Eu estrelo você

13 O garoto dos olhos vermelhos


Kaio POV

Terça-feira, às 18:40.

Estou em casa deitado na cama da minha mãe jogando Skyrim no video-game.

A Televisão e o aparelho ficam no quarto da minha mãe, pois não há uma sala de estar aqui em casa, apenas a cozinha e dois quartos (um deles é o meu).

Eu tenho uma irmã mais nova, Rafaella, ela tem só cinco anos. Acabei de ir busca-la da escola.

Minha mãe trabalha o dia inteiro e só chega às dez da noite, nesse tempo eu fico em casa sozinho jogando ou mexendo no pc, até a hora de ir buscar a minha irmã.

Todos os dias, meu melhor amigo Tiago, vem comigo da escola direto pra minha casa, nós almoçamos juntos e jogamos até a hora dele ir trabalhar.

Sim, ele é um completo folgado, vem almoçar todos os dias na minha casa. Aff.

Ele sai daqui lá pras três da tarde e vai pro seu serviço, ele trabalha em uma lan house, suas tarefas vão de fazer o trabalho escolar dos outros à ajudar com o preenchimento de currículos.

Meu avô mora na casa dos fundos, e ocasionalmente ele vem aqui em casa pra ver o que estou fazendo, mas é apenas isso. Mal conversamos. De qualquer forma, que diabos de assunto eu teria pra conversar com um senhor de 71 anos ? Tenho certeza que ele não é nem um pouco interessado na minha vida escolar.

Minha mãe e o meu pai são separados, ele mora com a namorada lá na capital e bem raramente nos faz uma visita.

Coloquei o controle do xbox em cima da cama e fui pro meu quarto ver o que minha irmã estava fazendo.

Entrei e vi ela brincando com duas bonecas em cima da minha cama.

Fui até a cozinha e peguei uma garrafa de refrigerante vazia, e voltei pro meu quarto.

— Rafaella. — Falei.

Quando ela me ouviu chama-la, olhou pra trás instantaneamente, e eu usei o momento pra jogar a garrafa na cabeça dela.

— Ahhhhhhhhhh !! — Chorou ela, enquanto vinha em minha direção.

Saí do quarto e tranquei a porta, para que ela não saísse de lá de dentro.

Ouvi as batidas na porta e o choro dela.

— Hahahahahaha. — Ri.

— A-a-abre a porta K-Kaio ! — Pediu ela enquanto chorava.

Ignorei e voltei a jogar.

Se eu abrir a porta ela vai ir tagarelar pro nosso vô, então é melhor deixar ela trancada.

Apertei start e olhei as horas.

Putz, já é tarde assim ?

Me levantei da cama e fui pra cozinha. Ao chegar lá, fiquei encarando a pia cheia de louça suja.

Bah, fazer o que ? Se minha mãe chegar e ver um único prato sujo aqui dentro, ela me mata.

Mas o Tiago é mesmo um filho da puta, nem pra ter me ajudado a lavar hoje de tarde.

Só serviu pra sujar.

Peguei um prato que estava dentro da pia, joguei um pouco de água e comecei a esfregar com a buchinha ensaboada.

Lavei tudo, prato por prato, panela por panela e talher por talher. Depois sequei e guardei.

Só fui acabar às 19:20.

Ainda bem que hoje o tempo está bom, se estivesse frio minhas mãos estariam congeladas agora.

Fui pro meu quarto e abri a porta, a Rafaella já tinha parado de chorar à um tempão.

Olhei pra ela e a vi sentada na minha cama de novo, brincando com as bonecas.

— Pronto, pode sair. Pega essa garrafa e coloca lá na cozinha. — Falei.

Rafaella fez uma careta mas logo me obedeceu.

Quando ela saiu do meu quarto, encostei a porta e liguei o pc.

Enquanto ligava, fiquei me olhando no espelho que tem na parede.

Meu cabelo seco é bem tedioso, eu fico um emo da vida.

Gosto de deixar arrepiado com gel.

— Porra velho, que tédio que tá hoje. — Falei sozinho.

