Eu Sei Quando Você Mente

14 Seu segredo vai te matar


Notas iniciais
PENÚLTIMO CAPÍTULO ON! A partir das próximas semanas vou dar continuidade na minha nova história: Por Onde Andou Eichler? É uma história sobre uma jornada de quatro amigos feiticeiros para se despedirem de um falecido amigo e investigar o que aconteceu nos seus últimos dias de vida. Muito mistério, romance e aventura (frase clichê, mas é isso mesmo) Muito obrigado e bom capítulo! Vão lá na história para salvar e ler mais tarde :) https://fanfiction.com.br/historia/811417/Por_Onde_Andou_Eichler/

Miriam caminhava a passos largos e silenciosos sobre o caminho de pedras da entrada do bloco do ensino médio para o pátio ao lado de Rômulo. A garota colocou sua mão esquerda sobre o peito do rapaz, em sinal de que ele deveria parar o percurso assim como ela.

O professor não questionou, apenas ficou estático e em silêncio porque havia percebido que a atitude de Miriam vinha de um momento de alerta. Ela poderia ter notado algo à frente e parado para que eles continuassem despercebidos.

Para entender melhor, Rômulo olhou para a garota e verificou onde seus olhos castanhos apontavam no intuito de os acompanhar. Ela estava compenetrada feito uma estátua encarando a cantina, lá longe. Rômulo até amenizou a sua respiração, como se não pudesse fazer barulho nem pelo ar entrando e saindo das narinas. E esperou enquanto olhava para a mesma direção.

Depois de alguns segundos tensos de atenção, Miriam finalmente soltou a mão do peito do rapaz e sussurrou:

— Acho que vi alguém.

— Quem? — ele indagou arrepiando-se todo com a possibilidade de não estarem sozinhos no pátio.

A região central da escola era ampla e aberta. Tinha apenas quatro grandes e velhos abacateiros e bem espaçados. Entre eles, um coreto protegia algumas poucas mesas de estudos, marcando exatamente o meio do terreno da escola. Mais para cima, para onde Miriam estava atenta, a área da cantina se elevava após alguns degraus junto ao refeitório e os bebedouros.

Ao lado direito, no fim do caminho, ficava o prédio da secretaria. Até chegar nele, havia um longo trajeto contornado pelas salas do ensino fundamental, que ficavam nas duas extremidades. Elas davam direto para a área externa e um alpendre curto fazia a vez dos corredores.

— Não sei. Era uma sombra — Miriam sussurrou de volta, já retomando os passos aos poucos. Rômulo fez o mesmo. — Eu tô maluca. Vamos pelos cantos.

Se atravessassem o pátio direto para a secretaria, estariam banhados pela luz do luar e totalmente vulneráveis. Nem mesmo as copas dos abacateiros estavam dando conta de tapar todo o luar. Então Miriam indicou com o dedo para irem até abaixo do alpendre para que caminhassem pelas sombras mais pesadas. Caminharam devagar por algum tempo, colados nas paredes externas das salas de aula e algo os fez parar novamente.

Do nada, fez-se uma escuridão. Como se alguém tivesse apagado a luz do mundo. Miriam esticou o pescoço para fora do alpendre enquanto olhava para o céu. Percebeu que a lua cheia havia sumido e agora estava escondida sobre uma única e baixa nuvem que cobria todo o céu. Um vento forte e frio soprou sobre os dois. A atmosfera os deixou ainda mais assustados.

— Tamo quase, bora — Miriam disse novamente para que avançassem.

O caminho havia se afunilado e a área descoberta não era mais tão ampla como no centro do pátio. Eram duas partes com alpendre, uma de cada lado. Entre elas, uns cinco metros ao ar livre.

Miriam observou a parte aberta no exato momento que um clarão iluminou todo o corredor por meio segundo, seguido de um estrondo que fez os dois saltaram de leve os pés do chão com susto.

— Cê viu aquilo? Que porra! — Rômulo sussurrou e juntou ainda mais seu corpo ao de Miriam.

