Eu Lembro de Você
7 Capítulo 07
A memória é uma coisa engraçada, um mistério para muitas pessoas...
Muitas vezes, nós não conseguimos nos lembrar de pequenas coisas que aconteceram na semana passada, mas, em contrapartida, nós conseguimos nos lembrar de fragmentos da nossa segunda infância e, nos casos mais raros, fragmentos da nossa primeira infância. Situações traumáticas ou situações em que fomos muito felizes que, naqueles poucos segundos, nós não conseguimos perceber. A memória é como um mar, são águas profundas e talvez sem fim.
Sem fim porque, para muitos, existe um véu que não é visível, mas é responsável por esconder memórias de nossas vidas passadas. Memórias com as quais não deveríamos ter contato até existir um amadurecimento no nosso entendimento e aprendizado, do nosso entendimento do motivo de estarmos aqui... Do motivo de sempre retornamos a esse mundo com uma missão de nos tornarmos melhores ou fazermos resgates de uma amizade, de um amor ou da reconstrução de um laço que foi quebrado em vida por culpa da ganância, da inveja ou de sentimentos ruins...
Quando Samuel decidiu entrar nesse mar sem fim, ele não sabia que demoraria um tempo até entender melhor como navegar pelas águas desconhecidas que sua própria mente se tornaria. Nas duas primeiras sessões de regressão com Daniel, o garoto conseguiu visitar algumas lembranças da sua infância, incluindo momentos ao lado da sua avó. Uma das duas memórias que o garoto visitou durante as primeiras navegações por esse mar infinito foi um momento em uma tarde de verão. Ele assistindo a um episódio do desenho infantil Doraemon ao lado da sua avó, a gravação estava no idioma original, japonês, uma maneira de a mais velha tentar ensinar o idioma ao garoto, ainda criança.
Quando finalmente conseguiu atravessar parte desse véu espiritual, a primeira memória mais antiga que ele conseguiu ver foi, justamente, um dos seus sonhos envolvendo a figura da noiva japonesa. Não conseguiu ficar muito tempo preso naquela memória porque, logo em seguida, sentiu a dor que a garota experimentou em sua barriga no momento em que atravessou aquela espada de decoração em seu corpo. A marca de nascença de Samuel doeu e ele saiu do transe tossindo e passando mal. Precisou de algumas horas para ser acalmado pelo médium e também pela sua avó, que estava presente.
Enquanto essa trama de Samuel se desenrolava, Henrique ainda continuava em coma induzido no hospital. O herdeiro da Família Barreto estava desacordado há mais tempo do que os médicos previram, porém, como ainda existia um sinal de atividade cerebral, não pensaram na possibilidade de desligar os aparelhos que ajudavam o rapaz nessa fase de coma induzido.
Nesse tempo em que Samuel ia para a universidade, depois ia conversar com Daniel em suas sessões de regressão, o nipo-brasileiro sempre ia visitar Henrique no hospital. As visitas eram tranquilas apenas quando sua sogra não estava presente.
Donna ainda sentia uma vontade de proteger Henrique de Samuel, não gostava da presença do rapaz no quarto do hospital em que o filho estava internado, mas não sabia explicar com exatidão o motivo de não gostar dele, pois, quando ela era questionada pelo marido, o Senhor José Carlos Barreto, a socialite apenas conseguia dizer que não gostava do namorado de Henrique, e era isso, nada mais para ser acrescentando.
Diferente da esposa, José Carlos não tinha nada contra Samuel, porque ele gostou quando o filho terminou o noivado com Sandra. Nunca foi a favor efetivamente da história de que Henrique precisava se casar com a moça para a família voltar a ter o maior controle do grupo que um dia pertenceu a ela. Ao contrário, esse sentimento de necessidade pertencia mais a Henrique. Para José Carlos, ele poderia conseguir as ações de outra maneira, apenas não havia pensado nela ainda.
— Está pronto? — perguntou Daniel a Samuel.
— Sim... — respondeu Samuel se ajeitando no divã do escritório.
O médium se encontrava sentado ao seu lado em um banco.
— Então relaxe seu corpo e feche seus olhos — pediu o homem preto de cabelos grisalhos, como sempre pedia em cada começo de sessão.
O garoto lentamente fechou seus olhos e respirou fundo, deixando seus músculos ficarem relaxados, assim como sua mente. Daniel foi conversando com Samuel, um estímulo para guiar o jovem de cabelos escuros naquela navegação através das suas memórias. E era assim que ele se sentia depois de fechar seus olhos e sentir seu corpo relaxado, como se seu espírito estivesse navegando.