Minha irmã abriu a porta e perguntou com o controle da TV na mão :

— Kaio, coloca na cartoon pra mim ?

— Você ainda não aprendeu a colocar ?? Eu já te ensinei cem vezes. — Respondi.

— Mas tá no canal do vídeo-game e eu não consigo tirar.

Fui lá na sala e coloquei na cartoon pra ela, depois voltei pro meu quarto.

Fiquei encarando os contatos no facebook até encontrar alguém diferente.

Ué, o Gabriel tá online ? Ele conseguiu lembrar da senha ?

Digitei uma mensagem pra ele :

"Eae cara, blz ?"

Minutos antes, às 19:00 :

Gabriel POV

Cheguei na frente de casa e fiquei encarando o portão, como um zumbi.

Que longe, aquele parque fica muito longe da minha casa ! Precisei fazer uma bela caminhada, estou exausto.

Ainda mais depois de tudo que aconteceu, aff, quero tomar um banho e ir dormir.

Peguei a chave no bolso que o meu pai havia me dado e abri o portão.

Subi as escadas e usei outra chave pra abrir a porta de casa.

Pelo menos a minha memória está normal, acho que já estou bem.

Acendi a luz da sala de estar e fiquei olhando pro cômodo.

É, até que eu estava com saudades dessa casinha.

Fui até uma porta bem grande que tem na sala, que leva à varanda, e a abri.

Fiquei encarando o bairro enquanto se apoiava nas grades.

— Esse é o bom de se morar num sobrado : ter uma bela vista.

Depois de poucos minutos, saí da varanda e fui pro meu quarto.

Vi as sacolas com as coisas que estavam na casa da Maria, todas jogadas do lado da cama.

Meu pai não arrumou nada, como esperado. Mas também não estou com ânimo pra arrumar essas coisas agora, vou tomar um banho.

Peguei minha toalha e fui pro banheiro. Tomei um banho rápido, lavei o cabelo rapidinho e tentei me esfregar rápido também, eu não via a hora de deitar na minha caminha confortável.

Quando saí do banheiro, fui pro quarto e coloquei uma cueca.

Sem vontade de colocar mais roupas, apenas me joguei na cama daquele jeito mesmo.

Aaaah, finalmente um pouco de sossego...

Enquanto deitado, eu não conseguia tirar a discussão que tive com o Vinícius no parque da cabeça, nem por um segundo.

Quando eu bati a cabeça e perdi a memória, eu estava na frente da casa dele, não foi ? Mas o que diabos eu estava fazendo lá ? Era algo importante ? E como que eu fui bater a cabeça ? É difícil de se acreditar que eu caí sozinho...

Será que alguém me empurrou ?

Inferno, não consigo me lembrar... Assim como eu não lembro do meu sonho pro futuro.

— Ahhhh, saco ! — Exclamei, enquanto levantava da cama e me sentava na frente do pc.

Ficar pensando nisso agora não vai me fazer bem, talvez seja melhor eu não me lembrar de nada disso mesmo.

Liguei o computador e me deparei com uma tela pedindo senha.

Droga, qual era a senha do windows ?

Fui passando meus dedos pelo teclado e instintivamente digitei uma cominação numérica, que acabou liberando a área de trabalho.

Uau, eu me lembro.

Aliás... Eu tinha muitos amigos virtuais, agora que estou com a mão nesse mouse, nossas conversas me vêm à cabeça, uma à uma.

Devem estar preocupados com o meu sumiço.

Entrei no meu facebook e fiquei encarando meu perfil.

Tsk tsk, já está na hora de atualizar essa foto.

Ouvi um barulhinho de mensagem e logo fui olhar quem estava me chamando. Era o Kaio.

" Kaio : Eae cara, blz ?

Eu : Oie, estou bem sim, e você ?

Kaio : Eu to suave

Eu : :3

Kaio : aonde que vc ta ? Já conseguiu lembrar de tudo é ?

Eu : Eu estou na minha casa agora, voltei pra cá.

Eu : E tipo, foi bem esquisito kkkk, foi só eu sentar na frente do pc que eu comecei a lembrar das coisas virtuais.

