Eu estrelo você

27 Estrela carmesim


Gabriel POV

Sábado, às 15:54

Daniel, ele é excepcionalmente bonito. Me encontrei com ele ontem, mas agora que o vejo melhor, ele é lindo demais. Não sei como pode existir uma pessoa tão bonita assim na nossa escola. Isabel, Márcia, Verônica e Guilherme são bonitos, mas estão no nível normal. Nell é um garoto bonito também, mas ele está no nível raro. Vini não é tão bonito assim, diria que ele é mais ou menos, assim como eu. O Pedro é bonito no nível alto, acho ele lindo demais, no entanto, Daniel o supera.

Claro, é apenas minha opinião, tenho certeza que haveriam pessoas que os veriam na rua e considerariam tanto o Pedro quanto o Daniel no nível normal em quesito de beleza, mas, mesmo assim, já dá para se saber o porquê do Vini ter sido pervertido com esse Daniel.

Opa, não, isso está errado. De acordo com o Vini, ele não recebeu fotos do Daniel. Nem nudes e nem fotos normais. Também, se ele já tivesse visto o Daniel em foto, teria conseguido reconhecê-lo na escola. Mas o estranho é isso, pelo que falaram, ele estuda nossa escola já tem um tempo mas eu não me lembro de ter visto ele antes. Com essa beleza, ele certamente atrairia o olhar de todo mundo; da Verônica, do Pedro, do Gui, da Márcia, do Vini e até mesmo meu.

Ele é amigo do Kaio, certo? Mas nunca vi os dois conversando na escola, também. Kaio costumava ficar na biblioteca comigo e com a Márcia mas nunca vi esse garoto indo lá, em dia algum.

— Cansado de esperar? Nós chegamos alguns minutos antes do combinado, até. Senhor FourAfternoon Bridge. — Disse o Vini.

— Não precisa me chamar assim, me chama de Dani, como costumava fazer. — Falou o garoto de cabelos vermelhos, soltando uma leve risadinha irônica.

— Dani é o meu ovo. — Falou Vini.

— E você, Gabriel Riquelme, parabéns por ter conseguido salvar o Pablinho do suicídio. Eu estava contando com você para fazer isso e você executou o trabalho com perfeição! Se as circunstâncias fossem outras, eu até te daria um ou dois chocolates como agradecimento. — Disse ele.

— Não venha chamando o Vini de Pablinho, e pare com essa ironia. Você não era do tipo que não gosta de enrolação? Então vamos direto ao ponto. — Falei, de forma curta e direta.

— Hhhhhhhhahahaha — Riu Daniel. — Realmente, gosto de coisas diretas e objetivas, no entanto, devido à quantidade de coisa para se falar, mesmo que eu crie um ou dois tópicos ainda será difícil de comentar sobre tudo. Vocês sabiam? Eu odeio conversas, discussões e tópicos detalhados. É muito mais fácil para mim se eu abrir itens e ter uma conversa unilateral.

Do que ele está falando? Me lembro que Nell comentou sobre isso, mas parece mais algum tipo de enrolação. Que menino estranho.

— E o que raios você quer dizer com isso? — Perguntou Vini, que também não havia entendido nada.

— Não importa, mesmo que eu te explique, você não irá entender. Ou melhor, você vai se esquecer. — Respondeu Daniel. — Oh! Isso me deu uma idéia, vamos aproveitar e abrir nosso tópico com o primeiro item se tratando sobre o Vinícius.

— Lá vem falar coisa de mim, é??

Decidi ficar em silêncio, para ver até onde aquilo iria se alastrar. Quando surgisse uma oportunidade, eu poderia intervir.

Levei minhas mãos aos bolsos do shorts e fiquei com elas ali mesmo.

— Primeiro item: Vinícius. Fiquei magoado por perceber que você se esqueceu sobre mim. Você não se lembra dos tópicos que eu criava, nem dos meus hobbies, nem das coisas que eu gostava e nem de nada que eu fazia, não é? — Indagou ele.

Ué, não se lembra? Eu pensava que os dois só conversavam sobre taradisse.

— Não vou ficar me lembrando dessas besteiras sobre você. — Respondeu o Vini. — Não ligo pra tópico, ou pro que você faz.

— ...Tristeza. — Afirmou Daniel, dando um suspiro. — Mas eu já sabia disso. Agora, Gabriel, me conte, o que o Vinícius te falou sobre mim?

Uma pergunta dirigida à mim? Que rápido, pensei que não seria incluído tão cedo no assunto.

— Ele me disse que ele te mandava nudes, vídeos, e que conversavam sobre taradisses. — Respondi.

— E é, isso mesmo. — Afirmou Vini.

— Só isso? Entendi, é realmente uma tristeza. Vinícius, por que não contou para o Gabriel que nós éramos bem unidos? Eu e você conversávamos sobre nos encontrarmos na vida real, sairmos juntos, estudarmos juntos, jogarmos juntos, fazermos tudo juntos. Nós compartilhávamos um com o outro tudo que nós tínhamos para compartilhar e planejávamos inúmeras coisas. — Disse ele. — Então por que, me diga, por que não contou isso a ele?

Tudo isso?! Era ESSE tipo de relação virtual que os dois tinham? Sério? Mas o Vini tinha dito que era apenas conversas sexuais, isso é...

— ... — Vini olhou pra mim e ficou em silêncio por algum tempo. Provavelmente, ele se perguntou o que eu estaria pensando daquilo tudo.

