Eu estrelo você
26 Estrela instável
Notas iniciais
Gabriel POV
13:09, sexta-feira.
— NÃO! SERÁ QUE NÃO DÁ PRA VOCÊ VER UM POUCO DO MEU LADO? EU SOU UMA VÍTIMA AQUI! NADA DISSO FOI FEITO PORQUE EU QUIS, FOI TUDO FEITO CONTRA A MINHA VONTADE E POR MINHAS COSTAS! EU ESTOU SOFRENDO NA ESCOLA, NO BAIRRO, EM TODO OS LUGARES QUE EU PASSO E HÁ ALGUM CONHECIDO MEU! TODO MUNDO TÁ ME ZOANDO E TIRANDO UMA COM O CARALHO DA MINHA CARA! TUDO POR CAUSA DESSA MERDA DE VÍDEO! — Gritou o Vini, chorando e chorando. Ele chorava tanto que estava extremamente vermelho.
— ISSO TUDO É RESPONSABILIDADE SUA! FOI VOCÊ QUEM FICOU FAZENDO AQUELAS OBSCENIDADES E MANDANDO PROS OUTRU VINÍCIUS! ESTAVA PARECENDO UM VÍDEO PORNÔ! VOCÊ NÃO TEM VERGONHA? SUA MÃE CHOROU DEMAIS AQUI ONTEM, EU CHOREI COM ELA, SEU AVÔ CHOROU JUNTO, NINGUÉM SABE ONDE É QUE A GENTE ERROU NA SUA CRIAÇÃO! VOCÊ É UM MENINO DA IGREJA, VOCÊ ACOMPANHA O CULTO, ENTÃO DEVERIA TER PELO MENOS UM SENSO! — Exclamou a vó dele, Maria.
Neste momento cheio de desespero, estou sentado no sofá da sala, enquanto olho para baixo e apenas escuto os três que estão em pé à minha frente discutirem: Vini, a vó do Vini (Maria) e Isabel.
É, não faz muito sentido eu estar aqui, não estou ajudando em nada. Infelizmente, posso ser bom pra conversar mas não para gritar. Gritar está fora de cogitação, não mesmo, minha voz não é boa para essas coisas. Será que eles não poderiam sentar e conversar normalmente? Preciso fazer alguma coisa, mas francamente não sei como me envolver na gritaria agora. Acho que vou esperar o fogo baixar.
— MARIA! CALMA! PENSA DIREITO! O VINÍCIUS É UM GAROTO, ELE TÁ NA ADOLESCÊNCIA, ELE PRECISA SE EXPRESSAR DE ALGUMA FORMA, NÃO É? TODO MUNDO ENTRA NA PUBERDADE, TENHO CERTEZA QUE ATÉ MESMA TU JÁ TEVE ESSES MOMENTOS DE MAIS ATIVAÇÃO SEXUAL, PORQUE TODO MUNDO TEM! — Exclamou Isabel.
Ah, ela está falando coisas certas, mas utilizando algumas palavras e pronomes errados. Que coisa, meh...
— E DAÍ? EU NUNCA FIZ VÍDEO PARA NINGUÉM E EU SÓ ME ENTREGUEI DESTA FORMA PARA A PESSOA CERTA! — Gritou Maria.
— TENHO CERTEZA QUE NA SUA ÉPOCA NÃO EXISTIAM VÍDEOS TAMBÉM! — Gritou Isabel.
— Ahhhh!! — Vini deu um berro e se sentou com tudo no sofá bem ao meu lado, com as mãos no rosto enquanto chorava e soluçava.
Hesitei em abraçá-lo e confortá-lo. Apesar de ser o momento ideal para fazer isso, ao mesmo tempo, não era o momento ideal para se fazer isso. A discussão não havia acabado, e eu sei melhor do que ninguém como o Vini odeia contato físico em público. Se bem que talvez ele esteja mais aberto pra isso ultimamente, comigo, mas não em frente à família, e eu entendo isso. Não irei me sentir mal.
— ISABEL! O VINÍCIUS GOSTA DE HOMEM! — Exclamou Maria.