Mas ele não se referia ao trovão.

No exato momento que a branquidão banhou a escola, puderam ver, no alpendre do lado oposto, uma figura escura e esvoaçante correndo no mesmo sentido ao que eles rumavam, mas com mais velocidade, então logo desapareceu novamente. Mesmo a luz forte do relâmpago não lhes entregou detalhes sobre aquela figura. Seu rosto, braços, pernas, nada. Apenas uma mancha preta contornada pela luz e sua sombra projetada na parede e portas das salas entre as sombras dos pilares de madeira do alpendre.

— Aquilo viu a gente? — Miriam perguntou receosa. Instintivamente, ela e Rômulo deram passos para trás, a fim de se esconderem ainda mais na penumbra da cobertura. Colaram os corpos na parede como se fizessem parte delas e conseguissem ficar invisíveis.

— Acho que não. Passou reto — Rômulo respondeu olhando atentamente para a direção que a mancha escura correu. A visão estava prejudicada, então cogitou se os dois não estavam delirando coletivamente por causa do medo e adrenalina.

— Que merda era aquela? — Miriam pediu, indignada. Só naquele momento percebeu o quanto seu coração batia forte e descompassadamente.

— Parecia um fantasma — o professor resmungou, trêmulo. Mas empurrou Miriam para frente para que eles voltassem a se arrastar para longe dali o quanto antes.

— Que merda... — Miriam não pôde deixar de resmungar, tentando dar mais alguns passos medrosos e sorrateiros na esperança de que chegassem logo na entrada interna da secretaria.

Um novo relâmpago soou e revelou mais uma imagem, desta vez logo à frente deles. Entre os dois fugitivos e a entrada do seu destino. Rômulo logo conseguiu desvendar quem era aquela pessoa ajoelhada no meio do caminho, mas demorou para processar toda a cena, principalmente porque a branquitude do trovão foi muito rápida.

Mais uma vez, Miriam interrompeu o passo e colocou a mão no peito do homem para que fizesse o mesmo. Mas, agora, empurrou-o para trás enquanto dava alguns passos para tomar distância das duas figuras. De imediato, quando entendeu o que se passava, sentiu todo o sangue de seu corpo simplesmente parar de ser bombeado. Um frio tomou-lhe por inteira junto a um zumbido agudo que veio para o seu ouvido e abafou o som das gotas de chuva e o que a pessoa do chão dizia. Queria ficar o mais longe possível daquela realidade.

Pela expressão em seu rosto, Dário parecia chorar. Se caso haviam lágrimas, elas estavam se misturando com a chuva que caía sobre seu rosto e escorrendo junto delas até seu colo. Lá, diluíam o sangue que brotava do peito de Felipe. Dário segurava o garoto de olhar vazio em seus braços e resmungava. Parecia desesperado, mas Miriam não via nada além de sangue e chuva.

Demorou para que o zumbido dos ouvidos se distanciasse a ponto dela conseguir voltar a escutar o que estava ao seu redor. Ela segurou com força na palma direita o canivete, pronto para usá-lo.

— ...e então eu achei ele ali perto do banheiro — Dário vomitava as palavras balançando Felipe sobre seus braços. Elas mal saiam entre os soluços do choro inconformado e desesperado — todo cheio de sangue e... caralho, acho que ele tá morto! Me ajudem, por favor!

Miriam notou uma movimentação por cima do seu ombro direito. Era Rômulo começando a se aproximar do primo no ímpeto para ajudá-lo, mas a garota o deteve, esticando o braço esquerdo para que ele parasse.

— Levei um baque na cabeça e quando levantei achei ele aqui... — Dário continuou se explicando.

— Ele pode tá mentindo — foi tudo o que ela precisou dizer para que o professor entendesse. Ele hesitou mais uma vez, mas desistiu de ir até Dário, que o encarou sem compreender muito bem.

— O que tá rolando? — o garoto no chão pediu, irritado. — Vocês não vão me ajudar?

