural e eu bebi enquanto refletia.

— Eu entendi, Verônica. Mas só uma pergunta. Se você nos afastou da verdade e fingiu parecer gostar do Pedro aquela vez, então, por que está voltando atrás e me contando tudo isso agora? — Perguntei.

— É porque está tudo bem você saber. Eu gosto do seu jeito, queria mais pessoas como você nesse mundo. — Respondeu ela.

— ... Levando para o lado sentimental? Como você pode ter afinidade por mim depois das coisas que eu falei?

— Fiquei um pouco brava com aquelas coisas na hora, mas já passou. Sou superficial sobre determinados assuntos e acontecimentos. — Disse Verônica.

Sobre isso eu estava certo, então?

— A pergunta é, você acredita em mim? Acredita nas coisas que eu disse agora? Ou acha que estou te enganando? — Perguntou ela.

— Eu não sei, estou pensando. — Respondi.

— Por que eu te enganaria?

— Eu não sei..

— Mas a verdade é que eu não estou mentindo, eu juro. — Disse.

— Talvez você tenha me contado isso para jogar na cara que eu estava errado sobre você? — Perguntei.

— Hm... Também. Eu disse que se eu mentisse para você, você só descobriria se eu contasse, mas Nell, se você parar pra pensar... Em nenhum momento eu menti pra você.

— ?

— Naquela vez do Pedro, eu já havia sido sincera. Eu falei que não gostava dele, e acabou. Em momento algum eu disse que gostava. Aquilo foi tudo uma interpretação sua, o tempo todo. Você mesmo se enganou e cometeu um mal entendido, e além disso, fez todo mundo se enganar sobre isso também. — Disse ela.

Ela tem razão... Isso é....... Verdade...

— Eu... — Murmurei, enquanto dava um belo gole no suco de maracujá.

Verônica está certa. Ela não está mentindo. Isso quer dizer que desde o começo ela esteve contando a verdade, desde o começo, desde o começo mesmo.

Vendo dessa forma... Não fui em que estive mentindo o tempo todo? Eu blefei sobre a Verônica gostar do Pedro, pensando que estaria certo, quando na verdade estava errado. Em cima disso, menti sobre isso para todo mundo e até me enganei sobre a Verônica.

Ela... Ela me controlou...

— Eu perdi. Eu blefei, menti, estive errado, errei de novo e continuei errado até agora. Parece que você me manipulou no meu próprio blefe. — Afirmei.

— Então está aceitando? Parece eu mesma. É muito ruim errar quando se é orgulhoso, não é? Eu entendo perfeitamente, passei pela mesma coisa. — Disse ela. — Somos parecidos, muito parecidos, e eu gosto de você por isso.

— Estou chateado, Verônica.

— Tudo bem, eu já volto. Irei no meu quarto rapidinho. — Disse ela, levantando-se e indo em direção ao quarto, mesmo sem óculos.

Refleti sobre tudo, mais e mais. Não irei revelar esta parte da minha reflexão por ser muito desagradável. Não gosto de revelar fraqueza, serei sincero pelo menos desta vez e afirmarei: eu não gosto de revelar meu lado frágil. Odeio.

Ela então retornou, após 3 minutos, com seu celular em mãos.

— Aqui, pega. — Disse ela, me entregando o celular.

— ...? Está em chamada. — Afirmei.

— Eu sei, estamos ligando para o número da origem do vídeo do Vinícius. FourAfternoon Bridge, ou o suposto Daniel, ou talvez, algum cúmplice dele. — Falou Verônica.

— Rápido assim? Eu não estou bem para fazer isso agora, eu... — No momento em que estava falando com Verônica, fui interrompido pelo outro lado da linha. A chamada foi atendida por alguém, que disse um simples: alô.

— ... — Eu e Verônica permanecemos em silêncio.

— Alô? — Repetiu o outro lado da linha. Era uma voz masculina.

— Alô. — Falei.

— Quem está falando? Indagou o outro lado.

— Não, eu é quem pergunto, quem está falando? — Indaguei.

