Eu Sei Quando Você Mente
11 Não deixe só
Notas iniciais
A abandonada Windera ainda tentava se soltar das algemas e Marcos estava começando a ser preparado para sair do hospital quando Miriam desceu para tomar café da manhã.
Tinha uma cena no trajeto que já estava começando a incomodar muito a garota: a quantidade de jornais acumulados na cabeceira ao lado do sofá na sala de estar esperando pelo seu pai.
— Sabe se meu pai ligou pra minha mãe ontem? — a garota perguntou entre um gole e outro da bebida preta e quente.
— Tenho visto ela falando no telefone não — Cátia respondeu de costas para Miriam enquanto lavava um pouco da louça do dia anterior. — Se ele ligou foi de noite e eu já tava no meu quarto vendo minha novelinha.
Miriam respondeu mentalmente e ficou vidrada na sua torrada com mel. Queria explorar mais o assunto e expor o seu receio, mas não conseguia tomar coragem de falar. Parecia que, se verbalizasse, o assunto viraria um problema. E daí teria que lidar com ele. E não queria mais um.
Muito menos iria perguntar diretamente para a mãe sobre o pai. Ela poderia se dar conta de que ele não ligou ou de que faz tempo que não o vê e ficar nervosa. E daí seriam dois problemas: o pai e a mãe.
A garota se jogou no sofá da sala de TV e pegou seu celular para ligar para o pai. Chamou, chamou, e nada.
Tá por aí?, mandou por SMS. Na conversa com ele já se acumulavam uma bela quantidade de mensagens enviadas por ela, sem resposta alguma.
Ele nunca respondia na hora, mas fazia em algum momento breve. Ou ligava quando via que ela tinha o chamado. Mas não foi o caso dos últimos dois dias. Então um nó começou a amarrar em sua garganta. Principalmente porque, desde a noite anterior, a garota vinha pensando seriamente em se abrir com o pai sobre o que vinha acontecendo. Não podia mais lidar com aquilo tudo sozinha.
Pessoas estavam morrendo e ela estava sendo ameaçada junto com elas. Justo Miriam, nova na cidade e sem qualquer ligação ou pretexto com aquele grupo que estava sendo perseguido. Não tenho porra de segredo nenhum, ela pensava de imediato toda vez que o assunto retornava na sua cabeça. E eram diversas vezes durante o dia.
Queria contar para o pai sobre sua carta e sobre a carta de Paloma que havia recebido. Sobre Larissa, os outros e o que descobrira junto de Dário. Queria chorar para ele, receber um abraço apertado e ser acolhida. Ouvir um Tá tudo bem, meu docinho. Papai vai resolver isso. E realmente resolver. Queria ir à delegacia acompanhada dele e dizer tudo o que sabia para que parassem aquele maníaco que se achava no direito de brincar e matar adolescentes indefesos e acuados. Queria que, depois disso, seu pai chegasse de repente mais uma vez e dissesse que estariam se mudando de cidade de novo dali poucos dias. Desta vez, não iria nem questionar. Apenas fazer sua mala e ir.
Não ia perguntar os motivos. Não ia se incomodar se a mudança fosse deixar sua mãe confusa mais uma vez. Não ia achar ruim mais um período de adaptação delas duas num lugar novo. Não ia confrontar o pai por mais uma mudança de trabalho sendo que ele mal ficava em casa. Só queria recomeçar mais uma vez e deixar os problemas na cidade anterior.
Miriam trocou de cômodo e foi para o sofá ao lado da pequena montanha de jornais. Folheou todos. A maioria era de jornais nacionais ou do estado, mas havia uma ou outra edição local.
"Prefeito Olavo: Compromisso com Albuquerque há mais de 25 anos" dizia a manchete de uma notícia. Abaixo dela, uma foto do atual prefeito ainda jovem posando ao lado do prefeito da época durante o que parecia ser a inauguração de uma ponte sobre um rio largo.
A garota já tinha visto o prefeito em algumas ocasiões na TV e pessoalmente no velório de Larissa. Sempre imponente e com o rosto na sombra do grande chapéu de boiadeiro. Mas na foto estava diferente, óbvio. Mais jovem, magro, sem bigode, sem marcas de velhice no rosto e com cabelo comprido quase chegando nos ombros. E estranhamente familiar. Miriam já tinha visto aquele rapaz, talvez um pouco mais velho que na foto, mas indiscutivelmente aquele homem.