Depois de alguns minutos com Daniel guiando Samuel, o nipo-brasileiro já se via nessa situação. Em um barco no meio de um mar, mas o céu estava escuro com muitas estrelas e nenhuma nuvem. Aquela visão noturna acima se refletia com exatidão naquelas águas e dava uma sensação de infinitude, uma sensação de ciclo, como se não desse para saber quando céu terminava e quando o mar da sua mente começava.
Continuou remando, até conseguir atravessar o véu mais uma vez, mas agora ele foi mais longe do que a memória na qual a garota japonesa retirava sua própria vida. Ele estava nesse mesmo escritório, um local bonito e feito inteiramente de madeira, uma decoração requintada e que misturava elementos japoneses com alguns elementos ocidentais.
Seus olhos se fixaram nas espadas usadas como decoração. Entretanto, não teve o mesmo sentimento que havia sentido no dia em que a garota optou pelo suicídio. Apenas era uma curiosidade sobre aquela decoração, que era um registro histórico do próprio Japão.
— O Senhor Sousuke — disse a empregada parada na entrada do escritório.
Um homem alto e esguio entrou ali, cabelos bem cuidados e pretos, olhos puxados um pouco inclinados para cima e uma expressão neutra, como se escondesse seus sentimentos a todo o momento, porém, quando seus olhos encontraram os de Samuel, emitiram um brilho de satisfação. Vestia um terno com um corte ocidental, certamente um estilo baseado nas vestimentas inglesas, acompanhava uma calça social e mocassins, além da gravata azulada.
Sousuke passou a mão no rosto de Samuel de uma forma delicada, esboçou um sorriso pequeno, apenas levantando o canto direito do seu lábio levemente para cima.
— Mio, estava esperando por você. — Apenas com essa fala que Samuel compreendeu que estava no corpo daquela garota. — Então, você pensou na minha proposta?
— Sim — respondeu Mio, e sua voz saiu triste. Logo em seguida, baixou seu olhar, mas sentiu o dedo de Sousuke levantar seu queixo para que ele não perdesse a visão da garota. — Meus pais deixaram o campo quando eu tinha cinco anos de idade e vieram para cá... para o centro urbano com esperança de tempos melhores, e realmente tivemos dias de ouro — disse se livrando do toque do homem. — Porém... Agora, minha família corre o risco de perdemos nossa casa caso não paguemos nossa dívida com o banco. Eu não suporto pensar na ideia dos meus pais na rua, do meu irmãozinho vivendo na sarjeta e não podendo se alimentar. Eu aceito sua proposta de casamento, Sousuke, mas apenas se você usar o dinheiro e a influência que apenas o nome da sua família tem para ajudar meus pais a continuarem morando naquela mesma casa.
— Uma garota com atitude. Eu sempre gostei de mulheres com atitude — disse Sosuke sorrindo, e encolheu seus ombros antes de dar sua resposta final. — Muito bem. Eu vou fazer com que sua família continue com aquela casa, vou ver o que posso fazer para te ajudar, futura esposa. — Sorriu de forma maliciosa, e esse sorriso mais aberto incomodou Mio, fazendo a garota desviar seu olhar para outro canto e apertar com força o tecido do simples vestido que usava.
Casar-se com um homem do qual ela não gostava era um sacrifício a ser feito para não ter que ver sua família vivendo nas ruas, pedindo sobras de alimentos e ter que ver seu irmãozinho crescer com sua infância e seu futuro roubados. Sousuke sempre correu atrás dela, vinha de uma família dona de zaibatsu, ou seja, possuíam muito dinheiro e uma boa relação com a família imperial. Com certeza, o jovem herdeiro daria um jeito de fazer com que a família de Mio continuasse com a casa deles. Talvez com ele se tornando genro dos seus pais, uma ajuda financeira surgiria. Provavelmente, todos sairiam vencendo.
Ao chegar perto da fachada da sua casa, Mio ensaiou um sorriso falso para contar as novidades, mas, quando adentrou a sala de estar após deixar seus sapatos na entrada da residência, encontrou sua família comemorando alguma coisa. Curiosa, a garota se aproximou, então, perguntando:
— Qual o motivo de tanta alegria?
O pai de Mio a encarou, ainda sorrindo.
— A melhor notícia de todas, minha filha — respondeu a mãe, sorrindo.
— Como assim? — perguntou a filha, ainda mais curiosa.
— Seu pai conseguiu! — respondeu o homem em comemoração. — Nós vamos nos mudar para o Brasil! Vamos conseguir trabalhar nas fazendas de lá, e daí... conseguiremos dinheiro o suficiente para voltarmos para cá. Vamos ficar ricos no Japão! Ricos!
Aquela notícia chegou até Mio como um soco em seu estômago. Ficou sem palavras porque havia acabado de fechar um acordo com Sousuke e não sabia como revelar aos pais o que tinha feito, não sabia como contar sobre seu sacrifício, sendo que agora toda a família se mudaria para um país desconhecido com o objetivo de juntar dinheiro.