— Não precisa responder essa pergunta, pode deixar que eu respondo por você. — Disse Daniel. — Você não contou ao Gabriel, porque se esqueceu, não foi? Aliás, não, não é como se tivesse esquecido de fato, mas sim, como se tivesse abandonado por conta própria.

— Como assim? — Perguntei.

— Para ele, tudo aquilo foi desnecessário. Tudo que eu e ele vivemos, mesmo sendo virtual, foi desnecessário. Ele jogou para de baixo do tapete todas as coisas amorosas e que se tratavam do futuro, ou sobre mim, e decidiu se lembrar apenas sobre as coisas pervertidas. É porque na realidade, o Vinícius sempre me viu apenas com a intenção sexual. — Respondeu Daniel. — Ele já viu fotos minhas antes, eu já mandei várias, claro, nenhuma nude, mas fotos normais, no entanto, ele jogou isso pra de baixo do tapete também.

— Tá, é verdade, e daí? — Perguntou o Vini.

Então era verdade? Entendi... Entendi o que o Daniel está tentando dizer.

— E daí? Não, nada. É apenas algo que decidi mencionar para esclarecer um item futuro. Imaginei que seria bom falar do tipo de personalidade que você tem, ao Gabriel. — Falou ele. — Afinal, nós conversamos por anos seguidos.

— Isso não me deixou tão surpreso. Diferente de você, eu vivi com o Vini pessoalmente durante anos e anos e eu sofri na pele todo esse senso de não valorização que ele tinha perante à mim. Então, eu já sabia que ele é assim. — Afirmei.

— É verdade, não é? Eu não soube muito sobre isso pra ser franco, eu dispensei os detalhes e não tive peças suficientes pra montar o quebra-cabeça da história de vocês, mas imagino que deva ter sido difícil pra você se apaixonar por alguém como o Vinícius. — Afirmou Daniel. — Tristeza.

— Eu não sou mais assim, eu sei que eu não dei valor nenhum ao Gabriel durante todo esse tempo e que eu fiz ele sofrer de mais, mas agora, agora vai ser diferente! Eu dou valor ao Gabriel, por tudo, e eu não me esqueci de nada e nem nunca vou me esquecer. — Falou Vinícius.

— Pra você é fácil falar, agora que está numa situação em que depende dele, mas, queria ver se poderia falar isso caso eu não tivesse publicado vídeo nenhum, e também, se poderá falar isso daqui um ou dois meses quando a poeira do vídeo baixar, as coisas estiverem resolvidas e você não precisar mais do Gabriel Riquelme. — Disse ele.

O Daniel falou algo que eu queria ter falado ao Vini. Ele está certo, eu penso a mesma coisa. Eu não consigo acreditar no amor do Vini por mim mesmo depois de tudo.

— Olha, está vendo? O Gabriel não está te defendendo, então posso crer que ele pensa o mesmo que eu? — Indagou Daniel.

Droga...! Não revele meus pensamentos próprios para o Vini dessa forma, se ele pensar que eu duvido dele, então vai ser mais osso ainda...

O que eu falo?

O que eu respondo?

Invento uma mentira para cobrir isso?

Mas não consigo pensar em nada...

Eu...

— Eu não sei como seria se não tivesse havido o vídeo, e nem como será no futuro que me aguarda, mas eu já disse, e falo de novo. Eu mudei. Não vou mais repetir os mesmos erros, não vou mais perder ou abandonar o Gabriel, ele agora é tudo pra mim. — Falou o Vini.

— Não é fácil como fala mudar a si mesmo, sabia? — Indagou Daniel. — Você fala que mudou seu paradigma, mas... — Ele ia continuar falando, mas Vini o interrompeu.

— "Fácil"? "FÁCIL"? — Indagou o Vini. — CARALHO! ESTÁ DIZENDO QUE TUDO QUE EU PASSEI, FOI FÁCIL?! VOCÊ ACHA QUE É FÁCIL REJEITAR OS SENTIMENTOS SINCEROS DO SEU MELHOR AMIGO? ATÉ MESMO NO PASSADO, EU FICAVA MAL POR ISSO. VOCÊ ACHA QUE É FÁCIL LIDAR COM SUA FAMÍLIA APÓS TER UM VÍDEO PUBLICADO?! VOCÊ ACHA QUE É FÁCIL LIDAR COM SEUS ERROS SENDO SEMPRE ESFREGADOS NA SUA CARA, SEGUNDO PÓS SEGUNDO?! — Exclamou ele. — POIS NÃO! NÃO É FÁCIL! É DIFÍCIL DEMAIS! FOI DOLOROSO! TUDO ISSO FOI! EU CHOREI MUITO! EU BRIGUEI COM O GABRIEL NAQUELE DIA NO PARQUE, EU FIQUEI EM PEDAÇOS E TANTO QUANTO O PASSADO QUANTO O PRESENTE DESABARAM EM CIMA DE MIM! — Vini começou a chorar. — Então... Não f-fala como se tudo tivesse sido fácil, e como se fosse impossível eu fazer algo para mudar. Tudo que você tá fazendo é querendo destruir minhas esperanças.

E então, puxei o Vini pela cintura pra perto de mim, colocando minha cabeça em seu ombro. Continuei com meu braço esquerdo entrelaçado à sua cintura, tentando pelo menos confortá-lo com algo que não fosse com palavras.

