Eu Lembro de Você
3 Capítulo 03
Notas iniciais
Ték, ték, ték…
A caneta batia na mesa fazendo um barulho que, para os que estavam perto de Samuel, vinha se tornando cada vez mais incomodo. Porém, ele não ouvia o barulho reproduzido por ele mesmo, pois seus pensamentos estavam longe, como costumavam ficar desde o momento em que ele conheceu o herdeiro mais jovem da Família Barreto.
O cheiro do perfume que Henrique usava naquela noite ainda se encontrava impregnado nas suas memórias, o mesmo com o cheiro do carro dele. E, quando sua mente não se ocupava com os acontecimentos recentes, Samuel se lembrava do novo sonho que seu inconsciente produziu, mas só da parte boa de ele correndo no campo ao lado de um rapaz. A cada novo pensamento se lembrando desse sonho, o tal rapaz, que antes era misterioso, aos poucos, ganhava mais atributos físicos que lembravam Henrique.
Engatou uma conversa por mensagem de texto com ele desde o dia em que pegou carona no seu veículo, mas ainda não conseguiram se reencontrar pessoalmente. Além da troca de textos virtuais e áudios, enviavam fotos um para o outro, fotografias comportadas deles mesmos mostrando o que estavam fazendo no momento em que foram tiradas: um lanche na madrugada, um momento de estudos, lendo um livro ou assistindo a um filme ou série. Para resumir e frisar ainda mais, os dois mantiveram contato. As conversas sempre eram tão agradáveis para Samuel, que, a todo momento, seus amigos e seus familiares o pegavam sorrindo para o celular, e não era tipo de sorriso dado ao se ver um meme ou qualquer coisa engraçada. Eles sabiam que se tratava de um sorriso diferente. Mais sentimental.
A caneta continuava batendo contra a mesa, o “ték, ték, ték” que saía toda vez que o objeto ia de encontro com o metal já fazia com que a paciência de Fernando, que não era infinita, chegasse perto do seu ponto final. A expressão fechada e focada do rapaz negro denunciava o ponto de colapso iminente.
Sem pensar duas vezes, Fernando tomou a caneta das mãos de Samuel, assim, despertando-o do mundo da fantasia em que se perdera por mais ou menos uns trinta minutos desde que se sentaram naquele local do campus para estudarem a matéria acumulada.
— O que… o que aconteceu? — perguntou Samuel, confuso.
— Aconteceu que você estava viajando invés de estudar e ficou batendo essa caneta, toda hora, na mesa. Estava me deixando irritado e a todo mundo que tá perto — explicou Fernando gesticulando com seus braços e também mostrando os demais estudantes incomodados que estavam ali tentando estudar.
— Desculpa — respondeu Samuel, sem graça, arrumando seus cabelos escuros e jogando os fios para trás com uma de suas mãos.
— Tudo bem — disse Fernando, fechando seu livro em seguida e suspirando cansado. — Anda bastante fora da casinha nos últimos dias, né? — perguntou em seguida, esperando a reação do amigo, que foi ficar pensativo antes de continuar a falar: — Sorrindo pra tela do teu celular… Um sorriso, e não uma risada. Sabe o que eu tô tentando dizer, né?
O nipo-brasileiro soltou uma risada forçada que saiu como um “hahahaha” e negou com sua cabeça. Passou sua mão em sua nuca e disse:
— Não faço ideia do que você esteja falando, Fernando. Eu tô normal, como eu sempre estive.
— Sei — disse o amigo em um tom de implicância.
— Eu tô falando sério… — respondeu o outro se defendendo. O celular de Samuel chamou, notificação de mensagem, e rapidamente pegou o aparelho. A ação quase desesperada fez com que Fernando segurasse sua risada. Ao perceber que era uma mensagem de Eduarda, Samuel realizou um gesto com seus lábios, deixando a boca meio torta. — É mensagem da Eduarda.
— O que ela disse?
— Vou abrir — respondeu Samuel antes de abrir o chat. — Ela me pediu para pegar um livro do curso dela na biblioteca da universidade — respondeu enquanto lia a mensagem na sua cabeça. Apertou seus lábios e olhou para Fernando no mesmo segundo em que se levantou da cadeira. — Eu vou lá pegar para ela. Pelo menos, ela vai voltar a frequentar as aulas.