Antes que o respondesse a fim de cortar o assunto de uma vez, três sons abafados e altos vieram de algum lugar que o eco do local não os permitiu entender de onde. Miriam, que estava extremamente alerta, deu um pulo de susto.

— Você têm certeza? — Rômulo sussurrou no pé de seu ouvido.

Certeza, Miriam não tinha nenhuma. Estava preparada para lidar com qualquer situação. Era isso que o medo da morte iminente fazia com os ânimos de uma pessoa. Ligava seus sentidos no modo mais sensível e colocavam a ansiedade para trabalhar a todo vapor. Qualquer cenário era considerado.

Esperava qualquer golpe, qualquer traição, qualquer imprevisto. Estava esperando que Rômulo a atacasse e revelasse ser o Anônimo a todo instante em que caminharam juntos, mesmo tendo dado o voto sincero de confiança.

Esperava precisar acertá-lo com o canivete bem na garganta, na jugular, se fosse preciso. Estava esperando ser traída por Dário desde a primeira conversa na papelaria. Esperava até mesmo que qualquer pista que ele a ajudasse a investigar fosse fria ou falsa. Em paralelo, analisava quase todos os diálogos e tentava filtrar o que poderia ser verdade ou mentira.

No fundo, sabia que o instinto não daria conta de mostrá-la no que acreditar ou não, mas era tudo o que tinha em mãos para poder julgar. No geral, confiava que os caminhos que descobriram e investigaram juntos eram quentes e possíveis. Mas o assalto poderia vir. A qualquer momento. De qualquer um.

Miriam agarrou a mão de Rômulo e puxou-o de volta para baixo do alpendre. Queria pressionar Dário, espremê-lo e perguntar por que ele havia feito tudo aquilo e se ele realmente era o Anônimo. Por que das cartas, das ameaças, das mortes, das mentiras.

Ele estava segurando um cara morto nos braços, caramba.

Mas ela era mais inteligente do que isso. Tinha que simplesmente fugir. Seu instinto para se manter segura era maior do que qualquer raiva que a traição e indignação que a crua e dura verdade pudessem gerar nela.

Contornou Dário e Felipe por completo e a uma distância segura até conseguir ter o caminho livre novamente. O garoto no chão seguia-os com os olhos amedrontados até onde o seu pescoço permitia que a cabeça girasse. E, depois, Miriam não podia fazer nada além de correr e deixá-lo para trás.

— Me ajudem! — Dário gritou ao fundo, mas foi ignorado.

E se fosse eu naquela situação? Rômulo pensou enquanto processava a angústia de deixar o primo para trás.

Se fosse eu, largaria a merda daquele corpo no chão e corria pra longe dali, Miriam pensou.

Correram tão rápido depois de entrar no prédio administrativo que não se deram o trabalho de parar e analisar melhor o corpo que encontraram estirado no porcelanato da secretaria. Reconheceram que era Sabrina, mas não se questionaram e não se importam naquele momento. Rômulo até parou os passos para encarar mais um corpo estirado e Miriam o puxou de volta para o destino. Precisava do professor por causa do carro.

Rômulo já vinha remexendo entre os dedos trêmulos em busca da primeira chave que iria precisar, da entrada do hall da escola, mas Miriam jogou seu corpo contra ela e abriu-a fácil porque já estava violada.

Partiram para o jardim da entrada e Miriam encarou o alto portão que o separava da rua. Rômulo novamente já vinha procurando pelas chaves para abri-lo enquanto Miriam encarava as grades. Elas pareciam mais altas cada vez que se aproximava, mas não de uma perspectiva comum. Elas se alongavam para o céu em tamanha distância que pareciam se curvar sobre as cabeças dos dois.

Miriam segurou as grades com as mãos. Sua aflição era tanta que sentia que precisava e poderia torcê-las com a própria força e sair dali. A sensação de estar encurralada atrapalhava sua respiração, que tinha dificuldade de retomar o fôlego depois da longa corrida e mesmo ouvindo o som do trinco tentando se abrir, o alívio não era capaz de invadir seu corpo.

