Eu estrelo você
14 Arrogância
Notas iniciais
Gabriel POV
— Nell, que nome bonito. — Afirmou Márcia.
— Obrigado. — Disse Nell, meio que forçando as vistas pra enxergar a Márcia.
— É só isso ? Não vai ser arrogante com ela também ? — Perguntei.
— Não, com ela não. — Respondeu ele.
— E por que só comigo ??
— Porque você parece ser inteligente, você entende das coisas que eu falo, já ela parece ser bastante ingênua à ponto de não entender nada. — Disse Nell.
— Ah, isso soou bastante arrogante. — Falei. — Me sinto aliviado, pelo menos não foi só comigo.
— Você tá me chamando de burra ?? Eu não sou burra, você nem me conhece ainda pra falar que eu sou burra ! — Disse Márcia.
— Me desculpe, não tive a intenção de ser ruim com você, foi apenas algo habitual... — Murmurou Nell. — E eu não te chamei de burra, falei que você parece ser ingênua.
Tenso, eles já começaram de uma maneira desagradável.
— Habitual ? Você é assim com todo mundo ? — Perguntou Márcia.
— Não sei, eu não costumo fazer amigos e nem falar com ninguém. — Respondeu Nell.
— Talvez você não faça amigos por causa desse seu jeito arrogante. — Falei.
— Na verdade não, na minha escola antiga o povo mantinha distância de mim, eles mal falavam comigo.
— Hm... Se eles falassem com você, você ficaria feliz ? — Perguntei.
— Não, seria um incômodo. — Respondeu Nell.
— Agora somos um incômodo também ?? — Perguntou Márcia.
— ... — Nell ficou quieto.
— Bem, Nell, eu sou um menino bastante tímido, eu raramente vou falar com alguém por minha espontânea vontade. — Falei. — E mesmo assim, eu fui lá falar com você.
— Por causa da minha aparência. — Disse ele.
— Não, porquê eu queria saber que tipo de personalidade você tinha. — Falei.
— E agora que sabe, se desapontou, não é ?
— Claro que não, adorei o seu jeito. — Respondi. — Aposto que vamos nos dar muito bem.
— Eu também gostei de você. — Disse Márcia.
— Gostou de mim ? Até você ? Por quê ? — Perguntou ele.
— Porquê pelo menos você fala tudo na cara, diferente das meninas falsas dessa sala. — Respondeu Márcia.
— A-ah, pode não parecer, mas a Márcia chega a ser mais arrogante que você, Nell. — Falei.
— Achei ofensivo, Riquelme. — Disse ela. — Você está se esquecendo que o arrogante aqui é você !
— Eu ???? Arrogante ???? Quando ???? — Perguntei.
— Se uma pessoa que você não gosta vem falar com você, você encara ela com aquele olhar de assassino maníaco e a trata como um verme. — Respondeu ela.
Tentei me lembrar qual foi a última vez que tratei alguém assim, e me lembrei do Guilherme.
— Tudo bem, eu sou arrogante. — Falei. — Somos os três arrogantes, nascemos pra sermos amigos mesmo. — Falei, soltando uma risadinha.
— Entendo, então tudo bem... — Disse Nell. — Mas, quem é Riquelme ?
— Sou eu. — Falei. — Meu nome é Gabriel Riquelme.
— Quê raios de nome é esse ? — Perguntou ele.
— É o nome de um jogador, meu pai adora futebol... — Murmurei.
— E você ? Gosta de futebol ? — Perguntou Nell.
— Hahahahahahahaha. — Márcia deu risada.
— XIU ! NÃO RIA ! — Exclamei.
— HAHHAHAHAHHAHAHHAHAHAHAHAHAAHAHAHAHAHA. — Gargalhou a Márcia.
Nell fez uma cara de dúvida.
— O Riquelme, quando era pequeno..... — Márcia foi falar, mas eu a interrompi.
— NÃO ! NÃO REVELE MEU PASSADO OBSCURO ! — Exclamei. — Eu conheci ele ainda hoje !
D-droga, a Márcia adora contar essa história do futebol pros outros, aff.
— Tudo bem, se ele não quer que eu saiba, então é melhor você não falar. — Disse Nell.
Márcia deu um suspiro e falou :
— Tá bom...