— Cuidado, aquele lugar tá virando uma armadilha — disse Fernando, voltando a abrir seu livro.
— Até parece que o teto vai cair em mim — Samuel falou, acentuando o tom de piada e deboche, e pegou o caminho para a estrada da biblioteca com uma corrida rápida e engraçada.
O rapaz desceu o pequeno caminho que levava até o prédio da reitoria. O edifício também abrigava a biblioteca da instituição, e foi construída após a mesma ser inaugurada, sendo um puxadinho nos fundos que destoava um pouco do restante porque o andar superior terminava onde a biblioteca começava no andar inferior. No interior, as paredes eram brancas e se assemelhavam às paredes de qualquer corredor de um hospital por causa também das luzes extremamente claras.
As prateleiras com os livros se localizavam mais ao fundo, depois da entrada da biblioteca, que começava com uma pequena recepção onde os alunos passavam para entrar e, quando fossem sair, registravam as obras pegas emprestadas no sistema da biblioteca. As seções eram divididas por curso, por isso Samuel foi procurar pelo livro pedido por Eduarda na seção de Jornalismo que se localizava no centro.
— Cadê esse livro? — perguntou-se Samuel, passando seu dedo entre os volumes em busca do título que sua amiga havia pedido.
Então, quando menos esperava, passou seu dedo na lombada da publicação certa. Bateu palmas animadas e pegou o título almejado, ainda com a mesma animação de alguns segundos atrás. Atravessou até a saída daquele corredor, pegando o caminho que levava para a saída/entrada daquele prédio anexo. Samuel ficou parado no meio do caminho, começou a folhear o livro para ter certeza de que se tratava do certo e ouviu um “tic” curioso vindo de algum local próximo.
Sobressaltado, olhou para os lados e não encontrou nada, voltou a olhar para o livro e nesse momento percebeu que em seu ombro direito se encontrava uma poeira branca.
— O quê? — sussurrou o nipo-brasileiro, confuso.
Quando olhou para cima, arqueou sua sobrancelha e deixou sua boca entreaberta. Um pouco mais do teto caiu em seu ombro, e já era tarde demais quando percebeu do que se tratava toda a situação, apenas fechou seus olhos e colocou o livro em cima da sua cabeça como uma forma rápida de se defender do pedaço de bloco de gesso do teto que cairia sobre sua cabeça. Sentiu seu corpo ser puxado para o lado, ouviu o barulho do gesso caindo no chão e se quebrando em seguida. Seu corpo se encontrou com o piso liso, mas não bateu sua cabeça. Percebeu um peso por cima de si, um peso quente e vivo.
Aquele perfume era inconfundível. O mesmo cheiro que sentiu quando entrou no veículo de uns dias atrás, o mesmo cheiro que despertava em sua mente sentimentos guardados em uma caixa desde seu último relacionamento, porém, que pareciam ganhar uma força ancestral. Mais antiga do que seu nascimento, talvez do que a existência do próprio mundo. Abriu os seus olhos pretos e encontrou o olhar claro e cheio de energia de Henrique lhe encarando de volta. O semblante do homem denunciava sua preocupação com o ele.
Quando uma gota de sangue tocou a testa de Samuel, notou que o ombro direito de Henrique estava ferido.
— Você tá bem? — perguntou Samuel, preocupado.
— Sim. — respondeu Henrique, rindo, mas, ao fazer essa ação, sentiu uma pontada no seu ombro e fez um som fechando seus lábios, ocasionado pela dor. — Eu vou ficar bem — respondeu, ainda com dor naquela região.
Os dois se levantaram do chão.
Mesmo com seu ombro machucado e sentindo uma dor contínua, Henrique foi capaz de ajudar Samuel a ficar de pé. O ascendente de japoneses passou sua mão, de uma forma delicada, naquele machucado. Lançou um olhar preocupado para o mais velho e soltou o ar pelo seu nariz antes de soltar a próxima frase:
— A gente precisa tratar esse machucado.
— Não, eu tô bem — disse Henrique fazendo uma careta. Tentou mexer o ombro para mostrar que não precisava de um tratamento contra o ferimento, mas sentiu a mesma pontada de quando tentou rir e emitiu o mesmo som puxado pelo ar sendo atraído pela sua boca. — Droga… — sussurrou, levando sua mão para o ferimento. Quando retirou ela do lugar, percebeu que havia mais sangue.