— EU SEI DISSO DESDE QUE CONHECI ELE E NUNCA JULGUEI ELE POR ISSO, A ORIENTAÇÃO SEXUAL DELE NÃO INTERFERE NO CARÁTER QUE ELE POSSUI, E COMO EU JÁ DISSE, AQUILO DO VÍDEO FOI UM A-CI-DEN-TE!!!! NÃO FOI CULPA DELE! FOI CULPA DO CARA FILHA DA PUTA QUE PEGOU E ESPALHOU! O VINÍCIUS É A VÍTIMA, E ELE ESTÁ SOFRENDO MAIS DO QUE QUALQUER UM POR CAUSA DISSO!
— VOCÊ JÁ FALOU ISSO ISABEL, E EU JÁ ENTENDI!
— SE JÁ ENTENDEU, ENTÃO POR QUE CONTINUA JULGANDO ELE? BRIGANDO COM ELE? VOCÊ É PRECONCEITUOSA QUE NEM A MÃE DELE! JULGA ISSO COMO ALGO ERRADO! TUDO POR CAUSA DA IGREJINHA DE VOCÊS! — Exclamou ela.
Isabel falou da forma errada. Essa não, isso vai deixar a Maria mais brava ainda...
— Calma, o que a Isabel quis dizer foi que a igreja... — Eu fui falar, mas a Maria me interrompeu com um intenso grito.
— NÃO VENHAM FALAR DA MINHA IGREJA! DEUS É UM SÓ! E O QUE TÁ NA BÍBLIA É SAGRADO! VOCÊS... VOCÊ TAMBÉM GABRIEL, VÃO TODOS...
— PRO INFERNO?! VAI VOCÊ PRO INFERNO, E MINHA MÃE TAMBÉM! VAMOS A FAMÍLIA INTEIRA! — Gritou o Vini, se levantando do sofá e indo em direção à porta da cozinha que dava ao quintal. Ele provavelmente iria sair da casa.
— VINÍCIUS, ESPE... ESPERA! — Exclamou Isabel, indo atrás dele.
— E VOLTA LOGO! VOCÊ VAI ESPERAR SUA MÃE CHEGAR PRA TER UMA CONVERSA SÉRIA COM ELA! NADA DE DORMIR NA CASA DOS OUTROS! — Gritou a Maria.
E então, ficamos apenas eu e ela lá dentro.
Mas que situação, ela está muito alterada. Dá pra ver só de olhar pra ela. O pior é que eu não sei bem o que fazer, não sei o que dizer para ajudar, não sei mesmo como tentar mudar o conceito dela.
— E você, levanta daí, a gente cuidou de você por um tempo mas não pense que já pode chegar tomando conta de tudo não. A nossa família ninguém vai mudar, e ninguém vai se intrometer nela. Nós somos assim. — Disse ela.
— ...Não, nem todos vocês. O Vini não é "assim". — Afirmei, enquanto me levantava do sofá e ia até a porta da cozinha. — E então, o que vocês vão fazer? Irão se livrar dele? Expulsá-lo da família por ser do jeito que é? Irão abandoná-lo no momento mais difícil, e em que ele é rejeitado por todos? Isso é mesmo algo que uma avó faria?
— SAI DAQUI!
— Maria, você não é como a mãe dele, você é diferente. Eu tenho certeza que você ama demais ele, pois sei que vocês dois sempre foram unidos desde a infância dele, e então, após conviver tão próximo a ele por tanto tempo, não era você a pessoa quem mais sabia sobre isso o tempo todo? — Indaguei, enquanto saía de lá e ia em direção ao portão que levava pra fora, atravessando o corredor escuro da casa do Vini.
O Vini é o garoto que eu amo. Ele é aquele quem foi meu melhor amigo por anos consecutivos, e também, aquele pelo qual eu me apaixonei. Mesmo após perder a memória, o sentimento que eu tinha por ele permaneceu. Será que o amor que eu sinto por ele é aquele tipo de amor que dizem ser eterno? Será que amarei ele até mesmo enquanto for velhinho? Isso seria muito bom e emocionante, só que, eu nunca senti nada por outras pessoas antes há não ser o Vini. Será que está certo eu me apaixonar por ele e ficar assim pela vida inteira? Ele não gostou apenas de mim, ele teve outros garotos na vida dele e apenas agora está me dando sinais verdadeiros de amor.