E então uma sensação soou no toque de sua perna e o corpo da garota gelou por inteiro. Bastou uma vibração para ela supor do que se tratava. De novo, o som, o cheiro e a visão de tudo ao redor simplesmente virou nada. O nome e contato de Windera brilharam na tela de seu celular.

Atendeu o telefone sem falar nada. Apenas esperou que quem ligou dissesse algo primeiro. Mas o que ouviu foi o silêncio e depois uma respiração pesada, grave e metalizada. Não parecia humana. Percebeu que estava emitindo aquele grunhido nojento para perturbar os ânimos da garota. E deu certo. Miriam não sabia descrever o que estava pensando, nem sentindo naquele momento.

Rômulo encarou a garota, incrédulo, por ela atender um telefone naquela situação, mas logo voltou a tentar abrir o portão.

— Acha que vai escapar tão fácil assim? — a voz saiu do aparelho no mesmo tom de um aço raspando em outro objeto metálico. O frio tomou conta de toda a superfície do corpo da garota. — Ainda não entendeu que tudo isso é sobre você?

Miriam demorou para formular alguma resposta. Seu pensamento simplesmente não conseguia articular nada crível. Não sabia se o que ouvia ou vivia era de fato real. O mundo ao redor parecia uma grande névoa inverossímil e incongruente.

Queria chamá-lo pelo nome, mas ainda não conseguia organizar aquele fato em suas capacidades. Queria perguntar como quem acabou de atender uma ligação cotidiana: Dário?

— Eu disse que o seu segredo ia te matar — a voz disse após um período de silêncio. Foi uma frase definitiva, forte. Um grande ponto final.

— Eu não tenho porra de segredo nenhum, seu merda — a garota vomitou as palavras com ódio. Aquele assunto ferveu em sua garganta no mesmo instante e brotou de sua boca. — Não existe porra de segredo nenhum.

— Como que algo que não existe é capaz de te matar? — a voz no telefone bravejou sem se abalar com os gritos de Miriam. — Eu achei que você fosse conseguir sozinha. Eu te dei todos os caminhos. Mesmo assim você precisou de um empurrãozinho final, mas a gente vai acabar logo com isso. Te espero em casa. Se você não for sozinha ou se chamar a polícia, vou enfiar uma faca no estômago da sua mamãe.

E desligou.

Se já não havia nada no ambiente que Miriam fosse capaz de notar, agora foi a vez do chão lhe ser tomado. Seu corpo parou de existir num mundo terreno e começou a flutuar no mais absoluto nada.

Só voltou para a realidade quando o professor a chacoalhou e disse algo que ela não conseguiu ouvir. Mas começou a entender que tinha a ver com o portão. Ele apontava na direção da saída e a grade já estava aberta. Rômulo estava agitado e gesticulava muito. Não sabia se era suor ou água da chuva leve que estava caindo, mas sua testa e rosto pingavam em excesso.

Ele queria que a garota o acompanhasse para fora. Ela deixou seu corpo ser levado pelo seu primeiro puxão, mas parou na calçada e fitou Rômulo com uma cara pálida.

— O que foi? — o zumbido ia diminuindo e ela conseguiu ouvir ele a contestando. Tinha percebido que algo de fato não lhe passava bem.

— Vamos pro carro e você me deixa na minha casa — ela respondeu séria e imperativa.

— O que? — contestou, inconformado. — A gente precisa chamar a polícia!

— Não! — ela o repreendeu como se estivesse cometendo um ato imoral. — Era ele... — engasgou para dizer o nome, então hesitou: — O Anônimo me ligou. Acho que ele tá indo até a minha casa. A minha mãe.

Rômulo demorou um pouco para processar as informações, mas a expressão de pânico da garota o fez começar a entender.

— Você me deixa na minha casa e depois vai correndo na delegacia, ok? — ela suplicou já quase entrando em desespero. — Por favor... A minha mãe é doente e...

