Notas iniciais
Bom dia, entregando mais um capítulo!

A paisagem era bem diferente do seu país, a língua também.

Desde que desembarcou do navio Kasatu Maru com sua família, Mio não entendia nada do que aqueles homens falavam. Conhecia o idioma português, entretanto, não o suficiente para compreender. Mas sabia que era sobre a sua e as demais famílias que chegaram à terra estranha em busca da promessa de uma vida melhor. A viagem para o local onde sua família e outras trabalhariam foi um pouco longa e as condições não foram boas, e isso fez com que Mio Okada pensasse que as promessas feitas não fossem verdadeiras.

Mas daria o benefício da dúvida.

As árvores eram bonitas e o canto dos pássaros daquele lugar, igualmente. Acalmavam seu coração nervoso. Durante toda a viagem, ficou ao lado do seu irmão mais novo, que também se encontrava com medo daquele país. Em uma das famílias, havia um homem que sabia falar o português, não muito bem, porém conseguia compreender algumas frases e interpretá-las, e ele explicou que estavam sendo levados para uma fazenda de café. A informação não era nova, pois, como todos ali, a família de Mio sabia no que eles trabalhariam quando chegassem ao Brasil. Esse mesmo homem também explicou que o de poucos cabelos e barba cheia se tratava do dono da fazenda, o outro homem com traços asiáticos, mas de pele mais puxada para um tom que remetia ao avermelhado, era uma espécie de “supervisor” dos trabalhos nas plantações. Devia ser o mais importante por ter acompanhado o dono da fazenda no momento de escolher os seus trabalhadores.

Quando estava em frente ao casarão da fazenda, com os demais imigrantes, Mio notou que a dona da casa olhava fixamente para ela e sua mãe, realizando comentários com suas duas filhas. Não sabia o motivo e depois compreendeu, através do mesmo homem que fez as traduções durante a viagem, que a mulher gostou dela e de sua mãe. Gostou tanto, que pediu para que as duas trabalhassem na casa ao invés da plantação. O homem que sabia o português soou um pouco bravo na concepção de Mio, talvez ele quisesse que sua esposa tivesse ficado na casa.

No começo, o trabalho no casarão foi difícil por causa do idioma e dos costumes diferentes. A dona da casa não soava amigável com Mio, o que deixava a jovem japonesa com os nervos à flor da pele muitas vezes. Sua mãe sempre mantinha a calma enquanto a filha tirava um tempo para chorar. Aprenderam a fazer a comida com a ajuda de uma empregada que já havia na casa quando o grupo japonês chegou. Ela falava o português de um jeito um pouco diferente, e, com o tempo, Mio e sua mãe compreenderam que era porque ela não era brasileira. A mulher, chamada Giulliana, vinha da Itália. Foi a única imigrante desse país que ficou naquela fazenda, os outros foram embora, alguns para trabalharem em outros lugares e outros porque conseguiram terras.

Mio foi aprendendo o idioma na marra, no dia-a-dia, mas ainda não era fluente e estava longe de compreender bem a língua. Sempre tinha sonhos em que conseguia se comunicar com qualquer brasileiro, como se o português fosse sua língua materna, e tal sonho começou a se tornar real quando a japonesa conheceu o herdeiro mais velho daquela fazenda, um rapaz que voltou dos seus estudos em Portugal, Raphael o seu nome. Assim que o seu olhar encontrou o do brasileiro, sentiu seu coração bater tão forte, que poderia rasgar seu peito e pular no chão. Não sabia como explicar, mas sabia que Raphael sentiu o mesmo apenas pelo brilho que seus olhos emitiram.

Samuel acordou de sobressalto em cima de sua cama, suando frio e com uma intensa dor na região do seu umbigo, perto da sua marca de nascença. Sentia-se estranho, olhava para seu quarto e parecia que aquele lugar não era real, que não pertencia àquele tempo. Havia um aperto em seu peito, como se um buraco negro estivesse engolindo seu coração e o esmagando com a pressão. Queria estar no lugar em que estava no seu sonho, naquela fazenda e naquele casarão, que, pensando fora do seu sonho, era como a casa grande de uma novela de época das seis.

Quando acordou, percebeu que eram três horas da madrugada. Continuou deitado na cama, mas apenas a partir das seis horas que sua cabeça começou a voltar ao lugar. Entendeu a sua realidade como o que ela era: seu cotidiano.

