Jamais passou pela mente de Samuel que, em algum momento naquele início de futuro relacionamento, ele iria até um hospital particular visitar Henrique após o mais velho passar por uma cirurgia por causa de um acidente de automóvel em que esteve envolvido, um dia antes. O que deixava a situação ainda mais estranha era que aquele momento também seria a primeira vez que o nipo-brasileiro conheceria os pais de Henrique, a mãe dele e o pai estariam na sala de espera daquele andar. Conforme Samuel continuava andando por aquele corredor pálido e opaco, o barulho da sua sola ao tocar o chão parecia estar mais alto, ecoava na mente dele como se aquele lugar fosse grande o suficiente para reproduzir ecos. Esfregou suas mãos, uma na outra, e sentiu o suor frio vindo delas. Tratou de secá-las em sua calça, não querendo apertar a mão da mãe e do pai de Henrique com a sua molhada e gelada.

Samuel contou para sua família sobre seu romance com Henrique, um dos herdeiros do grupo de empresas que incluía a universidade em que ele estudava e na qual seu pai trabalhava assim que ficou sabendo daquele acidente. Akira, o pai, ficou chocado em saber que o filho estava se encontrando com um rapaz que pertencia a uma família tão tradicional e rica quanto os Barreto. Sua mãe também ficou sem palavras, a avó ficou feliz em saber que o neto estava feliz, porém também ficou triste por causa do terrível e trágico acidente de veículos que o namorado dele sofreu.

Assim que entrou na sala de espera, encontrou um rosto conhecido e se sentiu aliviado. Tratava-se de Renato, o irmão mais velho de Henrique. Quando Renato viu o estudante de Administração entrar naquela sala, pediu para que ele se aproximasse apenas gesticulando com sua mão. Samuel fez o pedido e se aproximou em silêncio, logo vendo sair de trás de Renato uma mulher mais baixa, na casa dos quarenta anos e de longos cabelos negros amarrados em uma espécie de rabo de cavalo que se vestia muito bem com um macacão moderno de um tecido que parecia muito macio em um tom púrpura. Ela também carregava uma bolsa de grife, joias e uma maquiagem simples, mas sofisticada.

— Essa é minha mãe, Samuel. Donna — disse Renato, apontando com sua palma da mão aberta para a mais velha. — Mãe, esse é o rapaz com quem Henrique estava saindo.

— Prazer em conhecê-la, senhora... — disse Samuel tentando sorrir, mas sentiu o olhar julgador daquela mulher penetrar seu corpo e sua mente. Era como uma leoa tentando entender sua caça.

— Então você é o rapaz responsável pelo fim do noivado do meu filho com a Sandra? — perguntou, ainda julgando Samuel apenas com o seu olhar. Ela não precisava dizer mais nada para que o rapaz se sentisse cercado em uma corte marcial. Então Samuel respondeu apenas confirmando com sua cabeça.

— Mãe, por favor, não vamos criar um caso aqui. Estamos em um hospital — pediu Renato com medo. — Me desculpe, Samuel...

— Tudo bem — respondeu o outro sem graça, depois desviou seu olhar para baixo, pensando no que dizer a seguir, e então sua ficha caiu. — O Henrique... como ele está? Sei que ele passou por uma cirurgia...

— Meu filho está em coma induzido — respondeu Donna sendo mais rápida que o filho em pé ao seu lado, ainda com seus olhos firmes no rapaz à sua frente. — Os médicos falaram que, assim, a recuperação dele do acidente e da cirurgia se tornaria mais... fácil. Acho que foram essas a palavra que eles usaram.

— Eu posso visitar ele? Entrar no quarto em que ele está se recuperando, por favor? — pediu Samuel.

— Não acho que isso faria bem para o Henrique, querido... — disse a mulher mais velha, sorrindo forçosamente.

— Mãe... — disse Renato, entrando naquela conversa. — Claro que você pode ir ver o Henrique, Samuel. Vem comigo.