Enquanto conversávamos, a sala encheu com os alunos, agora só faltava o professor chegar.
Uma menina veio até nós e falou :
— Hey, menino, olha pra cá. — Ela se referia ao Nell.
O garoto albino olhou pra ela, e a garota fez uma cara de espanto
— Quê isso ? É lente ? — Perguntou ela.
— Por favor, chegue um pouco mais perto. — Pediu Nell. — Eu não consigo enxergar muito longe.
A garota se aproximou dele e ele viu o rosto dela.
— Os olhos dele são naturais Cristina, ele é albino. — Falei.
— Eeeeeita, que foda. — Disse ela, enquanto voltava pro seu lugar e fofocava pros outros.
— Pronto Nell, você mal chegou e já virou capa de revista. — Disse Márcia.
— É, quero ver no intervalo. — Falei.
— Vai ser um saco. — Disse ele.
— A propósito, você disse que na sua escola antiga, não falava com ninguém... — Murmurei. — Era sério ?
— Sim. Por quê eu mentiria ?
— Como que era ? Nos conte. — Pediu Márcia.
— Eu era e sou horrível pra fazer amigos, eu não tinha assunto com as pessoas e eles queriam se manter longe de mim. — Disse Nell.
— Por quê ? — Perguntou ela.
— Não sei, talvez porquê eu seja "assustador". — Falou ele.
— Credo, que gente horrível.
— Houve uma vez que o professor passou uma pesquisa em grupo, e eu tive que fazer com outros alunos. — Disse Nell. — Sempre que tinha pesquisa em grupo, eu fazia sozinho. Mas naquela vez o professor fez questão de eu fazer com os outros alunos.
— Eita, e aí ? — Perguntei, eu entendia perfeitamente como ele se sentia.
— Aí eu fui na casa de um cara da sala lá, junto com o resto do grupo. — Disse ele. — Eu fazia tudo que eles pediam, e apenas isso. Não falava nada e contava os segundos pra ir embora.
— Por que você não tentou se tornar amigo deles ? — Perguntou Márcia.
— Ah, sei lá, eu não tive vontade. — Respondeu ele.
— Você não deveria ter ficado tão quieto. — Disse Márcia.
— Por quê ?
— Se você tivesse tentado, ao menos um pouco,você teria se tornado amigo deles.
— Mas eu não queria.
— Ninguém gosta de ficar sozinho Nell, tenho certeza que você ficava mega depressivo. — Falou Márcia. — E outra, essa de "os outros quererem se manter longe de você, por causa da sua aparência física" foi um pretexto que você mesmo criou.
— ... — Eu fiquei na minha, apenas escutando.
— Eu criei ? — Perguntou ele.
— Sim, de todas as pessoas, você é o que mais se vê como um "monstro", de todos, você é o que mais quer se afastar de si mesmo, por causa da sua aparência física. — Respondeu Márcia.
— Entendi, então está dizendo que eu me faço de vítima ? — Perguntou ele.
— Sim. — Respondeu ela. — Seja mais natural, pare de se sentir inferior aos outros. Pare de achar que os outros se acham superior à você, porquê eu aposto que na verdade, eles morrem de vontade de ir falar contigo.
— Como você pode dizer tudo isso, se me conheceu ainda hoje... ? — Perguntou ele.
— Porquê o Riquelme era igualzinho à você. — Respondeu ela.
— Eu ??
— Sim, quando eu vim pra essa escola, você se isolava de tudo e de todos, todo triste porquê perdeu o amiguinho amado. — Disse ela.
— Tá.... Isso foi mega desagradável. — Falei.
— Mas você mudou, então está tudo bem. — Disse Márcia, com um sorriso no rosto.
Nell ficou quieto, então Márcia decidiu falar mais uma coisa :
— Olhe para a sala, o Riquelme pensou o mesmo que você, achou que o povo iria implicar contigo por causa da cadeira de rodas e da aparência, mas na verdade eles estão é encantados.
— Bem... Não é como se nunca tivesse acontecido antes. — Disse Nell. — Eu também acho bem chato quando o povo se atrai justamente pela minha aparência. Acho isso feio. As pessoas deveriam se encantar mais com nossas personalidades do que com nossa aparência física.
— Então quando eles vierem falar com você, trate-os bem, seja gentil, e faço-os se encantar com você. — Falou Márcia.