— ...Oh, entendi. É, realmente, você pode estar certo, eu sinto muito. Eu falei que um paradigma é difícil de mudar, mas não impossível, e considerando o quão difícil foi tudo que você passou, hm... Talvez você seja capaz de mudá-lo. Se conseguir isso, meus parabéns, você terá uma vida feliz ao lado do Gabriel. — Afirmou Daniel, de forma fria e calculista. — Significa Gabriel, que você não tem alternativa à não ser confiar em que o Vinícius será capaz de mudar. Você ficará totalmente à mercê dele. Está tudo bem com isso?

— Eu sempre estive à mercê dele, então está tudo bem. Eu vou aceitar qualquer rumo que o Vini tomar a partir daqui, de coração aberto. Mesmo que eu seja magoado, mesmo que ele me faça feliz, eu estarei ao lado dele. — Afirmei, sem pensar duas vezes.

— Você ama o Vinícius, não é?

— Não, eu estrelo ele. — Respondi.

— Estrela? — Perguntou Daniel.

— Você não precisa saber o que isso significa. — Respondi.

— Certo, então com isso encerramos o primeiro item. Acho melhor irmos ao segundo, certo? — Perguntou Daniel. — Mas eu me sinto um pouco mal, vocês já estão tensos assim com apenas o primeiro item, hm... Espero não deixá-los pior nos próximos.

— Daniel, tu queria que eu morresse, não é? Você fez tudo isso pra eu me matar ontem, não foi? — Perguntou o Vini.

— Claro que não, eu não queria que você morresse, foi por isso que falei ao Gabriel que você estava lá. — Respondeu Daniel. — Eu publiquei aquele vídeo íntimo na sua linha do tempo, mas, se ele causasse o seu suicídio, eu morreria com a culpa pelo resto da vida. Pode parecer que não, mas eu também tenho sentimentos. Aliás, devo ser a pessoa com mais sentimentos dessa história e isso torna a hora perfeita para abrirmos o segundo item do tópico: Eu mesmo. Vamos falar sobre mim, desta vez.

— Irei contar tudo, desde o começo. O primeiro item não foi unilateral, mas espero que esse seja pelo menos no início. Contarei tudo e vocês podem apenas ouvir, certo? Contarei de uma forma que todas as perguntas que vocês têm sejam respondidas no fim, sem que vocês precisem me perguntar. — Falou Daniel. — Então, vamos lá.

— ...

— ... — Eu e Vini ficamos em silêncio. Naquele momento, Vini me abraçou pela cintura também da mesma forma que eu estava fazendo. Senti seu braço passando por trás de mim e sua mão tocando a lateral da minha barriga, do outro lado. Eu me esqueci o nome dessa região do corpo.

— A relação que eu tinha com o Vinícius já foi contada, no entanto, não contei como eu me sentia em relação à isso; Eu, Daniel Santana. A realidade é que eu não conhecia o fato que ele era superficial e que não ligava para mim, então, fui completamente iludido. Eu, Daniel, sendo iludido, quando descobri isso no fim das contas, fiquei apavorado. Sempre fui do tipo que iludia as pessoas, eu até mesmo pensava ter o Vinícius na palma das minhas mãos, pois fazia ele mandar coisas íntimas e me esquivava quando era eu quem precisava mandar. Menti sobre morar no Piauí porque, na realidade, o meu sentimento pelo Vinícius vinha da vida real. — Disse ele.

Da vida real? Tá, mas o que tem haver? O Daniel já estudava na nossa escola, mas não é como se ele tivesse conversando com o Vini antes, não é?

......

Será que o Vini já foi amigo do Daniel na escola, e se esqueceu?!

Não, não, isso não aconteceu. Me esqueci do fato que eu sempre estive lá. Exato, eu e o Vini sempre fomos um grude desde o começo do fundamental, logo, se ele tivesse conhecido o Daniel em alguma circunstância, eu também teria conhecido.

— Eu nunca cheguei a conversar com o Vinícius na escola, antes. Eu apenas o via de longe e comecei a gostar dele sozinho, em segredo. Isso aconteceu enquanto vocês dois ainda eram amigos inseparáveis. Eu achava o Vinícius bonito e confesso que me atraí por ele devido à aparência no início. Ao mesmo tempo, eu invejava o Gabriel por ser um amigo tão próximo dele e estar junto com ele. Eu era tímido, não conseguia me aproximar caso os dois estivessem juntos, por isso, ficava observando e esperando o momento em que o Vinícius ficava sozinho. Isso por si só era difícil de acontecer, pois no intervalo, vocês geralmente pegavam a fila da cantina juntos e comiam juntos. Só se separavam quando o Vinícius resolvia comer no refeitório, pois por algum motivo, o Gabriel não gostava de ir lá. — Contou Daniel.

— Ainda não gosto. — Falei.

— No entanto, nas vezes em que o Vinícius ficava sozinho, eu não conseguia falar com ele do mesmo jeito, devido à minha extrema timidez. Eu sempre chegava perto dele e no fim falhava miseravelmente, e foi por isso que eu tive a idéia de conhecê-lo virtualmente. O adicionei no Facebook com um perfil que eu usava para jogos online. Nesse perfil estava escrito o meu nome real, no entanto, não havia amigos reais e nem fotos minhas. Comecei à conversar com o Vinícius ocultando minha história verdadeira, a fim de conhecê-lo melhor até que chegasse o dia em que eu estivesse pronto para revelar que eu o amava, e que morávamos perto na verdade. — Explicou o garoto, dando uma pausa enquanto encostava nas grades do viaduto, de costas, e continuava à falar.