A mãe olhou para o filho, incrédula.

— Renato, você não deveria estar com seu pai na empresa? — perguntou, e, em seguida, voltou a olhar para o outro homem ali presente. — Desde que Sandra flagrou vocês dois naquele restaurante... ela decidiu se vingar, não apenas de Henrique, mas de toda nossa família... Olha só que curioso, ela começou a usar a parte dela como acionista para ajudar os outros acionistas que querem vender a universidade fundada pelo meu falecido sogro.

Renato suspirou, cansado da atitude de sua mãe.

Ele sabia que ela estava brava, não apenas com Samuel, que era a quem ela culpava por toda aquela sucessão de acontecimentos, mas também por Sandra, que sempre foi amiga da família e decidiu, do dia para noite, traí-los da pior maneira possível.

— A universidade vai ser vendida? — perguntou Samuel, confuso e chocado com aquela informação que foi jogada no seu colo. Fez a pergunta direcionada a Donna, mas como a mulher não respondeu, desviou seu olhar até Renato.

— Isso ainda não foi decidido. Vamos comigo, Samuel. Tenho certeza que sua visita vai fazer bem ao meu irmão — disse o filho mais velho de forma parcialmente direcionada para sua mãe enquanto ele guiava Samuel até o corredor que levava aos quartos daquele andar.

Donna revirou seus olhos, insatisfeita com a presença do jovem estudante que aquela acreditava ser a razão da má sorte do seu filho mais novo.

Antes de Renato abrir a porta do quarto onde Henrique se recuperava em coma induzido pelos médicos, o mais velho parou e ficou de frente para Samuel. Ele notou que Henrique estava com um semblante preocupado e pensativo. Logo o nipo-brasileiro começou a pensar que o estado de Henrique poderia ser pior do que foi revelado na sala de espera. Samuel não aguentou aquele silêncio nos instantes em que ficou ao lado de Renato, o qual se encontrava pensativo.

— O Henrique não tá tão bem assim, não é? — questionou Samuel, quebrando por fim o silêncio.

— Não é isso. — Renato suspirou, ainda preocupado. — Eu contei isso para o Henrique, mas ele tá em coma... Seria legal eu te contar também... Foi por minha culpa que a Sandra ficou sabendo de vocês dois. Eu estava com ciúmes porque ainda sinto falta da Eduarda... E você e ele estavam tão próximos... Nunca vi o meu irmão tão feliz como ele está ao seu lado, Samuel. Eu fiquei com ciúmes e disse para a Sandra que ele se encontraria com alguém naquele restaurante. A vingança de Sandra usando o Grupo Barreto, talvez o acidente do meu irmão, tudo isso foi minha culpa.

Mais uma vez, um monte de informações foi jogada por cima dele.

A situação já era intensa apenas pelo estado de Henrique e por Samuel ter conhecido a mãe dele, sua (talvez) sogra naquele momento. Agora, o rapaz escutava da boca de Renato que foi por causa dele que Sandra foi até aquele restaurante e encontrou os dois se beijando. Em uma situação normal, cotidiana, Samuel ficaria bravo com Renato e talvez até gritasse com ele, mas, naquele momento, aquilo não importava mais. O que Renato havia feito ou deixado de fazer não era importante porque sua mente e seu coração apenas conseguiam pensar e bater por Henrique.

Não sorriu, apenas apertou seus lábios e concordou com sua cabeça.

— Tudo bem, Renato. O que aconteceu ficou no passado... Agora, se me der licença, eu quero ver o Henrique.

— Claro... — disse o mais velho, saindo da frente do outro. — E obrigado.

— De nada... — sussurrou Samuel, segurando a maçaneta da porta do quarto de hospital.