Miriam fez uma leitura rápida na notícia para tentar entender o contexto. Olavo era filho de uma família tradicional de fazendeiros e, desde que seu patriarca havia falecido e Olavo assumido a frente das fazendas, investia na infraestrutura da pequena cidade para aliar interesses da sua empresa com o desenvolvimento da cidade. Nitidamente uma reportagem comprada no jornal para elogiar o candidato.
Voltou a analisar a foto e lembrou de algo. Esperou sua mãe descer para tomar o café da manhã e disparou escada acima para a suíte do casal. Num grande baú nos pés da cama, procurou os álbuns de fotografias da família. Nadou entre os jogos de cama para alcançá-los no fundo e pegou especificamente uma grande pasta com capa de couro. Durante a procura, acabou encontrando a caixa de madeira trancada que guardava a pistola de seu pai. Já a tinha visto outras vezes e a ignorou. Só esperava que a arma de fato não estivesse ali. Guardá-la no quarto da mãe era uma péssima ideia do seu pai.
Sentou no chão e colocou sobre o seu colo o álbum para folhear com mais facilidade as fotografias da juventude de seus pais. Eram registros de viagens do casal, festas com amigos, as primeiras reuniões do trabalho de seu pai, as diversas casas que moraram antes de Miriam nascer e fotos de sua mãe grávida em contextos aleatórios. Até que lá pra metade do álbum encontrou a fotografia que queria.
Quando mais nova, passava horas com sua mãe olhando os álbuns e outras fotos soltas. Lembrava das histórias que algumas delas engatilhavam e adorava ouvir os pais contando sobre o contexto, o dia, seus sentimentos e pensamentos da época. E havia uma que a deixou entusiasmada.
Na foto podia ver seu pai abraçado lado a lado com outros quatro rapazes. Eram jovens, com mullets de Xitãozinho e Xororó, camisas folgadas e cintos com fivelas cintilantes. Estavam num lugar que parecia um rancho, à frente de um fogo à lenha e com uma paisagem de fundo meio desfocada, mas muito bonita, do alto de uma longa plantação de árvores ainda meio baixas.
Ao lado de seu pai estava ele. Claramente Olavo, o prefeito de Albuquerque. Dessa foto em específico não se lembrava de nenhuma história contada.
Miriam arrepiou-se inteira. Que tipo de coincidência era aquela? Como seu pai, um cara que viajava e se mudava de cidade com uma frequência alta pôde já conhecer o atual prefeito de uma cidade onde passou a morar muitos anos depois? Uma hipótese surgiu na sua cabeça e só seu pai ou sua mãe poderiam responder.
Seu pai, bem, estava ausente. E com sua mãe seria uma situação delicada. Normalmente perguntas sobre o passado a deixavam confusa e um pouco desnorteada, dependendo da época em que foram. Mas havia uma terceira via.
— Cátia — aproximou-se meio afobada da mulher enquanto ela estendia roupa no varal. — Você morou numa cidade aqui por perto quando era moça, né?
— Morei sim — respondeu sem interromper sua tarefa. — Morei lá pras bandas de Florínia, numa fazenda. Por que?
— Só pra saber — se justificou tentando disfarçar a curiosidade repentina. — Cê sabe se meus pais também moraram por aqui alguma vez? Tipo, antes de eu nascer?
— Ah, menina. Sei não. Sua mãe nunca falou disso. Ela fala pouco de coisas do passado. Sabe o que eu tenho caducado aqui comigo? Que desde que a gente saiu lá de Marília uns quatro anos atrás ela já nem percebe que a gente se mudou, sabe? Deve achar que é tudo a mesma casa, o mesmo lugar. Fica meio arriada no dia da mudança, mas depois meio que espairecer e esquece.
— Também tenho essa impressão — Miriam concordou com a mulher para deixar o assunto mais natural e não demonstrar que estava buscando algo específico. Se Cátia percebesse, ia enchê-la de perguntas e ficaria preocupada também. — Bom, só curiosidade mesmo.
Miriam passou a mão em uma das roupas molhadas que a empregada estava pendurando no varal. Era um tecido rosa claro e comprido que formava um vestido longo e praticamente sem detalhe algum. Ao lado dele tinha vários outros iguais, quase uma dúzia. Sua mãe vestia basicamente aquilo todos os dias. Eram vestidos simples, folgados e confortáveis, mas sem personalidade alguma. Serviam de pijama, roupa de ir ao médico, roupa de descanso... Só mudavam as cores e raramente as estampas. Roupas que não definiam as curvas do seu corpo e praticamente anulavam seu modelo.