A angústia demorou mais para deixar seu sistema, pois, desde que se levantou da cama, a todo momento, ele se perguntava se o que estava vivendo no momento era um sonho ou se seu sonho era a realidade.

Sua atenção desviou desse assunto quando recebeu uma mensagem de texto de Henrique perguntando se ele queria fazer uma chamada de vídeo para poderem conversar olhando um para o outro. Nesse momento, Samuel estava sozinho na sala de estar da sua casa porque iria para a faculdade apenas mais tarde. Samuel concordou, então os dois iniciaram uma chamada de vídeo depois que ele pegou um fone de ouvidos.

Conversar com o rapaz mais velho fez com que os ânimos de Samuel se acalmassem aos poucos, a troca de histórias, piadas e risos deixaram seu corpo e sua mente mais relaxados, e ele já não se lembrava mais daquele sentimento agoniante de são saber o que era real e o que não era.

— Eu tô animado para a gente se ver esse final de semana — disse Henrique, sorrindo e olhando para Samuel através da tela do celular. O rapaz sentiu seu rosto ficar vermelho e seu coração acelerar levemente.

— Eu também tô animado — disse Samuel depois de alguns segundos em silêncio. — Muito corrido o curso de Direito?

— Um pouco — respondeu ele coçando sua barba por fazer. — Eu tenho algumas provas finais para fazer ainda... Apresentar o meu TCC... Logo mais, eu tô me formando. Você vai comparecer, não vai?

— Eu vou sim — respondeu Samuel, sorrindo feliz por aquele convite informal. — E você vai ao meu... Nem precisa no meu, claro, porque sua família é a dona da universidade.

— Não totalmente dona mais... — respondeu Henrique, rindo, e Samuel o acompanhou na risada.

Os dois continuaram a conversar por mais alguns minutos, até que Samuel, infelizmente, percebeu que teria que se despedir de Henrique porque ficaram muito tempo conversando e já estava chegando a hora de se levantarem para irem assistir aula em suas respectivas faculdades, então, com um beijo à distância, os dois se despediram.

Depois que saiu do prédio da faculdade, após realizar algumas provas que precisava fazer antes do final daquele mês, Samuel recebeu uma mensagem de Sandra pedindo para que ele a encontrasse no shopping perto da instituição.

Samuel respondeu que estaria lá em dez minutos e levou quinze para encontrar Sandra lhe esperando na praça de alimentação.

A jovem moça rica vestia apenas roupas pretas, como se estivesse de luto, seus cabelos curtos estavam presos para trás e usava também óculos escuros. Quando Samuel se sentou à sua frente, ela segurava um lenço de papel e sua bolsa de grife se encontrava aberta.

Ela então retirou os óculos, deixando sua maquiagem borrada à mostra. Samuel ficou em silêncio, chocado com aquela situação, e se perguntou se algum parente dela morreu.

— O que houve?

— Meu noivo, ele terminou oficialmente comigo — respondeu Sandra, e em seguida assou seu nariz no lenço de papel. — Ele terminou comigo, nosso noivado acabou e estava tão perto do nosso casamento... A gente ia se casar depois que ele se formasse.

Samuel não sabia o que dizer. Na verdade, ele queria dizer para a amiga que ela tinha se livrado de um relacionamento nada saudável, já que eles iriam se casar unicamente por causa das empresas da família. Pelo menos, foi isso que ele havia compreendido das conversas que teve com ela sobre o noivado. Sandra estava sensível demais naquele momento para escutar uma verdade como aquela, então Samuel segurou sua mão e, sorrindo, disse:

— Sinto muito, Sandra, de verdade, pelo seu noivado. Eu estou aqui como seu amigo para te ajudar no que precisar.

Ela colocou sua mão livre sobre seu peito e soltou um ar agradecido.

— Muito obrigada, Samuel. Você é um grande amigo. O melhor que eu poderia pedir nessa fase da minha vida. Obrigada mesmo.

— Acho que você precisa descansar — continuou ele. — Você pode tirar um tempo para viajar, deixar esses sentimentos serem lavados pelo tempo, me entende?

— Claro — respondeu Sandra. — Quer sair nesse final de semana comigo? Eu estou pensando em ir viajar para a casa de campo da minha família na serra. Quer vir comigo? Pode passar um final de semana. — Ela exibia um sorriso sincero em seu rosto ao convidar o amigo.

— Eu já tenho planos para esse final de semana, me desculpa. Eu tô saindo com um cara e a gente vai passar o final de semana juntos — disse Samuel.

