Para o bem do bom humor de Samuel, quando ele chegou à sala de espera daquele andar do hospital, não encontrou qualquer sinal de sua sogra por ali. Ao contrário, viu a figura do seu cunhado sentado a uma das cadeiras de espera.

Renato estava com um semblante bem abatido, olhar cansado e profundo por causa das olheiras ao redor. Quando viu Samuel se aproximando, apenas acenou e nem conseguiu sorrir.

Assim, decidiu que, antes de entrar no quarto em que seu namorado estava internado, ficaria por ali alguns minutos. Preocupou-se com Renato e imaginou que a culpa de o mais velho se encontrar com aquela energia tão baixa devia ser de Sandra, já que ela estava empenhada em fazer da vida de todos o Inferno na Terra.

— Você dormiu essa semana, Renato? — perguntou Samuel ao se sentar do lado do outro.

— Notou? — perguntou o homem de cabelos castanhos, rindo. — Não, eu não tenho dormido muito...

— Por causa do estado do Henrique ou por causa da Sandra?

— Os dois, para ser sincero. — Renato soltou um longo bocejo. — Eu estou muito preocupado com o Henrique, ele não acordou ainda desse coma que deveria ter sido rápido... E a Sandra, ela está cada vez mais perto de vender a universidade... Ela tem os outros acionistas ao lado dela, a situação tá bem complicada...

— Sinto muito. Eu tenho uma parcela de culpa em relação a isso... — sussurrou Samuel, brincando com seus dedos e com seu olhar baixo.

— Não precisa se culpar por isso, Samuel... — pediu Renato em um tom amigável. — Na verdade... eu acho que a Sandra reagiria de uma forma negativa de qualquer modo, até mesmo se toda essa história tivesse sido diferente. Ela tem o mesmo problema que o pai, isso é claro... Ela fazia terapia, mas parou...

— E a mãe da Sandra? — perguntou Samuel.

— Ela mora em Nova Iorque. Trabalha lá.

— Mas ela nunca vem visitar a filha, saber como ela está? Nada? — perguntou o jovem, não conseguindo controlar seu tom de voz indignado com aquela situação.

— A Helena sofreu muito quando o marido... quando o marido faleceu... — disse Renato, um pouco receoso em dizer como o homem morreu.

— Eu sei que ele tirou a própria vida, Renato. A própria Sandra me contou...

— Então, ela sofreu muito quando isso aconteceu. Ela vem para o Brasil uma vez ao ano, e só isso.

— Você falando assim, contando essas coisas da vida da Sandra, me faz pensar se eu deveria odiar ela mesmo. Ficar com raiva ou com pena, fico em dúvida — disse Samuel, ainda pensativo em relação ao que o seu cunhado havia revelado.

— Não... — sussurrou o cunhado, negando com sua cabeça. Logo na próxima fala, sua voz voltou ao tom normal. — Não, não precisa ficar com pena da Sandra, cara, porque o passado dela com a mãe e com o pai não justifica seus atos agora.

O mais novo encolheu seus ombros.

Não concordava com o mais velho, mas não fazia parte das suas ideias estender aquela conversa e também não queria ter que continuar a falar sobre Sandra, de quem, apesar de começar a sentir pena, ainda era um assunto que o incomodava por causa de toda a confusão que envolveu os dois e Henrique.

— Eu vou ir ver como ele está — comentou Samuel, mudando de assunto. — Me acompanha?

— Não... Eu estava no quarto dele, vou para casa descansar. Até outro dia, Samuel — Renato deu dois tapas amigáveis em seu ombro, sorrindo com os lábios apertados, e em seguida se retirou da sala de espera.

A imagem de Henrique naquela cama de hospital com os aparelhos lhe ajudando durante o coma induzido ainda tinha o poder de chocar Samuel toda vez que ele entrava no quarto. Afinal, conhecera o namorado no auge da sua saúde, salvando sua vida de um teto em queda e também lhe fazendo se apaixonar cada vez mais. Seu coração não doía somente por causa do estado em que o outro rapaz se encontrava, mas também porque, depois de entender toda a história que os cercava, desejou que tivesse tido mais tempo para explorar mais aquele sentimento que já estava latente.