— Você está se contradizendo. — Falei à ela.
— Por quê ?
— Você disse que gosta da personalidade do Nell, arrogante.
— É verdade, me desculpe. — Disse Márcia. — Vou me corrigir.
— Quando o povo vier falar com você Nell, seja arrogante com eles, mostre sua personalidade verdadeira, afinal eles tem que gostar de você do jeito que você é. — Disse ela. — E tomara que eles te odeiem, porquê aí você será apenas o NOSSO amigo, e não dividiremos com ninguém.
— Hahaha, a Márcia gostou mesmo de você Nell. — Falei.
Nell soltou um sorrisinho pela primeira vez, e eu notei fascinado.
— Viu, que bonito esse sorriso ! — Exclamou Márcia.
— Ele parece um coelhinho... — Murmurei.
— ... — Nell ficou quieto.
— Parece mesmo ! Um coelhinho albino ! — Exclamou Márcia.
— Ele é nosso coelhinho agora. — Falei.
— É. — Afirmou ela.
— Coelhinho uma ova, ainda mais de um pervertido e de uma ingênua. Jamais. — Disse ele.
— Pervertido ? Ele falou de você Riquelme ?
— Sim...
— Você ??? Pervertido ??? Por quê ele acha isso ???
— Bobeira. — Falei.
— Você não disse nada daquilo pra ele não, né ??
— Márcia... Não me entregue... — Murmurei.
— Hm.......... Interessante, então eu estava certo. — Falou Nell.
— Calado coelho. — Falei.
A professora de Biologia finalmente entrou na sala, já eram 07:15. Se atrasou muito.
— Oi oi, bom dia. — Falou a professora.
Ela se sentou, olhou a lista da chamada e falou com o Nell :
— Você é aluno novo ?
— Sou. — Respondeu ele.
— Cadê sua carteirinha de estudante ?
— Tá aqui. — Disse Nell.
— Deixa que eu dou pra ela. — Falou Márcia.
Márcia pegou a carteirinha dele e entregou pra professora, para que ela pudesse colocar seu nome na lista de chamada.
— Você é o número 44. Quer se apresentar pra sala ? — Perguntou ela.
— Não precisa não. — Respondeu ele.
— Tá bom então.
A professora se levantou e começou a passar lição. A vista do Nell era ruim, então Márcia teve a ideia de ditar pra ele tudo que a professora escrevia na lousa. Para isso, ela se sentou atrás dele.
O povo da sala sentava a maioria no fundo e nas laterais. Na frente (onde sentávamos) era bem vazio.
Verônica POV
São 07:21 da Quarta-feira, estou agora na sala de aula.
Sou do primeiro ano, classe D, sento na segunda carteira na fileira da janela. Meu amigo Pedro senta na minha frente.
O professor está passando um texto enorme na lousa, e todos estão copiando com atenção.
Cutuquei o Pedro por trás.
— Pedro.
— Quê ? — Perguntou ele, de uma maneira grossa.
— Tá bravo ?
— Não, só estou ocupado.
— Você está copiando esse texto do professor eventual, não sei pra quê ! — Falei.
— Mas vale ponto. — Disse ele.
— Não vale nada, vira pra cá, preciso que você me ajude a montar a matéria da semana.
Eu e o Pedro somos parte do clube de jornalismo da escola. Eu sou a líder desse clube, sou responsável pela distribuição das tarefas dos demais membros e pela criação da manchete do jornal.
Somos de uma escola pública, e existem poucos clubes aqui.
O clube de basquete, o clube de futebol, o clube de jornalismo e o grêmio (também conhecido como conselho estudantil).
Nosso jornal apresenta informações da escola, da educação no geral, algumas notícias sobre o mundo (aquelas que mais chamam a atenção do leitor, de preferência), e informações sobre os demais clubes.
Vários alunos leem o nosso jornal, somos sucesso !
— Aaaaaaaah Verônica ! Eu preciso copiar caramba ! Eu necessito dos pontos ! — Exclamou ele.
— Larga de ser nerd. — Falei. — Vai, me conta, que tipo de notícia você preparou pra mim hoje ?
— No intervalo eu mostro. — Disse ele.
— Mostra agora. — Pedi.
— Não.
— Mostra.
— Não.
— Mostra.