A televisão do quarto estava ligada com o volume mudo, havia algumas flores recém-colocadas espalhadas pelo chão e uma cadeira próxima à cama em que os olhos de Samuel encontraram Henrique. Os passos do nipo-brasileiro ficaram mais apresados quando ele fechou a porta, e, ao se sentar ao lado da cama de hospital, a primeira coisa que fez foi segurar a mão de Henrique. A cabeça do rapaz estava enfaixada, então Samuel percebeu que a cirurgia pela qual o namorado passara devia ter sido naquela região. Ficou mais atento aos detalhes e percebeu as feridas que começavam a cicatrizar no rosto dele. Arranhões no lábio superior e também na sobrancelha, no nariz.

Os olhos de Samuel se encheram de lágrimas, Henrique parecia tão frágil daquela maneira, diferente do homem que havia salvado sua vida algumas semanas atrás na biblioteca da universidade. Tão diferente do homem que ele levou no pronto-socorro para fazer curativo numa ferida superficial no braço. Tão distinto daquele mesmo homem que se declarou para ele de uma maneira diferente.

Por mais que os olhos de Henrique estivessem fechados, Samuel ainda podia sentir o amor que o namorado tinha por ele. Segurou a mão dele com mais firmeza, sentiu suas lágrimas escorrerem pelo seu rosto, um nó em sua garganta preencheu o espaço da sua voz e não poderia dizer nada por mais que desejasse conversar com Henrique, mesmo que o outro se encontrasse naquele estado de coma.

Limpando suas lágrimas, Samuel retornou à sala de espera e encontrou apenas Donna sentada em um dos bancos. Quando a mulher viu o rapaz se aproximando, levantou-se e caminhou em sua direção.

— Já fez o que veio fazer aqui, garoto? — perguntou a mulher, de braços cruzados.

— Já sim... — respondeu Samuel, incomodado pela forma de falar de Donna, mas apenas ignorou. — Eu queria saber se eu posso... passar essa noite ao lado do Henrique aqui no hospital.

Donna riu de forma debochada quando escutou o pedido do mais jovem.

— Eu prefiro que você vá embora, talvez... até da vida do meu filho.

— Desculpa, senhora, mas por que você está me tratando assim? — perguntou Samuel, sem paciência para aquela dinâmica de novela.

— Meu filho sempre teve um objetivo em toda a sua vida — começou Donna, ficando mais próxima de Samuel e lhe desafiando apenas com sua forma de olhá-lo —, que era reerguer a universidade fundada pelo seu avô, a mesma universidade que eu sei que você estuda com a ex-namorada do Renato. Mesma universidade que agora está caindo aos pedaços desde que meu marido, infelizmente, teve que vender algumas ações para não declarar falência. Esse casamento com Sandra seria, sem sombra de dúvidas, a porta para que Henrique conseguisse isso, mas no momento em que ele te conheceu... abriu mão disso tudo, e eu não compreendo o motivo. Talvez você tenha jogado um feitiço nele, quem sabe...

— Eu amo o Henrique... E eu acho que eu gostei dele desde a primeira vez que o vi — Samuel começou a discursar antes que a sua sogra fosse embora dali. — Tenho certeza de que ele sente o mesmo por mim. O que eu sinto pelo Henrique é inexplicável porque eu nunca me apaixonei assim, em tão pouco tempo, e parece coisa de outras vidas... — Soltou uma risada porque, nesse momento, ouviu a voz da sua avó ecoar em sua cabeça, como uma lembrança distante de uma conversa não tão antiga.

Donna ficou sem palavras diante do discurso de Samuel, apenas o olhando dos pés à cabeça novamente.

— Eu quero ficar ao lado do seu filho, senhora! Nem que eu tenha que vir todo dia nesse hospital visitá-lo e ficar até o horário de eu ir embora — disse Samuel firmemente e sem desviar seu campo de visão.

— Tudo bem — suspirou Donna. — Mas hoje você não vai passar a noite aqui, eu quero ficar ao lado de Henrique. Pode ir para sua casa.