Não sei, parece bom demais para ser verdade. Eu sei que eu o amo, e não considero o fato de nunca ter me apaixonado por outra pessoa como um problema, mas, me sinto um pouco com ciúmes quando penso que os lábios dele já tocaram os de outra pessoa antes. Eu nunca beijei ninguém ainda, sou um total inexperiente e ao mesmo tempo tenho medo de que o Vini possa parar de me amar. Aliás, conhecendo ele, eu diria que as chances disso acontecer não podem ser nenhuma outra além de 100 em 100. Eu acho que... Eu acho que não consigo confiar direito nele. Eu tenho medo, insegurança, ainda mais com essa situação familiar. O Vini normalmente já teria sido quebrado por causa dessas coisas, mas fui eu quem o salvei, não foi? Será que quando todos esses problemas passarem e a gente estiver bem, ele irá partir para outro? O que acontecerá comigo numa situação dessas? Será que eu vou conseguir viver sem o amor do Vini? Será que eu vou conseguir suportar ficar longe dele, enquanto ele estará com outra pessoa?
...
...
...
...
— Ai... — Murmurei, enquanto parava em meio àquele corredor escuro e me agachava no chão.
De repente, senti uma forte tontura e tudo começou a se apagar. Já não bastava o corredor ser escuro, acabou tendo que ficar mais ainda.
Minha cabeça não parece estar muito boa depois de tudo. Eu sei sobre aquilo, e na verdade eu estive ruim por um longo, longo tempo.
— Eu já estava com dor de cabeça antes, mas isso agora... Arg, odeio pensar nessas minhas dores. Descansei por alguns minutos, mas logo saí daquele corredor.
Na calçada, procurei por ele e Isabel mas não os encontrei. Eles devem ter entrado na casa da mãe dele. Como ela ainda não voltou do serviço, imagino que eles estão lá para conversar e esvaziar um pouco a cabeça do ocorrido com a Maria. A casa da mãe do Vini fica do lado da casa da Maria, as duas são vizinhas.
Estendi meu braço pelo vão entre os ferros do portão e o abri por dentro, adentrando a casa em seguida.
Diferente da casa de Maria, esta possuía uma grande garagem e uma porta que dava à uma escada. A casa da mãe do Vini ficava nesse andar de cima, após subir a escada. Era um local bem espaçoso e bonito. Já a casa de baixo, se eu não me engano, era alugada. Não sei ao certo, nunca cheguei a conhecer as pessoas que moravam ali e também nunca despertaram a minha curiosidade a ponte de perguntar para o Vini.
Subindo aquelas escadas, permaneci pensando no futuro.
No futuro.
No meu futuro.
No futuro do Vini.
No nosso futuro.
Ou talvez não.
Devo estar preparado pra quando o Vini deixar de me amar e perceber que o que ele sentia foi apenas uma paixão do momento, ou talvez, paixão vinda de um arrependimento pelas coisas que ele fez. Devo ficar forte, não posso me quebrar de novo, aquilo é horrível. Minhas mãos ainda estão enfaixadas por causa dos ferimentos com o espelho aquele dia e elas doem as vezes.
Preciso de toda a força do mundo para me manter firme, e a cima de todos, eu preciso evoluir. Se o Vini der outra mancada, não sei se vou ser mais capaz de perdoá-lo. Mesmo que eu o ame no fundo do coração após isso, será um amor baseado em arrependimento e tudo que restará por cima dele será uma raiva profunda.
Ou talvez não, dependendo do que acontecer, eu posso entender e eliminar a parte da raiva. Sinto que posso ser extremamente rancoroso com algumas coisas.
Vini me fez coisas cruéis quando eu estava mal da cabeça. Ele me esqueceu tomando chuva e me disse coisas horríveis. Eu não me esqueci de nada disso e ainda me irrita lá no fundo. Penso que posso suprimir todas essas coisas negativas com amor, e que elas vão sumir eventualmente um dia devido às boas memórias que iremos ter, mas... Tenho certeza que algo ruim virá, afinal é o Vini.
Uma situação em que ele me ame de verdade e fique comigo pelo resto da vida, é apenas um Jackpot que será difícil de cair para mim.
Naquele momento, enquanto pensava e pensava, senti como se estivesse subindo uma escada sem fim, como se fosse aquela dimensão dos espelhos do Dr. Espelho. Uma dimensão cheia de escadas distorcidas que levam à lugar nenhum.
Aliás, é uma ótima comparação. Eu acredito que meu sentimento pelo Vini desde o começo foi como uma escada sem fim; algo que leva à lugar nenhum. Pelo menos, minha parte consciente.