— Vamos a um posto de saúde — disse Samuel, agora empostando mais autoridade em sua voz.
O rapaz de barba ficou surpreso com aquele tom de ordem tão repentino, mas, depois, concordou com sua cabeça.
A dupla ficou na fila de espera do posto de saúde por uma hora, talvez uma hora e uns vinte minutos, mas logo quando Henrique foi atendido por uma enfermeira e explicou o ocorrido, a profissional fez uma limpeza na região. Felizmente, havia sido um machucado sem cortes profundos. Por tal motivo, a enfermeira não precisou dar pontos além da limpeza e do curativo que cobriu aquela região. A enfermeira, uma mulher negra com um sorriso simpático, explicou que Henrique deveria trocar o curativo depois de tomar banho e que por isso daria a um curativo pronto, como aqueles de farmácia.
Quando deixaram o campus da universidade, Samuel nem pensou em ir buscar suas coisas com Fernando, apenas saiu de lá com Henrique pelo estacionamento que ficava ao lado contrário da região em que os jardins do campus se localizavam. O jovem de cabelos escuros apenas se lembrou das suas coisas quando estava dentro do carro de Henrique, retornando para sua casa. Então enviou uma mensagem para Fernando e ficou mais tranquilo ao saber que o amigo deixou sua mochila com todos seus pertences em sua casa, agradeceu pelo amigo ter tido o trabalho de se locomover até sua casa, que ficava bem longe da faculdade. Fernando tentou descobrir o que tinha ocorrido para que Samuel sumisse daquela maneira, sem avisá-lo, porém, Samuel não quis responder às inúmeras perguntas, e apenas encerrou a ligação.
— Então, tá tudo bem? — perguntou o estudante de Direito enquanto dirigia.
— Sim — respondeu Samuel, sorrindo no final da curta frase.
— Vou te levar para a gente lanchar — disse o motorista entrando em outra rua, mudando o caminho que ia levar até a casa do que se encontrava na carona.
Samuel ficou surpreso com aquela ação, queria falar alguma coisa rapidamente, mas apenas ficou com a boca aberta por, mais ou menos, dois minutos direto.
— Eu não quero chegar atrasado em casa, Henrique — disse Samuel depois do tempo em silêncio, com a voz um pouco alterada e ainda surpreso com a bruta mudança de caminho.
— Nah, tudo bem — disse Henrique fazendo uma careta e balançando sua cabeça levemente. — Não se preocupa com isso porque eu te levo de novo. Vai ficar tudo bem. — Logo olhou, por um momento, para Samuel e voltou para estrada. — Eu gosto de ter você do meu lado. Não sei explicar, porque isso pode parecer estranho… Mas eu fico bem quando você tá por perto, por isso que fui te procurar na faculdade. Quando cheguei lá, seu amigo me avisou onde você estava.
— Foi o destino — disse Samuel, pensativo.
— Destino?
— Sim porque você chegou bem no momento certo para me salvar. Foi quase como uma cena de novela ou de drama coreano — explicou o garoto enquanto ria.
— Eu sou seu herói, então? — Henrique fez a pergunta num tom jocoso, zoando com a comparação que o outro havia feito.
Mas Samuel parou para pensar naquela possibilidade. Esboçou um sorriso leve e seu olhar emitiu um brilho denunciando que ele havia pensado em alguma coisa agradável.
E pensou. Imaginou aquela cena recriada na televisão coreana. O casal, ele e Henrique, caindo juntos lentamente no chão após Samuel ser salvo do teto da biblioteca. A música romântica tocando ao fundo e a mesma sequência sendo repetidas várias vezes até o encerramento do episódio.
— Sim — respondeu o nipo-brasileiro em um tom leve, também com certa quantidade de carinho naquela única palavra. — Você é o meu herói.
Os olhos claros ficaram surpresos com a revelação, as bochechas avermelharam sentindo um calor brotar e crescer um pouco mais no seu peitoral. Henrique tossiu, tentando se recuperar, e continuou a dirigir rumo à lanchonete para onde levaria Samuel para lanchar com ele depois do passeio no posto de saúde. O resto do caminho foi em silêncio, mas, de vez em quando, os dois trocavam olhares e sorriam de modo bobo.