— Que história... — sussurrou Sakura depois de ouvir da boca do seu neto o que ele havia visto na regressão.
Samuel concordou com sua cabeça, visivelmente cansado da viagem metafísica que realizara.
— Que história mesmo, batian... — disse em um tom fraco e rouco.
Samuel não contou, porém estava levemente desconfiado de quem era aquela garota da sua vida anterior. Ligando os pontos com outro sonho que teve, o sonho na fazenda onde ela e a família trabalharam, a história começava a fazer um pouco de sentido com outra história que o rapaz conhecia.
Samuel não sabia, mas, enquanto Henrique se encontrava preso no seu coma, também estava tendo uma experiência de regressão, mas, diferente do rapaz de ascendência japonesa, o homem de cabelos castanhos e olhos claros atravessou o véu que lhe protegia das memórias de sua vida anterior com uma ajuda sobrenatural.
Enquanto Samuel estava aos poucos chegando às lembranças que envolviam Mio no Brasil, Henrique já estava aprofundado nessa parte, e algumas reações que seu corpo tinha externamente eram consequências da experiência de sua mente.
Depois de uma semana da sua última sessão de terapia, Samuel retornou ao escritório de Daniel e se deitou naquele divã, pronto mais uma vez para continuar e decifrar mais um pouco do seu passado.
Dessa vez, ao atravessar o véu, Samuel percebeu que Mio já se encontrava trabalhando na fazenda. Não sabia quanto tempo se passara desde a última memória que visitou, porém percebeu que estava no Brasil porque Mio se encontrava em uma cozinha muito parecida com as que ele via em novelas de época representando o século XX. Ao lado de Mio, havia uma mulher com um sotaque italiano forte lhe ajudando na cozinha. As duas pareciam bem amigas porque, toda vez que ele, como ela, conversava com a mulher chamada Giuliana, sentia algo bom.
Então um rapaz entrou na cozinha. Ele era alto, vestia uma camisa branca de abotoar com um colete listrado, preto e branco, por cima, calças sociais e mocassins, tinha a barba feita e o corte de cabelo dando destaque aos seus cachos de anjo. Abriu um sorriso largo quando seus olhos encontraram os de Mio.
— Raphael... — sussurrou a jovem japonesa.
— Pronta para mais uma aula de português? — perguntou o jovem herdeiro, ainda parado em frente à porta da cozinha.
— Vai lá, menina — disse Giuliana, sorrindo de modo cúmplice, e então continuou a fazer o serviço de limpeza do local que Mio estava realizando.
Sem falar mais nada, a moça japonesa seguiu o brasileiro até o escritório daquela casa.
Assim que Raphael fechou a porta dupla do escritório, foi na direção de Mio com pressa, roubando um beijo da garota em seguida. Ela correspondeu àquele ato com a mesma intensidade, segurando o rosto do brasileiro, que guiava a ação.
Samuel sentiu aquele beijo, parecido com o beijo de Henrique, o sentimento de pertencimento e de nostalgia também eram os mesmos. Aos poucos, o casal se afastou, recuperando suas respirações.
— Prometo que logo mais toda a Família Barreto vai saber da nossa relação, Mio. Primeiro, para que não exista uma forma de eles nos afastarem, vamos nos casar às escondidas — sussurrou o rapaz.
Ouvir aquele sobrenome, Barreto, fez com que algo em Samuel desse um clique em sua mente e fizesse com que o nipo-brasileiro retornasse do seu transe de regressão. Acordou assustado no divã do escritório de Daniel, que ficou surpreso com o súbito retorno de Samuel.
Aquela regressão foi mais rápida do que a anterior.
— O que aconteceu? — perguntou o médium, curioso.
— Eu acho que sei o que aconteceu... — sussurrou Samuel, atordoado.
Sem pensar duas vezes, Samuel quis retornar à sua casa. Mais especificamente, para seu quarto, dizendo a Daniel que a resposta que ele precisava estava no local em que ele dormia, em um livro especifico. Quando o garoto finalmente entrou em seu quarto, ainda apressado para confirmar suas suspeitas, correu para a prateleira do seu quarto e pegou o volume que sempre lhe trazia conforto, “Meu Sol do Oriente”, que começou a folhear até encontrar a página que queria, o trecho que desejava.
Encontrou, respirou fundo e começou a ler.
Já na primeira frase, a memória de Samuel viajou novamente à sua vida anterior, trazendo-lhe a memória descrita naquelas páginas.