Fim da análise.
Fim dos pensamentos.
Assim que cheguei lá em cima, vi a Isabel sentada no sofá com o Vini deitado sob seu colo. Parece que ela roubou o meu momento............................... Mas tudo bem...
— Falei com a Maria antes de vir. Aconselhei ela, mas ela me mandou embora. Não sei se ela vai me ouvir ou não. — Falei.
— Relax, é a Maria, no fim ela sempre escolhe o Vinícius. Acho que vai levar um tempo pra ela ficar de boa sobre isso, mas um dia vai. — Disse Isabel.
— Vini, quero que venha dormir na minha casa hoje de novo. — Convidei.
— Minha vó falou para eu não ir... — Murmurou ele.
— Eu sei, mas acho melhor você desobedecer ela desta vez. Não vai ser saudável pra você ficar em casa esta noite, ainda mais porque quando sua mãe chegar, vai rolar algo sério e eu não poderei estar aqui pra te ajudar, nem a Isabel.
— Mas Gabriel, mesmo que ele durma na sua casa hoje, não vai adiantar. Só vai adiar o inevitável e ficar se esquivando vai ser pior ainda. Vinícius, fique em casa e lide com sua família sozinho desta vez. A realidade é que você terá que fazer isso lacraia, eu e o Gabriel já ajudamos com o que pudemos. — Disse ela.
— Realmente, você está certa Isa, desculpa. Eu fiz uma sugestão ruim. — Afirmei.
— Beleza. — Disse ela.
— Bibi, pega o notebook da minha mãe? — Perguntou o Vini.
— Bibi? Eu?
— Aham.
— Você... Você só está me chamando assim para eu pegar o coiso pra você, não é?
— Não, eu vou te chamar assim a partir de agora. — Disse ele.
— Por que? — Perguntei.
— Sei lá, acho fofinho. — Respondeu.
— HAHAHAHAHA, vai lá Bibi, pega o note. — Falou Isabel.
— A-achei i-injusto... Hunf... — Falei, indo até o quarto da mãe dele e pegando o note que estava carregando em cima da cama.
Após pegá-lo, levei-o até o Vini, que por sua vez levantou-se do colo da Isabel para fazer o login.
— A Verônica me mandou uma mensagem. — Disse ele.
— Verônica? Será que é sobre o...
— Aham, vem ver. — Disse Isabel, que já estava olhando.
Me sentei ao lado dos dois e li as mensagens da Verônica no Facebook do Vini, junto com eles.
— Daniel... Vini, você não tem mais esse Daniel em nenhuma rede social? — Perguntei.
— Não né, pelo menos eu pensei que não tivesse, mas pelo jeito tinha aquele fake dele lá adicionado na lista. — Respondeu.
— Ele quer que vá vocês dois, mas por que o Gabriel? Você conhece ele? — Perguntou Isabel.
— Não, eu só vi ele hoje na escola.
— Aff, to vendo que vai dar merda. — Disse o Vini.
— Entendi, então ele sabe um pouco sobre nós dois e vai ficar jogando algumas coisas sobre você na minha cara. — Falei.
— Bem isso.
— Vini, você é um tarado.
— Você que é inocente demais, acho que a gente nunca conseguiu ter uma conversa de sexo direito. — Disse ele.
— B-b-bom, é q-que eu tive vergonha, m-mas se você quiser.. — Falei, mas fui interrompido por ele.
— Eu já tive muitas conversas assim com o Dan, já rolou até nudes. — Disse ele.
— Nudes?? Putz, dessa eu não sabia. — Falou Isabel.
— Ele te mandou nudes também Vini? — Perguntei.
— Não...... Só eu. — Respondeu.
— Sua anta. ANTA! — Exclamou Isabel.
— Mas parece que a Verônica já está bem ciente das nudes pelo que ela está dizendo aí agora. Daniel deve ter falado. — Falei.
— ENTÃO, está tudo bem? — Perguntou o Vini.
— Tudo bem o que? — Perguntou Isabel.
— Não com você, com o Gabriel. Mesmo sabendo de tudo, estará tudo bem? Você vai conseguir encarar o Dan de frente?