Kaio : aah, isso que eu estranhei, pensei que vc n fosse lembrar a senha.

Eu : Seria bem ridículo se eu não conseguisse.

Kaio : e a márci ? Ela perguntou de mim hoje ? *-*

Eu : Ela perguntou o que nós estávamos fazendo na biblioteca kkkkkk

Kaio : e vc falou o q ?

Eu : Eu falei que não podia contar.

Kaio : aaah, vc podia ter falado que estávamos falando sobre uma menina que eu gosto, uma qualquer aí.

Kaio : será que ela ia ficar com ciumes ? *-*

Eu : eu acho que não, ela me disse uma vez que não era ciumenta.

Kaio : -_- droga

Eu : mas não desista :3

Kaio : hoje eu taquei uma garrafa na cabeça da minha irmã.

Eu : O______O, por quê ??

Kaio : pq ela é chata KKKKKKKKKK

Eu : Ela fez alguma coisa ?

Kaio : n, só q deu vontade de tacar nela

Eu : Você é um monstro ._.

Kaio : UUSHAHASHAHHA

Continuei conversado com o Kaio, até o meu pai chegar.

— Gabriel ?? — Chamou ele, da sala.

— Ooooi !! — Falei alto, pra ele escutar.

— Vem cá !

Falei pro Kaio que já voltava, e fui pra sala ver o meu pai.

Bem, ele não estava na sala como eu havia especulado, na verdade ele estava na cozinha olhando o que havia dentro das panelas.

— O que foi ? — Perguntei.

— E aí, tá tudo bem ?

— Está sim. — Respondi.

— Você se lembra mesmo de tudo ?

— Não me lembro de tudo tudo, mas aposto que logo vou lembrar. — Falei. — Consegui até mexer no meu pc.

— Hm, do que você não se lembra ?

— Do Vinícius e do meu sonho pro futuro. — Respondi.

— Você não lembra dele ? Mas ele não era o único do qual você se lembrava ?

— Era, mas eu perdi a memória de novo e esqueci dele, como a Maria te disse.

— Como você perdeu ?

— Não sei, foi bem de repente, a Maria falou que eu fiquei com febre e que quando acordei, já não sabia mais quem era ele.

— Que estranho. — Falou meu pai. — Nós temos que ficar de olho, porque se você esquecer de algo de novo, pode ser sinal de uma coisa mais grave.

— Eu também já pensei nisso. — Falei. — E se eu for como aquele cara do filme Efeito Borboleta ?

— Mas aquele lá nasceu com a doença, ela não é algo que se pega ao bater a cabeça.

— Hm... Tem razão.

— Você sente alguma dor de cabeça ? Tontura ? Desconforto ?

— Não, nada disso.

— Tá bom, então vamos torcer para que logo você lembre do resto. — Disse ele, enquanto ligava o fogo.

— Uhum... — Falei.

— Foi bom você ter saído daquela casa logo, aquele povo nem da família é e você estava lá, dando trabalho pra eles. — Disse meu pai. — Só deixei no início porque não teria ninguém pra cuidar de você aqui em casa.

— Eu sei, já estava enjoado de ficar lá também. — Falei.

— Que bom.

— E aí ? Hoje você se encontrou com a Fran ? — Perguntei.

— Ahahaha, sim, você lembra dela ?

— Aham.

— Hoje eu fui com ela num bar tomar uma cerveja.

— Bar e cerveja ? Que coisa brega. — Respondi. — Devia ter levado ela num restaurante.

— Que restaurante o quê Gabriel, você sabe que eu não gosto dessas coisas.

— Estou ciente.

Fran é a atual namorada do meu pai, eu me lembro que desde quando ele a conheceu, ele não conseguia falar de outra coisa, vivia tagarelando dela no meu ouvido.

De todas as pessoas do mundo, o meu pai é uma das mais fortes delas, ou então a mais forte.

Em 2010 a minha avó, mãe do meu pai morreu, e em 2011, um irmão dele e a minha mãe, Marly morreram.