Antes que ela pudesse terminar, Rômulo agarrou a mão livre de Miriam e a arrastou até a esquina.

— Vamos, o meu carro tá do outro lado do quarteirão.

Durante o trajeto, Miriam se ocupou em dizer apenas o caminho para Rômulo. Entrar em tal rua, virar para tal lado, pegar aquela saída. Isso porque sua cabeça estava a mil pensamentos e não conseguia organizar nenhuma fala além do que precisava para chegar em sua casa.

O vazio das ruas, o silêncio da noite, a garoa fina escorrendo no para-brisa com o reflexo das luzes amarelas dos postes. Tudo contribuía para a tensão que crescia a cada metro que andavam. Rômulo seguiu as instruções de Miriam com atenção e à risca, como se errar algum caminho ou demorar alguns segundos a mais fosse matá-los.

Miriam, depois de tanta agitação mental, entendeu que só precisava de uma coisa: manter sua mãe segura. Não sabia se o Anônimo conseguia ser mais rápido que eles, se já estava em sua casa, ou se também estava a caminho. Ou simplesmente vários passos na frente.

Ela observou bem as ruas mais próximas da sua casa. Queria se certificar de que não havia nada, nem ninguém por ali. Ninguém que pudesse aparecer e assustar o Anônimo para dar a entender que ela fora acompanhada.

Quando o carro parou na frente de sua casa, redobrou ainda mais a atenção ao redor. Olhou para o outro lado da rua, atrás da cabeça de Rômulo, e arrepiou-se inteira ao encarar aquela mata fechada. Sentiu que podia sair alguma coisa entre o matagal a qualquer momento.

— Liga pra polícia — Miriam disse para Rômulo finalmente algo que não fosse murmúrios e instruções de direção. — Agora. Fala sobre a escola, mas não fala nada sobre eu e minha casa, OK?

— Tá bom — Rômulo assentiu com o rosto nervoso, mesmo discordando daquele plano.

— Depois que ligar — a garota continuou com pouco fôlego nas palavras -, vai pra delegacia. Se eu não der notícias em meia hora, manda a polícia aqui pra minha casa, entendeu?

— Aham — o professor assentiu de novo, ainda mais assustado.

— Trinta minutos, entendeu, mesmo?

Ele fez que sim com a cabeça e observou Miriam sair do carro segurando o canivete que seu pai o dera de presente de aniversário anos atrás. Ela ficou parada por um momento na calçada, de frente ao muro alto que fechava a casa, fora a fora. Mesmo com aquele bloqueio, dava para ver pela beirada do muro, atrás da cerca elétrica, luzes sendo lançadas para o céu nublado. Uma rua escura, vazia, e uma casa clara e ocupada por gente. Mas quem?

Miriam ia buscar pelas suas chaves no bolso de trás do jeans, mas notou pela fresta de luz no portãozinho eletrônico que ele estava aberto e apenas encostado. Bastou um leve empurrão para que permitisse ela entrar no quintal da frente. Miriam encarou a casa de dois andares com tensão. As janelas da frente, da sala de estar e do seu quarto, na sacada acima da sua cabeça, estavam acesas. Mas com as cortinas fechadas.

Escorou o portãozinho novamente sem tirar os olhos da casa. Ao invés de trancá-lo, deixou aberto para ter uma rota de fuga segura. Deu passos trêmulos pelo caminho de pedras batidas no chão em direção à alta e grande porta de madeira que dava acesso ao hall de entrada. Não sem antes escanear com a visão os arredores.

Olhou o fundo da garagem, com atenção principalmente para atrás de um vaso gordo de planta que ficava no canto. Depois verificou o outro lado, onde tinha um jardim com arbustos altos que facilmente poderiam esconder alguém. Mas os reflexos das luzes da casa limpavam penumbras que alguma outra sombra pudesse se camuflar. Além do jardim, havia outro portão de ferro que dava acesso aos fundos e à área de serviço. Mas ele era barulhento demais. Se alguém estivesse atrás dele e abrisse para alcançá-la, ela ouviria e teria tempo de reagir ou correr para longe.