Não está tudo bem. Eu odeio isso. Por que você foi tão idiota? Você se deixa levar muito pela aparência das pessoas e pelo lado sexual, apenas isso, aff, foi sempre assim com esses moleques aleatórios e virtuais que você tem tido casinhos, e foi assim com o Gui também, aposto. Foi um milagre que vocês não tenham feito sexo considerando como você é.
— Sim, está sim Vini. É um pouco difícil mas eu consigo, e você? Você vai conseguir encarar ele mesmo depois de tuuudo? — Indaguei.
— Aham. — Afirmou ele, de forma seca.
Isabel então desviou o olhar do notebook em direção a parede, permanecendo em silêncio.
— Quantos problemas... Não é? E ainda tem a sua mãe hoje a noite... — Murmurou Isabel.
— Pois é. — Disse ele.
Fiquei em silêncio. Depois disso, o clima entre nós três ficou pesado e não sabíamos direito como puxar um assunto ou nos encarar. Toda aquela situação pesada estava nos esmagando, e essa era a verdade. Mesmo depois do drama de quase termos nos matado hoje de manhã na escola, parece até que essas coisas de agora são mais pesadas do que aquilo.
É muita coisa ruim para um dia só, é muito peso para nós aguentarmos. Parece que não sou apenas eu, mas, todos nós estamos exaustos psicologicamente. Exceto o Pedro, o Pedro é "de boa" pra tudo. Ele foi embora junto com o Guilherme hoje, eu não sabia que os dois eram amigos.
Fomos pra casa logo em seguida, eu e a Isabel. Amanhã seria um dia tenso; o dia em que eu e o Vini iríamos encontrar o Daniel cara a cara.
De noite, pude ter uma boa noite de sono, porém, tive um pouco de dificuldade pra pegar no sono assim que deitei na cama. Estava me sentindo ansioso e ao mesmo tempo, com medo. Era como se meu estômago pesasse devido à absurda quantidade de estresse que tive num único dia. Nem mesmo parece que eu e o Vini tivemos um momento tão próximo e com final feliz. Ao mesmo tempo, a dor de cabeça que eu tinha continuava atordoando minha cabeça, como se houvesse um sambista dentro do meu cérebro tocando um pandeiro a cada segundo.
Sábado, às 15:35.
Me encontrei com o Vini em frente à estação de trem da cidade. Dali iríamos seguir a avenida até chegar à rua que dava acesso ao viaduto.
— O que você acha que vai acontecer quando nos encontrarmos com ele? Você acha que poderia acontecer alguma coisa de inesperada, Vini? Já falamos isso pelo Face ontem a noite, mas, marcar um encontro em cima de um viaduto é um pouco assustador. E se ele for algum tipo de maníaco que quer nos jogar de lá de cima? — Perguntei ao Vini, enquanto andávamos lado a lado pela calçada da avenida.
— Já pensou, credo, aí a gente morre ué. — Respondeu ele.
— Você não consegue dizer se ele é ou não capaz disso, né...? — Indaguei.
— Não consigo, eu percebi que não conheço e nunca conheci o Dan. Se bem me lembro, a gente só conversava sobre você sabe o que. — Disse o Vini, enquanto parava de andar, se agachava e amarrava seu cadarço.
— ...Ah, sobre isso Vini... — Murmurei.
Se pararmos pra pensar, a responsabilidade de tudo isso é mesmo do Vini, assim como a Maria falou. Claro que nada muda a culpa que o Daniel teve sobre publicar aquelas coisas, mas o Vini, de certa forma, foi ele quem permitiu que isso acontecesse. Ele mandou nudes para um garoto estranho, vídeos e tudo mais, tudo para satisfazer seus desejos sexuais. Se ele fosse mais reservado, e se ele tivesse me amado desde o começo, nada disso teria acontecido.
— Nada, deixa. — Falei.
— FALA! — Exclamou o Vini, dando o laço final em seu cadarço. E então, voltamos a andar.
— Eu ia dizer que você deveria ter conhecido melhor o Dan, antes. — Menti. — Mas sabe, estou um pouco assustado com o que ele pode fazer, então estou levando comigo alguns artigos da papelaria.
— Artigos de papelaria? — Indagou ele.
— Grampeador, estiletes, canetas, lápis com pontas afiadas, réguas, transferidores, compasso. — Respondi.
— QUEEE? TUDO ISSO?! — Perguntou ele, arregalando os olhos e levando seu olhar à meu corpo. — AONDE VOCÊ TÁ LEVANDO ESSAS COISAS?!