— Oxii Verônica, olha isso aqui. — Disse ele, me mostrando o texto que copiava da lousa.
— Quê que tem ?
— Tá escrito 'fazes' aqui ? — Perguntou ele.
— Sim, você escreveu fazes, por que ? Não está entendendo a própria letra ?
— Não, é que não faz sentido estar escrito fazes aí. — Disse ele.
— Por quê ?
— "No interior de São Paulo, há muitas fazes repletas de vegetação fértil" — Disse ele, lendo o que havia escrito.
Olhei na lousa e procurei a mesma frase.
— Não é 'fazes', é 'fazendas'. Você escreveu errado. — Falei.
— Aah... — Disse ele. — Me empresta o branquinho ?
— Só se você me mostrar a notícia que preparou. — Falei.
Ele fez uma cara de bravo, mas logo pegou a mochila e retirou a notícia, após isso, se virou pra trás e me mostrou.
Li com atenção e perguntei :
— Eu não entendo, o que é isso ? — Perguntei.
O Pedro é bastante CDF, ele escreve a ala "curiosidades" do jornal, falando sobre coisas filosóficas, científicas ou astrônomas. Principalmente astrônomas, além de ele adorar astronomia, os leitores costuma se atrair sobre as curiosidades do universo, então é bom pra nós. O Pedro consegue escrever de uma maneira que atrai até a atenção dos funkeiros à ala das curiosidades. É incrível.
— Está falando sobre Plutão, que voltou a ser considerado um planeta. — Disse ele.
— Essa parte eu entendi, mas...
Continuei discutindo com ele sobre isso, apontando os erros para que ele pudesse melhorar, e também parabenizava pelos pontos bons.
— Eu vou editar essa parte que ficou confusa, e vai ficar bom. — Falei.
— Certo.
— Tente melhorar da próxima vez para que eu não precise editar.
— E você ? Já encontrou nossa manchete ?
— Ainda não, as coisas estão bem tediosas ultimamente.
— Nada no secret ? — Perguntou ele.
— Nada.
Secret é um aplicativo muito útil que nos cede informações sobre os alunos e a escola.
Claro, a secretaria não nos permite publicar notícias sobre os alunos, para não gerar tumulto. Mas sempre há um jeito, no caso, se a notícia possuir um bem maior, eles permitem. Ou melhor, eles não percebem.
Por exemplo, se eu acho no secret a imagem de uma das alunas beijando outra garota, só preciso fazer uma matéria sobre o homossexualismo, e colocar um pequeniníssimo trecho falando sobre tal beijo, em referência ao tema.
As pessoas irão focar mais no tema em si e não darão muito valor ao beijo das garotas, porém... A fofoca já será lançada.
Eu diminuo a atenção do pequeno trecho, transmitindo-a ao texto em si, e a secretaria acaba deixando passar.
Enfim, só escrevi sobre outros alunos duas vezes fora da ala de entrevista, e foram um sucesso.
— Quem é o entrevistado da semana ? — Perguntou Pedro.
— Ainda não temos um. — Respondi.
— Oxi, por que ?
— Porque eu ainda não achei, mas enfim. E você ?
— Eu o que ?
— Como vão os crush ?
— Hm... Por enquanto eu tenho pensado bastante no Vinícius. — Disse Pedro.
— Ele é gay ?
— Não sei oxi.
— Se ele não for, você vai ficar chateado ?
— Nah. De boas.
— E quanto ao Miguel ? Já esqueceu ele mesmo ?
— Credo, ele não tinha pegada nenhuma. — Falou Pedro. — Ficava falando coisas melosas e tal, todo romântico, mas também era só isso. Só falava e não fazia nada.
— Sei, então o crush da semana é o Vinícius. — Falei.
— Sim, mas ele faltou hoje. Eu fiquei observando com atenção na entrada, e nada dele.
— Amanhã ele deve vir, só esperar.
— Uhum.
O sinal tocou, indicando o término da primeira aula.
— OXIII, JÁ ACABOU A AULA ?
— Já, hahaha, consegui te enrolar.
— NÃO ! Espera professor ! — Disse ele, enquanto ia atrás do prof.
— Nerd idiota. — Murmurei pra mim mesma.