Tudo certo para continuar. Suor e chuva escorriam por entre os dedos que tentavam se firmar no canivete. Não sabia o que a esperava dentro de casa, mas a primeira visão que teve após entrar na sala já foi o suficiente para mexer com seus ânimos. Seu coração caiu no fundo do estômago.

Primeiro, viu sua mãe em posição fetal sobre o porcelanato amarelo. Olhou para o rosto da mulher assustada e encontrou apenas seus olhos, pois o restante estava tampado com um pano preto. Seus braços pareciam estar imobilizados nas costas e os tornozelos também.

Ao lado dela, de pé, outra cena perturbadora.

Windera, com a boca ensanguentada, levantou sua mão direita para frente do seu rosto. Sangue escuro e seco banhavam desde os seus lábios até o pescoço, onde manchava a gola da sua camiseta branca até metade da costela. Usou o dedo indicador para apontar para cima e fazer para Miriam o sinal de silêncio.

Num assalto, Miriam sentiu um calor vindo de suas costas, que rapidamente puxou seus braços para trás. Quando se deu conta, estava totalmente imobilizada. O canivete caiu e ela foi jogada para frente num empurrão que a fez tropeçar e cair de bochechas no chão gelado.

Algo agarrou as costas de sua blusa e a usou para içá-la pela sala até chegar perto de onde estava sua mãe. Raspou com a pele no piso, fazendo sibilar um som agudo que fez até mesmo o frio do porcelanato tornar quente o toque do atrito.

Foi arremessada para a parte de baixo do sofá e rapidamente tentou recobrar seu equilíbrio, escorrendo-se na parte de baixo do móvel, ainda no chão.

Olhou para a direção de onde fora jogada e viu uma massa escura rumando para a porta por onde entrou para trancá-la com movimentos nada delicados. Depois, virou-se para ela e Miriam encarou os olhos vazios e escuros da máscara. O Anônimo não fez cerimônia. Tirou a máscara para revelar seu rosto e inundou-o com um sorriso largo.

A mesma reação que Miriam teve ao atender o telefone na última meia hora retornou ao seu corpo: vazio e escuro. Como se sua existência não fizesse mais parte daquela realidade.

Depois da sensação de entrar numa piscina congelada, aos poucos foi sentindo o corpo retornar como um membro deixando de ficar dormente e começando a formigar. Precisou conscientemente pedir para o seu cérebro retornar a respirar, tornar a mandar forças para os músculos enrijecerem e os nervos e tendões do corpo relaxarem.

Soltou o peso do seu corpo sobre ele mesmo e praticamente derreteu-se sobre o porcelanato gelado. Queria se afastar o mais longe possível daquela imagem, daquele rosto, daquela verdade.

Ao retirar a máscara, a figura na entrada da sala murchou a postura e redesenhou o rosto para uma feição tranquila, a mesma que Miriam encarava no cotidiano. Mas, quando o Anônimo se pôs a caminhar lentamente para se aproximar da garota, mudou novamente. Percebeu a reação catártica da garota e parecia estar se alimentando dela, ficando mais forte, mais alto, mais ereto, com ombros largos, postura imponente. Ameaçador.

— Finalmente — o Anônimo disse enquanto desviava de uma poltrona e chegava mais perto da garota prensada contra o sofá. Ela tentava se afastar, mesmo sabendo que era fisicamente impossível, mas seus olhos perdidos pareciam querer acreditar que pudesse se fundir ao sofá ou simplesmente desaparecer dali. Ao lado dela, a poucos passos, sua mãe resmungava e chacoalhava o corpo incessantemente, também sem saída alguma. — Finalmente a máscara cai.