Ele teve que lidar com três perdas bem grandes, uma perto da outra.

Um ano após minha mãe morrer, ele conheceu uma mulher chamada Nalva, da idade dele na época, e eles começaram a namorar.

Ela se mudou aqui pra casa e nos tornamos uma família, ela era um amor de pessoa, muito legal comigo. Eu aceitei bem a ideia de ter uma madrasta, mas... Ano passado ela também faleceu.

Nalva pegou um tumor na cabeça e ficou internada, mas mesmo assim o câncer foi se espalhando por todo o seu corpo.

Seus pulmões incharam tanto, que seu peito chegava a ficar estufado. Ela perdeu o movimento da metade esquerda do corpo, e a visão de ambos os olhos.

Em seguida, seus rins também foram infectados e após 3 meses internada, ela morreu.

Meu pai ia sempre ficar ao lado dela, dormia no hospital e tudo mais.

Ele acompanhou passo à passo a evolução da doença da Nalva, até à sua morte. Ele me contou que ela estava esperando ele chegar pra poder morrer, e que suas últimas palavras foram de puro amor.

E enquanto minha amorosa madrasta estava internada, eu não a visitei nenhuma vez.

Não sei porquê, eu realmente gostava dela, mas por que eu não fui a visitar ? Será que eu estava com medo da visão ? Será que eu não queria ficar triste ? Eu não sei, só sei que só vi ela de novo no caixão.

Agora que penso nisso, um dos meus arrependimentos é não ter ido visita-la no hospital... Diferente da minha mãe que morreu de uma hora pra outra, a Nalva teve três meses de sofrimento enquanto o câncer se espalhava. Eu tive muito tempo pra poder ir ver ela.

Enfim, pouco tempo atrás meu pai conheceu a tal Fran e ele está animado com ela agora. Só há dois problemas :

Ela tem 28 anos (é 20 anos mais nova do que ele), e é casada e tem um filho.

Tá, a coisa da idade não é bem um problema já que isso é natural hoje em dia. Eu diria uma frase bem preconceituosa como "ela está te namorando pra ficar com seu dinheiro" se, meu pai fosse rico, mas ele não é, então creio que é mesmo um desejo dela.

Sim, desejo, pois ela tem um marido, e mulher é assim, se o marido não transa com ela, ela acaba abrindo as asinhas.

Me pergunto se ela só usa o meu pai por prazer, ou se quer realmente tentar algo mais sério com ele no futuro. Eu não sei, preciso conhecê-la.

— Estou esquentando o arroz e o feijão pra você comer. — Disse ele. — Quer salada ?

— Quero.

— Então faça, o alface, o tomate e a beterraba cozida estão na geladeira. — Disse ele. — Os temperos estão em baixo da pia.

— Certo. — Falei.

O meu pai só tem tempo de conversar comigo quando chega do serviço, espero que a Fran não roube esse meu tempo com ele.

Eu já falei pra ele sobre minha homossexualidade, porém não me sinto livre de conversar sobre com ele. Seria estranho.

Sem contar que meu pai é daqueles que já pegou 45628 mulheres, então nem cola falar de garotos com ele.

Ele nasceu em Minas Gerais, bem no interior onde só há roça. Desde pequeno ele cuidava dos animais da fazenda, caçava, carpintava e etc, era um total caipira até vir pra São Paulo e conhecer a minha mãe.

Talvez por isso que ele tenha uma personalidade forte, eu sei que ele já passou por inúmeras coisas na adolescência, envolvendo grandes brigas incluindo armas, e confusões desastrosas como surrar a diretora da escola.

Incrível como o meu pai é o total oposto de mim ; ele é forte e eu sou fraco.

Fui fazer minha salada e continuei conversando com ele.

No dia seguinte, quarta feira às 06:55 da manhã, cheguei na escola e me encontrei com a Márcia dentro do pátio.

— Bom dia Riquelme. — Disse ela, enquanto me cumprimentava com um beijo no rosto.

— Oi Márcia. — Falei. — Tenho muita coisa pra te falar.