Os familiares de Samuel já estavam preocupados, pois a novela das nove já havia se encerrado e logo o jornal do início da madrugada começaria, e nada do rapaz ter retornado para sua casa. Fernando passou ali para deixar o material de estudos do jovem quando ainda era de tarde, mas, nesse momento, ainda não sabia notícias de Samuel, então não tinha como informar exatamente o que aconteceu para ele ter sumido da maneira que sumiu. Vera acreditava, desesperadamente, que o filho podia ter sido sequestrado, e Akira imaginava que o filho podia estar com um namorado. Sakura acreditava o mesmo que seu genro.
Diferente do seu marido e da sua mãe, Vera só conseguiu parar de pensar que algo de ruim aconteceu ao seu filho quando viu Samuel entrando em casa pela porta da frente, mas ela não se acalmou (muito pelo contrário), chegou à próxima fase: a sua raiva pelo filho ter ficado tanto tempo sem dar notícias ou atendido às ligações preocupadas que a mãe fez desde o início da noite.
— Onde você estava?! — perguntou a mãe de uma forma que misturava um tom agressivo e também preocupado.
O filho arregalou seus olhos, sentiu medo da reação de sua mãe.
— Eu tava com um amigo — respondeu Samuel com a voz fraca.
— Que amigo? Hein? Porque, com o Fernando, não foi! E muito menos com a Eduarda, porque eu sei! — disse a mulher, ainda muito preocupada, quase berrando.
Samuel olhou para seu pai, seus olhos escuros arregalados. Akira não disse nada, apenas encolheu seus ombros, e a sua avó fez o mesmo. Os dois sabiam que não conseguiriam controlar os sentimentos de Vera no momento.
— Vai já para o seu quarto, Samuel! Eu não quero ver você na minha frente! Não quero! — disse a mulher, gesticulando com suas mãos e terminando a frase com o dedo indicador e o dedão colado, apontando para o filho.
Samuel ficou sem reação, sua face estava esbranquiçada como um papel, seu olhar chocado e sua boca semiaberta. Não quis responder mais, temeu que sua mãe pudesse falar mais e também mais alto do que já fazia. Foi na direção do corredor, indo ao seu quarto e fechando a porta assim que entrou no cômodo. Passou sua mão pelos seus cabelos, descendo até sua nuca e ainda sem saber como reagir ao certo com o modo que sua mãe respondeu ao seu sumiço durante o dia todo.
Mais tarde, a avó bateu à porta do quarto, pedindo permissão para conversar com seu neto, que interrompeu a leitura de um livro para poder escutar à mais velha. Sakura se sentou na cama, ficando de frente para Samuel, que sorriu para a idosa, deixando o livro, com a página em que havia parado já marcada, repousando ao seu lado.
— Queria conversar com você, querido — disse a mulher de cabelos brancos.
— Comigo? — perguntou Samuel, surpreso e curioso. Pensou por alguns segundos, talvez soubesse o motivo da conversa. — É porque eu desapareci o dia todo?
— Não, não é sobre isso — respondeu Sakura, sorrindo gentilmente. — Você voltou bem para a casa, devia estar ocupado com algum rapaz, como seu pai e eu desconfiamos — disse rindo.
O rapaz riu também, mas de nervoso com o pensamento de sua avó.
— Vou direto ao assunto, tudo bem? — perguntou a idosa, e quando o neto afirmou com sua cabeça, ela deu seguimento ao assunto. — Hoje, de tarde, eu estava na casa do meu amigo Daniel, o médium, e aconteceu uma coisa. Ele recebeu uma mensagem para você, meu querido.
O rapaz de cabelos escuros fez uma careta, inclinando levemente sua cabeça como um cachorro que acabou de escutar um som que chamou sua atenção.
— Co… como assim?
— Esse recado dizia para você tomar cuidado porque alguma coisa do passado está vindo atrás de você — disse Sakura enquanto apontava o dedo indicador para o neto. Seu tom de voz era sério, como se ela estivesse dando uma sentença de últimos dias a Samuel, porém, para o rapaz, aquilo soou engraçado por causa do seu ceticismo.
— Eu respeito a sua preocupação, batian — começou Samuel com a maior delicadeza para conversar com sua avó —, mas a senhora sabe que eu não acredito nessas coisas.
A idosa não disse mais nada, mas, com suas mãos trêmulas, segurou as do seu neto e o olhou da forma mais preocupada que conseguia expressar. Percebendo o estado da mulher, o mais jovem derrubou suas barreiras para que conseguisse conter os sentimentos dela, que pareciam ser intensos.