Gabriel POV
Às 09:27, todos já estavam se aprontando pra ir pro intervalo. O pessoal todo veio "interrogar" o Nell nesse tempo que passou, e o coitado não soube lidar com eles.
Ele nem conseguiu ser arrogante, por causa da vergonha e da timidez falando mais alto. Simplesmente não esperava que viessem em grupo de três à quatro pessoas.
— Faltam três minutos pro intervalo, e será agora que o inferno do coelhinho vai começar. — Falei.
— Não diga "coelhinho" e "inferno" na mesma oração. — Falou Nell.
— A propósito, como você vai chegar lá em baixo ? — Perguntou Márcia.
— Pelo elevador. — Respondeu ele.
— Eu disse. — Falei.
— E como eles fazem ? — Perguntou Márcia.
— Um dos inspetores vai vir me buscar assim que a turma descer. — Respondeu Nell.
— Ah, certo então, eu vou descer com você. — Falei.
— Não precisa, pode descer na frente. — Disse ele.
— Não, eu quero ir com você. — Insisti. — E você Márcia ?
— Eu vou ir na frente, preciso pegar a fila do refeitório. — Respondeu ela.
— Você quer comer lá ? Que raro. — Falei.
— Hoje estou morta de fome, porquê não jantei ontem.
— Hm... Tomara que eles deem mingau.
A Márcia detesta o mingau da escola, e eu sempre implico com ela dizendo que vai ter mingau, quando ela diz que vai ir comer.
— Não, para, não vai ter mingau não. — Falou ela.
— Mas nós não estamos sentindo o cheiro de comida hoje. — Eu disse. — Aposto que é mingau.
— Para, é só impressão sua.
— E você coelho, o que planeja fazer no intervalo ? — Perguntei.
— Quero dar uma olhada na biblioteca, não vou no refeitório porque creio que a fila é enorme, e multidões pra um cadeirante é muito fútil. — Respondeu ele.
— Eu também só fico na biblioteca, odeio ir no refeitório. — Falei.
O sinal tocou e a Márcia saiu em disparado pra pegar a fila do refeitório.
O povo da sala foi saindo um a um, até que só ficamos eu e o Nell esperando pelo inspetor.
— Você deveria ter ido com ela. — Disse ele.
— Não quis ir no refeitório. — Falei. — E nem te deixar sozinho.
— Hm, certo. — Disse ele.
— Sabe... O que ela disse mais cedo era verdade. — Falei.
— O que ?
— No ano passado, por um certo motivo, eu ficava totalmente sozinho na escola, sem falar com ninguém. — Contei à ele.
— Ah, é ?
— Sim, e eu lembro que estar sozinho me deixava triste, muito triste. — Falei. — A Márcia disse que as pessoas se sentem tristes quando sozinhas, por causa das coisas que eu contei à ela.
— Ela chegou na escola depois disso ?
— Sim, aí ela se tornou minha única amiga, à qual eu contava tudo. — Falei.
— Entendi.
— Nunca fui de ter vários amigos, andar em grupos ou tudo mais. — Falei. — Sempre fui de ter um único amigo.
— Por quê ?
— Porquê se eu ficar em um grupo, sempre acabo sobrando, sempre. — Falei.
— ... — Nell ficou quieto.
— Você entende, não é ? Agora nós somos um grupo de três. — Falei.
— Se quiser parar de falar comigo, tudo bem. Eu não tenho intenções de roubar a Márcia de você. — Disse ele.
— Coelho lerdo. — Afirmei.
— ?
— Fui eu quem fui falar com você, e quando te chamei pra sentar com a gente, já sabia dos riscos que eu corria. — Falei. — Mas mesmo sabendo dos riscos, eu fui e arrisquei. Eu falei com você e me tornei seu amigo.
— O que isso quer dizer ?
— Quer dizer que eu tenho confianças que seremos bons amigos, mesmo sendo um grupo de três. — Respondi. — E tenho certeza que não iremos deixar ninguém de lado.
— N-nem mesmo eu... ? — Perguntou ele.
— Nem você, nem eu e nem a Márcia. — Respondi. — Viu ? Eu estou arriscando mesmo tendo "traumas" passados.
— Você não deveria confiar em alguém que acabou de conhecer. — Disse ele. — E se eu acabar roubando a Márcia de você e te deixando sozinho ?
— Haha, você não vai fazer isso. — Falei.
