Eu Sei Quando Você Mente
13 Tire a máscara
Sabrina já tinha dado algumas dezenas de voltas ao redor na parte de dentro do balcão da secretaria. Fuçado nas mesas, olhado a papelada, brincado com canetas e bagunçado as áreas de trabalho das atendentes para pregar uma peça nelas quando voltassem ao expediente. Encontrou um estilete e pensou sobre como ele teria sido mais útil para Miriam do que aquela faquinha minúscula que ela levou, mas agora já deveria estar longe dali.
O tédio estava a consumindo tinha um tempo quando decidiu perguntar para o Hélio mais uma vez:
— A gente já pode ir embora?
— Não — ele respondeu, ríspido. Ainda estava sentado na poltrona verde ao lado da janela e alisava com as pontas dos dedos a pistola prateada sobre sua coxa, enquanto mantinha o olhar compenetrado no arco de entrada da grande sala em que estava.
— Mas eu achei que a gente ia dar só mais cinco minutos pra ela chegar — Sabrina se lamentou subindo sobre o balcão para ficar sentada próxima ao namorado. Balançava as pernas longe do chão.
— Mudei de ideia — ele manteve a linha direta. — Acho que é melhor acabar com isso de uma vez por todas.
— Windera não vai chegar. Ela deve tá zoando a gente — a garota tentou desestimular a insistência do rapaz.
— Pode ser. Mas se ela vier, quero tirar um lero com ela do mesmo jeito.
— Como assim?
— Ela acha que pode fazer a gente de otário assim? Não, não. Ou ela tá zoando a gente, ou ela é o Anônimo. Chega de deixar fazerem a gente de idiota e ter medo de cartinhas. Se ela acha que pode me ameaçar e foder com meus esquemas, ah... ela vai se ver comigo.
— Não vai fazer nada sem ter certeza, tá bem? — Sabrina preferiu ressaltar. Tinha medo de irem de vítimas para culpados por causa do temperamento do namorado.
— Mas eu preciso agir antes, ter instinto. Não vou crescer muito se não for assim. Vou pra lugar nenhum — assumiu um peso na voz. Queria intimidar um inimigo imaginário.
— Chega — Sabrina interrompeu, descontente. — Não quero saber absolutamente nada desses seus esquemas.
— Então me deixa aqui. Se quiser, pode zarpar — resmungou para a garota. — Eu resolvo o rolê todo e, quando cê acordar amanhã, nem falamos mais sobre nada disso, de Anônimo, Windera ou o meu caralho de asas.
— Ir embora sozinha? Nem fodendo — fez uma pausa e ficou olhando para baixo, analisando as pernas balançarem no ar. — Se bem que ia ser maneiro ver a Windera ser colocada contra a parede. Não gosto daquela menina...
Hélio não respondeu e continuou atento à entrada. Sabrina encarou a pistola. Não queria acreditar que Hélio pudesse de fato atentar contra outra pessoa tão levianamente. Conhecia o jeito dele, sempre usava dessas coisas pra botar medo nos outros, parecer maior e mais intimidador. Torcia para que ele usasse a arma apenas para, no máximo, se proteger num caso muito extremo.
Mas, mesmo assim, a arma lhe causava arrepios.
O tédio deu lugar à preocupação. Olhou para a rua distante e deserta pela janela. A escuridão sempre lhe alimentava um pavor, um mistério. Somada ao silêncio da sala, fez com que seu corpo arrepiasse por inteiro. O único som que chegava ao seu ouvido era o tique-taque de um grande relógio de ponteiro pendurado acima da parede atrás do balcão da secretaria.
Foi assim que deu-se conta do real tempo que havia passado. Miriam tinha deixado-os a sós há mais de dez minutos e não retornou. E ainda haviam outros sumidos.
— Marcos e o Dário também não apareceram — Sabrina continuou a construir sua linha de raciocínio, desta vez em voz alta. Percebendo o devaneio da garota, Hélio não respondeu e continuou na sua atividade, compenetrado. — Será que a Miriam e o Felipe tão bem?
Sentiu-se alienada por ter pensado na segurança dos outros únicos dois presentes na escola apenas naquele momento. Estava tão ansiosa para a chegada de Windera que deixou esse ponto fugir da sua atenção. Quer dizer, deixar Miriam ir atrás de Felipe sozinha pareceu uma loucura somente ali naquele momento. Antes, não tinha levado a sério.
E se tudo aquilo fosse uma armadilha da Windera? Era sua suspeita número um para o Anônimo, e o sumiço dos dois não caiu para ela como um bom sinal.