— Ah, esse jeito de falar... É você, Nell? Entendi, eu compreendo a situação. Vocês demoraram. Estive esperando esta ligação desde o dia em que mandei o vídeo para a Verônica. — Falou a voz.

Ele me conhece?? É algum conhecido meu???

— Você não me respondeu. — Insisti.

— Ah sim, mas que besteira, isso você já sabe, eu sou o Daniel. Vocês já descobriram o recado por trás do meu nickname, não é? Pois é, é uma bela coincidência... Pois eu estou no local do encontro neste exato momento. — Falou Daniel, pelo celular.

Daniel estava à cima do viaduto da cidade naquele momento, às 13:00 da tarde. Ele trajava uma camiseta xadrez de cor vermelha e preta, junto de uma calça jeans com coloração negra e um sinto quadriculado, preto e branco. A jaqueta estava bem abotoada, no entanto, parte do sinto estava solto.

O vento no local batia em seus cabelos vermelho carmesim, curtos, enquanto ele encarava a paisagem da cidade de cima, com os carros passando atrás de si.

— ... — Fiquei em silêncio quando ele disse, na esperança de ouvir o barulho dos carros passando para comprovar se era verdade ou não.

— Mas então, vamos ter uma conversinha. — Disse o garoto.

— Ótimo, queria muito conversar com você. — Afirmei.

— Certo, para ser direto e subjetivo, responderei as coisas que você quer saber em tópicos, antes mesmo de perguntar. Eu adoro tópicos, deixam as coisas muito mais simples. Eu adoraria se todos os textos históricos fossem na realidade tópicos, contendo apenas as informações mais importantes. — Afirmou ele.

Que tipo de pensamento esse garoto tem? Gostar de tópicos e coisas diretas, então ele dispensa detalhes? Isso é algo bem imprudente. Os detalhes são as coisas mais importantes.

— Eu consigo saber os detalhes através das informações principais, mas prosseguindo... — Disse ele.

Eu não falei nada sobre detalhes, foi como se ele tivesse lido minha mente... Esse cara tem um alien dentro da cabeça??

— Vou pular o primeiro item, que é a apresentação, porque eu já revelei quem eu sou. Então, segundo: estou atendendo essa ligação por livre e espontânea vontade para combinar melhor o encontro de amanhã. Tive medo que não me ligassem por um instante, pois não teria como vocês saberem se seria em cima ou em baixo, muito menos em qual ponte, e também, não queria exigir nenhum esforço do qual vocês não seriam capazes de fazer. — Afirmou o garoto. — Terceiro, é em cima da ponte, e a ponte é na verdade o viaduto principal no centro da cidade, que passa por cima da linha do trem. Quarto, não preciso revelar meus motivos à você, já marquei de me encontrar pessoalmente amanhã com o Vinícius e falarei com ele sobre isso. Quinto, meu endereço vocês não precisam saber, não quero que venham na minha casa, eu moro em outra cidade do outro lado da linha, não é aqui. Sexto, eu estudo na escola de vocês e há coisas sobre mim lá, não sei o quanto vocês xeretaram e descobriram, mas, não há nenhum tipo de prova que vocês possam usar contra mim. Sétimo, você não me conhece, mas eu conheço você. Vocês. Para ser mais preciso, os únicos que conheço de fato são o Vinícius, a Isabel e o Kaio, no entanto, dos três, conheço apenas o Kaio pessoalmente, eu e ele somos grandes amigos. Se eu tivesse um cúmplice, diria que foi ele, pois foi ele quem me contou a maioria das coisas sobre vocês, mas, ele não sabe que fui eu quem publicou o vídeo; sobre isso ele não sabe nada, então, não é como se ele tivesse me ajudado diretamente também. Não o culpem.

— Entendi, o Kaio... — Murmurei. — Fiquei chocado, mais uma vez. Nunca pensei que o culpado tivesse alguma relação com uma pessoa tão aleatória com o Kaio, se bem que, pensar desta forma, torna engraçado caso o Kaio fosse o verdadeiro culpado. Todo mundo seria surpreendido.