Windera encarou o rosto revelado, encantada. Mas parecia estar meio entorpecida, molenga. Seu olhar também era vazio e as pálpebras vacilantes como quem tinha muito cansaço e lutasse contra o sono pesado. Parecia estar reunindo as últimas forças para manter-se de pé, bamboleando de um lado para o outro. Poderia simplesmente desmontar ao chão a qualquer momento.

Miriam não respondeu à provocação do Anônimo. Pelo menos parou de tentar o impossível e seu corpo pendeu a aceitar que não poderia escapar daquele cômodo. Suas mãos tremiam como nunca. Se tivesse uma pistola em mãos, não conseguiria nem levá-la para fazer a mira, muito menos para apertar o gatilho ou suportar o coice que ela lhe daria no braços.

O Anônimo subiu no tapete azul e ficou com os pés próximos. Miriam o encarou por completo. Daquele ângulo e distância, parecia um fantasma enegrecido sustentando uma cabeça flutuante. Uma versão alternativa e má de quem ele realmente era.

— Eu fiz a minha parte, Miriam — o Anônimo disse com uma voz calma enquanto abaixava-se para ficar de cócoras na frente da garota. — Pena que você falhou na sua.

O Anônimo tirou uma das mãos de dentro das vestes e começou a pincelar com a ponta da faca pelas maçãs do rosto da garota. Miriam não conseguia encará-lo nos olhos, então perseguia com a visão o metal prateado da lâmina. Não conseguia responder nada e o deixou falar sem parar. Sentia seu coração bater na garganta. Se abrisse a boca, vomitaria.

— Essa faca teve que matar muita gente pra você tentar descobrir quem eu era. E a sua demora custou muitas vidas, sabia? Agora estamos aqui. Na última linha, o caminho final. A versão do roteiro onde eu tinha que levar tudo às últimas consequências. Tudo porque você não conseguiu e não fez sua parte, Miriam. Você não conseguiu descobrir o seu segredo.

O Anônimo levantou-se e foi até Windera. Ela tentou ficar ainda mais ereta, como quem está na presença de alguma autoridade que precisasse ser respeitada.

— Tá doendo? — o Anônimo perguntou para ela com uma falsa voz de piedade, com um fundo de melancolia e malícia.

Windera fez que sim com o rosto, evitando encontrar seu olhar com o dele. O Anônimo enfiou a mão esquerda de volta à escuridão da sua capa e retirou um frasco de remédios. Dispensou várias cápsulas sobre a mão de Windera, que os enfiou garganta abaixo de imediato. Fez uma careta de dor latente. Seu rosto até retomou um pouco de cor após engolir e respirou aliviada. Talvez estivesse tentando suportar calada a necessidade carnal daquele feito.

Depois de admirar Windera tomando o remédio, o Anônimo virou o seu corpo em direção à Miriam e caminhou para o lado mais próximo da mãe, que continuava se batendo e grunhindo. Mas ele a ignorou e voltou a falar com a voz neutra, sem expressão.

— O meu aprendizado pra isso é não depender de ninguém. Vou fazer tudo por mim mesmo, é. Na vida não dá pra escrever nenhuma história em conjunto. Depois de morrermos e voltarmos à vida de novo, é essa lição que quero levar — o Anônimo esboçou um sorriso largo e de lábios esticados, um sorriso vazio de emoção, de alguém que não está genuinamente sentindo algo que despertasse aquela reação.

Miriam percebeu que aquela versão da pessoa por trás do Anônimo era a verdadeira, e não uma alternativa. Aqueles olhos frios, o rosto marmorizado, os gestos delicados e calculados eram genuínos, assim como os violentos que vinham subitamente em acessos rápidos. E não a versão que performava fora daquela capa preta. Aquele era ele de verdade.

— Você só tinha uma pergunta para responder, Miriam — falou mais friamente, mas esboçando finalmente uma emoção, raiva. — Qual era a pergunta que não queria calar? Quem era o Anônimo, horas! E qual era o segredo que ainda era um mistério? O seu, puta! Ainda estou incrédulo que você não ligou esses dois pontos tão simples!