Mio e Raphael estavam sentados à sombra de uma árvore, não conseguia se lembrar como tinham chegado ali e se era perto da casa grande. Entretanto, sentia uma imensa paz interior ao ficar olhando para o rosto do brasileiro. Sabia que Mio estava sorrindo, apesar de estar acompanhado tudo em primeira pessoa. O herdeiro da fazenda acariciou o rosto da garota, sorrindo com uma paixão sincera.
— Já ouviu falar de Allan Kardec? — perguntou Raphael depois de um tempo em silêncio. Mio respondeu balançando sua cabeça negativa. — Bom... Allan Kardec é responsável pela popularização, vamos dizer assim, para resumir, de uma vertente religiosa chamada de Espiritismo. Nessa vertente, tem esse conceito de almas gêmeas que são... espíritos que sempre se encontram em cada nova reencarnação. É como um amor verdadeiro — explicou Raphael da forma mais resumida que conseguiu.
A japonesa ficou em silêncio, pensou por alguns segundos sobre aquele tema de amor verdadeiro, e então se lembrou de uma lenda que havia escutado enquanto viajava para o Brasil no navio Kasatu Maru.
— Conheço uma lenda que diz que... duas almas são conectadas por um fio que elas não podem ver... Essas almas, não importam em que lugar do mundo estejam, elas se procuram... — Ficou em silêncio novamente, tentando se lembrar da história para ter certeza sobre a próxima parte. — Quanto mais perto estão uma da outra, mais felizes elas são... Acho que é isso. — Em seguida, soltou uma risada graciosa que fez com que o coração de Raphael saltasse mais do que já fazia perto dela.
— Você está feliz agora, Mio?
— Sim — respondeu balançando sua cabeça, ainda sorrindo.
— Sabe, acho que você é minha alma gêmea. É a garota mais linda desse mundo, nunca pensei que poderia ficar aos pés de uma criatura tão linda como você. Quando eu te vejo, perco o ar... Meu coração acelera, sinto o mundo desaparecer em meus pés. É avassalador.
— Eu sinto o mesmo, Raphael. Nunca pensei que poderia amar alguém da mesma forma que te amo. É estranho pensar que tive que vir até o outro lado do mundo para encontrar a pessoa que está do outro lado do meu fio.
O brasileiro se inclinou, ficando mais próximo da imigrante, e em seguida segurou suas mãos delicadas. Olhando dentro dos olhos dela, pediu:
— Promete que, em outra vida, em outras várias vidas, você vai procurar por mim? Por mais que estejamos separados pelo mar novamente ou pela terra.
— Minha alma sempre vai procurar por ti, Raphael.
Samuel respirou fundo ao terminar aquela leitura que descreveu a cena acima, as lágrimas corriam pelo seu rosto, pela sua bochecha e chegavam até seus lábios. Ele conseguia sentir o gosto salgado da água. Limpou as lágrimas, mas ainda mais continuavam saindo, e cada vez mais.
As respostas para suas perguntas em relação à sua vida passada estavam todo o tempo bem embaixo do seu nariz. Não era tão difícil chegar à conclusão de que Henrique foi Raphael em sua vida passada. Mas será que a Família Barreto era a mesma? Se fosse, também não era uma surpresa, porque, uma vez, sua avó lhe disse que era comum que espíritos reencarnassem nas mesmas famílias, então talvez Mio tivesse sido uma ancestral sua. Mas ela se suicidou, então provavelmente o irmão mais novo dela seria um ancestral seu.
Depois de levar dois dias para digerir todas aquelas informações, Samuel se sentou com sua avó em uma tarde e contou para Sakura tudo o que sabia até aquele momento, o que já era muita coisa.
— Então, a garota dos seus sonhos... A menina que você foi em sua encarnação passada... É a menina das memórias do homem que escreveu esse livro? — perguntou Sakura para ter certeza e confirmar se havia escutado certo o que o neto lhe disse.
— Sim... O Henrique foi o autor, eu tenho certeza disso... Talvez a Sandra tenha participado dessa história, mas eu não tenho certeza — explicou, ainda impactado com tudo isso. — Eu conversei com o Daniel hoje mais cedo sobre tudo isso, ele acredita que deve haver um resgate entre mim e o Henrique, e como nossa história foi interrompida nessa vida anterior, essa é um resgate da história de amor. — O rapaz ficou por alguns segundos em silêncio, entristecido de repente. — Mas agora... o Henrique ainda não acordou do coma... Eu tenho medo de que, mais uma vez, nós não possamos ficar juntos. Agora que eu sei dessas coisas, essa situação fica ainda pior, batian...
A mulher japonesa de cabelos grisalhos se aproximou do neto e o abraçou, deixando a sua cabeça em cima do seu ombro. Eles ficaram em silêncio naquela posição, a mais velha confortando o mais novo enquanto colocava toda sua tristeza para fora em forma de lágrimas.
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