— Toma cuidado, meu querido, porque existe uma coisa… Alguma coisa que quer te machucar, meu neto — pediu a mulher de cabelos brancos com seus olhos marejados. Suas mãos delicadas ainda tremendo.
Ele pensou em dizer mais uma vez que não acreditava naquelas coisas que envolviam mundo espiritual e tudo o mais, entretanto, percebeu que se tratava de um tema sensível para sua avó. Invés de responder com mais uma negativa, Samuel passou a mão nos cabelos cinzas de Sakura e, com um sorriso, respondeu:
— Pode deixar, batian, eu vou tomar cuidado.
Sakura agradeceu e em seguida deu um abraço em seu neto, um abraço forte para acalmar seus nervos ao sentir que o jovem se encontrava seguro em seus braços. Por sua vez, Samuel retribuiu àquele abraço, deixando seu rosto bem próximo do de sua avó.
Eduarda havia retornado para a faculdade ainda naquela semana. Com isso, Samuel conseguiu respirar mais tranquilo ao se preocupar menos com a amiga, mas, ainda assim, estava de olho nela. Não estava cem por cento convencido de que a garota estava completamente bem. Fernando concordava com Samuel nesse aspecto, e os dois estavam prontos para ajudarem Eduarda a qualquer momento. O trio reunido novamente no jardim da universidade trazia um sentimento de paz, como se tudo estivesse no seu lugar novamente, o que deixava Samuel e seus amigos felizes.
Durante mais um descanso com seus amigos no jardim, em conversas nas quais se encontravam tentando atualizar uns aos outros sobre as coisas que estavam acontecendo em suas vidas, um clima de descontração reinou nas horas em que ficaram ali. As risadas e os tons de piadas ajudavam a tirar o estresse dos estudos dos corpos daqueles jovens. Durante o papo, Fernando acabou revelando que ainda conversava com a garota que conheceu naquela festa a que eles foram algumas semanas atrás, a tal de Júlia, e então o rapaz negro perguntou a Samuel se ele estava saindo com alguém.
O nipo-brasileiro rapidamente negou, balançando sua cabeça negativamente. Samuel não queria dizer ainda que estava saindo com alguém porque, de fato, ele não estava. Encontrou Henrique algumas vezes e saiu com ele para comer, mas não sentia que era algo oficial porque o mais velho apenas havia dado pistas, e não falado algo concreto. Não existiu até aquele momento uma conversa entre os dois que confirmasse qualquer coisa que estivesse acontecendo entre eles.
Mesmo depois de ele ter negado, Fernando não acreditou, mas não insistiu no assunto. Focaram em outro tema, iniciando uma nova conversa sobre os estudos, até que essa conversa foi interrompida quando Samuel viu uma pessoa conhecida se aproximar.
Sandra, sua amiga patricinha rica, estava correndo com suas sandálias caras pela estrada do jardim da universidade rumo à mesa em que Samuel se encontrava com Fernando e Eduardo.
— Sandra? O que você tá fazendo aqui? — perguntou Samuel, confuso, ao se levantar.
A rica tentou emitir um sorriso, mas não conseguiu. Acenou timidamente para Eduarda e Fernando, que não se levantaram do lugar em que estavam sentados, diferentemente do amigo.
— Eu preciso conversar com você, Samuel… — respondeu Sandra, segurando sua bolsa de grife de um tamanho bem pequeno com suas duas mãos. Olhou para Eduarda e Fernando, depois voltou a olhar para o amigo. — Sozinha.
Eduarda e Fernando trocaram olhares e deram de ombros um para o outro enquanto levantavam dos lugares em que estavam.
— Bom, eu vou dar uma volta por aí — disse a garota de cabelos morenos se despedindo de Sandra e Samuel.
— Eu vou… — começou o rapaz negro, parou para pensar em uma desculpa. — Eu vou. Até mais. — Sorriu e em seguida também se afastou.
Sandra acenou para os dois, sorrindo, e logo se sentou ao lado de Samuel, segurando as mãos dele e lhe encarando em seus olhos. O jovem rapaz de olhos escuros pesou suas sobrancelhas ao notar o modo como a patricinha se encontrava, e perguntou:
— Aconteceu alguma coisa?