Com delicadeza, Samuel segurou a mão de Henrique e respirou fundo. Entretanto, não foi o bastante para segurar as emoções que afloravam em seu corpo cada vez mais. Henrique parecia tão frágil desacordado, não tinha um ar tranquilo, mas sim de alguém que enfraquecera. Sua pele estava levemente mais pálida, sua barba havia crescido um pouco mais do que da maneira “por fazer” por ele ostentada normalmente.

Quando se deu conta, as lágrimas quentes já escorriam pelo rosto de Samuel.

— Ah... Henrique... Essa... Essa nossa história parece tão surreal... Sobrenatural. Confesso que, quando tudo foi acontecendo, não tive tempo de questionar, mas, desde então, eu me pego pensando se isso tudo é verdade, porque é tão intenso... Nosso amor vir de outra vida... Vir de um amor interrompido... — Ficou em silêncio por alguns momentos e logo tratou de limpar suas lágrimas, não queria mais falar daquele assunto daquela maneira. Deixaria para outro momento.

Samuel se inclinou e beijou a testa de Henrique, um beijo leve. Ao se afastar lentamente, sem desviar seus olhos do rosto do outro, sorriu de forma serena, como se tivesse aceitado alguma coisa.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou a voz de Donna vindo da porta do quarto. Samuel se virou rapidamente e ficou observando a mais velha sem dizer nada. Donna deu alguns passos, entrando naquele lugar sem desviar sua cortante forma de olhar Samuel. — Você não deveria estar aqui quando eu não estou. Aliás, você deveria desistir de Henrique, por favor... Você já acabou com o sonho do meu filho de reerguer a universidade. O que mais quer?

— Por favor, Senhora Donna, eu amo o Henrique e ele me ama. Eu sei disso... — começou ele, mudando sua postura e ajeitando sua coluna. — Pensei que já tinha ficado claro para a senhora que eu viria visitar ele quando eu quisesse. Sei que Henrique gostaria de acordar e me ver ao seu lado.

Donna riu e ajeitou sua sobrancelha.

— Eu não gosto de você. — A mulher foi direto ao ponto.

— Por quê? Porque seu filho se apaixonou por um homem? Por isso?

— Claro que não. Por mim, Henrique poderia se apaixonar por quem ele quisesse, mas eu não compro essa forma que vocês se apaixonaram. Para mim, você fez alguma coisa... — dizia a mais velha, tentando achar em sua mente uma justificativa para entender como aquele garoto à sua frente fizera com que seu filho caísse aos seus pés, sem mais e sem menos. — Henrique sempre foi apaixonado pela ideia da universidade, e, de repente, ele desiste do casamento com Sandra para ficar com você. Desiste, joga tudo para o alto por causa de um desconhecido que nem sei como cruzou o caminho do meu filho. Quer dizer, você é amigo daquela Eduarda... ex-namorada do Renato, então eu já sei que boa coisa não deve ser.

— Senhora, por favor! Pode falar de mim o que quiser... Mas deixa a Eduarda fora desse assunto. Ela tinha problemas, problemas que infelizmente machucaram seu filho e a ela também. Agora, minha amiga está cuidando de si mesma... — disse Samuel alterado ao ver o jeito que aquela mulher se referiu à sua melhor amiga. Não deixaria que ninguém diminuísse ou falasse mal de Eduarda, o mesmo valendo para Fernando.

— Você vai sair desse quarto nesse momento! — disse Donna, segurando o braço de Samuel em seguida.

Com sua sobrancelha arqueada e sua boca semiaberta ao ver a mulher tentar lhe carregar para fora do quarto, rapidamente Samuel se livrou das garras de Donna e bateu o pé com mais firmeza do que nunca:

— Eu não vou sair do lado do meu namorado!

— Escuta aqui, garoto! Se você não sair desse quarto agora, eu vou chamar a segurança desse hospital! — disse Donna, tentando parecer mais firme do que o mais novo.

— Chama! Chama, que eu vou fazer um escândalo! ESCÂNDALO!