— Por que não ?
— Porquê eu sei que você nos considera muito importantes.
— ...
— Mesmo tendo nos conhecido hoje, da pra ver nos seus olhos, o quanto você gostou da gente. — Falei. — Mesmo que você não fale ou não demonstre Nell, eu sei que pra você, nós dois somos de valor equivalente, e muito especiais pra você. Você não seria capaz de abandonar nenhum de nós.
— Como consegue dizer isso com tanta certeza ?
— Porquê eu sou como você. — Respondi. — Posso ser uma muralha impenetrável no início, mas, depois que me apego à pessoa, não consigo mais abandonar.
— Que garantias você tem... Que EU me apeguei à vocês em um ÚNICO dia ? Aliás, nem um dia se passou, nós nos conhecemos à apenas algumas horas. — Disse ele.
Eu tinha uma resposta bem lógica para aquilo, mas decidi não usar.
Optei por responder com outra pergunta.
— Então, olhe nos meus olhos e diga, que nós não nos tornamos importantes pra você. — Falei.
Ele ficou calado por alguns segundos, mas logo disse :
— Não, vocês não se tornaram importantes pra mim. — Disse ele.
— Hihihi, mentiroso. — Falei.
— Não estou mentindo !
— Está sim, coelho sapeca.
— Prove.
— Prove você que não está mentindo.
— ARG ! — Exclamou ele. — Te odeio !
Fui por de trás da cadeira de rodas dele e baguncei todo o cabelo dele.
— Ah, você me odeia é ? Interessante. — Falei, enquanto bagunçava mais ainda.
— Não me toque tarado ! — Exclamou ele, enquanto tentava desviar mexendo a cabeça pro lado.
O inspetor chegou e nós descemos pelo elevador da escola.
Aquela coisa estava imunda... Caindo aos pedaços...
Pensei que fosse morrer.
— Quer ir no refeitório procurar pela Márcia ? — Perguntei.
Nós já havíamos chegado no pátio, e como esperado, o Nell atraía inúmeros olhares.
— Vai ser desagradável. — Respondeu ele.
— Puxa, se possível não queria deixar ela comendo sozinha. — Falei.
— T-tá.. Então vamos lá. — Disse Nell.
Eu sabia, ele realmente gostou muito da gente, haha.
Chegamos na entrada do refeitório e havia uma fila enorme.
Não dava pra entrar, a fila tapava a entrada.
— E agora ? — Perguntei.
— Não sei. — Respondeu ele.
— EII !! MENINO !! — Ouvi uma voz feminina, gritando por alguém.
Olhei pra trás pra ver quem era.
Havia uma menina e um menino vindo na nossa direção.
— Lá vem. — Falei à ele.
— Que saco. — Reclamou Nell.
Os dois pararam na nossa frente, e a garota começou fazendo uma pergunta ao Nell.
— Você é novo na escola, menino ??
— Sou. — Respondeu Nell.
— Qual é o seu nome ?
— Nell.
A garota era morena, tinha cabelos pretos e longos, usava óculos. Eu conheço ela de vista, não é a garota do jornal ?
— Eu sou Verônica, do clube de jornalismo. — Disse ela. Sabia.
— Então há clubes nessa escola ? Você não me contou isso. — Falou Nell, se dirigindo à mim.
— Tem sim, mas são poucos. — Falei.
Havia um garoto com a tal Verônica, ele era muito fofinho.
— Eu tenho muitas perguntas pra te fazer, você quer ser o entrevistado da semana ? — Perguntou ela.
— Não. — Recusou Nell, friamente.
— Por quê ? Você é cadeirante, não é ? Como que é o atual estado do elevador da escola ? Aposto que ele está um caco. — Disse ela. — Você não quer nos ajudar à melhorar o elevador da escola ?
Eu e ele ficamos quietos, e a garota tagarela não parava de falar.
— Não consegue entrar no refeitório por causa da fila ? Não consegue usar o banheiro ? Nós não temos banheiros pra cadeirantes na escola, não temos nada, nenhum recurso ! É um absurdo, não é ? Aposto que você não quer estudar numa escola assim !
— Verônica, acho que... — O garoto foi falar, mas acabou interrompido por ela.
— Pedro, agende a data da entrevista. — Ordenou a garota.