Samuel ficou em silêncio por um breve momento e concordou com sua cabeça se acalmando aos poucos enquanto formulava suas próximas falas em sua cabeça.

— Obrigado, senhora. Eu volto para visitar ele mais uma vez. — Em seguida, o nipo-brasileiro pegou seu caminho para fora daquela sala de espera.

A mente do rapaz se encontrava pesada de exaustão, pois, em todo o caminho até chegar ali em sua casa, não conseguia parar de pensar no acidente de Henrique, ele na cama de hospital após a cirurgia, o coma induzido, e ainda tinha aquela visão que ele teve. Ele viu e sentiu o momento em que o seu namorado... Sim, agora ele poderia chamar assim, não? Viu e sentiu o momento em que o namorado foi vítima do acidente de automóvel.

O silêncio foi preenchido e a linha de pensamento de Samuel interrompida quando escutou as vozes de sua mãe e sua avó, uma em cima da outra, e demorou para entender do que se tratava a conversa porque as duas estavam falando em japonês.

Vera sabia conversar no idioma nativo da mais velha, porém ela não conseguiu passar essa sabedoria para Samuel, que aprendeu muito pouco do idioma do país onde sua avó nascera.

Mesmo sabendo muito pouco de japonês, o garoto conseguiu entender que a conversa tinha relação com o irmão da sua avó, que vivia no outro lado do mundo. Eles mantinham contato por cartas, e mais tarde se reencontraram na internet, mas nunca se viram cara a cara desde que Sakura migrou para o Brasil. A conversa terminou quando a mais velha deu a última palavra. Vera passou por Samuel e cumprimentou o filho antes de deixar o apartamento para retornar à sua loja. A mais velha se aproximou e se sentou ao lado do seu neto no sofá.

— Como foi lá no hospital? — perguntou Sakura, sorrindo.

— Foi bem tenso para ser sincero, batian... — respondeu o neto, pensativo, mas logo mudou de assunto. — Do que você e a mamãe estavam conversando? Eu entendi a parte do seu irmão e do Japão.

— É que eu quero voltar para o Japão, para visitar meu irmão. Recebi uma notícia e ele tá muito doente, mas sua mãe não quer me deixar viajar sozinha... — explicou a mais velha.

— Ah, batian, eu concordo com a minha mãe... Também acho que a senhora não deveria viajar sozinha. Ainda mais, para o outro lado do mundo. Pode ser uma viagem de duas paradas... Pode ser perigoso — dizia o neto enquanto se ajeitava no sofá.

— Então, como eu faço? Hmmm?

— Seu irmão tá muito doente? O quanto ele tá doente?

— Ele teve câncer há uns anos atrás, mas agora parece que a doença reapareceu — explicou a idosa.

Antes de responder, Samuel parou para pensar duas vezes em uma solução ao problema da sua avó.

— Bem — começou o mais jovem —, se a senhora puder esperar, batian, até essa história envolvendo o Henrique ficar melhor, a gente, você e eu, poderíamos visitar seu irmão no Japão. Só teríamos que renovar nosso passaporte.

A idosa abriu um sorriso carinhoso e fofo, colocando suas mãos por cima daquele ato. Em seguida, esticou seus braços e deu um forte abraço em seu neto. Samuel correspondeu àquele abraço apertando ainda mais sua querida avó, sorrindo. Quando Vera retornou para o apartamento, encontrou o filho e sua mãe ainda presos naquele abraço. A mulher sorriu, cruzou seus braços e, em um tom simpático e de quem estava apreciando a cena, perguntou:

— Hmm... Eu poderia saber o motivo desse amor todo?

— Eu prometi à batian que viajaria com ela para o Japão quando o Henrique melhorar... — respondeu Samuel se virando para sua mãe.