Aquela forma de responder não pegou apenas Donna de surpresa, mas também pegou Samuel, porque nunca se sentiu daquela maneira, decidido a não ser persuadido a fazer algo que não queria. Se tivesse conseguido reagir daquela forma quando Sandra o atacou, provavelmente o final daquele episódio seria diferente. Entretanto, Sandra ainda estaria acompanhada daquela misteriosa criatura.

Os dois ficaram em silêncio por um breve momento.

Havia uma forte tensão no ar, como se houvesse a aproximação de nuvens pesadas e cinzentas de uma tempestade tropical prestes a atingir o continente. Porém, esse presságio de mau tempo foi jogado para escanteio quando uma voz conhecida de Donna e Samuel soou em seus ouvidos:

— Samuel?

A voz estava fraca e rouca, mas ainda assim era reconhecível.

Samuel e Donna trocaram olhares arregalados, de surpresa e emoção. Ele se virou lentamente, incrédulo, enquanto a mãe não conseguiu sair do lugar, apenas colocando suas mãos sobre a boca.

Quando os olhos de Samuel encontraram os olhos despertos de Henrique, uma explosão de sentimentos ocorreu em seu peito e em sua mente.

Foi como uma descarga elétrica invadindo o corpo do rapaz de escuros olhos puxados.

Correu na direção da cama de hospital em que o seu amado se encontrava ainda deitado, recuperando aos poucos todos seus sentidos. Ajoelhou-se em frente à cama e segurou a mesma mão que havia segurado minutos atrás.

Com os olhos marejados, beijou as costas da mão e prendeu sua visão no rosto do amado, que, apesar de parecendo desnorteado, mostrava-se feliz ao ver Samuel ali.

— Você acordou, Henrique... — disse Samuel, emocionado. — Você acordou...

— Acordei, Samuel... E você está aqui, não foi embora... Pensei que nunca mais fosse falar comigo — dizia Henrique de forma arrastada, mas ainda emocionado.

Donna assistia àquela cena com curiosidade, até o momento em que decidiu deixar o quarto para chamar um médico o mais rápido possível.

Depois de um breve silêncio, Henrique disse em um tom limpo e sem interrupções:

— Prometi que a gente se encontraria em todas as vidas.

A frase acertou Samuel com outra descarga elétrica, e dessa vez a imagem de Mio e Raphael sentados à sombra da árvore, no campo da fazenda, surgiu em sua mente como uma pintura emoldurada. Foi como se, por alguns segundos, o véu que separasse suas memórias da vida passada das memórias dessa encarnação fosse removido.

Tudo estava tão claro, tudo fazia tão mais sentido.

— E você cumpriu, meu amor. Conseguimos — respondeu Samuel com sua voz trêmula, suas lágrimas formando um caminho pelas suas bochechas.

Henrique sorriu aliviado por retornar. Samuel não sabia, mas sua alma gêmea também havia realizado uma viagem muito semelhante àquela que ele fez ao lado de Daniel. Se fosse uma ocasião normal, Henrique teria mostrado mais seus sentimentos para o seu amante, mas estava cansado demais para que seu corpo reagisse de maneira mais emotiva.

No dia seguinte, Samuel estava reunido com sua família em uma mesa de café da manhã. Ele chegou em casa depois do fim da noite porque ficou no hospital ao lado do namorado.

— Ah, mas que bom que ele acordou, filho — disse Vera, sorrindo.

— E quando vai apresentar para a família? — perguntou Akira com sua xícara de café em mãos.

— Mas você já conhece o Henrique, pai — respondeu Samuel, sem entender.

— Mas não como seu namorado... — respondeu o pai.

— Isso é verdade, tem que ter uma apresentação oficial para a família — disse a avó, que também estava sentada à mesa. — Não é porque se trata de um relacionamento homossexual, que não devemos seguir certas convenções.

Samuel suspirou e tentou segurar sua risada enquanto coçava a nuca.

— Por que a gente não espera um tempo, hein? O Henrique ainda tem que se recuperar, ele ficou um bom tempo em coma. Foram semanas — disse o jovem estudante tentando amenizar a ansiedade de seus familiares.