Eu sempre contei tudo à Márcia, ela é a única pessoa ao qual eu posso recorrer.

— O que houve ? — Perguntou, num tom de espanto.

Eu e ela ficamos dando voltas no pátio até o sinal tocar. Enquanto andávamos, eu ia contando tudo que aconteceu ontem entre mim e o Vinícius.

— E então, era isso que você estava escondendo de mim ?

Márcia deu um forte suspiro e falou :

— Era. Está bravo ?

— Claro que não, eu entendo o porquê de você não ter me contado. — Falei. — Foi melhor mesmo, o Vinícius me fez muito mal.

Saímos do pátio e começamos à subir a escada.

— Você sempre foi um molenga pelo Vinícius e fazia tudo por ele. — Disse Márcia. — Eu pensei que você fosse continuar lutando por ele, e consecutivamente, sofrendo.

— Até parece, ele não vale nem 1.99, mal conseguiu se defender da própria mãe, que fraco. — Falei.

— Então você desistiu mesmo dele ?

— Eu não sei nem porquê eu tentava...

— É, mas que bom que você tomou juízo, agora finalmente vai tomar um rumo na vida e procurar por um menino que te ama muito e que te mereça, porquê o Vinícius não te merece. — Falou Márcia.

— Ah não, não estou interessado em relacionamentos agora, prefiro ficar alone como sempre. — Falei.

— Hahaha, tudo bem então.

— Mas vou garantir que manterei uma distância eterna do Vinícius, eu mesmo falei pra ele que era o fim. — Falei.

— Hahaha, e ele ?

— Ele ficou bravo, mas aposto que estava arrependido por dentro.

— Faz toda a merda do mundo e depois se arrepende, aff. — Falou ela.

— Sim...

Eu e ela adentramos a sala de aula, nós esperávamos que não houvesse ninguém na sala, pois todo mundo enrola no pátio até às 07:10, mas nos enganamos.

Havia um garoto dentro da sala, um que nunca havíamos visto antes.

Ele estava sentado na primeira carteira, bem do lado da porta, então eu e Márcia passamos bem na frente dele.

Fomos pros nossos lugares e nos sentamos.

O garoto era muito, mas muito branco. O cabelo dele também era branco,e seus olhos eram vermelhos.

Aliás, ele estava sentado numa cadeira de rodas.

— Aluno novo ? — Perguntou Márcia.

— Deve ser, mas ele chegou aqui bem cedo, hein ?

— Claro, seria ruim se atrasar no primeiro dia. — Respondeu ela. — Mas como será que ele chegou aqui em cima com essa cadeira de rodas ?

— Devem ter usado o elevador. — Falei.

— E o elevador da escola pega ? Pensei que estivesse quebrado.

— Deve pegar, afinal ele chego aqui né. — Eu disse. — Mas você viu a cor dos olhos dele ?

— Sim, ele usa lente será ?

— Não, pela aparência ele deve ser um albino.

— E albinos tem olhos vermelhos ??

— Muito raro, mas em alguns casos acontece. — Falei.

— Ele é muito branco gente. — Disse ela.

— Sim... É a primeira vez que eu vejo um na realidade.

— Ele tem o rosto esquisito. — Falou Márcia.

— É porquê se eu não me engano, as pessoas albinas tem uma "falha" no DNA tipo a síndrome de down, por isso que eles geralmente tem o rosto parecido. — Falei. — Mas o dele não é tão estranho assim, ao meu ver é bem normal.

— Verdade, só da pra reparar se você olhar de perto.

— Mas enfim, isso vai ser bem horrível.

— O que ?

— Você sabe como é o povo da sala, critica tudo que vê de diferente. — Falei.

— Será que vão implicar com ele ? — Perguntou Márcia.

— Acho que sim. — Respondi.

— Vixi... — Murmurou ela.

— Eu vou ir falar com ele. — Falei.

— Vai lá, pede pra ele sentar aqui com a gente. — Sugeriu Márcia.

É extremamente raro eu ir falar com alguém, mesmo que seja um aluno novo.