Quando Vera escutou aquilo, olhou para sua mãe como se olhasse para uma criança que havia acabado de pedir um favor que não deveria ter pedido a um dos pais.

— Mãe... — sussurrou a filha.

— Tudo bem, mãe — disse ele antes de qualquer outra conversa se iniciar. — Assim, a batian visita o irmão dela e a senhora não precisa se preocupar.

— Tudo bem...

Sakura sorriu para filha.

Então Samuel se lembrou de uma coisa que gostaria de fazer e voltou a olhar para sua avó, segurando a mão da mesma com delicadeza.

— Batian, eu gostaria que a senhora me fizesse um favor. Eu quero fazer uma terapia de regressão com o Daniel... Ele é seu amigo. Você poderia conversar com ele, né? E depois me falar...

— Mas por que tu decidiu fazer uma terapia de regressão? — Vera perguntou, curiosa, estranhando a mudança de crença do filho. — Sempre foi tão contrário a essas coisas...

— Bom, primeiro aconteceu que... eu senti o momento que o Henrique se acidentou — disse Samuel, um pouco nervoso ao lembrar daquela situação.

Curiosa, a mãe se sentou ao lado do filho, e, assim como a avó do outro lado, também o olhava com interesse naquele assunto.

— Explica isso direito! — disse Vera dando um leve tapa no ombro do filho.

— Ai... — sussurrou o mais novo. — Eu fui com a Eduarda, ela teve uma sessão com o Daniel e, enquanto eu esperava na sala, comecei a passar mal... Daí eu ouvi alguém chamar meu nome e vi... Vi um carro se acidentando. Desmaiei. Quando acordei, a Eduarda me disse que o irmão do Henrique ligou para ela e... E foi aí que fique sabendo do acidente.

Sakura bateu seu punho fechado em sua mão aberta se sentindo vencedora.

— Eu disse... Sempre dizia que aqueles teus sonhos poderiam ser sinais... Você e esse rapaz, o Henrique... devem ter uma ligação de vidas passadas. Tenho certeza absoluta.

— Como você pode ter certeza, mãe? — Vera perguntou.

— Porque eu já vi muito dessas coisas acontecerem nas mesas brancas que frequento na casa do Daniel. De verdade...

— Confesso que... recentemente, eu tenho me sentido assim — começou Samuel após ajeitar seus fios pretos. — Quando conheci o Henrique, senti uma atração muito forte, e, depois, nas vezes que nós nos reencontramos, sempre existiu esse sentimento muito forte entre nós. Quase difícil de explicar... até de descrever, mas é como se o meu corpo conhecesse ele e como se minha mente se lembrasse dele, mas eu não sei de onde e, principalmente, depois dessa história envolvendo o acidente, fiquei mais curioso para tentar...

— Bom, se você pensa assim... — disse Vera dando de ombros. — Ah, você vai querer ajudar lá na loja hoje ou prefere ficar quieto?

— Não, eu vou te ajudar... — respondeu o rapaz normalmente enquanto se levantava do sofá.

Antes de Samuel deixar o apartamento e descer para a loja, Sakura confirmou que iria conversar naquele momento com Daniel para ver quando eles poderiam começar a fazer as sessões de regressão. O jovem agradeceu à avó mais uma vez e logo deixou o local.

A movimentação estava fraca naquele sábado. Por isso, quando sua mãe voltou para o apartamento em cima da loja, Samuel decidiu deixar que as duas funcionárias, Martinha e Kika, saíssem juntas para um intervalo a fim de comerem alguma coisa. Ele, por sua vez, pegou uma vassoura e começou a varrer os corredores do Mercado Okada.

Enquanto fazia esse serviço, percebeu que uma das prateleiras precisava de uma rápida arrumação e reposição de produtos, então, quando terminou de jogar a poeira para fora do estabelecimento, pegou uma das caixas nos fundos e levou até o corredor em que essa prateleira específica se localizava.