— Os lápis e canetas estão nos bolsos. As réguas estão de baixo da camiseta, presas ao meu shorts. Os transferidores estão de baixo das minhas mangas. O grampeador está no meu bolso de trás, junto com dois estiletes. — Expliquei. — O compasso você não precisa saber onde está.
— Como é que você vai catar tudo isso se precisar? Que coisa retardada. — Disse ele.
— Estava brincando, não estou trazendo artigos de papelaria. — Falei. — Trouxe apenas um estilete comigo e uma outra coisa que o Nell me deu.
— Logo o mais perigoso! Tu tá querendo matar o cara?! Se você virar um assassino e for condenado vai ficar difícil da gente namorar, sabia? — Perguntou ele.
— M-mas não estamos namorando ainda Vini, e eu não vou matar ninguém, há não ser que ele seja obediente.
E então, Vini entrou na minha frente e parou no meio do meu caminho, com a mão estendida em minha direção.
— Me dá esse negócio. — Pediu ele.
— ...? Por que?
— Você não precisa disso. — Afirmou.
— Mas e se ele tiver alguma arma e vir pra cima da gente? A gente não conhece o tal Daniel, se esqueceu Vini?
— Se ele tiver uma arma, a gente dá um jeito com as mãos livres mesmo, ou então, morremos. — Respondeu.
— Você... Está falando sobre morrer de um jeito muito espontâneo. Se esqueceu do que vivemos ontem?? Se esqueceu das coisas que conversamos?? Tenha mais valor por sua vida, Vini! Não podemos desistir agora. — Falei.
— Acho que você só está pensando demais, anda vendo muito anime por acaso? Você tá considerando a pior das coisas cara, relaaaxa, eu pelo menos acho que o Dan não vai fazer nada com a gente.
Eu só estou preocupado e com medo, além de querer proteger à nós dois.
Suspirei, e então entreguei ao Vini o estilete que eu levava no bolso.
— Feliz?
— Não. — Respondeu ele. — Seu maníaco.
— Eu não sou um maníaco Vini!
— Então o que você é?
— Um garoto fofinho, inteligente e que faz tudo por você. — Respondi.
— Que auto estima é essa?! Então é isso que você pensa de si mesmo?!
— Nope, estou brincando. — Afirmei.
— Ah, ufa.
— Mas por que? Você não me acha fofinho, Vini? — Perguntei.
— O importante é ter saúde! E você é inteligente! — Respondeu.
— ..................................................Ah... — Murmurei, enquanto desviava o olhar em direção ao chão.
— CALMA! CALMA! NÃO PRECISA CHORAR, EU TAVA BRINCANDO!
Toda brincadeira tem um fundo de verdade. Tenho certeza que o Vini não me acha fofinho mesmo e acabou deixando escapar aquilo sem querer.
Eu também não me acho fofinho, mas, queria que pelo menos ele achasse. Queria que ele gostasse da minha aparência física também, assim como do meu interior. Sei que o Vini vai muito pela aparência das pessoas e se seguirmos esse jeito dele, então faz até sentido o porquê dele nunca ter gostado de mim antes.
Vini gosta de caras mais altos, com corpos bem definidos. Em suma, ele gosta de gays genéricos e safados. Eu sou ligeiramente menor do que ele e bem magro, além disso, eu não tenho nem um pouco de bunda. Estou longe do tipo bem definido. Acho que minha única alternativa será mudar o meu corpo pra satisfazer o Vini, terei que começar isso logo. Talvez, se eu fizer isso, ele não irá me abandonar.
— Eu não vou chorar por causa disso, eu não sou uma criança... — Falei.
— Mas tu chorava antes.
— Antes, quando?
— Antes, sempre. Desde que você começou a gostar de mim. Muitas coisas que eu dizia ou fazia te fizeram chorar várias vezes, não foi? — Perguntou ele.
— Ah, é verdade, mas já passou. Eu não choro mais agora.
— Chora sim, seu signo é câncer.
— Não acredito em astrologia, seu escorpião. — Falei.
— Os cancerianos são frágeis, temperamentais e chorões. — Disse o Vini.
Que saco, eu realmente acho inútil falar sobre signos. Como podem haver pessoas que acreditam nessas merdas?
— E os escorpianos são comos? Só pensam em sexo? — Perguntei, de forma grossa e com o intuito de fazer ele parar de falar naquilo.