Sandra, ainda sorrindo, gesticulou com suas mãos e soltou uma risada que tentou emular uma alegria, mas, na verdade, saiu bem forçada. Ela disse em seguida:

— Tudo bem, eu entendo... Boa sorte com seu boy. Vamos deixar para o final de semana seguinte.

— Claro, eu vou adorar. Sabe que eu gosto muito de você, né? — perguntou Samuel, sendo sincero.

— Sim, eu sei — Sandra respondeu com a mesma sinceridade.

— Já que estamos no shopping, vamos comprar alguns chocolates? — sugeriu Samuel em uma tentativa de animar a amiga. — Quando eu tô mal, chocolate sempre, sempre me ajuda.

Sandra concordou com sua cabeça e se levantou da cadeira ao mesmo tempo em que Samuel o fez. Então os dois deixaram a praça de alimentação do shopping rumo à loja de chocolates que havia não muito longe daquela região.

O nipo-brasileiro estava preocupado com Sandra. Desde que a conheceu, percebeu que ela tinha uma dependência emocional muito doentia pelo noivo. No fundo, o rapaz estava feliz que aquela relação problemática tivesse terminado, mas também estava com medo de que a garota pudesse fazer alguma coisa. Lembrava-se de quando ela disse, uma vez, que o seu pai tirara a própria vida. Depois de terem comprado os chocolates, os amigos se despediram e Samuel pediu para que Sandra lhe chamasse caso precisasse de ajuda.

O final de semana chegou.

Samuel vestia uma camisa vermelha de manga curta. Por cima dela, um casaco preto com pequenos desenhos de fast-food, a gola era vermelha como na camisa, assim como os detalhes na manga da sua vestimenta. Também vestia uma calça social preta com cintura alta e calçava coturnos para finalizar o seu look. Seu cabelo escuro estava penteado de uma forma que ficava bem dividido, deixando sua testa à mostra.

Ficou mais um tempo observando seu reflexo no espelho e se sentia feliz com o que via, ficou bonito para si mesmo em primeiro lugar e tinha certeza de que Henrique também o acharia bonito. Antes de descer para seu encontro em frente à casa em que vivia, Samuel tirou algumas fotos e publicou em seu Instagram.

Quando ele atravessou o portão, encontrou Henrique lhe esperando em frente ao seu carro. Henrique também estava especialmente bonito, uma camisa social rosada levemente aberta em seu peitoral, mostrando um pouco dos seus pelos, calça jeans escura e um lindo par de tênis. Sua barba estava feita e seus cabelos brilhavam de uma forma bonita, não exagerada.

Tímido, Samuel se aproximou, ficando frente a frente com Henrique. Sentiu o perfume dele invadir suas narinas e suas pernas ficarem bambas como reação.

— Você tá bonito... Quer dizer, você tá muito... muito gato, nossa! — disse Henrique olhando para Samuel, que sorria de canto de uma forma maliciosa, mas não vulgar.

— Você também tá muito bonito. E cheiroso... — disse Samuel, rindo da última parte.

O mais velho correspondeu ao riso, ficando em silêncio por alguns segundos até criar coragem para poder falar:

— Posso te beijar?

— Sim.

A mão de Henrique foi na direção da nuca de Samuel, segurou com delicadeza ali e os dois se aproximaram, tocando seus lábios lentamente em um beijo calmo e apaixonado. Era uma sensação familiar para os dois. Parecia que procuravam por aquele beijo por todas as suas vidas, bem como um arrepio percorrendo seus corpos, uma eletricidade a guiá-los.

Samuel deixou suas mãos sobre o peitoral do mais velho, continuando com aquele ato enquanto quase perdia seu fôlego. Poderia ficar ali para sempre, mas sabia que não poderia, e também gostaria de viver aquele encontro com Henrique.

Depois que o beijo foi interrompido, sem falar nada, Henrique abriu a porta do seu carro e somente aí ele disse:

— Vamos?

Sorrindo, Samuel confirmou com sua cabeça e entrou no veículo.

Henrique levou Samuel para um dos restaurantes mais caros de São Paulo, a decoração interna do lugar era um encontro entre o rústico e o moderno. Na entrada, as paredes eram brancas e, quando mais se adentrava mais no restaurante, maior a graduação de cinza nas paredes a lembrarem levemente um reboco. O forro de madeira estava exposto, ao mesmo tempo em que não parecia estar. Plantas, lustres e troncos cinzentos de árvores completavam a decoração do restaurante com seus lustres de tamanho mediano. Algumas mesas eram de ferro e vidro, outras eram de madeira grossa e da melhor qualidade. Samuel nunca tinha estado em um lugar com tanta personalidade quanto esse restaurante com uma aura de nuances de contemporaneidade.