— Mas ele não parece querer. — Murmurou o tal Pedro.
— E eu não quero, não dou a mínima pra essa escola. — Disse Nell. — E eu consigo me virar com as coisas do jeito que estão, não preciso de mordomias só porquê sou cadeirante. E mais, não quero servir como "entretenimento" de um jornalzinho.
Nell na sua cadeira de rodas, se moveu pra longe de nós e pra longe do refeitório.
Eu o segui.
— Oxi, que menino mal educado. — Disse Pedro.
— ...
— Verônica ?
— Ele acha que eu vou desistir por causa disso... Haha, nós jornalistas, o que mais vemos no mundo são pessoas arrogantes. — Disse Verônica. — E aprendemos à lidar com esse tipo de gente melhor do que ninguém.
Márcia saiu do refeitório e passou do lado dos dois.
— O que vai fazer ? — Perguntou Pedro.
— Darei início à nossa manchete. — Respondeu ela.
Eu e Nell entramos na biblioteca e fomos procurar alguns livros.
— Você foi cruel com eles, coelho. — Falei.
— Tsk.
— Pode ser perigoso, nós não sabemos do que essa gente é capaz... Vai que se revoltam contra você. — Falei. — E ela só queria ajudar, o estado do elevador é realmente crítico...
Nell me ignorou.
— Você foi longe demais, deveria se desculpar. — Falei.
Márcia chegou até nós e falou :
— Riquelme maldito, estavam dando mingau no refeitório hoje ! — Exclamou ela.
— Vem cá Márcia. — Falei, enquanto a puxava pra longe do Nell.
— O-o que foi ?
Contei o ocorrido à Márcia, e ela deu uma sugestão :
— Verdade, não será bom pro Nell criar "inimigos" logo no primeiro dia. — Disse ela. — Devemos ir nos desculpar com a err.. Verônica ?
— Boa ideia, e devemos ensinar o Nell à ter bons modos também. — Falei.
— Puxa, você muda de ideia toda hora, afinal, quer que ele seja arrogante ou educado ?
— Quero que ele seja ele mesmo, mas enfim.
Fui com a Márcia pra saída da biblioteca, e me esbarrei com alguém. Era o Kaio.
— Eae, aonde cês vão ? — Perguntou ele.
— Lugar nenhum. — Respondi, enquanto arrastava a Márcia pra fora da biblioteca e deixava o Kaio plantado lá.
— Olha o Riquelme arrogante aí. — Disse Márcia.
— Xiu.
Procuramos pela Verônica em todo canto, mas não encontramos.
Só restou um lugar à procurar : na secretaria.
O clube de jornalismo fica lá.
Batemos na porta da secretaria e esperamos que abrissem. Após alguns segundos, uma garota nos atendeu. Era Verônica.
Além de Verônica e Pedro, tinha mais 6 membros do clube com eles. Provavelmente, cada um possuía sua função.
— Do que precisam ? — Perguntou ela.
— E-eu quero pedir desculpa pelo Nell, ele é bem antissocial e não sabe lidar com as pessoas. — Falei. — Desculpe pelo quê ele disse.
— Ah, então era isso. Tudo bem, aquele coiso ali também é antissocial. — Disse ela, se referindo ao garoto Pedro.
— Mentira. — Disse ele, enquanto permanecia escrevendo algo.
— Ele é novo na escola, e as pessoas tem colocado muita pressão nele por causa do albinismo e da cadeira de rodas. — Falei.
— Ah sim, ainda tem essa do albinismo, os olhos dele são vermelhos naturais né ?
— São.
— Tudo bem, nós entendemos, diga à ele para vir nos procurar quando quiser.
— Certo. — Falei. — Sabe, sendo sincero, acho que seria bom ele fazer a entrevista, porquê hoje mesmo, poucas pessoas faltaram e o refeitório estava lotado.
— Ele não conseguiu entrar lá né ? Eu vi. — Disse ela.
— A propósito Riquelme, falando em pessoas que faltaram, o Vinícius faltou hoje. — Cochichou Márcia, no meu ouvido, porém, a Verônica ouviu.
— Vinícius ? Que Vinícius ? — Perguntou ela.
Pedro também ouviu a pronuncia do nome "Vinícius", e começou à prestar atenção na gente.
Continua no capítulo 15.
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