Entretanto, ainda havia um outro motivo: Samuel não sentia que estava namorando Henrique oficialmente, apesar de todos os últimos acontecimentos e ter passado dias e dias ao lado do rapaz no hospital. Não existiu uma conversa sobre eles estarem em um relacionamento sério. Não houve a famosa “Conversa”.

Samuel se levantou da cadeira em que estava e disse:

— Bem, agora eu vou para minha aula...

— Como assim? — Sakura perguntou, surpresa. — Ficou a noite toda acordado no hospital, ainda vai assistir aula?

— Claro que sim — respondeu o neto, como se fosse a resposta mais óbvia do mundo. — Pelo menos dentro da sala de aula, o tempo vai passar mais rápido. Depois que eu sair de lá, vou passar no hospital novamente para visitar o Henrique.

Samuel beijou a bochecha da sua mãe, de sua avó também e, por fim, abraçou seu pai.

Ele poderia fazer muitas coisas depois de ter ficado sentado em uma poltrona de quarto de hospital, sem conseguir dormir direito, mas o episódio que teve com Henrique quando ele acordou do coma fez com que Samuel tivesse energia acumulada para não precisar se preocupar com noites mal dormidas por muitas semanas. Se fechasse seus olhos, ainda podia lembrar do olhar do seu amado, aqueles olhos brilhantes, e que brilhavam porque ele sabia que tinha reencontrado o amor que perdeu em outra vida e que tentou buscar nessa.

Alguns meses atrás, Samuel era cético em relação à crença de vidas passadas, mas agora que sua mente foi inundada por lembranças de sua existência como Mio, mas, com toda a certeza, a maior surpresa foi saber que o livro que Raphael escreveu dedicado à garota foi parar em suas mãos. Fazia ainda mais sentido agora aqueles poemas alcançarem tão fundo em seu coração, em seus sentimentos. Eles não eram apenas bons, mas iam muito além disso, tendo sido escritos para ele.

Na faculdade, contou as novidades para Fernando e Eduarda, que ficaram felizes em saber que Henrique havia acordado e estava se recuperando bem. Decidiram que, mais tarde, comemorariam todos juntos, quando o filho mais novo da Família Barreto pudesse participar.

Depois de assistir às suas aulas, Samuel voltou para sua casa, onde não ficou por muito tempo, apenas o necessário para tomar um banho rápido, trocar de roupa e separar uma muda de roupas. Então comeu um pão acompanhado e um café recém-coado, e logo saiu para passar mais uma noite no hospital ao lado do namorado.

Agora que já tinha noção que sua história com Henrique não começara nessa existência, a mente e também seu coração em relação aos seus sentimentos pelo outro estavam mais leves, não tinha mais aquela sensação de arrebatamento que havia. Samuel, mesmo com medo da reação dos seus amigos, contou para Eduarda e Fernando sobre toda essa situação com Henrique, a história das vidas passadas e o que viu em sua regressão. Eles não desacreditaram do amigo, mas fizeram uma pergunta, que foi a seguinte:

— Mas, para você, não parece que estar apaixonado pelo Henrique é como uma obrigação de outra vida? — Quem fez essa pergunta foi Eduarda, mas Fernando concordava com ela, tanto que confirmou com sua cabeça.

— Não — respondeu Samuel, sem pensar duas vezes, e, na verdade, pensar naquilo, naquela mera perspectiva, parecia muito ridículo para ele. — Não sinto que sou obrigado a amar o Henrique porque isso aconteceu na vida anterior. Na verdade, saber disso me faz entender mais o amor que sinto por ele... Ele me amou na vida anterior e nosso sentimento foi forte o suficiente para sobreviver após tanto tempo. Ele me procurou sem saber e, quando eu o encontrei, foi como um despertar. Agora, entendo tudo, tudo faz sentido — discursou com um sorriso.

Quando chegou à sala de espera do hospital, deparou-se com sua sogra sentada em um dos bancos. Donna estava bem vestida como sempre, e parecia estar esperando por ele, porque, quando o viu chegar, rapidamente se levantou e caminhou na sua direção. Internamente, Samuel se preparou para mais uma briga com a sogra. Não aguentava mais ter discussões com ela, mas parecia ser inevitável fugir de uma situação assim novamente.

