Eu Odeio Você!!!
3 Capítulo 3
Notas iniciais
http://www.youtube.com/watch?v=Vc4-wsrJ9Ts
Negro gato - Mc Leozinho.
Chico fica sem reação com o tapa. Zé Lelê observa a cena, boquiaberto.A peonada se dispersa. O garoto se levanta para ir atrás da menina, mas Zé da Roça lhe impede, segurando pelo braço.
- Zé...
Zé da Roça – Deixa Chico, num sabe como a Rosinha é? Bobagem falar quando tá cum raiva...
Chico – Mas ela tem que saber da vredade...
Zé da Roça – Dipois se fala com ela... Espera ela se acarma!
Zé Lelê – O Zé tá certo Chico...
Meio contrariado Chico volta a se sentar perto dos dois.
Zé da Roça – Chico, nóis tem outra coisa que convresa... Assunto sério... Sobre a carta que ocê recebeu...
O assunto não agradou nada o menino.
- Não tenho anda pra fala disso, Zé!!! Que coisa!!!
- Chico!!! Pela amor de Deus, pensa um pouco... Quando ocê vai receber outra chance dessa?
Há uns meses atrás por insistência de sua mãe, Chico tinha prestado concurso publico em São Paulo. Fez a prova e esqueceu. Quase três meses depois um telegrama chegou em Vila Abobrinha. Era uma convocação. Chico tinha passado no concurso para ser inspetor de alunos de um colégio. O salário era bom. Dava até para pagar uma faculdade e dar continuação aos estudos. A moradia na cidade era garantida. Quando sua tia soube da novidade logo convidou para morar com ela em seu apartamento. Tudo seria perfeito se o garoto quisesse largar a cidadezinha. Mas quem disse que queria? Por outro lado tinha idéia da grande oportunidade que o destino lhe dava. A dúvida já corria há dias em sua cabeça, mas preferia tentar esquecer a história.
Zé da roça que sempre foi um sonhador assumido logo se entusiasmou. Julgava Vila Abobrinha pequena demais para seus planos. Queria estudar, queria mostrar ao mundo todo seu talento. Queria conhecer gente nova. Há tempos queria largar o marasmo e partir para São Paulo. Zé Lelê era outro que também estava começando a se interessar em procurar novos caminhos, através da música. Só faltava um empurrão do destino para colocarem pé na estrada e há tempos Zé da Roça queria convencer Chico que aquele era o empurrão.
Chico – Zé, uma carta não vai mudar minha vida!! Ará!!! Eu fui criado aqui!!! Não tenho cabeça avoada não!!! –
Zé da roça (Revoltado) – E ocê é um cabeça dura!!! – Tira o chapéu e joga no chão, descontando toda sua raiva.– Chico... Eu já tomei minha decisão!!!
Chico – Decisão?!
Zé da Roça — Eu vou passa a mão em mim e vo me imbora pra São Paulo!!! E se O Zé quisê ele parte mais eu!!!
Chico olha assustado para o peão. Nunca tinha visto Zé da Roça falar tão sério. Julgava que Zé da Roça só falava da boca pra fora, mas que não tinha coragem de realmente ir embora. Passou seus olhos para o outro Zé.
Zé Lelê – Ará... A gente num é arvore pra fica prantando no mesmo lugar... E o padrinho falô que ajuda a gente nos primeiros mês... E com os istudos...
O padrinho de Zé lelê e Zé da Roça era o pai de Genesinho. E o “coronel” Genésio, diferente do filho era um homem que ninguém duvidava de sua bondade e palavra. E se ele tinha prometido era verdade. A idéia de perder os dois melhores amigos nunca tinha passado por sua cabeça.
- Então?!
Zé da roça – Nóis tamo de partida, Chico!!! Partida pra São Paulo...
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Uma empregada veio trazendo a bandeja com o salmão. Regina, mãe de Carmem serviu uma porção no prato do marido e outra no seu. A própria loirinha colocou a comida em seu prato. Passaram todo o jantar em silêncio. “Isso nem parece um jantar em família e sim um encontro na sala de espera da cadeira elétrica.” — Suspirava Carmem. Além da falta de química entre os pais, Seu Cornélio não andava de bom humor. Tinha problemas no trabalho. Andava preocupado com um diamante que ia chegar numa joalheria do Limoeiro para ficar alguns dias. O diamante apelidado de Power Radiance vale mais de 25 milhões de dólares. Ficaria em exposição para fazer propaganda da loja e depois voltaria a um museu de Lisboa, o verdadeiro local de origem do diamante. Como delegado no bairro do Limoeiro não podia deixar nada no esquema de segurança falhar. E a aflição lhe deixava mais intransigente.