Lembrou das fotografias novamente. Nas mais antigas, sua mãe era deslumbrante. Sempre bem maquiada, com colares e brincos grandes e cintilantes. O cabelo armado bem alto e sedoso. Com roupas meio cafonas ao olhar contemporâneo de Miriam, mas inegavelmente bonitas e na moda para a época.
Vendo as fotografias, sua mãe parecia alguém. Agora era apenas um receptáculo que se lamentava e arrastava pela casa com esporádicos momentos de lucidez. Miriam via sua mãe indo embora um pouco mais a cada dia, mesmo estando ao seu lado.
Durante o almoço, ficou observando a mulher na mesa. Estava calada, com olhar longe. Pelo menos aceitou de bom grado e sem questionamentos a comida de Cátia. Conseguiu até comer sozinha, pois sua mão estava firme naquele dia e não tremia a ponto de não conseguir segurar os talheres com firmeza.
Mais uma vez, Miriam imaginou um diálogo franco entre elas. De mãe e filha. E um aperto bateu no peito por perceber quantos daqueles momentos haviam perdido. Sua mãe nunca soube da sua primeira paixonite, de seu primeiro beijo, das dezenas de primeiros dias de aula em escolas novas, dos novos amigos, dos seus desafios de adaptação...
Não era culpa dela, sabia. Mas, mesmo assim, lamentava pelas duas. Sabia que a mãe queria poder acompanhar todos aqueles momentos.
Durante seu descanso da tarde no quintal dos fundos, Miriam ficou a observando de longe. Estava sentada debaixo do alpendre da edícula, mas, quando o sol do fim do dia se acalmou atrás de uma nuvem grande e pesada, puxou uma das espreguiçadeiras para mais perto da piscina e sentou nela com o encosto levantado. Cátia apareceu minutos depois e deu-lhe um coquetel de remédios, que tomou sem pestanejar. Conversaram amenidades brevemente e Cátia voltou para a casa para aspirar a sala. Ela também deixou com a mãe de Miriam duas agulhas e um rolo de lã roxa, e logo a mãe se colocou a tentar crochetar.
Tentar porque já não conseguia formar mais que duas fileiras de costura. Mas continuava dando nós na linha como se estivesse tecendo lindas e longas peças, como adorava fazer antigamente.
— Vou fazer um jogo de banheiro pra nossa casa nova — a mulher comentou sem tirar os olhos das agulhas quando notou Miriam se aproximando pela beira da piscina.
A garota sentou na margem e levantou a calça para conseguir colocar os pés dentro da água gelada.
— Tá empolgada com a mudança? — Miriam perguntou entrando na ilusão da mãe. Era uma das únicas maneiras de terem mais de dois minutos de conversa sem gritos, choques, convulsões ou confusões mentais.
A mulher refletiu sem interromper o suposto tapete e enfim respondeu:
— Estou. Achei a casa bem bonita.
Sua voz era tão serena e decidida. Como se fosse de uma pessoa sem problemas, sem questionamentos, questões. Apenas... indo.
— Seu cabelo tá lindo, filha — ela comentou espiando sobre suas agulhas.
— Que bom que gostou — a garota respondeu sem deixar o amargor que lhe subiu à garganta transparecer na voz.
Miriam jogou o corpo para trás e ficou deitada sobre a pedra clara, de barriga para cima e com os pés ainda embaixo da água. Ficou em silêncio por alguns minutos, apenas olhando as poucas nuvens se arrastarem pelo quase anoitecido céu até sumirem do seu campo de visão. Depois de um tempo, sua mãe começou a cantarolar baixinho enquanto crochetava e a garota sentiu-se relaxada.
Não reconheceu aquela melodia de imediato, mas era uma canção de ninar que sua mãe costumava cantar desde que Miriam era pequena. Dizia que sua mãe, a avó de Miriam, adorava criar cantigas. Nem sempre criava as próprias melodias — às vezes pegava músicas já existentes e botava letras novas em cima. Mas também compunha alguns originais e ensinava suas sobrinhas, primas e irmãs a cantarem para seus filhos. Miriam não se lembrava bem das letras, mas reconhecia no tom da mãe.