— Boa noite, Samuel — disse Donna.

— Boa noite... — respondeu o rapaz, incerto, mas achou melhor se defender antes de algo fugir do seu controle. — Se a senhora for brigar comigo de novo, eu peço que...

— Não, eu não vou.

A mais velha falou por cima, deixando o outro surpreso com a resposta.

— Não vai?

— Não. — Antes de continuar, Donna suspirou. — Na verdade, eu te devo algumas desculpas. Eu estava... brava e comovida pelo estado do meu filho, com as emoções à flor da pele, e me deixei levar pelos meus sentimentos. Eu sei que o Henrique está feliz contigo e eu não devo sabotar a felicidade dele. Eu também fiquei preocupada porque o Renato se magoou muito namorando sua amiga.

— Bem, eu não sou a Eduarda, primeiramente. E, em segundo lugar, ela também tinha problemas dos quais está tratando agora — respondeu Samuel em tom calmo. — Bom, eu aceito suas desculpas, não acho bom eu ter uma relação difícil com a senhora, a mãe do homem que amo.

Donna sorriu, mas ainda não parecia sincera, porque, bem no fundo, ela ainda se incomodava com a presença de Samuel. Mas, depois de uma conversa que teve com Henrique nesse mesmo dia, decidiu guardar para si mesma os sentimentos em relação ao namorado do filho até conseguir começar a gostar dele. Ela pensou em abraçá-lo, mas também não queria exagerar.

— O Henrique está te esperando — disse isso e saiu dali sem dar adeus.

O estudante preferiu não pensar muito em como sua sogra se despediu, apenas seguiu em direção ao leito do namorado.

Ao abrir a porta do quarto de hospital, Samuel foi presenteado com algo que nunca pensou ver. No chão, encontravam-se espalhados corações de cartolina vermelha; em cima da mesinha móvel em que as refeições dos pacientes eram servidas, estava um buque de rosas de várias cores, e Henrique — que estava em pé com o auxílio de muletas —, apesar de ainda vestir a camisola do hospital, de alguma maneira, parecia elegante. Talvez fosse o penteado que improvisou no banheiro. Samuel ficou sem reação diante daquilo, apenas se aproximando do namorado.

— Gostou? — Henrique perguntou.

— O que é tudo isso? — Samuel perguntou.

— Eu sei que nós não tivemos um momento para isso... Por isso, estou fazendo aqui. — Henrique se aproximou de Samuel, seu olhar fixo no do outro. Queria poder agarrá-lo naquele momento e matar toda a saudade que sentia de beijá-lo, tocar seu corpo, sentir seu cheiro e seu calor. — Samuel Okada, quer namorar comigo?

O estudante não conseguiu controlar sua risada, precisou de um pequeno tempo para se recuperar. Não estava achando engraçado. Na verdade, estava bem nervoso com aquela situação. Já havia pensado nela anteriormente, mas, estando diante dela, não conseguia ficar calmo.

— Henrique Leonardo Barreto — começou Samuel, tentando não rir —, eu aceito namorar você.

— Eu te amo tanto, Samuel.

— Eu também te amo...

Seus lábios se tocaram mais do que fisicamente, pois o contato foi sentido também por seus espíritos. Dessa vez, havia alguma coisa diferente ali, talvez sendo o fato de agora saberem que o amor entre eles era mais antigo do que seus avós ou, então, a saudade de compartilharem beijos, abraços e outras carícias. Fosse o que fosse, fez com que o desejo chegasse como uma tempestade tropical assolando um litoral. Não fazia mais sentido esperar, não havia motivos para lutarem contra, pois queriam se tornar um só naquele momento, e assim fariam. Os temores ficam para fora daquele quarto de hospital.

Quem diria que aconteceria assim? Nem mesmo o casal poderia prever essa. Não era a primeira vez de nenhum deles fazendo aquilo. Entretanto, era a primeira com tantas sensações brotando em suas peles, o arrepio, o calor que saía de suas bocas a cada toque dos lábios, os sons de prazer abafados para que ninguém do lado de fora ouvisse. Tudo era tão intensificado, que nem parecia real, mas também não era artificial. Uma fantasia épica escrita pelos seus corpos chegando ao ápice como dois animais ancestrais que estavam adormecidos em alguma caverna.