Carmem terminou logo seu prato. Foi até o banheiro escovar os dentes, passou reto por eles, ia até o jardim da frente quando a mãe lhe interpela.
- Vai onde mocinha?
Carmem — Tomar a fresca, posso papai?
Cornélio (Contrariado) – Não demore muito para entrar, sabe como estamos vivendo né?
Carmem – Pode deixar... – Abre um sorriso mega forçado. – Não demoro!!! – Saí da casa, passa pelo jardim. Um segurança lhe fazia companhia. Agacha-se procurando algum objeto.
Carmem — Hey!!!
Segurança – Algum problema?
Carmem (Jogando charme) – Pode me fazer um favor? – Lê o nome do segurança no crachá. Aproveita para ajeitar a gola do paletó e jogar um charme para cima do grandalhão. – Airton né?
O segurança, sem jeito, afirma que sim com a cabeça.
-No que posso ajudar, senhorita?
Carmem – Aí procura minha lente de contato... — Aponta num canto bem escuro. – Caiu por ali... Pode procurá-la?
Airton – Claro... – Começa a andar de quatro, procurando a tal lente.
- Cuidado para não quebrá-la!!! – Airton começa a engatinhar mais devagar. —
Eu vou procurar do outro lado!!!
Corre para os fundos.
Abre o portão e Jeremias entra sorrateiramente. Puxa ele para um canto escuro e beija o garoto com vontade, depois de um tempo se agarrando, separam-se para tomar fôlego.
– Poxa, achei que já tinha aberto o jogo com seu pai... – Reclamou o garoto.
Carmem – Aí bobãozinho... Ele já sabe de nós. Mas o papai tá chato por causa de uns problemas aí que ele tá tendo na delegacia. Sabe como ele fica intolerável esses dias!!! Melhor não provocar...
Jeremias (Preocupado) – Mas é coisa grave?
Carmem –É umas coisas na delegacia... Vai chegar um diamante aqui no bairro que vale muito e ele fica responsável por todo esquema de segurança, aí já viu né?
Jeremias – Quanta responsa hein?! Tem que ficar preocupado mesmo e... – Avista o segurança engatinhando em volta da piscina. – Que é isso, Carmem?
Carmem – Que? – Observa Airton. Displicente. – Ah... Meu segurança... Falei que dava jeito de dar pista nele... Tá procurando minha lente de contato.
Jeremias (Surpreso) – Mas você nunca usou lente de contato!!!
Carmem (Divertida) – Deve ser por isso que ele não tá achando!!! – Puxa o garoto em direção a casa. – Vem!!!
(Música Negro gato — MC Leozinho)
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Também no bairro do Limoeiro, um casal em sua casa. Terminavam a refeição. Barulho de chaves na porta. O filho mais velho entra na casa, como de costume com livros embaixo do braço, chegou mais cedo da faculdade. Cumprimenta os pais, antes de entrar para o quarto a mãe lhe pergunta.
- Nimbus, cadê seu irmão? Ele disse que ia passar pela faculdade pra vir com você...
Era a ultima pergunta que Nimbus queria ouvir. Sabia muito em onde ele devia estar, e sabia que a resposta não agradaria nem um pouco seus pais. Dona Ângela e Seu César, pais dos dois garotos viviam uma situação difícil, mas muito comum para pais de adolescentes. Não estavam conseguindo lidar com a oposição do caçula. Desde pequeno Do contra teve o gênio difícil, mas com o passar do tempo estava piorando. Como não podia ser diferente fazia tudo ao contrário do irmão.
A rebeldia era presente em seu visual metaleiro e nas amizades. Tinha trocado a maioria das companhias de infância por uns garotos da rua de baixo. Gente mal vista pelo bairro que sempre arrumava encrenca. Nimbus não falou com os pais para não piorar a situação, mas sabia que alguns dos novos amigos de Do Contra gostavam de puxar um baseado. Corria pelo bairro que tinha gente te envolvida em delitos de menor escalão como arruaça, pequenos furtos. Temia que o irmão estivesse envolvido. As más companhias também refletiam no boletim do garoto que andava com as notas muito baixas no colégio, fora o comportamento, reprovado pela maioria dos professores e colegas de classe.
- E então Nimbus, cadê o seu irmão? – Seu César perguntou, temendo a reposta. – Ele esqueceu que amanhã é o dia dele começar a pagar a pena dele na escola?