Conforme refletia sobre a gravidade da situação, o ar do ambiente pareceu ficar mais denso. A respiração pesou e a atmosfera tinha se tornado mais intragável, ríspida e quente como recém saída de uma fornalha. O calor também subiu pelo seu corpo até fazê-la sentir uma gota de suor escorrer pela têmpora. Só não sabia se era suor de quentura, ou suor frio de medo.
O seu estado atento ao perigo permitiu, pelo menos, aguçar a audição.
— Têm alguém vindo — Sabrina avisou de sobressalto e corrigiu sua postura sobre o balcão para se preparar para escorregar até ter os dois pés firmes no chão. Ouviu o barulho de passos vindos além do lado de fora do corredor e, assim que a ouviu falar, Hélio depositou a mão direita sobre a pistola.
Os dois olharam tensos para o arco da secretaria e esperaram alguém, ou algo, aparecer. Demorou mais do que precisava, mas, enfim, um rapaz vestido todo de preto surgiu abaixo do pequeno lustre do hall da escola.
— Dário? — Sabrina perguntou ao ver o garoto de cabelos escuros. Emitiu a voz com surpresa, mas também com alívio por não encontrar ali um monstro ou uma visão que lhe desse a sensação iminente de morte.
O recém chegado analisou dentro da secretaria antes de responder. Parecia procurar por mais pessoas.
— Cadê todo mundo? — perguntou um pouco confuso. Sua voz era molenga e meio vacilante. Sabrina notou de cara que estava bêbado.
— Por que demorou tanto? — Hélio respondeu com outra pergunta. Só depois que disse algo que Dário prestou mais atenção no garoto grande e também percebeu a arma no seu colo.
— Coisa minha — ele respondeu escorando-se no arco para relaxar.
— Coisa sua, nada — Hélio retrucou. — Essa parada é sobre todo mundo.
— Onde você tava? — Sabrina insistiu na pergunta para aumentar o coro de Hélio.
— Eu tava numa festa — respondeu ainda mais mole. — Curtindo, ok? Se você tivesse numa festa, ia querer ir embora na metade pra encontrar uma puta maluca e psicótica?
— Cê tá saidinho demais pro meu gosto — Hélio o repreendeu, mas Dário fingiu que não ouviu e emendou direto de sua última fala:
— E eu sei que cê gosta de uma festinha, Sabrina!
A garota ficou sem reação com a pachorra do comentário. Ia retrucar, mas Hélio tomou-lhe a vez:
— O que cê disse, seu merdinha?
— Hélio, não cai na dele. Tá querendo te estressar — Sabrina pediu para a apaziguar a situação, mesmo que ainda ofendida com o comentário do outro rapaz. E também assustada com a irrelevância que seu tom dava para tudo que havia entre Dário e Sabrina. Não valiam de mais nada?
— Agora paga de machão pra proteger a namoradinha, né? — o garoto de preto continuou provocando. Estava se divertindo com as palavras que julgara nunca antes ter coragem de verbalizar. Era claro como havia jogado a toalha sobre aquele assunto. — Devia ficar mais de olho nela, então.
— Essa é a última chance de você calar a boca, bostinha — o ódio de Hélio foi verbalizado. E chegou ao ápice quando Dário respondeu:
— Ou eu deveria dizer: nossa namoradinha? Sabia que a guarda é compartilhada, né?
Sabrina jurou que Hélio apontaria a arma e atiraria contra Dário. Mas, ao invés disso, seu namorado levantou-se num supetão apenas para lhe dar um belo soco na cara e voltou para a poltrona com uma serenidade cínica estampada no rosto.
Sem equilíbrio, firmeza e com aquele corpo magricela, Dário caiu para trás, de costas no chão, como se tivesse sido empurrado por um rinoceronte. Ficou estirado sobre o mármore gelado, reclamando de dor com a mão sobre a maçã do olho direito. Retorcia e soltava grunhidos que aos poucos se tornavam uma risada mole e lunática. A cena deixou Sabrina e Hélio um pouco desconcertados.
A garota de cabelo loiro aproximou-se de Hélio, abraçou seu peito e puxou-o para trás com leveza a fim de afastá-lo de Dário e impedir que atacasse de novo, mesmo que o outro garoto não demonstrasse que iria se recuperar e contra atacar. O seu namorado aceitou e deu os passos recolhidos.
— Essa doeu, cara — Dário comentou entre os risos frouxos. Finalmente apoiou-se no chão pelos cotovelos e, ainda de barriga para cima, içou a cabeça para cima para ter melhor visão do casal na sala ao lado.