— Sabe, tenho saudades da minha amiga — Miriam lembrou de Cátia dizendo dias antes, quando sua mãe teve o último surto e cortou o cabelo da filha à força. A empregada puxou a garota para seu quarto depois que acalmaram a mulher e a puseram para dormir com os remédios. Cátia pediu para Miriam deitar em seu colo, fez cafuné na garota enquanto conversavam e depois cantarolou uma das melodias até Miriam cair no sono.
— Quando teu pai me contratou, já conhecia vocês — Cátia continuou contando antes de Miriam dormir. — Trabalhava na casa de uma perua que sua mãe ficou amiga. Mas elas não tinham nada a ver. Quando ela ia lá na casa da madame, era mais comigo que proseava. Acho que eu e ela tinha mais em comum mesmo. E dava pra perceber que sua mãe cadecia de companhia. Também né, com esse tantão de mudança de cidade desde jovem...
— Sua mãe já tava constipada na época, mas era mais no corpo mesmo, não nas ideias ainda. Precisava de uma acompanhante e me chamou na lata. Trabalhei lá uns dois meses antes de vocês precisarem mudar de novo. Cê era miúda, miúda que só. Então seu pai chamou pra eu mudar com vocês. E aceitei mesmo! Sem pestanejar. Ih, num tinha mais nada naquela cidade pra mim. Marido foi embora, filhos tavam tudo criados. Seu pai até pagou um curso de enfermagem pra mim quando a gente mudou lá pra Prudente. E eu cuidei da sua mãe todo dia. Cuidei, não. Fiz companhia. Ela só andava meio torta, de resto tava sã. A gente ficava o dia todo proseando e não cansava, sabia?
— Tomava café com junto, assistia novela de tarde e de noite, ia no mercado, no sacolão, comprar roupa... E conversava. Ih, a gente falava até demais! Sua mãe é divertida, engraçada, boa pessoa... E digo que é, mesmo. Sei que num parece agora por causa do estado dela, mas quando olho pra ela ainda vejo minha amiga de anos atrás. Mãezona, uma querida...
Miriam acabou caindo no sono também no presente enquanto repassava a história de Cátia na cabeça.
Despertou apenas quando sentiu o celular vibrar no bolso. Limpou o rosto com as mãos e, ao abrir os olhos, percebeu que agora estava sozinha no quintal. Sobre seu quadril repousava o crochê completamente torto e disforme, e logo entendeu que era uma possível tentativa de sua mãe de cobri-la do frio enquanto cochilava.
Pescou o aparelho do bolso e ficou surpresa com o SMS.
WINDERA — 21:34
Me encontrem na escola municipal às 23h de hoje. Descobri qm é o Anônimo e preciso de tds lá. Entrem pelos fundos e me encontrem na secretaria.
Miriam releu a mensagem pelo menos umas cinco vezes para verificar se estava vendo exatamente o que tinha entendido. Sentou imediatamente após a primeira leitura e sentiu o corpo meio amortecido.
MIRIAM — 21:37
Você tb recebeu?
DÁRIO — 21:38
Recebi. Estranho.
Mas te vejo lá.
Queria confirmar com Sabrina, Hélio e Marcos se também tinham recebido para que todos combinassem de, sei lá, chegarem juntos e em segurança. Mas não tinha seus números. Então confirmou apenas com Felipe, que avisou que chegaria um pouco atrasado, talvez.
Quando viu a mensagem de Windera, Felipe preferiu confirmar primeiro com outra pessoa:
FELIPE — 21:42
Acho q acabou
a Wind descobriu e pediu p encontrar a gnt
Mas sei lá. Deu medo
RÔMULO — 21:45
Quer q eu vou ctg?
qro quebrar a cara desse bosta.
FELIPE — 21:45
Qro. É na escola.
Passa me buscar?
RÔMULO — 21:46
Melhor n verem a gente junto...
me encontra em algm lugar antes?
FELIPE — 21:46
Tá...
na sala do 3º ano qnd chegar. a gente cv lá.
—
Rômulo estacionou seu carro na rua da parte de trás do colégio, mas distante da entrada que Felipe havia sinalizado para usar. Ficou esperando ainda dentro do automóvel desligado por uns cinco minutos para observar o movimento da rua e se certificar de que ninguém o veria entrando.