— Eu disse que não queria sair em lugar caro, Henrique... — disse Samuel, sussurrando para o rapaz ao seu lado.

— Eu sei, mas só uma vez por mês — respondeu Henrique sorrindo, e em seguida olhou para Samuel. — Deixa eu fazer um agrado para você. Se eu pudesse, te encheria de luxo.

O garoto riu com aquele último comentário e logo ajeitou seu cabelo atrás da sua orelha, sua face levemente rubra ao experimentar um sentimento agradável preencher seu corpo com um frio em sua barriga. Então deixou que Henrique vencesse aquela discussão e concordou com sua cabeça. Alguns minutos mais tarde, o casal foi levado até a mesa que o mais velho havia reservado, um dia antes.

— Sabia que o Guia Michelin falou muito bem desse restaurante? — perguntou Henrique com o cardápio aberto à sua frente.

— É, o ambiente aqui é bem bonito... — disse Samuel, olhando para os lados e depois voltando a olhar para Henrique, que sorriu. — Moderno... Rústico... É bem interessante.

— E tenho certeza que vai gostar da comida também, a cozinha daqui é deliciosa... O chef é muito talentoso, as melhores refeições que fiz em restaurantes foram aqui.

— Você vem muito aqui? — perguntou o nipo-brasileiro, interessado naquela informação.

— Sim... Não. Na verdade, não. Minha família vem muito aqui em ocasiões especiais. Quando temos que comemorar, sabe?

— Quando minha família quer comemorar alguma coisa, a gente faz um churrasco — disse Samuel em um tom de piada. — Quando é o aniversário da minha avó, a gente comemora com comida típica do Japão, já que ela sente falta de lá.

Henrique riu com Samuel daquele comentário, e então o estudante de Administração abriu seu cardápio e começou a ler. Seus olhos se arregalaram com o preço dos pratos.

— Já sabe o que vai pedir? — perguntou Henrique, observando o seu encontro.

— Na verdade... É caro aqui, não é? Quer dizer... Olhas esses preços, nossa, Henrique...

— Tudo bem. Eu vou pagar Samuel.

— Mas mesmo assim...

— Bem... — disse Henrique, deixando seu cardápio em cima da mesa, fechando-o. — Eu não quero que a nossa diferença... A diferença de posse que existe entre nós atrapalhe o possível relacionamento que pode vir a acontecer. — Como ainda pensava no que diria, sua voz saia um pouco arrastada e robótica. — Eu não quero que você se sinta mal por eu gastar meu dinheiro com você, eu não me sinto mal e, por mim, Samuel... Eu tenho esse sentimento de que eu preciso te proteger...

Samuel não disse nada por alguns segundos, apenas se contentou em observar Henrique depois que ele terminou de falar, observando suas bochechas ficarem avermelhadas por conta da vergonha que sentiu ao não conseguir terminar a frase que tentou construir.

— Entendeu o que eu quero dizer, certo? — Henrique perguntou, quebrando o silêncio.

Samuel concordou com sua cabeça, sorrindo, e em seguida começou a falar:

— Sim. Eu entendo. Acho que vamos ter que aprender a conviver com nossas diferenças...

— Por que nossas diferenças não podem se completar?

Samuel demorou um tempo curto para responder àquela pergunta.

— Quem sabe, elas podem. — Sorriu.

— Vamos fazer nosso pedido — disse Henrique, sorrindo igualmente, e em seguida chamou um garçom, que se aproximou da mesa rapidamente.

Pediram o couvert, que era separado por pessoa, e em seguida fizeram o pedido da entrada. Henrique ajudou Samuel a escolher o que ele gostaria de comer, não o que fosse mais barato.

Foi assim quando pediram o prato principal e também a sobremesa.

Era difícil para Samuel se acostumar com aquele jeito mais liberto de ver o dinheiro. Sua família não era rica, embora também não fosse muito pobre, mas sempre contaram o dinheiro certinho para que não ultrapassassem os limites do que poderiam gastar a cada mês.