Ele arrumava a prateleira mais perto do chão, quando ouviu passos se aproximando. Samuel não olhou para frente, nem se deu a esse trabalho porque, se não chamou seu nome, quem quer que fosse, devia ser uma cliente, e não sua mãe ou uma das meninas que trabalhavam ali, porém...

— Nem precisa se levantar porque eu quero te ver aí mesmo, no chão... — disse a voz feminina conhecida, mas dessa vez mais ácida, mais cruel.

Ele reconheceu o som imediatamente.

Seu coração acelerou os batimentos e seu olhar se virou lentamente até encontrar Sandra em pé à sua frente. Sorrindo, a jovem moça retirou os óculos escuros que usava e que combinavam com a roupa da sua escolha, uma básica de gola alta e preta, calça jeans de cintura alta e coturnos de salto alto feitos de couro na cor preta também. Claro que ela ainda carregava sua bolsa de grife.

Samuel percebeu que aquela companhia estranha estava ao lado de Sandra, a mesma sombra humanoide que o rapaz viu ao seu lado no dia em que ela o pegou com Henrique aos beijos no estacionamento. O seu coração continuou disparando ao perceber a presença daquilo, fosse lá o que fosse. Ele tentou dizer alguma coisa quando quis se levantar do chão, mas Sandra o empurrou novamente para o piso do mercado.

— Eu disse que quero você no chão! — disse ela em fúria, apontando seu dedo na cara do jovem.

— O que você tá fazendo aqui? — Samuel perguntou, assustado.

— Ué, não gostou da minha visita, querido? — perguntou ela com um sorriso cínico, segurando sua risada. — Da última vez que eu estive aqui, você gostou da minha visita, lembra? Quando você se fazia de meu amigo, gostava das minhas visitas...

Samuel respirou fundo antes de responder, não queria iniciar uma discussão com Sandra, então preferiu pedir para ela ir embora, e quando a garota escutou aquilo, soltou uma risada debochada. O garoto notou que aquela criatura ao seu lado parecia gostar de suas reações exageradas, sentia medo ao olhar para aquela figura de fumaça.

Samuel conseguiu se levantar do chão e ficar frente a frente com Sandra, que voltou a falar:

— Eu não vou sair daqui até você escutar tudo o que eu tenho para te dizer! Você e o Henrique vão me pagar pelo jeito que me fizeram de idiota, entendeu? Coitadinho do Henrique, agora tá lá em coma, aliás... Infelizmente, tudo que eu fiz foi começar a afundar a universidade amada dele, o acidente foi golpe do destino, mas você... Eu vim aqui pessoalmente para te mostrar o que acontece quando tentam me fazer de idiota!

— Quando ele e eu começamos a sair, eu não sabia que vocês eram noivos... E, até onde eu sei, o meu envolvimento com o Henrique ficou mais profundo quando o noivado de vocês terminou! — dizia Samuel, tentando soar mais alto e agressivo que Sandra, porém recebeu como resposta uma bofetada em sua bochecha. — Você tá fora de si...

— Sim, eu tô... — respondeu Sandra, ainda rindo, e então a figura humanoide ficou maior quando os olhos dela se tornaram vingativos, brilhavam de ódio. Com uma mãozada, Sandra começou a derrubar alguns produtos das prateleiras ali perto, e, por alguns serem de vidro, eles se quebraram no chão, deixando a região suja.

— Para! — gritava ele ao assistir àquela cena.

— A Sandra tá louca! Louca! LOUCA! — gritava a jovem de cabelos castanhos, totalmente influenciada por aquele ser que se encontrava grudado em seu corpo como uma parte vital dele. Continuava gritando e rindo quanto mais bagunça fazia naquele lugar.

Samuel avançou para tentar interromper o surto que Sandra estava tendo, mas, naquele momento, ela se encontrava com mais força do que qualquer outra pessoa e parou o rapaz com um novo golpe em seu rosto, acertando mais um para derrubá-lo, e subiu sobre ele, continuando a estapear Samuel sem parar, ao mesmo tempo em que, desesperado, ele pedia para que ela parasse com aquilo.