Depois de uma semana, os médicos chegaram à conclusão que a recuperação de Henrique estava sendo acima de suas expectativas, então decidiram dar alta ao rapaz desde que ele retornasse para alguns exames dentro de um mês. Para comemorar o retorno do seu filho mais novo à mansão da Família Barreto, Donna decidiu organizar um pequeno jantar, e, também, assim, seria uma oportunidade de ser apresentada oficialmente a Samuel e sua família. Não abriria mão dos costumes que aprendeu com sua mãe e sua avó.

Enquanto isso, Sandra ainda não havia desistido de se vingar da Família Barreto, principalmente de Henrique. Parecia que sua missão de vender a universidade havia dado um pequeno passo, mas, ainda assim, a venda se tornou uma possibilidade. Samuel ficou sabendo disso quando escutou, sem querer, uma conversa entre seu pai e sua mãe. Ao invés de ele ir perguntar ao Senhor Akira mais detalhes sobre isso, o rapaz decidiu ir direto na fonte. No Grupo Barreto.

Já havia ido ao prédio do grupo com sua turma de Administração em um semestre, mas, na ocasião, não chegou a ir no andar superior, onde os escritórios dos diretores acionistas se localizavam. A fachada do prédio não se destoava em nada do restante da paisagem do lugar, sendo mais um prédio alto com janelas espelhadas e escuras. O detalhe que diferenciava cada prédio eram os títulos nas fachadas, e nesse havia bem grande o nome “GRUPO BARRETO” ao lado do logotipo de todo o conglomerado de negócios.

— Seu nome? — perguntou a antipatia em pessoa que estava na recepção naquele momento.

— Samuel Okada.

— Hmmm... — murmurou enquanto digitava no computador. — Por acaso, é filho do Senhor Akira Okada? Se veio falar com ele, o escritório de contabilidade da universidade não fica mais aqui, fica no campus.

— Não — respondeu Samuel se mantendo simpático. — Na verdade, eu vim falar com o Senhor José Carlos Barreto.

— Horário marcado?

— Não.

— Então sinto muito, mocinho...

— Eu sou genro dele.

— O Senhor Barreto não possuí filhas. Dois filhos — respondeu a garota, quase rindo na cara de Samuel. — Vai precisar inventar uma mentira melhor do que essa.

— Eu sei — respondeu o estudante, perdendo sua paciência, mas mantendo a simpatia em sua face. — Sou namorado do seu filho mais novo, Henrique Leonardo Barreto.

Um segundo em silêncio foi o suficiente para ficar uma energia pesada entre os dois. A moça não sabia o que responder a Samuel. Ela sabia que o noivado entre o filho do seu patrão e de uma das acionistas do grupo havia se rompido, mas não sabia que o motivo era o garoto com traços asiáticos à sua frente.

— Se você ligar para o ramal do andar dos diretores e falar com a secretária do meu sogro, vai saber que estou falando a verdade — disse Samuel.

— Tudo bem — disse a recepcionista, sorrindo falsamente. Apertou o botão do ramal e assim colocou o telefone em sua orelha.

Quase dez minutos depois, Samuel subiu para o décimo andar, onde se encontrava o escritório de José Carlos. Quando a funcionária se inteirou da história através da secretária do patrão, pediu desculpas para Samuel e que ele subisse pelo elevador de funcionários do edifício. Ela explicou em detalhes específicos onde ficava o escritório do pai do seu namorado, não teria como o garoto errar porque ali ficavam apenas três escritórios: o de José Carlos, no final do corredor, o de Renato, logo no início do andar e o que pertenceu ao pai de Sandra e recentemente ela ocupara para seus planejamentos.

Assim que Samuel deixou o elevador, deparou-se com um pequeno mapa indicando os caminhos. Havia ali também uma copa e banheiros, além de uma sala de três salas de reuniões. Pegou o caminho para o escritório de José Carlos, e quando a secretária do homem avistou o rapaz se aproximando, sorriu, levantou-se e foi até ele.