Não sei ao certo o motivo, mas este garoto me chamou muito à atenção. Diferente do povo da sala que critica, eu me atraio por coisas diferentes... E este garoto parece um personagem de anime. Ele é bonito até, se assemelha bastante com o Kaneki do Tokyo Ghoul. Mas não estou indo falar com ele apenas por causa da aparência, eu estou interessado em saber que tipo de personalidade ele tem.

Me levantei e fui até ele.

— Oi. — Falei.

Ele olhou pra mim e começou a me fitar com seus olhos vermelhos.

— Pode chegar um pouco mais perto ? — Pediu ele.

Dei alguns passos pra frente, e cheguei mais perto dele como pediu.

— O que ? — Perguntei.

— Pronto, agora eu consigo te ver. — Respondeu ele.

— Me ver ?

— Minha visão é ruim, só consigo enxergar algo que esteja num raio de 2 metros de mim. — Disse ele. — O resto é tudo apagado.

— Por que você não usa óculos ? — Indaguei.

— No meu caso não adianta de nada. — Respondeu o garoto.

— Ah, que chato... — Murmurei. — Deve ser muito ruim.

— Eu já me acostumei, eu acho. — Disse ele.

— Qual o seu nome ? — Perguntei, enquanto me sentava na carteira atrás dele.

Duas garotas da sala entraram e foram pros seus lugares, logo começaram a olhar o garoto novo.

— Nell, e o seu ?

— Gabriel. — Falei. — Nell é um nome bem diferente.

— Era o nome do meu avô. — Disse ele.

— Ah. — Falei.

Mais pessoas adentraram a sala, e todas ficavam olhando e sussurrando sobre o Nell.

— O povo está olhando pra você. — Contei à ele. — Devem estar fantasiando várias coisas sobre você.

— Não é um pouco mais que fantasia ? Que nos diz agora ?

— Ohhh, isso é de Hamlet, não ? — Perguntei.

— Você conhece ??

— Conheço. — Respondi.

— Primeira vez que encontro alguém que conheça.

— Enfim... Eu vim perguntar se você quer sentar comigo e com minha amiga ali do outro lado, ela quer te conhecer. — Falei.

— A-aah, então vocês querem ser meus amigos ? — Perguntou ele.

— Sim, provavelmente. — Respondi.

— Imagino eu que vocês não estão apenas interessados na minha aparência física, certo ?

Que pergunta direta, soou bem arrogante e sarcástico da parte dele.

Esse garoto... Deve ter passado por muita coisa pra perguntar isso à alguém que acabara de conhecer.

— Não. — Respondi. — A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro.

— Hm....... Respondendo-me com platão ? — Perguntou. — Está dizendo que quer que eu anseie pela sua felicidade ?

— Exato, assim como vou ansiar pela sua. — Respondi.

— Hunf, eu nem queria vir pra essa escola, então não espere que ficar aqui me fará feliz. — Disse ele.

— Isso nem mesmo você pode garantir. — Afirmei.

— Talvez eu possa.

Dei um peteleco na parte de trás da cabeça dele e falei :

— Vai ficar discutindo comigo até quando ?? Vamos logo Nell, se eu deixar a Márcia sozinha por muito tempo ela vai pirar. — Falei.

— Ai ! Machucou ! Você nem me conhece e já está me tocando assim ! — Exclamou ele.

— Não faça parecer como se fosse algo pervertido. — Falei.

— Pervertido ? Isso é você que está dizendo, e se está dizendo isso devo afirmar que és um tarado.

— Eu, tarado ?? Por dar um peteleco na sua cabeça ?

— Hunf.

Me levantei e perguntei :

— Precisa de ajuda pra sair daí ?

— Não. — Respondeu ele, enquanto começava a manejar a cadeira de rodas. — Só me mostre aonde eu tenho que ir.

— Tá bom. — Falei.

Fui andando bem perto dele, para que eu me mantivesse no seu campo de visão, e pedi pra ele se sentar do meu lado esquerdo.

— Oi menino, qual é o seu nome ? — Perguntou Márcia.

— Meu nome é Nell. — Respondeu ele.

Continua no capítulo 14.