Dário não tinha humor de quem havia acabado de ser violentado. Parecia que todos os insultos e insolências do seu comportamento recente estivessem pedindo para tomar aquele murro no meio da cara. Agora que tinha conseguido, estava aliviado.
— Pra onde a Miriam foi? — o garoto de preto perguntou depois de, a um certo custo, levantar-se.
— Acho que pro bloco do médio — Sabrina respondeu de imediato na esperança que ele saísse dali logo e os deixasse a sós. Ao contrário disso, Dário limpou o canto do olho, de onde brotava um pouco líquido escarlate do corte fino, e ficou encarando os dois. Hélio tomando a frente e Sabrina acuada atrás dele, como quem tem receio e quer se proteger.
Antes de deixar o local, Dário apontou para Sabrina e fez seu último comentário com uma límpida e serena expressão:
— Sabe por que ela volta mansinha pra você depois que vocês dois brigam? Porque ela passa uma noite comigo e volta de boas e relaxada pra tua casa.
Sabrina tinha suas duas mãos sobre Hélio. A esquerda no seu ombro esquerdo e a direita sobre sua costela direita. Usou do tato para analisar se o namorado reagia mal. Se a respiração arfasse, se o coração acelerasse, se os músculos se contraíssem.
Mas era ela quem tinha o corpo reagindo com o comentário. Já Hélio pareceu continuar na mesma. Sua única ação do momento foi afastar as duas mãos da garota de seu corpo e desvencilhar-se do seu abraço. Deu um passo para frente e fez pergunta derradeira:
— Então é verdade, mesmo? Você realmente sai com aquele bostinha?
Decepção escorria do seu rosto.
O ar de Sabrina voltou a pesar. Mal entravam pelas narinas e, sem folêgo, não conseguiu responder. Queria sinalizar que não com a cabeça, mas também não lhe movia o seu pescoço.
— Desde quando? — Hélio continuou perguntando, já tomando como afirmativa a resposta da garota para a sua primeira pergunta. — Eu perguntei desde quando!
— E-eu não sei... — fraquejou em ligar as palavras pela boca porque o seu corpo todo tremia. Mas a verdade era que não sabia mesmo.
Dário já estava na sua vida antes mesmo de Hélio virar algo além pelos seus olhos. Os dois garotos ainda eram amigos próximos quando beijou Dário pela primeira vez e ele já se apaixonou de cara. Foram tantas idas e vindas, a maioria por causa das resistências de Sabrina em se relacionar com o garoto muito diferente dela. Tantas semanas distantes intercaladas com dias de contato intenso e fervoroso. E foi de fato aquele entrelaço entre os dois que fez Dário desistir de vez da amizade com Hélio, o rapaz com quem Sabrina preferia assumir algo na frente dos amigos.
Mas era mais forte que eles. Sabrina e Dário nunca deixaram de se ver. Pelo menos não até a Miriam surgir.
— Tinham me avisado — Hélio retrucou para si mesmo, repreendendo-se. Bateu com o cano da pistola na própria cabeça como quem agredia seu eu do passado pelas memórias — Mas eu deixei de lado. Confiei em você, sua puta.
Foi apenas nesse instante que reagiu. Pegou de volta o passo que tinha dado para se afastar da garota e avançou sobre ela. Sabrina tentou reagir, mas o susto a fez perder o sentido dos membros e tropeçou de bunda no chão. Quando caiu, o rapaz parou e ficou apenas fulminando com os olhos ardidos em ódio. Hélio parecia maior e mais intimidador naquela perspectiva.
— Vai me socar também? — Sabrina repreendeu, mesmo com medo daquela figura ameaçadora sobre ela. — É assim que quer resolver tudo, né? Então me soca, seu bosta. Me bate! Me bate, me mata e seus problemas acabam! É assim que vê o mundo, né?
E Hélio realmente agiu. Por uma fração de segundos, Sabrina se preparou para receber um pontapé, um soco ou empurrão. Qualquer ação dolorosa sobre seu corpo frágil. Mas não foi assim. Recebeu um contato violento, mas não exatamente como tinha imaginado.
Hélio agarrou-a pelo antebraço e içou para que ela voltasse a ficar de pé. Mal esperou que ela retomasse o equilíbrio e a jogou no sentido contrário para arremessá-la para fora da secretaria. Sabrina apoiou-se na parede com um baque para não cair ao chão novamente.
— Já pode ir embora agora — o garoto carrancudo disse virando-se de costas para ela. Caminhou lentamente até a poltrona e lá voltou a sentar para ficar de vigia na entrada, com a pistola sobre a coxa.
Sabrina não hesitou em sair de volta para o interior da escola. Deixou-o para trás antes de anunciar:
— Não queria saber o que tinha na minha carta? Tá aí.