Já Henrique, tinha uma relação mais livre com o seu dinheiro. Nascera em berço de ouro, apesar de que agora sua família não era mais a única dona do Grupo Barreto, o aglomerado que incluía a universidade em que Samuel estudava, mas ainda assim possuíam muito dinheiro. Segundo ele mesmo contou, vinham de uma linhagem de produtores de café, mas a fazenda não ficou com o lado da família ao qual Henrique pertencia. Ainda assim, quando era mais novo, Henrique visitava a antiga fazenda ao lado do seu irmão mais velho, Renato, quando o seu avô era vivo.

Falando no avô de Henrique, durante o jantar, ele e Samuel conversaram sobre o estado em que a Universidade Barreto se encontrava naquele momento. Henrique comentou como seu avô ficaria triste ao saber que a instituição que ele idealizou estava caindo aos pedaços porque os acionistas do grupo não viam interesse em investir mais dinheiro nela. Quando Samuel perguntou para o rapaz à sua frente como era o seu falecido avô, Henrique abriu um sorriso ao se lembrar do velho. O nipo-brasileiro também podia notar no rosto do outro uma nostalgia nitidamente estampada.

— Eu amava... Eu ainda amo o meu avô. — Quando Henrique começou a contar, ainda segurava seus talhares, mas logo os deixou pousados em cima do seu prato. — Ele era um homem que dava muito valor à Educação, sabe? Fã de Paulo Freire... Ele me inspira até hoje, e eu também tenho essa paixão pela universidade. Pretendia focar em como levantar a universidade após me formar, mas, por causa dos últimos acontecimentos, eu não sei o que vou fazer mais...

— Por quê? O que aconteceu? — perguntou Samuel, interessado.

— Um problema na família. Não sei mais se vou poder trabalhar com a universidade — explicou Henrique rapidamente para fugir do assunto e voltou a comer.

A conversa continuou agradável, como sempre se fazia quando os dois estavam juntos. Uma risada para cá e outra para lá, trocaram mais gostos em comum. Essa sinergia que existia entre os dois quando estavam juntos fazia com que Samuel e Henrique se desligassem do mundo exterior e focassem apenas no que acontecia no momento em que estavam lado a lado. Era puramente mágico.

Toda vez que Samuel olhava para o homem a sua frente, em seus olhos, sentia que aquela maneira de se encararem era antiga, que o conhecia de algum ponto do seu passado e ele não sabia de quando exatamente, mas o sentimento antigo estava presente em seu peito. Não apenas em seu coração, mas em algum lugar de sua memória, estava lá.

Após o jantar e a sobremesa, Henrique pagou a conta e se direcionou para o estacionamento do restaurante, acompanhado de Samuel.

As luzes brancas do estacionamento iluminavam o caminho que os dois faziam até o local onde o manobrista se encontrava. Henrique pediu o seu carro para o rapaz que trabalhava ali. O clima ameno da noite deixava os sentimentos de Samuel mais calorosos, seu olhar fixo no rosto de Henrique era acompanhado de um sorriso simpático e apaixonante.

— O que foi? — perguntou Henrique ao perceber que Samuel o olhava.

— Nada... — respondeu Samuel, ajeitando seu cabelo atrás da sua orelha.

A mão de Henrique pousou sobre o rosto de Samuel, que, ao sentir aquele toque, fechou seus olhos e, com uma de suas mãos, segurou-a. Henrique deu mais um passo à frente, pousou sua outra mão em cima do ombro de Samuel e aproximou seus lábios rosados dos lábios do mais jovem.

O casal selou um beijo apaixonante, quase de perder o fôlego. As mãos de Henrique logo seguraram os fios de cabelos escuros do outro e as mãos de Samuel se encontravam sobre o peitoral de Henrique.

— Então esse é o seu amante? — perguntou uma voz feminina, encerrando brutamente o momento daquele casal.

Quando Samuel se afastou de Henrique, seus olhos se arregalaram ao encontrar a figura de Sandra tomada por fúria e se aproximando dos dois. Sentiu seu coração começar a bater mais forte, suas mãos ficaram trêmulas.

— E você, Samuel... Todo esse tempo, era você a pessoa com quem Henrique se encontrava! A pessoa com quem meu noivo me galhava! — gritou Sandra ainda se aproximando.

A moça, que ainda vestia roupas pretas, acertou uma bofetada com sua mão bem aberta no rosto do garoto nipo-brasileiro. As marcas dos dedos dela ficaram expostas em um vermelho vivo na pele sensível de Samuel, que tinha levado um susto muito grande para ter qualquer reação.