— Sim. — Respondeu.
— Sim?!
— Aham, os escorpianos são safados.
Será que a astrologia nunca mentiu por todo esse tempo?! Caí do cavalo! Eu esperava que o Vini entendesse minha grosseria ao chamá-lo de pervertido, mas parece que ele não entendeu que eu estava meio que jogando na cara dele sobre a maneira que ele agia antes com aqueles meninos.
— M-m-mas Vini... Apesar de eu não gostar dessas coisas, sei que astrologia não fala apenas dos signos, certo? Ela também envolve a posição dos astros, como "A lua disso naquilo" e "Vênus nisso e aquilo". — Falei.
— Verdade, mas disso eu também não sei. — Disse ele.
— Ascendente! Também tem um ascendente! Qual é o seu ascendente? — Perguntei.
— Não sei cara, o que é isso? — Perguntou ele.
— ...Não sei ao certo também, mas acho que é tipo um segundo signo que... Err... Sei lá? — Respondi. — Você quem devia saber Vini! Você quem gosta dessas coisas!
— Não pesquisei a fundo, preguiça.
— Poser. — Aposto que ele só vê as coisas dos signos no Face e sai falando deliberadamente.
— Pelo menos agora que catei seu estilete, te impedi de soltar aquele seu lado maníaco. — Falou.
— Eu não tenho um lado maníaco, quem tem um lado assim é a Márcia. — Eu disse, enquanto continuava andando ao lado dele e coçava os cabelos.
— A Márcia tem mesmo, ela parece um esquilo fofo e lindinho normalmente, mas quando ela fica brava...... CAAARA, ELA BATEU MINHA CARA NUM ESPELHO. — Disse ele. — O signo dela é gêmeos por acaso?!
— É virgem. — Respondi.
— Nunca mais quero ver o lado maníaco da Márcia de novo. — Comentou o Vini.
Do jeito que a Márcia te odeia atualmente, é bem capaz que veja.
E então, imaginei a Márcia parada dentro de uma igreja com os braços abertos, enquanto milhares de cacos de vidro de espelho caíam por cima dela. Ela estava sorrindo e com uma cara de maníaca.
Após parar de deixar a imaginação fluir, desviei meu olhar ao Vini e percebi que ele estava pensativo.
— Você tá viajando sobre a Márcia também?!
— Quê?
— Que?
— Hã?
— Está?
— O que?
— Imaginando a Márcia?
— HAHAHAHAHAHAHAHA, como você sabe? — Perguntou ele.
— Eu também pensei algo parecido. — Respondi.
— O que você imaginou?
— Nada, deixa.
— FALA!
— Olha, nós já chegamos. — Falei, enquanto virávamos a calçada da avenida e começávamos a subir uma rua que daria à entrada ao viaduto.
— É, eu to vendo, mas fa... — Ele ia dizer, mas eu o interrompi.
— Que horas são, Vini?
Vini então, olhou em seu relógio no pulso e falou que já era 15:51.
— Vamos chegar um pouco adiantados. — Falei. — Se prepara, Vini. A tarde vai ser longa.
— Espera. — Disse o Vini, cessando seus passos no meio daquela subida.
— O que houve?
— Antes de irmos, precisamos conversar sobre uma coisa.
— O que? — Perguntei.
— Sobre eu e o Dan. — Respondeu ele.
— ...? Aconteceu algo que eu não saiba? — Perguntei, de forma hesitante.
— Não, não é isso. Você já sabe de tudo, mas, eu só quero garantir uma coisa. — Respondeu o Vini. — Bibi, eu não quero te magoar mais do que eu já magoei, e eu não quero te trazer mais problemas do que eu já trouxe. Já falei, não é? Chega de palhaçada, eu preciso de uma mudança própria. A Maria tem razão, tudo isso foi culpa do meu jeito de ser e eu já aceitei que eu fui errado.
— Hm... — Ouvi atentamente, enquanto ele se abria comigo.
— Eu quero saber se você está pronto pra ouvir tudo da boca do Dan, tudo sobre o que ele e eu conversamos e fizemos, estou com a sensação de que ele vai deixar tudo explícito a ponto de querer diminuir nossa aproximação. — Falou Vini. — E eu sei que já perguntei isso antes, mas pergunto de novo agora. Eu quero ter certeza que isso não irá te fazer chorar de novo.