Uma movimentação na esquina da frente chamou sua atenção. Ficou observando duas figuras se aproximarem pela calçada com passos lentos e cautelosos. Não conseguia ver direito por causa da má iluminação, mas, conforme iam se aproximando, a nitidez melhorava. Reconheceu Hélio e Sabrina caminhando de mãos dadas até o portão de ferro azul no limite do terreno dos fundos da escola, uma entrada que normalmente o zelador usava para passar com carrinhos de ferramentas e materiais de manutenção.
O portão pareceu aberto — normalmente ficava trancado e apenas o zelador tinha a chave do cadeado. Rômulo deu mais um tempo. Quando percebeu que a barra estava limpa, abriu o porta-luvas, pegou o canivete e guardou no bolso de trás do jeans. De lá também tirou um molho grande de chaves das salas de aulas e de outras portas da escola.
Saiu do carro e também entrou pelo portão do zelador, sempre se certificando de que não havia ninguém o vendo. Aquela entrada dava direto para a parte de trás de algumas salas de aula do ensino fundamental. Um caminho de pedras dava logo para um casebre onde o zelador guardava as ferramentas de jardinagem. Passou por ela e por outro portão para chegar à área comum da escola.
O pátio central era amplo e estava escuro. Saiu de frente para a quadra menor e preferiu não pegar o caminho concretado para não ser visto pelos outros alunos que tinham sido chamados. Então se enfiou na pequena mata de árvores até alcançar o lado oposto para onde viu Hélio e Sabrina rumarem, o prédio da secretaria. Foi para a direita até chegar no bloco do ensino médio.
Logo viu, no fim do corredor coberto pelo alpendre, Felipe encostado na parede ao lado da sala do terceiro colegial. Caminhou acelerado até ele e cumprimentou com um abraço apertado.
— Você demorou — o garoto magricela o repreendeu ainda dentro do abraço.
— Tava conferindo se ninguém ia me ver mesmo — o professor respondeu afagando o cabelo cheio de gel do garoto.
Felipe revisou os olhos e contestou:
— Até no meio da noite, sem ninguém na rua, é com isso que você mais se importa?
Rômulo puxou o molho de chaves para rapidamente abrir a porta da sala e arrastou Felipe para dentro. Felipe foi direto para o interruptor acender a luz, mas o homem o impediu e continuou:
— Claro, ué. Tenho que ser maroto. Se alguém descobre sobre a gente, eu to ferrado, lembra? Perco meu emprego, perco tudo. Capaz até de ser preso, linchado na rua, sei lá!
— Tá, tá — Felipe desbaratinou aquele discurso que já tinha ouvido do homem dezenas de vezes. — Mas isso acaba hoje. Eu vou encontrar a Windera e você fica ouvindo escondido o que ela tem pra dizer, daí depois a gente decide o que fazer, ok?
— Mas eu já decidi o que vou fazer — tirou o canivete do jeans e ativou a lâmina na frente do rosto de Felipe. — Vou dar uma coça nesse bosta de Anônimo pra ele ficar quieto até esquecer nosso segredo. Depois de hoje, só eu e você vamos saber sobre a gente.
— Mas cê tá noiado? — Felipe interveio. — Não é pra partir pra violência, não. A gente vai denunciar o Anônimo pra polícia, e é isso! Vou convencer todos os outros a fazerem isso e pronto!
— Não, não. Deixa comigo, amorzinho. Eu sei o que tô fazendo. — Rômulo guardou o canivete e empurrou o corpo magricela de Felipe mais para dentro da sala. Depois, num salto rápido, partiu de volta ao corredor, fechou a porta e trancou-a.
Felipe tentou reagir rápido para impedir que fosse trancado lá logo no momento em que percebeu que Rômulo estava saindo. Mas o homem estava a passos de distância e conseguiu trancá-lo facilmente.
— Mas que merda cê tá fazendo? — Felipe gritou do lado de dentro da sala enquanto batia de leve na porta para chamar a atenção do professor.
— Você vai ficar em segurança enquanto isso! — Rômulo sussurrou. — E fica quieto! Vai chamar a atenção assim! O Anônimo tá por aqui, lembra?
Felipe bateu na porta com mais força e incessantemente tentou forçar para abri-la e ela nem se mexia. Continuou gritando e chamando pelo Rômulo, mas ouviu seus passos se afastando no corredor.
— Filho de uma puta! — retrucou para si mesmo dando chutes na porta. Mas logo desistiu e jogou-se no chão de cansaço. Teria que improvisar.
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