— Deve ser o Samuel.

— Sim — respondeu o garoto.

— Ah, você é exatamente como o Senhor José Carlos e o Renato descreveram para mim — disse a mulher sendo simpática. Tratava-se de uma senhora que devia estar na casa dos cinquenta anos, cabelos visivelmente pintados em um tom mais claro que suas sobrancelhas e vestia uma ótima combinação de terninho e calça social.

— Espero que isso seja bom — disse Samuel em tom de brincadeira.

A mulher riu com o comentário e concordou com sua cabeça no final.

— Claro que sim, me falaram que você fez muito bem ao Senhor Henrique. Fico feliz.

— Me desculpe perguntar... — disse Samuel, pensativo. — Mas você é tão íntima assim da família?

— Ah, sim, eu comecei aqui bem nova... Na verdade, minha mãe trabalhou para o pai do Senhor José Carlos, e a minha avó também, anteriormente. Digamos que somos como primos — respondeu a mulher.

O rapaz achou aquilo curioso porque, para ele, esse tipo de coisas acontecia apenas na televisão, em telenovelas. Por um segundo, ele parou para pensar e concluiu que, desde que conheceu ou reencontrou Henrique, sua vida se transformou em um folhetim das seis horas.

— Bem, vamos parar de jogar conversa fora, querido. O Senhor José Carlos ficou curioso por causa da sua visita. Pode entrar, vem.

— Obrigado — disse Samuel.

Já sentado na cadeira de frente para a mesa do seu sogro, o estudante universitário foi questionado sobre o motivo de sua visita, e então respondeu:

— Eu queria conversar sobre a Sandra. O Renato, uma vez no hospital, me contou que a mãe dela não vive no Brasil, que ela não quer se incomodar com a filha por causa do que aconteceu com o falecido marido dela.

— Bem... A situação é complicada, Samuel. Por que esse seu interesse?

Samuel deu de ombros.

— Achei que... Na verdade, eu não pensei muito bem. — Franziu sua testa. Agora que foi questionado, ele percebeu ter agido por impulso. — Pensei que, conversando com ela, poderia encontrar uma maneira de convencer Sandra a parar com isso. Com a venda.

José Carlos suspirou profundamente.

— Quer o contato da Helena?

— Não sei, mas o senhor pode me dar?

— Na verdade... Eu não sei o número dela ou o e-mail, não decorei. Quem sabe é a minha esposa.

Samuel riu, nervoso. O mais velho riu com ele.

— Eu sei. Ela é bastante dura com você, mas não a leve a mal. O Henrique é o filho mais novo, ele mudou bastante depois que te conheceu. Parece que tem mais certeza do que quer da vida, mas a Donna não percebe isso.

— Tudo bem — disse Samuel. — Desde que Henrique voltou do coma, ela está mais simpática comigo. Vou tentar conversar com ela, talvez no jantar, nesse final de semana.

— Claro. — José Carlos sorriu. — Vou adorar ver seu pai fora do ambiente de trabalho. Vamos unir nossas famílias.

Saindo do escritório, Samuel ficou se questionando o motivo de ter agido de maneira impulsiva. Às vezes, isso acontecia, mas, naquela situação, ele teria que agir com calma para tentar convencer Sandra a não vender a universidade. Precisava aprender a planejar mais seus passos e não agir tanto no improviso.

Quando a porta do elevador abriu, Sandra se encontrava do outro lado. A garota riu ao ver Samuel à sua frente.

— O que está fazendo aqui? — perguntou a mulher cruzando seus braços. Nesse momento, a figura sombreada apareceu ao lado de Sandra, da mesma maneira quando ela atacou o rapaz no Mercado Okada. — Responda à minha pergunta! — disse Sandra, sem paciência, colocando sua mão na porta do elevador e impedindo o mesmo de fechar.

— Vim conversar com o pai do Henrique — respondeu Samuel tentando pensar em uma mentira — sobre o jantar para comemorar a melhora dele. Com licença, Sandra. Tenho que voltar para minha casa. — Entrou no elevador e Sandra ficou ao lado da porta, ainda impedindo que a mesma se fechasse.