Um trem passou em baixo do viaduto, naquele momento.

— Conversamos muito, nos tornamos próximos e a esse ponto, já havíamos planejado até mesmo o nome dos filhos. Havia chegado a hora de contar a ele e finalmente nos conhecermos e começarmos a namorar na vida real, mas, fiquei muito inseguro com o que podia acontecer depois que eu contasse. Minha timidez atacou novamente e eu enrolei semanas e semanas para contar. Até que, eu descobri que ele conversava com outros garotos, o mesmo que conversava comigo, virtualmente. O choque foi grande, foi a dor mais intensa que já tive em minha vida. Eu me tornei um desespero. — Afirmou Daniel, com os olhos transformados em espirais como se fosse um pêndulo hipnótico. — Não hesitei na hora de conversar com o Vinícius sobre isso e tivemos uma briga séria. "Nós não namoramos de verdade e eu não gosto de você. Eu posso conversar o que eu quiser com quem eu quiser, então para de se iludir e tentar me manipular. Você acha mesmo que eu ligava pra você? Claro que não, iludido, você sempre foi de dizer aquelas baboseiras de amor mas eu nunca acreditei em nada. Não gostava, só fingia gostar pra você não encher o saco depois. Sai de mim.", ele falou, ou algo assim. Você se lembra disso, Vinícius?

Ele me disse isso, também, ou pelo menos algo parecido.

— Aham, mais ou menos. — Afirmou.

— Depois disso, paramos de nos falar, mas você não sabia que eu estudava na sua escola, então continuei te observando às espreitas. Depois que brigamos, pintei meu cabelo de vermelho pra garantir que você nunca me reconhecesse pessoalmente. Você já viu fotos minhas, mas elas eram em ângulos elaborados onde eu parecia mais bonito. Eu não era como nas fotos pessoalmente, e então, assim que mudei o cabelo, as chances de você se lembrar de mim e me conhecer eram nulas. — Afirmou Daniel. — Conforme o tempo foi passando, comecei a falar com o Kaio. Eu sou da sala dele. Vocês não devem ter me visto antes porque eu não costumo descer pro intervalo, pelo contrário, continuo na sala de aula estudando para a aula que vem a seguir. As vezes, muito raramente, eu como alguma coisa que eu levo de casa, na sala mesmo, enquanto estudo.

Basicamente, então ele fez o negócio do vídeo para se vingar do Vinícius? Pra ferrar com a vida dele?

— E então, comecei a bolar o plano do vídeo. O motivo de fazer isso não é difícil de saber.

— Você queria me fazer sofrer, né? Queria se vingar. — Afirmou o Vinícius.

— Obviamente. — Afirmou Daniel, nos fitando com seus olhos castanhos. — Eu não apaguei nada do que você me mandava na época e ainda tenho na minha posse tanto os vídeos quanto as imagens. Mandei o vídeo para a Verônica na esperança em que ela iria mostrar à vocês, para deixá-los desesperados, e depois, fiz o toque final postando-o em sua linha do tempo com o meu perfil antigo. Troquei o nome dele para FourAfternoon Bridge e apaguei absolutamente tudo e todos que haviam lá, deixando apenas você. Você deve ter aberto o nosso chat de conversa e descoberto que era eu rapidamente, não é?

— Não. Lembrei que apaguei o nosso chat depois que brigamos, eu tinha ficado de saco cheio de você. — Respondeu o Vini.

— Oh, então foi isso. É uma pena, isso deixou as coisas mais difíceis pra vocês então. — Afirmou ele. — Com isso, encerramos o segundo item.

— Droga, você fica vindo me ferrar assim, do nada, que saco viu. — Disse o Vinícius.

— Reclamar é fácil, mas o seu papel agora é apenas aguentar. Além disso, você se comprometeu à ficar ao lado do Gabriel e não abandoná-lo, não é? Mas isso não significa que você o ame. — Falou Daniel. — Supondo que você possua algum sentimento pelo Gabriel neste momento, por que você acha que isso aconteceu? Você, que nunca sentiu nada por ele desde o começo, por que acha que agora será capaz de tê-lo e amá-lo? Veja, você nunca amou o jeito de ser do Gabriel. Provavelmente e considerando sua personalidade Vinícius, e se o Gabriel agia pelo menos um pouco parecido comigo, então deve ter sido um saco pra você. Tenho certeza que você não suportou o amor dele e ficou com raiva, não foi? Te irritou, porque você não sentia o mesmo, e porque era um saco.

Foi assim mesmo, Daniel acertou.

— Isso aconteceu mesmo, mas eu me arrependi de verdade, e me... — Vinícius ia falar, mas, parou no meio da frase. — ...

— ? Então você entendeu sozinho? Exatamente, aonde está o amor nisso? Não basta você estar arrependido. Mesmo que você mude, nada vai garantir que você vai amar o Gabriel. Aliás, se for pra chutar, eu diria que com certeza você não amaria ele. Veja bem, tenho certeza que o Gabriel já mostrou tudo dele pra você; todo o amor, todas as qualidades dele, todos os defeitos dele, todos os tesouros dele, tudo. Mas mesmo assim, mesmo ele tendo revelado tudo isso, você nunca se apaixonou, não foi? Você pode ter ficado bravo, mas nunca se atraiu pelo Gabriel. Agora, chega nesta situação, do nada, e você vem dizendo que sempre estará ao lado dele? Com isso, você quer dizer que será o amigo dele para sempre, não é? Porque se você estiver dizendo que o ama, então é uma mentira. — Disse Daniel. — Aliás, pode até ser verdade. Se considerarmos que nasceu um sentimento em você pelo Gabriel em cima de toda essa situação, faz até sentido que você tenha dito aquilo, no entanto, não vai ser algo saudável e também não será algo que irá pra frente. Você terá se apaixonado por pena, arrependimento, e por todas as coisas ruins que aconteceram. O que diabo faz você pensar que um "amor" nascido em cima de tudo isso, será algo bom? — Indagou Daniel. — Ou talvez você já saiba que, não o ama?