Então é isso que ele esteve pensando? Ele se preocupa comigo mesmo? Ele tem medo que eu fique mal com tudo isso?
— Não se preocupa Vini, eu já disse que não choro assim, eu não estou mais...... Doente. — Falei, enquanto enrolava um cachinho que caía sob minha testa em torno do meu dedo.
— Então tá, tomara, porque se não fosse assim, eu iria preferir voltar e ir embora daqui.
— Mesmo que ele publicasse tudo o que ainda tem de você? — Perguntei.
— Sim, mesmo que ele fizesse isso, não importa. Contanto que eu tenha você no fim das contas, não fará a menor diferença eu perder uma, duas, três ou mil pessoas. — Respondeu ele.
O Vini estava... O Vini disse... O mesmo que eu já falei à ele no passado. Eu sempre valorizei ele à cima de todas as outras pessoas, e para mim, nada importava contanto que eu tivesse ele.
No entanto, eu o perdi inúmeras vezes. Mesmo ele sendo o mais importante, e ao mesmo tempo o único para mim, eu o perdi e fiquei sozinho, repleto de desespero e mágoa. De certa forma, a culpa foi minha, eu fui completamente ingênuo. Eu não dei valor ao que eu podia ter caso quisesse, e nem ao que eu tinha. Eu não dei o valor adequado à Márcia naquela época, e agora... Não estou mais falando com ela.
Agora que percebo, eu mudei drasticamente nesse último mês. Tanta coisa aconteceu uma após a outra que não tinha como eu continuar igual.
Atualmente, eu amo o Vini, mas não é da mesma forma que antes. Eu não o valorizo a cima de todos, ele não é mais o único na minha vida e depois de tanto sofrer nas mãos dele, eu sei que vou perdê-lo mais um vez, mesmo com ele falando essas coisas agora.
Eu não tenho mais confiança alguma, mas claro, isso seria diferente se ele me provasse o contrário.
O que eu penso sobre isso agora, é que o Vini não se tornou igual ao meu eu passado. Isso é impossível, porque eu e ele somos diferentes e ele nunca poderia ser que nem eu. Mesmo tendo dito agora que eu sou o único para ele, eu sei que isso é uma mentira do momento. Ou seja, ele acha isso agora devido à toda situação, mas, quando tudo passar, ele não vai achar mais isso.
Sei que o Vini nunca poderia me dar esse privilégio, nunca, e mesmo que desse, eu já acharia algo erra... Não, não, eu estou errado sobre mim mesmo.
A verdade é que eu não mudei nem um pouco desde o passado. Até mesmo agora, eu só continuo dando valor ao Vini a cima de tudo. A prova disso foi a nossa conversa de ontem, e também, porque eu estava pronto para morrer junto com ele. Eu estaria jogando todos fora unicamente por ele.
Parece que eu ainda sou assim, extremamente burro e louco, mesmo sabendo que irei perdê-lo. Droga....
— Entendi. — Respondi friamente.
— Que seco............ — Falou ele.
— Me desculpa Vini.
— Geralmente você não é assim, pensei que iria pular de alegria por eu ter dito isso. — Disse ele.
— Talvez eu pulasse mesmo, mas agora eu estou confuso sobre mim. — Falei.
— Tudo bem, de boa. — Disse Vini. — Agora vamo lá.
E então, subimos no viaduto e fomos andando pela calçadinha do mesmo. Ele só possuía lugar para os pedestres andarem de um único lado, então não haveria risco do Dan estar ao outro lado da avenida por exemplo.
Se ele estivesse mesmo ali, com toda a certeza nos encontraríamos.
O viaduto da cidade que passa por cima da linha de trem é curvado, ele não é reto, e talvez foi por isso que conseguimos ver a figura de alguém parado logo à frente com mais facilidade; a figura de um garoto de cabelo avermelhado e blusa xadrez. Ele estava olhando para baixo, de frente para as grades.
— É ele, Vini.
— To vendo.
Assim que percebeu que estávamos chegando, Daniel virou para o nosso lado e ficou nos observando enquanto andávamos.
Fomos até perto dele, bem perto, ficamos à apenas 2 metros de distância dele.
— Vocês demoraram, eu estava cansado de esperar. — Afirmou Dan, ou FourAfternoon Bridge.
Continua no capítulo 27.
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