Sandra não obedeceu. A cada novo tabefe que ela acertava no rosto do nipo-brasileiro, a criatura ao seu lado comemorava, feliz com aquilo.

Sandra continuou assim, atacando Samuel por mais alguns poucos segundos, e foi interrompida quando sentiu alguém lhe puxar pelo braço. A mais rica encontrou a figura de Eduarda lhe encarando com raiva e também assustada com a agressão que viu ao chegar. Logo atrás dela, estavam Martinha e Kika com a mesma reação.

Sem pensar duas vezes, Eduarda começou a revidar todas as bofetadas que Sandra despejou em Samuel, ao mesmo tempo em que a expulsava do mercado. As funcionárias do Mercado Okada ajudaram o rapaz a se levantar do chão.

O rosto de Samuel estava ferido por causa da agressão, o lábio superior cortado e também alguns arranhões em suas duas bochechas.

— Agora, você tá brigando por igual, querida! — disse Eduarda, carregando Sandra pelo seu braço e em seguida, com toda sua força, jogando-a na calçada em frente ao estabelecimento.

Nesse mesmo momento, Vera apareceu, descendo a escadaria que levava para o apartamento de cima.

— O que tá acontecendo aqui? — Vera perguntou, confusa.

— Nada, tia. A Sandra teve um desiquilíbrio emocional, mas já está indo embora... Não é mesmo? — perguntou a amiga encarando a outra.

Sandra ajeitou sua postura se recompondo, então, depois de arrumar seus cabelos curtos, disse:

— Sim. O que eu vim fazer, eu já fiz. Com a licença de vocês...

Sandra caminhou até o seu carro, que se encontrava do outro lado da rua, e depois que ela saiu da rua, Vera ficou de frente para Eduarda e pediu uma explicação à amiga do seu filho.

Após recuperar sua linha de pensamento, ela contou à mulher o que tinha visto quando chegou ao mercado. Preocupada com o filho, Vera correu para dentro do seu estabelecimento e lá encontrou Martinha e Kika dando auxílio ao rapaz.

— Então, essa moça... Essa garota é ex-namorada desse rapaz, o Henrique? — perguntou Vera após Samuel explicar com certas omissões a história toda.

— A história é mais complicada do que isso, tia — disse Eduarda em seguida.

— Ela é uma louca, isso que ela é! Louca! — dizia a mãe com uma voz firme e também defensiva.

— A Sandra não é louca... — disse Samuel, voltando a falar. — Ela só está com alguma coisa... — Suspirou, ajeitando seus cabelos. — Eu vou subir e tomar um banho, depois eu desço.

— Tudo bem, meu filho — disse Vera olhando preocupada para o jovem rapaz.

Quando Samuel subiu para a casa em cima do mercado, Vera ficou conversando com Eduarda, Kika e Martinha sobre o que tinha acontecido ali. A amiga explicou à mãe um pouco da história, também omitiu alguns fatos que Samuel também o fez, já que, se o amigo tinha se preocupado em esconder aquilo, devia ser porque sua mãe não precisava ter conhecimento de alguns detalhes.

Assim que o assunto terminou, Eduarda decidiu subir para a casa e ver como o amigo estava se sentindo.

Vera concordou com a garota.

Abraçado ao seu travesseiro, Samuel se encontrava deitado em sua cama e seu olhar vagueava perdido em algum canto do ar, denunciando que seus pensamentos estavam longe naquele momento. No mundo da lua. Aquela figura grudada em Sandra atiçava sua curiosidade e o deixava ainda mais pensativo sobre as coisas espiritualizadas que sua avó dizia. A primeira vez que viu a figura com a garota foi no estacionamento do restaurante, mas sempre sentiu algo triste com Sandra, e sempre pensou ser pelas circunstâncias da vida dela.