Logo Henrique ficou de frente para Samuel, como seu protetor, e segurou o pulso da sua ex-noiva quando a mesma ensaiou outro tabefe.

— Para com isso, Sandra! — ordenou Henrique em um tom bravo, autoritário.

— E você, cala a sua boca, seu traidor! Duas caras! Seu ordinário! — gritava enquanto batia em Henrique com seus punhos fechados, ou pelo menos tentava.

Enquanto assistia àquela cena, Samuel não conseguia reagir, apenas estava paralisado sem saber o que estava acontecendo. Todo esse tempo, Henrique era o noivo de Sandra? Então ele era o culpado pelo fim daquele noivado? Como ele não percebeu aquilo? Ele não percebeu ou, então, ele não quis perceber. Havia sinais? Devia ter sinais que o jovem rapaz perdeu.

— Sabe muito bem que o nosso noivado era apenas uma fachada, Sandra. Eu nunca amei você dessa forma... Nunca! Íamos nos casar para que a minha família pudesse ter mais uma vez a maioria das ações do Grupo Barreto. Ações que você herdou do seu pai! — dizia o rapaz, lançando um olhar sério e bravo para a patricinha morena.

Havia algo de estranho em Sandra naquele momento, Samuel começou a perceber porque aquela maneira de agir não correspondia a como a moça normalmente agia com ele. Por mais que antes ela não soubesse que Henrique era o seu caso, ainda assim, foi uma mudança bruta de comportamento. Enquanto Sandra e Henrique discutiam, lavando a roupa suja, Samuel notou por um milésimo de segundo que, ao lado da sua anteriormente amiga, havia uma sombra esfumaçada.

— CHEGA! — gritou Sandra, encerrando sua discussão com Henrique, e apontou seu dedo indicador na cara do homem. — Não fique pensando que você vai ser feliz, eu não vou deixar você ser feliz! — Olhou para Samuel, que ainda se encontrava paralisado. — E nem você! Vocês não vão ser felizes porque eu não vou deixar!

Sandra deu as costas e deixou o estacionamento. Henrique só notou nesse momento que uma pequena multidão de clientes do restaurante assistia ao show protagonizado por Sandra. Ele se virou para Samuel e, quando tentou tocá-lo, recuou para trás.

— Samuel... — disse Henrique em um tom triste.

— Por que você não me contou? — perguntou Samuel com suas sobrancelhas enrugadas, uma expressão confusa. Toda aquela situação aconteceu rápido demais e sua mente ainda processava a cena que presenciara. — Quando a gente começou a flertar... você ainda estava com a Sandra. Vocês ainda eram noivos, não?

— Sim. Como você sabe?

— Porque... enquanto eu saía com você, estava me tornando amigo da Sandra! Meu Deus! A vida quis fazer uma brincadeira comigo! — Em seguida, Samuel passou suas mãos pelos cabelos, os olhos avermelhados tentando acordar de um possível pesadelo.

— Eu não te contei porque... de qualquer forma, eu iria terminar com ela. Nosso noivado era de fechada. Eu não estava feliz, eu mudei quando te conheci. Fiquei completamente louco quando eu te conheci! Sei lá... parece coisa de outra vida! — explicava Henrique tentando se aproximar do outro garoto, mas ainda assim Samuel recuava, atordoado.

— Eu preciso de um tempo para pensar, Henrique. Me deixa quieto... Vou pedir um táxi, um Uber... ou um ônibus de volta para minha casa. Eu preciso de um tempo porque toda essa história é muita coisa, é muita coisa!

Descendo seu olhar para baixo, entristecido, o garoto nipo-brasileiro deu as costas lentamente, quase como a cena final de um capítulo de uma telenovela das oito horas. Caminhou para a saída do estacionamento, sumindo nas sombras desenhadas pela falta da iluminação branca naquela parte do estacionamento.

Sozinho, enquanto a plateia voltava para o restaurante ou para seus carros, Henrique observou Samuel ir embora com uma dor enorme no seu peito. Tão grande, que parecia que ele teria um enfarto. Queria chorar, mas não o faria ali, esperaria chegar em casa para finalmente despejar sua tristeza na cama. Quando seu carro finalmente foi trazido pelo manobrista, ele entrou e deixou aquele lugar desejando profundamente que Samuel o perdoasse pelo que ocorreu ali e também por não ter contado sobre seu envolvimento com Sandra.

Notas finais
-Ritter