— Sim. Eu preciso conversar e desabafar com alguém! Eu não tenho muitos amigos em quem eu posso confiar, sabe? Na verdade, eu não tenho nenhum amigo mesmo! Só você! Eu já te disse isso, não disse?
— Sim. Tenho certeza que já me disse — respondeu Samuel, sorrindo, agora preocupado porque, pela maneira que ela havia dito, devia ser algo grande. — Mas o que tá acontecendo?
Sandra respirou fundo, fechando seus olhos para se concentrar melhor no seu discurso.
— Eu estou desconfiada que o meu noivo vai me deixar — disse Sandra colocando suas mãos sobre suas bochechas, em seguida, preocupada. — Ele não tem falado comigo ultimamente, sabe? Ele tem ficado bem distante, não volta do curso dele no mesmo horário que voltava, sempre chega bem tarde. Tá bom, sempre não, mas isso aconteceu duas vezes e, nessas duas vezes, ele me ignorou um dia inteiro.
Antes de dar sua opinião sobre o caso, Samuel analisou com todo cuidado. Tinha conhecimento do tipo de relação que Sandra construiu com o noivo, um noivado baseado em negócios entre as duas famílias. Ao lembrar daquilo, Samuel se sentiu em uma novela mexicana antiga, era algo muito fora da realidade dele, nunca teve amigos ricos de verdade, então não saberia dizer se esse tipo de coisa ainda acontecia entre as pessoas com muito dinheiro.
— Bom — começou Samuel, ainda pensando no que poderia dizer para tentar acalmar os ânimos da sua nova amiga —, seu relacionamento com esse cara, qual o nome dele? — perguntou Samuel, curioso.
— Eu o chamo de Leonardo. É o segundo nome dele, ninguém chama ele por esse nome, sabe? Então pensei que seria uma forma carinhosa se apenas eu o chamasse de Leonardo — explicou Sandra.
— Leonardo. — repetiu Samuel, concordando com sua cabeça. — Eu acho que, talvez, por existir esse plano de fundo financeiro no relacionamento de vocês, talvez, ele queira aproveitar um pouco a vida… Eu não sei te dizer se é o certo, Sandra, mas esse noivado de vocês é uma situação diferente pra mim. — O rapaz não tinha argumentos para ir contra e nem a favor daquela situação, era uma coisa muito fora do mundo em que ele vivia, da sua bolha econômica e social.
— Me desculpa, eu esqueci que você é pobre — disse Sandra ajeitando seus cabelos atrás da sua orelha. — Mas você acha que ele não vai terminar o nosso noivado?
— Bom. Não. Quer dizer… É um acordo, não é? Eu acho que não — respondeu ele tentando parecer convencido da sua argumentação.
Sandra balançou sua cabeça e ajeitou seu cabelo com suas mãos, voltando a ficar cintilante como sempre, sorrindo com seus olhos brilhando.
— Claro. Nosso noivado é também um acordo entre nossas famílias — disse a rica, ainda sorrindo. — Se ele terminasse comigo, seria o fim da fortuna da família dele. Tem razão, Samuel! — Ele se inclinou e abraçou o amigo, beijando sua bochecha. — Você é um ótimo amigo! Obrigada por essa conversa. Eu te ligo final de semana para a gente sair juntos!
Logo Sandra se levantou, e. antes de sair, acenou para ele. Samuel, segurando sua risada, acenou de volta e ficou observando ela se afastar através da estrada do jardim.
Quando já estava sozinho naquela mesa, ele se lembrou de Henrique. Ele também vinha de uma família bastante rica, descendente de pessoas que, no passado, foram importantes economicamente para o país. Nasceu e cresceu em berço de ouro. Ficou curioso ao pensar consigo mesmo se na vida daquele rapaz havia situações parecidas. Talvez o noivo de Sandra fosse até um conhecido dele.
Essas coisas não são assim? Todos os muitos ricos se conhecem? Afinal, contatos são importantes.
Quando se lembrou de Henrique, um sorriso bobo transpareceu em seu rosto. Queria rever o rapaz, pensou nisso várias vezes em poucos segundos até se decidir. Ele queria rever Henrique e não havia impedimento de fazê-lo. Pegou seu telefone e abriu o chat privado com o homem, clicou no canto da tela onde estava o símbolo de telefone e esperou enquanto a chamada era realizada.