Vini então se soltou de mim e foi mais pro lado, se afastando abruptamente. As palavras de Daniel o deixaram pensativo e quando eu já tinha pensado que ele tinha parado de chorar, percebi mais algumas lágrimas escorrendo do rosto dele.

— Então é aquilo que o ditado quer dizer com "contra fatos não há argumentos", não é mesmo? — Perguntou Daniel. — E você, Gabriel? O que acha disso?

O Daniel falou algo que eu já sabia, que no fundo, eu já sabia de verdade, no entanto, tentei me enganar sobre essa verdade para tentar viver o amor dos meus sonhos.

Sonhos.

Se usar essa palavra nessa frase, então seria literalmente um amor dos sonhos.

Eu não tenho como não concordar com ele, porque ele está certo e eu também acho tudo isso, mas aceitar isso em palavras perto dele, era algo desagradável. A maneira com que Daniel falava era nojenta.

— Tenho certeza que o Nell também já sabe disso, ele deve pensar o mesmo que eu, no entanto, creio que ele não teve coragem de jogar essa verdade na cara de vocês. Amigos geralmente costumam não falar coisas que nos deixam em posições difíceis ou coisas que não queremos ouvir, com medo de nos ferir, no entanto, ficam conosco depois que tudo acontece e nos ajuda. Não é engraçado? — Perguntou Daniel.

— Mas Daniel, eu não entendo, por que você nos falou isso? Você não quer que eu fique junto do Vini? — Perguntei.

— O motivo, é? Realmente, nem estamos em algum item mas comecei à falar de vocês dois. Na realidade, eu me esqueci de abrir o terceiro item do tópico, que seria vocês dois, mas finja que eu já o abri antes de ter contado isso. — Disse Daniel. — Eu contei isso por puro capricho, você deveria me agradecer, as vezes precisamos de alguém esfregando a verdade na nossa cara. Bom, para mim, se você ficar com o Vinícius ou não, não faz diferença. Como eu disse, mesmo que vocês ficassem juntos, seria algo que terminaria mal de qualquer jeito.

— E se ficarmos separados? — Perguntei.

— Será outro final ruim, mas de uma forma diferente. — Respondeu ele.

— Quais são os seus sentimentos pelo Vini, atualmente? — Perguntei.

— Remorso e raiva, com toda a certeza. Ah, me lembrei que não expliquei o motivo de não ter deixado ele morrer aquele dia, então, se estiver tudo bem pra vocês, vou encerrar o terceiro item do tópico e abrir o quarto e último. — Respondeu Daniel.

— Isso não importa, fala logo. — Falei.

— Certo, o quarto e último item se trata de... Morte e futuro. — Afirmou. — Aquele dia em que o Vinícius quase suicidou, foi um erro de cálculo. Eu não pensava que ele fosse do tipo que se deixaria abalar ao ponto de querer tirar a própria vida. Apesar de estar certo sobre ele ser superficial sentimentalmente, isso não significava que ele era superficial sobre tudo. Haviam coisas que importavam de mais para ele, como a relação com sua família e sua imagem pública. — Disse ele. — Eu falhei em saber disso, e então, precisava impedir que ele morresse de alguma forma. Por coincidência, eu vi ele subindo para o último andar e logo imaginei o que ele faria, então, desci para te avisar onde ele estava. Dou parabéns mais uma vez por ter conseguido salvá-lo, e também, por ter corrigido minha falha.

— Sua "falha" quase levou à morte ao seu ex-amor, como você consegue falar disso de forma tão... Fria? — Perguntei. — Acho que o superficial aqui é você.

— Eu me corrigi, não foi? Consegui impedir que acontecesse, então está tudo bem. Claro que, se tivesse acontecido, as coisas teriam sido extremamente e severamente diferentes do que são agora, mas nada disso aconteceu, então tudo bem. Sei que eu ficaria em pedaços caso acontecesse, psicologicamente . Eu não conseguiria viver com o fato de que eu levei alguém ao suicídio. Eu já falei, de todos, eu sou o que mais têm sentimentos aqui. — Afirmou.

— Tá, essa foi a parte da morte, e o futuro? — Indaguei. O Vini continua quieto, até agora. Vejo que ele está muito mal e foram os argumentos do Daniel que deixaram ele assim. Infelizmente, o Daniel conhece ele tão bem quanto eu conheço e devido à sua atual posição, conseguiu dizer coisas que eu nunca diria.

— O futuro se trata das outras coisas que ainda tenho sobre ele. Vocês nunca se perguntaram o porquê de eu não ter publicado tudo de uma vez? O motivo é que se eu revelasse tudo, não teria mais nada para revelar depois. O que seria bom aqui, é eu seguir publicando coisas sobre o Vinícius em todos os momentos em que as coisas da sua vida se acertarem e ficarem normais. Publiquei um agora, e então, quando será o próximo? Quando ele se formar da escola, talvez? Quando tiver uma família? Quando seus filhos estiverem grandes? — Indagou.