Pensando bem, Samuel se tornou mais sensível a essas coisas desde que cruzara com Henrique. Seus sonhos ficaram mais fortes, sabendo cada vez mais detalhes da figura daquela jovem japonesa que escolheu tirar sua própria vida com a primeira coisa que viu no escritório ao invés de se casar com quem não amava. Todos os acontecimentos desde então o faziam pensar sobre sua ligação com Henrique e a paixão avassaladora que sentiu com a primeira troca de olhares, bem como os batimentos cardíacos acelerando toda vez que os dois se cruzavam.

Samuel se levantou da cama e caminhou até a estante de livros, pegando aquela obra de poemas e contos do autor pouco conhecido, “O Meu Sol do Oriente”. Ficou apreciando os primeiros versos, acalentado pelo conforto que sempre lhe traziam. Mas aquele momento de Samuel foi interrompido quando Eduarda entrou no quarto se mostrando feliz ao ver que o amigo estava em pé.

— O que está fazendo? — perguntou a garota se aproximando.

— Esse livro... Sempre me ajuda a me acalmar. — Mostrou a capa da obra com o título em cima e o nome do autor, Raphael Barreto, na parte inferior.

— E você precisou se acalmar por causa da Sandra?

— Também, mas não principalmente por ela... — respondeu Samuel, andando pelo seu quarto com o livro em suas mãos ainda. — Eu pensei muito, Eduarda... Eu acho que talvez... que talvez exista algo entre mim e o Henrique que possa vir de outras vidas — concluiu olhando para a amiga.

Eduarda deu de ombros após ouvir.

— Parece loucura... — sussurrou Samuel.

— Talvez seja, mas que também seja verdade — disse Eduarda. — Quem sabe o que é verdade nessa vida e o que não é? Claro, tirando aquilo que a Ciência pode explicar. E o que você pretende fazer com esse seu pensamento?

Antes de responder à sua melhor amiga, Samuel precisou ficar em silêncio por um breve momento.

— Farei uma sessão de terapia de regressão com o Daniel — disse o estudante.

Eduarda concordou com sua cabeça.

— Legal. Ele me ajudou bastante quando eu fui fazer a minha sessão com ele. Ele me disse que tem esse espírito comigo que atrapalhou meu relacionamento com o Renato e atrapalharia os outros também. Ele me passou algumas coisas para me livrar desse... encosto, mas eu também vou fazer terapia. Acho que ele pode te ajudar também — disse sorrindo.

— Terapia? — perguntou Samuel, confuso. — Pensei que o problema se resolveria quando esse encosto fosse embora... pelo jeito que você falou agora.

— Mas pensa bem... Se minha mente passou tanto tempo influenciada, pode ser que... que antes de eu me jogar em outro relacionamento, precise cuidar da minha saúde mental também.

— Fico feliz por você, Eduarda... Bom, eu espero que ele possa me ajudar também — disse Samuel sorrindo.

— E o que você pretende encontrar? Que respostas você quer?

— Eu acho que os meus sonhos podem ser a chave para alguma coisa. Talvez a terapia de regressão me ajude a chegar mais fundo no meu inconsciente... Mais fundo nessa história que eu sonho ou, talvez, que tenha fragmentos de lembranças.

Olhou novamente para a capa do livro que ainda carregava, sorrindo ao pensar que em breve teria respostas sobre seus sonhos, sobre aquela intensa ligação que ele tinha com Henrique. Quem sabe, até ganhasse uma resposta extra, uma explicação sobre aquela coisa que começou a ver grudada no corpo de Sandra como se fosse o motivo das reações exageradas e fora do tom da jovem moça. A sensação de ter algo maior do que ele mesmo acontecendo em sua vida era assustadora, mas também excitante de alguma forma.

Notas finais
-Ritter