Hélio faltou com a resposta. Apenas observou-a sumir de vista. Ficou com os ouvidos atentos para notar a porta principal sendo fechada, em sinal de que agora estava sozinho.
Chega. A próxima pessoa que entrasse por aquele arco à sua frente tomaria um tiro no meio dos olhos.
O garoto teve que se segurar muito para não deixar a raiva toda lhe subir à cabeça. Ela efervesceu no âmago do seu corpo e lutava para subir pela garganta como um vulcão que entra em estado de erupção.
Hélio engolia a raiva junto com o orgulho ferido para não perder o controle. Repassava nas ideias que estava lá por outro objetivo e não poderia deixar um novo sentimento tomar posse de suas capacidades. No final das contas, como havia se dado o desfecho da situação, Hélio tinha agora menos um problema para lidar.
Viu Sabrina saindo de sua vida de uma vez. Menos um tópico para administrar. E não haveria orgulho no mundo que o ferisse por perder a garota mais bonita da cidade e daqui uns dias vê-la saindo com outro cara, provavelmente seu ex-melhor amigo que o corneou. Tinha que administrar na cabeça o que lhe valia a pena para aquele momento e os próximos que viriam: aumentar a moral com seus parceiros de trabalho, ganhar dinheiro e sair daquela prisão que costumava chamar de casa.
Como um vômito que acomete o corpo num dia efermo, a raiva saltou do estômago até a garganta para trovejar ao restante do corpo. Hélio levantou da poltrona verde num supetão e deu um chute contra o balcão de madeira, que permaneceu imóvel após o estrondo que o choque gerou. Quis também gritar, mas se conteve com um grunhido abafado na garganta para não chamar atenção de algum perigo qualquer que espreitasse lá fora.
Sentiu-se aliviado após o acesso de raiva e tornou ao seu assento, com a mão sobre a pistola na coxa. Encarou a entrada da secretaria por alguns minutos até que um lampejo branco vindo da janela chamou sua atenção. Após momentos de calma, não pôde deixar de tomar um susto que lhe fizesse dar um pequeno salto na poltrona verde. Olhou pelo vidro e conseguiu ver se desenhando lá no fundo do céu uma veia branca que ligava as nuvens ao chão.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete. E enfim o segundo estrondo veio após contar, seguido de pequenas gotas de chuva que umedeceram a janela da escola. O chuvisco tomou forma logo em seguida e aumentou de volume, mas manteve a mesma velocidade por muito tempo.
Junto ao estrondo de um terceiro trovão, Hélio ouviu a porta que ligava o interior da escola com o prédio administrativo abrir-se num baque só. Ele imediatamente levantou-se e apontou a pistola para o arco da entrada, esperando apenas um sinal visual para que pudesse apertar o gatilho.
Firmou os pés no chão, alinhou os cotovelos, mirou com o olho bom e escorou os pulsos. Tudo para dar um tiro certeiro.
Um quarto trovão soou do lado de fora, desta vez mais forte. Poderoso a ponto de fazer o vidro da janela do seu lado estremecer. Sua luz também foi mais intensa e embranqueceu o ambiente na mesma medida que o melhor iluminou.
Viu com detalhes o contorno metálico da pistola sobre suas mãos assim como a silhueta humana na penumbra que tinha dez passos à sua frente.
A luz do trovão deu conta de mostrar o quão noturno era aquele ser: nada além de silhuetas. O resto era treva. A branquitude deu mais detalhes ao seu rosto, que sustentava um riso macabro, aberto e largo, quase enlouquecido. Com dentes afiados que saltavam para fora dos lábios. Brotando de uma pele enrugada e envelhecida que não tinha se dado conta naquele momento que se tratavam de recortes de jornais colados uns sobre os outros em toda a superfície de uma máscara.
O trovão reluziu também, na mão esquerda da criatura, um reflexo prateado vindo de lâmina afiada e límpida que era abanada no ar.
O ser saltou na direção de Hélio com movimentos desajeitados e largos como um boneco de posto de gasolina. Parecia aqueles animais indefesos que projetavam para cima os braços e arqueavam as pernas para parecerem maiores e mais ameaçadores, a fim de afugentar seus predadores. Bradava a faca com movimentos rápidos e aleatórios.
Com a aproximação repentina, Hélio não poderia ter tido outra reação senão atirar três vezes contra a figura fantasmagórica que tentava alcançá-lo.
Após um clarão de luz num local escuro, a penumbra torna-se sombra e fica ainda mais apagada por causa do contraste. Três lampejos iluminaram o local por frações de segundos. Eram mais fracos que os trovões, mas as luzes que emanaram da pistola seguidas dos tiros davam conta de mostrar na visão de Hélio a máscara cada vez mais próxima dele.