Até agora, tudo que Daniel havia dito era argumentativo e aceitável; tudo apresentava um motivo, mas isso, isso foi terrível. Ele quer continuar a publicar coisas do Vini pela vida inteira? A raiva dele vai tão longe assim? Não faz sentido... Não pensava que o Daniel tivesse um lado assim, depois de tudo que ele falou dele mesmo.

Há algo errado.

Existe alguma mentira em suas palavras.

Mas mesmo assim, eu

Eu não posso deixar que prossiga com isso.

— Isso não vai acontecer, essa história termina aqui. — Afirmei, enquanto tirava um gravador do meu bolso direito.

Ao vê-lo, tanto Daniel quanto Vini se espantaram. Vini que até então estava todo "recolhido" em seus próprios pensamentos, finalmente olhou para mim de novo e mostrou uma reação. Já Daniel, simplesmente abriu a boca e arregalou os olhos.

— Entendi, então foi obra da Verônica. Você me pegou. — Disse Daniel.

— Não apenas da Verônica, mas do Nell também. Hoje de manhã eu me encontrei com o Nell, nós marcamos de sair com a mãe dele para tomarmos sorvete e ele me entregou esse gravador da Verônica. — Falei.

Flashback ON

Hoje, sábado, às 10:25 da manhã.

Eu e Nell estávamos sentados em uma das mesas da sorveteria, cada um tomando um sorvete em uma cestinha. Já a mãe dele estava montando o sorvete dela, ainda, pois esta sorveteria é uma daquelas onde você mesmo se serve e depois pesa para pagar pelo valor através do peso do sorvete.

— Eu e a Verônica pensamos num jeito de impedirmos o Daniel. — Afirmou Nell.

— Como? — Indaguei. — Eu e o Vini já vamos encontrar ele hoje a tarde, mas, existe algum jeito de impedir que ele continue fazendo o que fez?

— Existe. Pega esse gravador, é aquele que a Verônica usou para me entrevistar no clube de jornalismo. Se você conseguir pegar o Daniel falando que vai publicar coisas íntimas do Vinícius, assim como ele falando seu próprio nome, então deveremos por um fim nisso. — Disse Nell.

— Aliás, mesmo que ele não pretenda mais continuar postando coisas do amigo de vocês, ainda poderemos ferrar com a família dele na justiça pelo que ele fez. — Falou a mãe do Nell, sentando-se na mesa com a gente em posse de seu sorvete. A albina trajava um vestido florido e carregava uma bolsa marrom em seu ombro direito.

— Entendi, pode dar certo! — Exclamei. — Mas e se ele perceber e for cuidadoso com as palavras?

— Não se preocupa, as chances disso acontecer são... 0. — Respondeu Nell. — O Daniel odeia detalhes, ele nunca pensaria num pequeno detalhe sobre você levar um gravador dado pela Verônica, além de que, o local em si torna difícil uma gravação de qualidade. No viaduto passam veículos em todo instante e o vento é constante, qualquer material de gravação geralmente não pegaria nenhuma voz, mas... O gravador da Verônica é bem potente.

— É sim, a gente foi lá com ela ontem a tarde pra testar, por garantia. Ele grava tudo mesmo se tiver no bolso, legal né? — Disse a mãe do Nell.

Flashback OFF

— Nell falou que por você não gostar de detalhes, nunca iria pensar que nós seríamos capazes de bolar uma armadilha ruim dessas pra você. Se bem que, em minha perspectiva, apesar de você dizer que não gosta de detalhes, você é bem detalhado em suas explicações. Fiquei um pouco surpreso de você ter aberto tanto a boca e nem ter desconfiado que eu poderia estar gravando. — Falei.

— Quem está surpreso sou eu... Hhhhhhhhahhahahahahaha, eu, justo eu, ser enganado desse jeito? Quer dizer que eu dancei na palma do Nell e da Verônica? — Indagou ele.

— Se ferrou, trouxa, só não vem inventar agora de pegar coisas íntimas dos dois também. — Disse Vinícius.

— Ohhh, isso seria algo bem baixo, nay, nay, eu não faria isso. Vocês só estão se defendendo mesmo, e no caso, eu só fiz algo baixo com você porque era uma situação "especial". Eu provavelmente nunca farei algo assim na vida de novo, então, é aceitável eu sair perdendo nessa.

— Sair perdendo em todos os sentidos, né Daniel, porque sério, desde o começo, você nunca iria ganhar nada fazendo tudo isso, nem indo tão longe. Você só iria se comprometer mais e mais com algo que não devia te dizer respeito. — Falei. — A vida do Vini, ou o jeito que ele age, não deveriam te importar depois que vocês não se falaram mais. Deveria ter virado passado e sido superado.

— Está certo, mas, eu fui orgulhoso demais pra sair daquela história como uma vítima magoada. Eu tinha que agredir um pouco também para me sentir melhor. — Disse ele. — Sabe, apesar de você dizer eu não ganhei nada, eu ainda acho que valeu a pena. Pelo menos, ganhei minha própria satisfação.

— É? Mesmo que a gente jogue você na justiça com essa gravação de prova, por danos morais ao Vini? — Indaguei.