— Incrível como te aceitaram na família tão rápido. São todos traidores. — A sombra ficou maior.

O estômago de Samuel embrulhou, parecia que alguma coisa estava apertando seu órgão por dentro. Uma bola subiu até sua garganta, mas não havia nada para vomitar.

— Fecha a porta, Sandra.

A sombra cresceu mais no momento em que a garota riu para o outro.

— Quando eu acabar com eles, vou direto para você.

A visão de Samuel ficou turva, mas ainda conseguiu perceber o sorriso sádico da outra e a sombra desaparecer do seu lado quando a mesma se afastou para a porta do elevador se fechar. Sozinho ali dentro, Samuel não se aguentou e caiu sentado no chão.

Aos poucos, seu estômago ficava menos “esmagado”, o ar voltava para sua mente e sua visão ficava mais clara.

Olhou para cima e percebeu que já estava um andar perto do térreo do prédio.

Dentro do metrô, voltando para sua casa, ficou se perguntando sobre aquela criatura ao lado de Sandra. Sua cabeça, pela primeira vez, estava tentando fazer uma nova conexão entre o passado e o presente. Samuel foi Mio, Henrique foi Raphael, Sandra teria sido Sousuke? O homem que era apaixonado pela garota japonesa? Então, pela lógica Sandra deveria ser apaixonada por Samuel, e não por Henrique. Pelo menos, essa seria a lógica na mente do garoto.

Foi imediatamente para a casa do amigo de sua avó em busca de possíveis respostas.

Tão logo bateu à porta do velho, o homem o atendeu e convidou Samuel a entrar, indo preparar uma bebida quente para ambos.

— Não necessariamente, filho — respondeu Daniel com uma xícara de café em mãos.

— Então? — perguntou Samuel, confuso. — Se Sandra não foi aquele japonês que era apaixonado pela Mio, por que ela tem tanto ódio por mim e do Henrique? De onde vem isso?

— Dessa vida. Você mesmo acabou de me contar de novo a história — disse o médium. — Só porque você descobriu que Henrique e você possuem esse laço, não quer dizer que essa garota também venha dessa encarnação interior. Laços podem começar em qualquer encarnação. Nenhuma vida é mais especial que outra.

Samuel bebeu seu café.

— Mas você também me disse que viu, duas vezes, uma figura com ela.

— Sim. Uma sombra. Dessa última vez, quando aconteceu, ver essa sombra me fez muito mal.

— Eu não posso te dar uma resposta exata, criança. Entende? Pelo menos, não sem ter contato com essa moça — disse Daniel.

— Sim, eu entendo. Me desculpa, mas eu estava com essa dúvida.

— Pela sua descrição, essa sombra deve ser um obsessor. Igual ao obsessor que estava com sua amiga, Eduarda. Essa moça, Sandra o nome dela, né?

— Sim.

— Como é a mente dela?

— Eu sei que ela fazia terapia porque ela tem ou teve depressão, como o pai.

— O pai dela faleceu?

— Tirou a vida.

— Hmmm... — Daniel pensou por alguns segundos, teve uma ideia do que poderia ser, mas não queria cravar nada sem certeza. Entretanto, Samuel precisava de alguma resposta, ele via isso. — Acredito que seja um obsessor, talvez que acompanhe a família há gerações. Quem sabe?

— E como eu posso ajudar ela? — perguntou Samuel.

Daniel sorriu.

— Tenta trazer essa moça até mim, posso conversar com ela e ver no que posso ajudar.

— Obrigado, Daniel.

Sandra ter um obsessor justificava para Samuel suas ações. Ele sabia que Henrique não pensaria assim, tal como muita gente, inclusive sua avó, apesar de estar dentro da religião. Depois da conversa com o médium, passou a acreditar que poderia ajudar Sandra e salvar a universidade do Grupo Barreto de uma venda. Queria fazer isso porque ainda sentia amizade pela garota e também porque, internamente, possuía a crença de que a venda da universidade era sua culpa.

Aproveitaria o jantar em comemoração à melhora de Henrique para tentar tirar de Donna o número ou e-mail da mãe de Sandra.

Notas finais
-Ritter