Hélio não teve certeza se todos os tiros haviam acertado a figura, ou se de fato haviam acertado alguma parte do seu corpo que desse conta de feri-lo gravemente.
Mas que tinha acertado, era inegável. Ao final do terceiro lampejo de tiro, a figura sumiu de sua visão. Escorreu ao chão e lá ficou. As vestes de tecidos pretos rasgados repousavam sobre os pés do garoto, que recuou por precaução. Tecidos tão escuros que escondiam da percepção do olhar o sangue quente e espesso que brotava de quem os vestia.
Hélio fitou a figura retorcida e caída no chão. A máscara, mesmo que estática, parecia mais sem vida que segundos antes. Hélio chutou de leve aquela massa escura para ver se tinha algum espasmo em sinal de meia vida, mas ela não reagiu de forma alguma.
Problema resolvido. O segundo da noite, pensou. Enfim os tempos de tormenta estavam passando. Só faltava agora conferir quem era o algoz responsável por aquelas ameaças todas. Lembrou-se que, em filmes que assistia, os mocinhos, quando se encontravam naquela situação, nunca faziam o mais óbvio: retirar a máscara do vilão antes que ele voltasse à vida repentinamente e continuasse a persegui-los.
Ainda com a arma apontada para o que julgou ser o Anônimo, Hélio curvou-se no chão e fitou mais de perto a máscara com os recortes de jornais. Parou para ler alguns textos, mas era difícil encontrar nexo naquelas frases todas remontadas. Até que enfim levou a outra mão sobre ela e puxou.
Sentiu uma certa resistência no início, como se estivesse presa e amarrada pela base do pescoço. Mas nada que um pouco mais de força não resolvesse. A ansiedade assumiu todo o seu corpo e evadiu como vapor pela sua pele depois de encarar os olhos de quem vestia a máscara.
Sentiu-se mole e fraco de repente. Os joelhos bambearam e não deram mais conta de manter-se curvados sobre a figura. O garoto foi obrigado a se jogar para trás e ser devolvido com todo o peso para a poltrona verde antes que retomasse a energia para lançar-se sobre o corpo e chorar copiosamente.
Abaixo da máscara encontrou os olhos azuis que costumavam reluzir com qualquer foco de luz de tão claros que eram. Agora estavam mortos e olhando frouxos para o nada, vazios.
O sangue subia o pescoço nu da pele clara até tingir os fios loiros do cabelo liso, vindo de um buraco de bala logo abaixo da clavícula. Hélio colocou a mão sobre o ferimento com força no intuito de estancá-lo, mas já havia jogado para fora todo o sangue que as últimas batidas do coração deram conta de bater.
A delicada boca estava tampada com uma fita grossa e larga. Quando se deu conta daquela imagem, tratou de retirar sobre o corpo de Sabrina os tecidos escuros. Abriu-os pelo meio para revelar o que havia embaixo até encontrar novamente uma resistência, desta vez na mão que segurava a faca. Analisou melhor a região e encontrou os dedos da moça entrelaçados no cabo da arma a força por voltas e mais voltas da mesma fita que lhe tapava os lábios. Olhou a outra mão, vazia, e encontrou uma situação parecida.
Sabrina estava presa àquelas vestes como uma armadilha.
Hélio, de supetão, afastou-se do corpo jogando-se para trás e caindo de bunda no chão. Não queria mais tocá-la porque sentia que havia ainda mais culpa caso mexesse em alguma parte dele.
Então lembrou-se e olhou para cima. Encarou a câmera no canto da secretaria, apontada diretamente para a parte do ambiente onde eles estavam.
Hélio agarrou sua arma, tratou de recompor-se de pé e, aos tropeços, correu para fora da sala em direção ao jardim da parte da frente da entrada da escola.
Forçou a porta com tudo o que podia e ouviu o trinco interno se rompendo junto à madeira do objeto. Então a empurrou num último golpe para que ela abrisse e permitisse que ele corresse sobre o gramado, pulasse o portão e fugisse para o mais longe possível dali.
—
Oi, pessoal!
Primeiramente, muito obrigado para quem está acompanhando Eu Sei Quando Você Mente.
Nossa história já está chegando ao fim! Então queria convidá-los para conhecer a minha nova publicação aqui no site, Por Onde Andou Eichler?
Vou deixar o link aqui embaixo. Adoraria que desse uma chance pra essa história também :)
https://bit.ly/3IaMxRp
Até semana que vem!
Fale com o autor