Ah! Isso por acaso não envolveria a Márcia também? Se o Kaio fosse culpado, ele teria acabado com a vida do Vinícius, que por sua vez é alguém que a Márcia detesta. Ele poderia estar fazendo isso por ela, e um caos seria criado em cima dessa situação. Posso estar pensando algo inútil, mas... Fico aliviado pelo Kaio não ser o culpado no fim das contas, e também, pelo fato de eu não ter desconfiado dele antes.

— Acabaram, já falei os sete itens. Alguma dúvida? — Indagou ele.

— Sim, você mentiu sobre algo do que disse? — Perguntei.

— Ohhhhh? Estou surpreso? Pensei que você fosse do tipo ultra pensativo e que tentaria descobrir se era verdade ou mentira sozinho, mas, perguntar isso diretamente é bem inesperado. Algo aconteceu? — Perguntou o garoto.

Droga, todo mundo me vê como do tipo que pensa muito? Então parece que a conversa com a Verônica provocou alguma mudança em mim. Realmente, fiquei sem paciência de ficar cogitando se ele está mentindo ou não, mas, a forma como ele adivinha as coisas me irrita.

— Sim, aconteceu, mas não te diz respeito. — Respondi. — Você parece saber muito sobre nós, mas, em troca, não sabemos nada sobre você. Vinícius havia dito que você morava em outro estado, quando na verdade, você estava bem na nossa cara.

— Eu menti para ele, tive os meus motivos. Eu também tenho sentimentos, sabia? Na verdade, eu diria que eu sou a pessoa que mais têm sentimentos nessa história toda, mas, não preciso falar disso com você. — Falou.

— Certo, eu entendi. — Falei.

— A Verônica está aí, certo? Pode passar pra ela? — Indagou o garoto.

E então, passei o celular para a Verônica, que fez uma cara de dúvida assim que percebeu que ele queria falar com ela.

— Alô, sou a Verônica. — Disse a garota. — Sim... Por que...? O Gabriel também...? Entendi... Você possui mais algo para postar e estragar a vida do Vinícius? ...Então se eles não forem amanhã, você fará isso, não é? Que chantagem... E se fizermos uma emboscada para você? Isso não te deixa apreensivo? Tch. Pode deixar, eu já entendi.

— E então, irei desligar agora, com isso encerro este tópico com nove itens. Espero que tenha entendido direito. — Falou Daniel.

— Eu entendi, eu entendi. — Afirmou Verônica.

— Foi muito bom ter uma conversa civilizada com vocês, mal os conheço mas já os adoro por causa disso. Espero que amanhã seja assim, por igual. Agora irei desligar, see ya. — Concluiu o menino.

— O que ele falou, Verônica? — Perguntei.

— O oitavo item do tópico foi sobre as pessoas que deverão ir amanhã. Ele exigiu apenas o Gabriel e o Vinícius. Já o nono, foi sobre as coisas do Vinícius que ele ainda tem sob domínio. — Respondeu Verônica. — E você? O que ele te disse?

— Itens de tópico... Você ligou para isso? Era só dizer normalmente. — Falei.

— Achei que seria mais certo dizer da forma que ele instruiu. Não teve motivo em especial. — Disse ela.

— Ah... Tudo bem. Ele me confessou que ele é de fato o Daniel, e ao mesmo tempo, FourAfternoon Bridge. Ele também disse que não possuiu cúmplice direto, mas que o Kaio o ajudou indiretamente. — Contei.

— Mas quais os números dessas coisas no tópico? — Indagou ela.

— Esqueça o tópico, Verônica.

— Por que?

— É inútil.

— Mas se falar nos iten...

— Sem tópico.

— Tá bom. — Afirmou ela.

Essa garota, ela é meio idiota as vezes, não?

E então, compartilhei com Verônica as coisas que o cara disse. Pedi também para ela mandar mensagens para o Vinícius e para o Gabriel, explicando sobre o ocorrido, mas nenhum dos dois estava online no momento. O que será que eles estavam fazendo?

Continua no capítulo 26.