Do Contra tinha sido pego por um dos inspetores do colégio do Limoeiro fumando dentro das dependências da escola junto de mais dois garotos. Seria a terceira suspensão e o convite para mudar de colégio, mas a diretora, conhecendo a família do garoto a um bom tempo resolveu dar uma pena alternativa ao menino. Teria que trabalhar no período da tarde, como voluntário, de um projeto social com crianças carentes que tinha dentro da escola. Durante um mês. O pai concordou e tinha esperança que talvez o garoto entrasse na linha. Começaria no dia seguinte.
Nimbus – O Do Contra ficou de passar na casa do Cascão, mas não demora... Licença pai!!! – Antes de continuarem a sabatina se tranca no quarto. Despeja os livros na cama pega o celular e disca para o número do irmão.– Atende Mané!!!! – Desejava enquanto ouviu o barulho do telefone chamando.
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Ao ler o número do irmão no visor Do contra deixou cair na caixa de mensagem. Ligação do Nimbus com certeza era pegação de pé. Terminou de tragar seu cigarro e despejou a pituca no parapeito da janela. Sentou-se num dos caixotes da garagem, pensativo. Um jovem bebia uma garrafa de cerveja no gargalo. Era Toni. Aquele mesmo que tinha entrado na escola e logo ficou amigo da Mônica e depois descobriram tratar do famoso “Tonhão da Rua de baixo.” Tinha voltado a morar na rua de baixo, só que agora sozinho. Sempre recebia amigos em casa para festinhas regadas a muito álcool e algumas mercadorias ilícitas.
- Tá afim veio? – Ofereceu.
Do Contra – Ãh? Que?
Toni sacode a garrafa.
-Cerva!!! Tá afim? Se quiser também tem vodka n a geladeira...
Do Contra dá uma boa golada.
- Hoje só fico na Cerva mesmo... Vocês vão fazer o que hoje hein? Só ficar em casa ou vai dar uma bandas com o carro?
Toni – Espera o resto do povo chegar e a gente dá uma zoada... Com certeza... Se liga tava com uns planos ai pra esses dias...
Do Contra (Divertido) – O que? — Pega uma lata de spray jogada no chão. – Caligrafia de novo? –Perguntou rindo, o outro soltou uma gargalhada alegre.
- Não Mané... Coisa de adulto... Leu o jornal de hoje?
Do Contra (Irônico) – A com certeza... – Mais risadas. – Que aconteceu?
- Sabe aquela joalheria da avenida principal?
- A única do bairro...
- Então... Parece que por esses dias tá pra chegar uma jóia aí de responsa... Um diamante que vale 25 milhões de dólares.
- Porra...
- Vai encher de polícia aí...
Do Contra – E o que tu tá pensando?
-Tira uma onda com esses gambás... Imagina se essa grana some?!
O metaleiro reflete um pouco sobre o que acabou de ouvir, volta a rir.
- Peraí, ta pensando em?
-Tá afim de juntar uma galera e a gente catar essa grana?!
- Tava fumando o que, Toni? – Perguntou ainda incrédulo do que acabou de ouvir.
Toni – Eu tenho um esquema cara!!! Nunca falei tão sério em toda minha vida...
Do Contra (Preocupado) – Mas isso é loucura...
Toni – (Firme) – Escuta primeir... – Batidas na porta da garagem. O garoto loiro vai abrir pensando ser o restante de seus amigos. Dá de cara com um Nimbus com uma expressão nada amigável. O meteorologista vai direto ao mais novo.
- Você não tem jeito mesmo hein Do Contra, borá pra casa!!!
- Que você tá fazendo aqui? – Pergunta.
- Te liguei um monte de vezes só da caixa!!! O pai já perguntou de você!!!
- Véio só encheção de saco!!! – Nimbus sem cerimônia entra na garagem, puxa o garoto pelo braço. – Qual é Nimbus?!
Nimbus – Amanhã começa teu trabalho lá no projeto social, irresponsável, agora vamos logo pra casa antes que eles percebam que eu vim atrás de você!!! – Toni se mete na frente dos dois. – Licença...
Toni – Qual é palhaço, ele sai se ele quiser!!! – A Do Contra. – Vai ficar mesmo com boiolagem de projeto social?!
Nimbus – Sai da minha frente... – Retruca Nimbus dando um empurrão no garoto. Aos trancos vai levando o mais novo para casa. – Não aprende, bestão!!!
- Tu não é meu pai pra ficar dando bronca!!!
- Então não mete meu nome mais nos teus rolos!!! – Empurra o emburrado Do Contra!!! – Anda!!!
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