— Eu não quero isso. — Afirmou o Vini. — Se ele já está satisfeito e contanto que não se intrometa mais na minha vida, então está tudo bem. Eu só queria que isso acabasse, eu só queria poder dormir em paz esta noite, e se com essa gravação tudo vai acabar, então estará tudo bem.

— Aha, viu? Imaginei que o Vinícius diria isso, parece que tudo acabou então. — Disse Daniel. — O futuro de vocês a partir de agora, será um em que eu não estarei mais nele. Com isso, podemos encerrar o último item do tópico. — Ele então, virou-se de frente para as grades e voltou à olhar a vista da cidade.

— Me desculpa, Dani, por ter agido daquele jeito com você antes. — Disse o Vini. — Eu fui muito errado, se eu não tivesse agido daquele jeito, nada disso teria acontecido. Não, isso é só uma desculpa também, não posso ficar usando minha situação como desculpa ou consequência. A verdade é que eu errei com você e eu me arrependo disso.

— Não se arrepende não... Você só está se forçando à se arrepender por causa da situação atual... Mas não é como se você sentisse isso de verdade... — Murmurou Daniel, com um tom de voz mais suave e desleixado, enquanto observava a cidade de cima do viaduto.

Vini então, andou até o lado dele e ficou bem próximo, observando a cidade junto com Dan.

— Eu me arrependi depois que terminei de ouvir as coisas que você disse, mas não me forcei a nada. Não seja assim, idiota. — Disse o Vini.

— Não fale comigo com tanta casualidade, éramos pra ser inimigos, esqueceu? Quer ser jogado daqui de cima? — Indagou o Dan.

— Você nunca faria isso, se for mesmo o Daniel que eu conheci.

Isso está ficando estranho. Esse clima de desculpa e arrependimento entre os dois, que desagradável... Não que seja ruim, mas... Errr, não pensava que fosse ver algo assim tão cedo.

Fui então, do outro lado de Dan, ficando também encostado nas grades enquanto observava a cidade. Guardei o gravador no bolso do shorts novamente e resolvi entrar na conversa para que ela não ficasse mais esquisita.

— E se você jogar o Vini de cima do viaduto, eu te jogo junto. — Falei.

— Não ligo, vá em frente, deixo você me jogar mesmo sem que eu jogue o Vinícius. — Disse ele.

— Para com isso Dani.

— Bom, acho que está na hora de ir embora. Ficamos meia hora conversando aqui e eu não tenho mais intenções de me envolver com vocês depois dessa derrota. — Falou Daniel, desapoiando da grade. Assim que ele saiu, ouvi a voz dele falando por trás de mim enquanto andava. — Amanhã eu vou no shopping com o Kaio e com a amiga de vocês. Que idiota, que idiota, ele não consegue se virar numa situação dessas, fazer o que. — Reclamou o garoto dos cabelos vermelho carmesim, enquanto descia o viaduto e ia para o outro lado da cidade, que era onde morava.

— Amiga? Ele falou da Márcia? — Perguntei.

— Só pode ser a Márcia. — Respondeu o Vini. — Você ainda não se resolveu com ela, né?

— Não. — Respondi.

— Ah, eu te ajudo...

— Não, isso seria desastroso. Você quer ver o lado maníaco da Márcia, Vini?

— Acho que não...

— Mesmo assim, pensar no Dan e na Márcia saindo juntos, que coisa estranha. — Comentei.

— Gabriel...

— O que?

— Você não vai falar sobre aquilo? — Perguntou o Vini.

— Sobre, ah. Isso é um assunto delicado para nós dois, Vini. — Respondi.

— Mas você disse que me estrela e eu não pude responder o mesmo. O Daniel falou tudo aquilo e ele tinha razão, m-mas, mesmo assim, e-eu estou triste, eu não queria que fosse desse jeito... — Comentou o loirinho.

— Vini, não diga que me estrela se isso não for verdade verdadeira, bobo, e você não precisa forçar nada. Não precisa se forçar a gostar de mim por causa disso tudo e eu não vou mais fazer drama em cima de você, é só você não me dizer mais coisas cruéis e nem me empurrar. Se conversarmos abertamente e sinceramente um com o outro, tenho certeza que será melhor, mesmo que não fiquemos juntos. — Aconselhei à ele.

— Você suportaria?

— O que?

— Viver uma vinda sem mim ao seu lado? — Perguntou o Vini.

— Eu não sei como seria Vini, mas pelo menos a gente voltou a se falar agora, então, pelo menos seremos amigos. Eu acho que eu sentiria bastante ciúmes e tentaria evitar perto de você e do outro garoto, mas, depois que tudo que passamos nos últimos dias, eu sinto que estou mais abrangente pra aceitar um futuro desses.

— E-eu... Eu não gosto de você de verdade, no quesito amoroso. — Falou ele.

— Hm...

— Eu acho que só estava inventando esse sentimento em cima de tudo, mesmo. A começar pelo arrependimento de ter te feito sofrer muito no passado, e pela nossa briga no parque. — Disse ele.

— Hm...

— Você está, v-você tá bem com isso?

— Sim, está tudo bem, eu entendo. — Afirmei.

— Você me amou verdadeiramente desde muito tempo atrás, e mesmo agora, depois de tudo, eu ainda não consigo te amar. Você tá bem com isso?

— Sim.

— E agora, mesmo sabendo tudo isso, você ainda pode ficar do meu lado? Muitas coisas aconteceram com essa coisa do vídeo e eu não tenho mais ninguém para me apoiar, mas você disse que estaria ao meu lado mesmo que o mundo todo estivesse contra mim. Você tá bem com isso?