O Anônimo abaixou-se por trás da mãe de Miriam e bradou sua faca novamente. Miriam teve um espasmo ao ver a arma tão próxima de sua mãe, mas hesitou em fazer qualquer movimento brusco que assustasse o Anônimo.

— Só precisava descobrir quem era o Anônimo, Miriam. Mas você chegou nem perto... Era a única do jogo que precisava descobrir o segredo de alguém pra ficar viva — O Anônimo colocou a faca contra o pescoço da mulher do chão com tanta velocidade que o cérebro de Miriam pareceu nem conseguir processar seus movimentos. A garota sentiu um congestionamento no peito, como se estivesse respirando piche quente. Então o Anônimo retirou o tecido que tampava a boca de sua mãe.

— Confessa, sua prostituta! — bradou forçando ainda mais a lâmina da faca contra o pescoço da mulher. A raiva contornou as primeiras palavras, mas dominou aos poucos seu tom, rosto e corpo a cada segundo: — É a sua última chance de confessar. Não vale mentir mais. Já passou a sua vida de merda toda fazendo isso. Por favor! Alguém que tenha coragem de confessar um segredinho sequer! Um, caralho!

— Ai, ai! — era tudo o que ela conseguia articular. Miriam olhava para aqueles olhos pequenos e perdidos e sabia que sua mãe não estava ali. Não podia confessar, nem falar absolutamente nada. Talvez nem estivesse entendendo o que estava acontecendo ao seu redor. Seu rosto, corpo e traquejos eram o medo em sua mais pura essência. Não havia nenhum outro sentimento ou pensamento ali além de pavor.

— Solta ela, seu bosta! Para de machucar ela! — foi o que Miriam conseguiu dizer pela primeira vez desde o momento em que encarou o rosto do Anônimo. Ela remexeu o corpo enquanto falava e Windera saltou para perto dela para ameaçá-la a não sair de onde estava.

— Mas a gente já não tá cansado das pessoas que mentem, Miriam? Não tá cansada do seu pai sustentando uma outra família na surdina? Mantendo duas casas, duas mulheres. Não tá cansada de ver que tem algo errado nessa casa e ficar igual uma porta, parada, sem entender nada? Se deixar levar por eles. Não estamos cansados de termos as vidas tomadas pelas mentiras que os outros insistem tanto em contar pra gente? Não é a verdade que você tava indo atrás esse tempo todo? Eu tive que montar um circo pra mostrar a verdade pra essa cidade, Miriam! Um circo enorme! Um circo que ninguém vai esquecer, o país todo! Pra entender de uma vez que a gente sempre sabe quando as pessoas tão mentindo pra gente. E elas continuam. Mas agora chega. Vamos mostrar pra todo mundo o que acontece depois de anos e anos de tantas mentiras.

O prazer que borbulhava da boca do Anônimo era drástico. Ele bravejou ainda mais e aquele mesmo prazer lançou-se do fundo da sua garganta até ser traduzido nas palavras. Desdenhou de Miriam, e então disse lentamente as palavras que tanto esperava dizer em voz alta:

— Vamos começar com a mentira que fez tudo isso acontecer aqui. A mentira que fez eu e você sermos o que somos hoje, olha só. Não queria descobrir quem matou a Valéria e quem foi o Anônimo? É isso que tamo fazendo aqui, Miriam. É, é isso. Te apresento à ela, Miriam. O Anônimo era a sua mãe.

Notas finais
PENÚLTIMO CAPÍTULO ON! A partir das próximas semanas vou dar continuidade na minha nova história: Por Onde Andou Eichler? É uma história sobre uma jornada de quatro amigos feiticeiros para se despedirem de um falecido amigo e investigar o que aconteceu nos seus últimos dias de vida. Muito mistério, romance e aventura (frase clichê, mas é isso mesmo) Muito obrigado e bom capítulo! Vão lá na história para salvar e ler mais tarde :) https://fanfiction.com.br/historia/811417/Por_Onde_Andou_Eichler/