— Samuel? — Surpreso, Henrique atendeu à ligação. Samuel não podia ver, mas, do outro lado da linha, Henrique estava sorrindo.
— Te atrapalho? — perguntou tendo um leve arrependimento.
— Não, não. Você nunca me atrapalha — respondeu do outro lado, sua voz parecia tranquila e tinha uns barulhos ao fundo de vento. — Eu tô saindo da universidade, chegando no meu carro. Aconteceu alguma coisa?
— Nada. Não aconteceu nada — respondeu Samuel sorrindo, desenhando na mesa de metal com seu dedo algo que não havia uma forma definida. — Tive vontade de te ligar… A gente pode se ver hoje?
Antes de responder, Henrique ficou em silêncio.
Durante esse tempo, Samuel conseguiu escutar o barulho da porta do carro se fechando e também o motor dando partida.
— Eu adoraria — começou ele —, mas hoje não vai dar. Que tal se a gente se ver no final de semana?
— Claro. Tudo bem. Vai ser ótimo — respondeu Samuel.
— Eu vou começar a dirigir, vou desligar, tudo bem? — perguntou Henrique.
— Claro. A gente se fala mais tarde, então?
— Sim, eu te chamo. — Em seguida, o mais velho encerrou a chamada.
O de cabelos negros e olhos puxados deixou seu aparelho celular em cima daquela mesa, seu olhar baixo e seus lábios murchos escreviam uma expressão decepcionada em seu rosto. Depois de sua conversa com Sandra, cresceu uma grande vontade de ver o outro, mas tinha que aceitar que Henrique não estaria disponível para ele o tempo todo. Ainda estava confuso sobre o que sentia, sabia que gostava muito daquele rapaz de cabelos morenos e olhos claros, barba por fazer, mas, também, tinha medo do sentimento porque era muito intenso. Muito rápido.
Acabou que Samuel se desencontrou dos seus amigos e voltou sozinho para sua casa. Cumprimentou a mãe na entrada da loja, como sempre fazia, e a sua avó na sala de estar do segundo andar. Foi então para o seu quarto, onde deixou a mochila em cima de sua cama e procurou em seu armário uma roupa mais caseira para vestir e ficar procrastinando em sua cama.
Enquanto a água morna caía em seu corpo, deixando seus fios de cabelos escuros também molhados, passando o sabonete em seus ombros e descendo para seu corpo, a mente de Samuel começou a voar, sua visão ficou turva por alguns segundos e logo ele sentiu uma mão tocar seu corpo. Fechou seus olhos e mordeu seu lábio inferior, engolindo em seco quando sentiu essas mesmas mãos continuarem a tocar seu corpo.
Ao abrir seus olhos, ele viu Henrique na sua frente. Também sem roupas, assim como ele também se encontrava. Aquela visão parecia tão real, conseguia sentir o cheiro do outro, que preencheu seu corpo com um desejo imenso. Fechou novamente seus olhos e sentiu os lábios quentes de Henrique tocarem seu corpo, sua mão fazer um passeio por sua pele, e, quando percebeu, realidade e fantasia se misturaram em um instante de prazer que fez com que Samuel soltasse um som baixo de prazer.
Abriu seus olhos, percebendo que estava sozinho no banheiro. Notou o que tinha feito, e então preferiu não continuar pensando, e apenas continuou seu banho, limpando onde havia sujado.
Voltou ao seu quarto já vestido, mas com seus cabelos ainda úmidos, pegou o secador até diante do espelho. Antes de ligar o aparelho na tomada, Samuel levou um susto quando abruptamente a janela do seu quarto se abriu com um vento, mas parecia que havia sido empurrada por um homem.
Seu olhar se fixou na janela, assustado. Quando ouviu um livro cair da sua estante, deu outro pulo. Samuel deixou o secador de cabelo em cima da cama, confuso com o que estava acontecendo, e se aproximou de sua estante, onde encontrou no chão o seu livro de poemas jogado. Estranhou, pois, da forma que havia, deixado ali era impossível ter caído. Mesmo com um vento forte como aquele que entrou.
Voltou a olhar para a janela do seu quarto. Percebeu que, lá no céu, estava uma lua cheia. Em sua mente, podia ouvir a voz da sua avó lhe pedindo para tomar cuidado. A voz de Sakura ecoava como uma premonição agora, fazendo com que o ceticismo de Samuel diminuísse por causa do medo.
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