— Sim, mas Vini, há outras pessoas do seu lado também. Veja, todos ajudamos. Você tem eu, a Isabel, o Nell, a Verônica, o Pedro, o Gui... Todos somos seus amigos. — Falei.

— Ah, verdade, eu tenho todos vocês. — Disse o Vini. — Há... Haha... E eu aqui chorando por pensar que não tenho mais nada, eu sou meio burro as vezes.

— Pois é. Eu também já chorei por pensar que não tinha nada, quando na realidade, ainda tinha algumas coisas. É triste a verdade de que as vezes a gente não dá o devido valor às coisas ou pessoas que mereçam esse valor. — Falei.

— Eu nunca te dei o valor que você merecia. — Disse ele.

— É, eu também sei disso.

— Eu nunca te amei pelo que você é, nem nunca vi nada na sua personalidade ou jeito de agir que me fizessem sentir algo como o amor. Aliás, eu nunca senti isso por nenhuma outra pessoa antes. Nem mesmo pelo Dani, nem mesmo pelo Gui, por ninguém mesmo. — Contou.

— Você não precisa se forçar a isso. Quando for pra sentir, você vai sentir, quando for pra amar, você vai amar. Não se preocupa com isso. — Eu disse, permanecendo ao dele, com o meio entre nós "livre" porque era onde Daniel estava. — E se não for pra você sentir ou amar por ninguém, então continue sendo apenas pervertido e procure por uma pessoa que faça sexo com você todos os dias.

— Você não poderia ser essa pessoa, Bibi? — Indagou ele.

— Poderia, mas eu te amaria no processo, então não conseguiria me manter indiferente em algumas situações. Seria um sexo com muito amor! —Exclamei.

— ... É, eu sei.

— Eu te machucaria com muito amor! — Exclamei.

— Mas o que?!

— Você iria gostar, seria divertido.

— Você por acaso tem um lado sádico?! — Perguntou ele, de forma surpresa.

— Sempre tive, por trás desse garoto frágil e sofredor existe um ser que quer machucar e fazer alguém sofrer, fisicamente. Só queria descontar todas minhas frustrações no seu corpo algum dia, caso chegássemos a fazer isso. — Falei.

— Uau, não consigo acreditar. Que estranho.

— ...

— Não consigo imaginar isso de você...

— É a verdade Vini, fazer o que?

E então, o tempo se passou mais um pouco. Eu e o Vini continuamos conversando por um tempo ali naquele lugar inconveniente até que começasse a escurecer. Isso foi bom, pois a gente precisava ter uma conversa daquelas: uma conversa sincera onde pudéssemos revelar tudo o que sentíamos do fundo do coração.

Daniel falou ao Vini coisas que eu queria falar, mas mantinha preso dentro de mim, então, depois de tudo, foi mais fácil para conversarmos sobre nós mesmos.

— E a sua mãe, Vini? — Indaguei, enquanto andávamos pela calçada da avenida e enquanto o céu da tarde se esvaia e dava origem à tonalidade escura da noite.

— Quando ela chegou em casa ontem, não conversou direito comigo. Ela só disse que estava arrependida de muitas coisas, de uma forma fria, meio que deixando claro que era sobre mim. — Contou ele. — Ela também passou à me ignorar e evitar. Aparentemente, também não quer que eu vá mais à igreja porque os outros estão comentando sobre mim lá.

— O dia do culto, seria amanhã, no domingo, né?

— Sim, seria.

— Já que você não vai, por que não saímos juntos? — Perguntei.

— Pode ser! Aonde vamos?

— Não sei, aonde você quer ir?

Conversamos sobre o dia de amanhã o caminho inteiro enquanto íamos para a casa, até que chegamos naquele momento em que cada um seguiria sua rua.

— Sabe, mesmo que eu nunca tenha amado alguém antes, eu queria muito que isso acontecesse. Claro, não vou forçar nada, m-mas... Seria muito bom se eu me apaixonasse por você, a partir de agora.

— ... Isso é uma boa idéia, vamos deixar nossa relação passada de lado e começar do zero. — Falei.

— Vamos.

— Hihihi. — Olhei para ele e dei uma risadinha.

— Obrigado, Bibi.

Sinceramente, não gosto desse jeito que ele me chama. É desagradável e faz parecer como se eu fosse uma buzina de carro, mas, pelo menos isso eu não consegui dizer à ele. Digamos que... Fiquei feliz por ele ter me dado um apelido carinhoso, depois de todos esses anos. Mesmo sendo um apelido ruim, eu aguento.

— Por nada. — Falei, me despedindo do Vini com um longo e aconchegante abraço.

E então, fomos cada um pra sua casa. Eu sentia como se tudo já tivesse acabado e que a partir de agora, apenas coisas boas viriam. Amanhã seria o meu "encontro" com o Vini, aliás, será que eu posso mesmo chamar de encontro? Eu não como será a minha relação com ele daqui pra frente depois de tudo que passamos e conversamos; não sei se haverá espaço pra um amor no coração do Vini considerando como ele é, mas, mesmo que continuemos amigos no final das contas, ainda sinto que ficarei feliz por estar ao lado dele.

Vini deixou de ser meu amigo e me abandonou depois que eu despertei sentimentos por ele, então, comparado à antes, ter sua amizade já é muito melhor do que não ter sua amizade.

Continua no capítulo 28.